5. Discussion
5.4. Characterization of mgCel6A and mgCel6A∆CBM
5.4.2. pH Stability
De uma maneira geral, podem ser caracterizados três processos de morte celular, necrose, apoptose e autofagia.
A necrose refere-se ao correlato macroscópico e histológico da morte celular que ocorre no contexto de uma lesão exógena irreversível (ROBBINS, 2000). Ela é, em geral, patológica, acidental e pouco regulada (SMAILI et al, 2003) atingindo, de uma só vez, um grupo de células. Ela é caracterizada por um inchamento celular, ruptura da membrana plasmática, inchamento mitocondrial e seu posterior rompimento, degradação difusa e randômica do DNA celular, processo inflamatório com invasão de macrófagos e ausência de síntese proteica e de transcrição de RNA (HONIG & ROSENBERG, 2000). A aparência morfológica da necrose resulta de dois processos: desnaturação proteica e digestão celular enzimática, a mais estudada. As enzimas catalíticas provêm dos lisossomos das próprias células mortas (autólise) ou dos lisossomos de leucócitos imigrantes (heterólise) (ROBBINS, 2000).
A apoptose, termo originário do grego apo-parte, ptosis-queda - “folhas que caem”, caracteriza-se por ser um processo vital que ocorre constantemente nos organismos, de forma ativa e fisiológica, necessária à manutenção celular durante o desenvolvimento embrionário, a regressão de tumores e a atrofia induzida por hormônios (KROEMER et al, 1998). A apoptose também ocorre durante estados patológicos como isquemia, intoxicação por agentes químicos e doenças neurodegenerativas e neuromusculares (SMAILI et al, 2003), podendo resultar da ativação de duas vias celulares distintas: a via intrínsica e a via extrínsica. A via intrínseca ocorre em resposta a um estresse celular que converge para um conjunto de mitocôndrias que atuam como sensores (MACHO et al, 1997). Durante a ativação dessa via, há a liberação de moléculas como, o citocromo c, (MARCHETTI et al, 1996; MARZO et al, 1998); o fator indutor de apoptose (AIF) (SUSIN et al, 2000) e o Smac/Diablo (DU et al, 2000; VERHAGEN et al, 2000). A liberação desses fatores culmina na ativação de proteases cisteíno-específicas denominadas caspases, que
INTRODUÇÃO
executam a apoptose, levando a eliminação dessas células por fagócitos ou células adjacentes (AMARANTES-MENDES & GREEN, 1998; DONOVAN & COTTER, 2004). Por outro lado, a via extrínsica ocorre pela ativação de receptores de morte localizados na membrana plasmática. Ambas as vias, no entanto, envolvem a estimulação de uma cascata de eventos intracelulares que culminam na morte das células (KROEMER et al, 1998) e, por isso, a apoptose é denominada, ainda, de morte celular programada. Embora a TPM seja crucial para as vias de morte celular dependente e independente de caspase, ela também pode ser ativada por outros fatores como o Ca2+ proveniente
do RE (Ca2+
RE) e as catepsinas lisossomais em resposta a ceramida e EROs
(JACOTOT et al, 1999). As catepsinas lisossomais são enzimas envolvidas na degradação citoplasmática durante a homeostase celular (TURK et al, 2001). As Catepsinas B e D são ativadas por uma ligação entre DNA danificado e mitocôndria no eixo mitocôndria-lisossomo, que direta- ou indiretamente ativa a cascata de caspase dependente de Bax/ Bak levando a TPM (BIDERE et al, 2003) e a apoptose (BOYA et al, 2003). Além disso, a ativação de Catepsinas também está envolvida com a autofagia, um processo independente de caspase, responsável pela reciclagem de organelas intracelulares. Pelo fato de que a Bax, a Bcl-2 e a Bak estão, também, localizadas no RE, ele serve como um importante centro de controle apoptótico mediado pela conecção mitocôndria-RE (BRECKENRIDGE et al, 2003). Tanto a super- expressão da Bcl-2 quanto a perda da Bax/ Bak levam a uma diminuição da concentração do Ca2+ no RE e a uma queda secundária da captação de Ca2+ pela
mitocôndria (KIM et al, 2006).
A autofagia é um mecanismo pelo qual a célula pode degradar grandes complexos protéicos e organelas danificadas contribuindo para a homeostasia celular (KLIONSKY & OHSUMI, 1999). Em vertebrados, este processo pode atuar como um mecanismo de sobrevivência ou de morte em diferentes condições fisiológicas e patológicas. Fisiologicamente, a autofagia basal é fundamental para o desenvolvimento e a proliferação celular, biossíntese, regulação do metabolismo por meio da eliminação de enzimas específicas, morfogênese, envelhecimento e defesa celular (FURUYA et al, 2004; GOZUACIK & KIMCHI, 2004; LEVINE & KLIONSKY, 2004; SHINTANI & KLIONSKY, 2004; WANG & KLIONSKY, 2004; CUERVO, 2005; LUM et al, 2005; MIZUSHIMA, 2005). Em ocasiões em que ocorrem danos celulares, danificação de organelas e/ ou membranas, e/ ou acúmulo de agregados neurotóxicos e inclusões
INTRODUÇÃO
11 intracelulares, a via autofágica também é iniciada. Desta forma, ela estaria funcionando como um mecanismo de homeostase em nível subcelular fundamental para a sobrevivência das células. Contudo, patologicamente, a autofagia parece ter um papel relevante na alteração do crescimento celular que ocorre no câncer, assim como no inicio da neurodegeneração.
1.5.1. Autofagia
O controle rígido da degradação de componentes celulares é essencial para a homeostase celular, assim como as reações de biossíntese. Para isso, as células possuem várias vias catabólicas que vão desde a eliminação de pequenas moléculas até a degradação de organelas inteiras. Dentre os sistemas de degradação estão dois de especial interesse para a neurodegeneração: I) sistema ubiquitina-proteossomo; II) sistema endossomo-lisossomo. O sistema ubiquitina-proteossomo possui um papel essencial no controle da degradação da maioria das proteínas de células eucarióticas de curta duração. Devido a ação de três enzimas específicas, E1, E2 e E3, essas proteínas são ligadas a seqüências de ubiquitina que são, posteriormente, reconhecidas pelo sistema de degradação (ARDLEY et al, 2005). O sistema endossomo-lisossomo possui três diferentes vias: a) vid, via de importação e degradação vacuolar; b) cvt, via biossintética citoplasma-vacúolo; c) autofagia. Essa, por sua vez, pode ser subdividida em três diferentes tipos de acordo com o mecanismo da formação vacuolar e com o transporte de material para esse compartimento. Assim, ela pode ser discriminada em: a) autofagia mediada por chaperones (CMA); b) microautofagia; c) macroautofagia.
A CMA permite a degradação de proteínas citosólicas específicas que contém uma seqüência motif de pentapeptídeos, KFERQ (Lisina, Fenilalanina, Glutamato, Arginina e Glutamina, respectivamente). Essa seqüência é reconhecida pelo complexo das chaperonas que se ligam, posteriormente, a receptores localizados na membrana lisossomal, a proteína LAMP-2A. Nesse tipo de autofagia não ocorre transporte vesicular (BURSCH & ELLINGER, 2005). A microautofagia é um processo pelo qual o próprio lissosomo sofre invaginação de sua membrana englobando, então, componentes citosólicos, incluindo macromoléculas como o glicogênio. No entanto, não parece estar relacionada com a regulação metabólica (WANG & KLIONSKY, 2004). A terceira e última classificação da autofagia é a macroautofagia (referida simplesmente
INTRODUÇÃO
como autofagia), cuja manifestação morfológica é mais proeminente. Ela é caracterizada pela formação de vesículas, de membrana múltiplas ou dupla, que se inicia com a formação de uma estrutura em “C” cujas extremidades se alongam até o completo fechamento. Especulava-se que a membrana originada da vesícula era proveniente de membrana do RE ou do Complexo de Golgi. Entretanto, atualmente, acredita-se que é originária de uma estrutura denominada fagóforo (CODOGNO & MEIJER, 2004; FENGSRUD et al, 2004). Com o fechamento da membrana e o aprisionamento de citoplasma ou organelas no interior da vesícula, etapa inicial em células de mamíferos, origina-se o autofagossomo. O autofagosomo, então, funde sua membrana externa com a membrana de lisossomos originando o autolisossomo ou vacúolo autofágico. No entanto, é a membrana interna do antigo autofagossomo com o conteúdo citoplasmático (corpo autofágico) que é degradada pelas enzimas lisossomais em produtos recicláveis para a célula (KLIONSKY & OHSUMI, 1999) (Figura 4).
Figura 4 - Sequência da formação do autolissomo. Primeiramente há a formação de uma
membrana dupla, em forma de “C”, que ao se fechar engloba conteúdo citoplasmática e/ ou organelas celulares. Tal estrutura é denomianada de Autofagossomo. Em seguida, a membrana externa se funde a membrana do lisossomo (Autolisossomo) onde, todo conteúdo interno (corpo autofágico) é degradado pelas enzimas lisossomais (modificado de www.biken. osaka-u.ac.jp/.../jp/img/auto02.jpg).
Diversas etapas do processo autofágico requerem, ainda, a participação de proteínas do citoesqueleto como filamentos intermediários, responsáveis pelo sequestro de componentes citoplasmáticos e/ ou organelas e microtúbulos, responsáveis pela fusão dos lisossomos com o autofagossomo (FENGSRUD et al,
MEMBRANA DE ISOLAMENTO CITOSOL E ORGANELAS LISOSSOMO AUTOFAGOSSOMO AUTOLISOSSOMO HIDROLASES FUSÃO
INTRODUÇÃO
13 2004). Entre essas está a proteína 1 associada a microtúbulos de cadeia leve (LC-3, do inglês light chain 3) envolvida na formação do autofagossomo e que permanece associada a sua membrana até o final do processo (Figura 5).
Apesar do seu papel essencial para a homeostasia celular, os mecanismos moleculares que regulam a autofagia em mamíferos ainda são muito pouco entendidos (HOYER-HANSER et al, 2007). Entretanto, diversos estímulos extracelulares como a privação de fatores nutricionais (Starvation) e hormonais, bem como de estímulos intracelulares como, o acúmulo de proteínas misfold e a invasão de microorganismo são capazes de modular a resposta autofágica. Existem várias vias envolvidas na inicialização e maturação da autofagia. A figura central dessa sinalização é a proteína TOR (target of Rapamycin) que, em mamíferos, é designada como mTOR (YANG et al, 2005; YORIMITSU & KLIONSKY, 2005). A TOR é uma serina/ treonina kinase que exerce um efeito inibitório sobre a autofagia e que está envolvida na maioria das vias de regulação que controlam o processo autofágico (LIANG et al, 1999; MEIJER & CODOGNO, 2004) (Figura 5).
Figura 5 - Sequência da formação do autofagossomo e do autolissomo. Estão representados
na figura, em verde, alguns dos indutores do processo autofágico como Rapamicina e
Starvation. Além disso, em vermelho, estão representados alguns inibidores do processo como
3-metiladenina (3-MA) e bafilomicina. No esquema ainda estão descritas as principais proteíans envolvidas em cada uma das etapas da formação do autofagossomo e do autolisossomo, como PI3-K, proteína LC-3, LAMP e proteínas Atg (modificado de http://www.nature.com/nrmicro /journal/v2/n4/ images/nrmicro865-f6.gif). autofagossomo autolisossomo fusão lisossomal fusão endossomal conteúdo citosólico autofagossomo autolisossomo fusão lisossomal fusão endossomal conteúdo citosólico
INTRODUÇÃO
1.6. Doença de Huntigton 1.6.1. Aspecto genético
A Doença de Huntington (DH), também conhecida como Coréia de Huntington, devido ao termo coréia (do latim choreus) significar movimentos semelhantes a uma dança, é uma desordem neurodegenerativa genética autossômica dominante, no qual o fenótipo é expresso da mesma forma em homozigotos e heterozigotos. Ela é causada por uma expansão instável do trinucleotídeo CAG em um gene localizado no braço curto do cromossomo 4, mais especificamente, na região 4p16.3 em um fragmento polimórfico denominado D4S10 (GUSELLA et al, 1983). O processo de expansão de CAGs é dinâmico, podendo ocorrer em células germinativas e/ ou somáticas com a idade (TRUSHINA & McMURRAY, 2007). O tamanho da repetição CAG na população normal é de 6–39, enquanto que as expansões associadas à DH são de 36 – 180 (REGO & OLIVEIRA, 2003). Embora o número de repetições CAG esteja relacionado com a idade do início da DH (GUSELLA & MACDONALD, 2000), outros fatores podem possuir um papel importante no aparecimento da doença.
A repetição CAG está localizada dentro de uma seqüência codificadora de 17 códons, no primeiro éxon dos 67 existentes (AMBROSE et al, 1994). Esse gene, denominado de gene do transcrito interessante 15 (IT15),codifica a proteína huntintina (htt) (HUNTINGTON DISEASE COLLABORATIVE RESEARCH GROUP, 1993). Pelo fato de cada trinucleotídeo CAG codificar um aminoácido glutamina, no momento da transcrição do gene IT15 e da tradução da htt, é originada uma cadeia expandida de glutaminas (poliglutaminas/ polyQ) em sua porção N-terminal, originando a proteína huntintina mutante (mhtt).
1.6.2. Epidemiologia e sintomatologia
A DH é considerada uma doença de adultos jovens uma vez que os sintomas iniciam-se por volta dos 30-40 anos de idade. Esses pacientes apresentam um número de repetições CAG variando entre 40-50. No entanto, há alguns poucos casos onde os sintomas começam pouco depois do nascimento. Nessa situação, os pacientes possuem longas repetições CAG, por vezes acima de 100, sendo essa forma da doença denominada de juvenil (PETERSÉN et al, 1999).
Uma vez começada, a DH evolui rapidamente, dividindo-se em três fases: déficit cognitivo, desordens psíquicas e sintomas motores (VAN DELLEN et al, 2005). O
INTRODUÇÃO
15 paciente apresenta retração de memória, diminuição acentuada na habilidade de elaborar estratégias de mudança de ação, como também perda da memória de procedimento, que seria importante no estabelecimento do “hábito” (equivalente ao que se chama de memória implícita) (LAWRENCE et al, 1996). As alterações emocionais geralmente acompanham a perda das funções cognitivas. Nesse sentido, os pacientes apresentam alterações de personalidade, agressividade, depressão, distúrbio bipolar e demência. Os sintomas motores caracterizam-se por movimentos involuntários como, tremor e distonia, que se inicia com uma hipercinesia e evolui a uma hipocinesia, bem como por movimentos voluntários como, falta de coordenação motora e demora em iniciar os movimentos (THE HUNTINGTON’S DISEASE SOCIETY OF AMERICA, 2006). Contudo, ela caracteriza-se por movimentos excessivos, espontâneos, randômicos e abruptos (BARBEAU et al, 1981; PÉREZ-DE LA CRUZ & SANTAMARIA, 2007; PETROZZI et al, 2007). Tipicamente, os primeiros sinais motores são anormalidades nos movimentos dos olhos, seguido pelo surgimento progressivo de discinesia orofacial que pode ser caracterizada por movimentos orofaciais (BROUILLET et al, 1999; BROWNE & BEAL, 2004; RAMASWAMY et al, 2007).
1.6.3. Neuropatologia
No Sistema Nervoso Central (SNC) a manifestação mais surpreendente da DH é a degeneração progressiva do estriado, formado pelo caudado, putamen e estriado ventral, do qual o núcleo accumbens faz parte (VAN DELLEN et al, 2005). Essa degeneração pode causar uma desconexão entre o córtex pré-frontal e o circuito dos gânglios da base formado não apenas pelo estriado, mas também pelo globo pálido (externo/GPe e interno/ GPi), a substância negra (reticulata/ SNr e compacta/ SNc) e os núcleos subtalâmicos. De acordo com estudos clínicos, os gânglios da base estariam envolvidos no controle e no surgimento de desordens de movimentos (MACHADO, 1993; GRAYBIEL, 1995) (Figura 6).
INTRODUÇÃO
Figura 6 - Expressão da proteína huntintina mutante (mhtt) causa perda seletiva de neurônios
do estriado. (A) O gene da DH possui uma região com uma seqüência poliglutamínica no éxon 1. Em indivíduos normais a repetição fica abaixo de 39. O aumento dessas repetições leva a síntese da mhtt relacionada, diretamente, com a severidade dos sintomas da DH. (B) Ressonância magnética de cérebro de indivíduo normal (esquerda) e de pacientes com DH (direita). C: caudado; P: putâmen; GP: globo pálido; V: ventrículo; Hip: hipocampo (modificado de TRUSHINA & MCMURRAY, 2007).
A DH atinge inicialmente uma população neuronal seletiva, neurônios estriatais como os da região ventral e neurônios secretores de ácido-γ-amino butírico (GABA) (CICCHETTI et al, 1996). Essa perda neuronal acarreta alterações como diminuição dos níveis de GABA e de suas enzimas de síntese, a glutamato descarboxilase (GAD), acetilcolina (ACh) e colina-acetil transferase (CAT), e alguns peptídeos específicos localizados nos neurônios finos médios (SHOULSON, 1984), bem como alterações importantes no número de receptores NMDA, sugerindo que alguns componentes da transmissão glutamatérgica podem estar envolvidos como fatores da causa da DH (ELLERBY, 2002). Também é observada uma neurodegeneração das 3ª, 4ª e 6ª camadas corticais cerebrais (VONSATTEL & DIFIGLIA, 1998), camadas predominantemente efetuadoras, cuja degeneração pode causar apraxia, ou seja, incapacidade de executar atos voluntários (HEDREEN et al, 1991; SOTREL et al, 1991). Alguns poucos estudos também descrevem uma morte neuronal clara no hipotálamo, mais especificamente no núcleo lateral tuberal (KREMER et al, 1990, 1991). Além disso, foi verificado que o metabolismo da glicose no estriado e no córtex cerebral está diminuído e parece preceder a perda de volume do tecido (JENKINS et al,
INTRODUÇÃO
17 1993; KOROSHETZ et al, 1994; TRUSHINA & McMURRAY, 2007). Alguns estudos em modelos animais de camundongos transgênicos da linhagem R6 sugerem que a perda de volume (atrofia) cerebral não é devido à morte neuronal, mas sim, ao encolhimento do corpo neuronal e de axônios e dendritos (HANSSON et al, 1999; KLAPSTEIN et al, 2001; PETERSÈN et al, 2002).
Uma outra característica da DH é a presença de inclusões intranucleares neuronais (NII), do inglês neuronal intranuclear inclusions, formada pela porção N- terminal da proteína huntintina mutante (mhtt). Essas inclusões, no entanto, são formadas também por proteínas da via proteassomo-ubiquitina, chaperonas, proteínas sinápticas e fatores de transcrição (LANDLES & BATES, 2004; QIN et al, 2004). Evidências demonstraram, ainda, uma deficiência severa na atividade dos complexos II e III (56%) e no complexo IV (33%) em pacientes com DH (GU et al, 1996) e anormalidades ultraestruturais nas mitocôndrias do córtex desses pacientes (GOEBEL et al, 1978; GARDIAN & VECSEI, 2004).
1.6.4. Aspectos Moleculares da DH
Vários mecanismos, que já foram mencionados anteriormente, têm sido propostos para explicar a DH (PÉREZ-DE LA CRUZ & SANTAMARIA, 2007; TRUSHINA & McMURRAY, 2007) tais como a excitotoxicidade (COYLE & PUTTFARCKEN, 1993; PETERSÉN et al, 1999), o aumento do estresse oxidativo (BROUILLET et al, 1999; PETERSÉN et al, 1999), as alterações da sinalização intracelular de Ca2+ (TANG et al, 2003; ZAINELLI et al, 2003; ROSENSTOCK et al,
2004) e o déficit do metabolismo energético (NOVELLI et al, 1988; BEAL, 1992; ROSENSTOCK et al, 2004). Uma outra hipótese para a DH é a de interações proteína- proteína (WELLINGTON et al, 1997). Em relação a essa última, é possível que o aumento de repetições CAG afetem a estrutura quartenária da htt devido a um aumento da seqüência polyQ, modificando a sua interação com outras proteínas e facilitando a formação de agregados (HARJES & WANKER, 2003; MICHALIK & VAN BROECKHOVEN, 2003; LEE & KIM, 2006).
A htt normal possui cerca de 3140 aminoácidos e massa de aproximadamente 349 KDa. Ela está localizada no citoplasma dos tecidos periféricos e, também, no citoplasma e núcleo do tecido nervoso (DIFIGLIA et al, 1995), tanto no soma neuronal, quanto nos dendritos e axônios, além de vesículas sinápticas, mitocôndrias e células
INTRODUÇÃO
da glia (LI et al, 1993). Além disso, foi demonstrado que a htt está associada a grânulos citoplasmáticos, se assemelhando a corpos vesiculares, e a proteínas de degradação em neurônios corticais e estriatais (SAPP et al, 1997). Apesar da sua função não estar bem determinada, ela parece ser crítica para o desenvolvimento embrionário normal (ZEITLIN et al, 1995) e no transporte vesicular (TUKAMOTO et al, 1997).
Contudo, a expansão anormal da seqüência CAG pode atuar de maneira negativa ou positiva, eliminando ou aumentando, respectivamente, a função normal da htt. A expansão de polyQ, por exemplo, pode resultar em um “ganho” de função da htt aumentando a sua ligação com inúmeras proteínas. Uma dessas proteínas é a caspase 3 (GOLDBERG et al, 1996; KUIDA et al, 1996; SCHWARTZ & MILLIGAN, 1996). Além disso, a htt pode sofrer proteólise pela ação da calpaína, quando esta é ativada pelo Ca2+, contribuindo com os mecanismos de morte celular (KULKARNI et al, 1999; GAFNI & ELLERBY, 2002). Dados sugerem que um efeito particularmente importante da expressão da mhtt é a destruição e/ ou desequilíbrio de microtúbulos (TRUSHINA et al, 2003) e a inibição do tráfego vesicular. Isso porque a htt normalmente interage com proteínas motoras e com proteínas que se associam a clatrina como: a HAP1, proteína associada à htt (LI et al,1996), responsável pelo tráfego do fator de crescimento neuronal, BDNF, brain-derived neurotrophioc factor (GAUTHIER et al, 2004) e, também, pela adaptação entre a htt e o receptor de IP3 em neurônios estriatais (TANG
et al, 2003) o que torna os neurônios estriatais mais suscetíveis a toxicidade (TANG et al, 2004); HIP2, enzima conjugada a ubiquitina (DIFIGLIA et al, 1997; ENGELENDER et al, 1997; TUKAMOTO et al, 1997; WAELTER et al, 2001; HARJES & WANKER, 2003); e HIP1, proteína que possui um papel importante na regulação do citoesqueleto e na concentração da próton ATPase da membrana plasmática (KALCHMAN et al, 1997). No entanto, a afinidade da HIP1 com a mhtt é menor do que com a htt normal, o que favorece a interação desta com uma outra proteína denominada de Hippi, cujo complexo é o responsável pela ativação da caspase-8 e incialização da cascata de morte celular (MAJUMDER et al, 2006).
A expressão da mhtt parece estar relacionada, também, com alterações do metabolismo energético no cérebro de pacientes com DH, uma vez que ela interage com proteínas como a gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase (GAPDH) (BURKE et al, 1996), além de se associar com camadas bilipídicas como a da própria mitocôndria, induzindo a uma alteração do seu funcionamento (KEGEL et al, 2000, 2005; PANOV et
INTRODUÇÃO
19 al, 2002; SUOPANKI et al, 2006). Um outro mecanismo pelo qual a mhtt pode afetar a função mitocondrial é pela alteração da transcrição gênica (LUTHI-CARTER et al, 2003), já que a mhtt transloca para o núcleo modulando a ativação de fatores transcripcionais como a proteína ligadora de CREB e o p53 (SUGAR & RUBINSZTEIN, 2003). Um outro dado relacionando alterações mitocondriais com a mhtt é que a presença da mhtt promove uma diminuição da motilidade dessa organela em células neuronais. As mitocôndrias de neurônios de pacientes com DH percorrem distâncias, em média, 70% menores do que em células normais (TRUSHINA et al, 2003). Essa perda da capacidade de locomoção favorece a excitotoxicidade pelo Glutamato e o desequilíbrio da homeostase do Ca2+ (CHANG et al, 2006), além de resultar numa
deficiência de produção local de ATP.
A htt pode sofrer agregação devido a ação de transglutaminases (TGs), enzimas dependentes de Ca2+ responsáveis pela ligação entre resíduos de glutamina (ZAINELLI et al, 2003). Essas proteínas podem ser reguladas pela Calmodulina (CaM) (ZAINELLI et al, 2004) que, pelo fato de estar também envolvida na ativação da NOS, que sob condições patológicas pode induzir ao estresse oxidativo (DECKEL et al, 2002), pode ser uma via importante no estudo da patogênese da DH. A TG2 ou tTG (tissue
transglutaminase) é uma proteína multifuncional envolvida em uma variedade de
funções bioquímicas (FESUS & PIACENTINI, 2002). Na presença de um alto nível de Ca2+, a TG2 catalisa ligações proteína-proteína, a incorporação de aminas primárias
em proteínas e a deaminação de glutaminas (FESUS & PICENTINI, 2002) (Figura 7).