A transformação da paisagem da região de Castro Verde em pseudo-estepe levou a que um novo ecossistema surgisse. Espécies de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e insetos adaptaram-se a este novo habitat "formando um ecossistema que está dependente da manutenção da atividade agrícola tradicional" (LPN, 2013b). A avifauna está altamente dependente da manutenção e conservação deste habitat. Aves como a abetarda, o sisão e o peneireiro-das-torres são espécies cuja existência depende destas estepes cerealíferas, sendo por isto mesmo designadas como aves estepárias (LPN, 2013b).
Devido à importância que a manutenção do habitat tem para a sobrevivência destas espécies foi criada a área de proteção de avifauna de Castro Verde (figura 3.2), que foi iniciada com mais de 79 mil hectares (SNIG, 2013), tendo aumentado em 2008 para uma área superior a 85 mil hectares (INCF, 2013c).
Figura 3.2 - Áreas de Proteção de Avifauna (Fonte: SNIG, 2013) - a tracejado a área de proteção da avifauna de Castro Verde.
A abetarda (Otis tarda) é a ave ex-líbris da região do Campo Branco. Esta ave encontra-se distribuída descontinuamente pela Península Ibéria, Norte de Marrocos até às planícies de Amur no Leste da China. Em Portugal a abetarda também se distribui de forma fragmentada desde o sudoeste da Beira Baixa até ao sul do Alentejo (ICNF, 2013a).
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A abetarda, segundo o Livro Vermelho das Espécies, encontra-se ameaçada a nível global, sendo uma espécie "vulnerável" ao risco de extinção. Já ao nível português o estatuto da espécie encontra- se num grau de ameaça superior, encontrando-se "em perigo" (IUCN in ICNF, 2013a).
Castro Verde é o maior território de abetardas ao nível português, contando com 68 mil hectares de área territorial. Censos realizados a estas aves demonstram que as populações de abetarda têm vindo, maioritariamente, a decrescer em território nacional. Aliás, tornaram-se praticamente extintas na zona mais a norte do seu território (Pinto et al., 2005).
Apenas em Castro Verde e Campo Maior se verificam aumentos das populações de abetarda, especialmente, no caso de Castro Verde. De facto, a partir de 1995 as populações de abetarda de Castro Verde sofrem um aumento quase exponencial, sendo que representa atualmente mais de 80% das abetardas ao nível do território português, sendo que em 1980 representava 50% (Pinto et al., 2005).
É devido às populações de abetarda que existem em Castro Verde que o número total de abetardas no período de 1980 a 2002 cresceu de 759 para 1151 aves. A população de abetarda de Castro Verde é, aliás, nove vezes maior do que a segunda mais importante população em Portugal, contando com uma população de 912 abetardas em 2002 (Vila Fernando com 101 aves, segundo o Censo de 2002) (Pinto et al., 2005).
Estas grandes diferenças em termos do crescimento das populações de abetarda relativamente às outras populações presentes em território português, podem advir do facto de Castro Verde possuir uma grande área arável, com uma grande proporção de pousio e campos de cereais e leguminosas secas (Pinto et al., 2005).
No entanto, para além das condições naturais para o desenvolvimento e reprodução destas aves em Castro Verde, o que maioritariamente contribuiu para o inverter de uma situação de declínio do número de aves desde o início da década de 90 foi o começo das medidas agroambientais provenientes do Plano Zonal de Castro Verde e a aquisição de áreas-chave pela LPN (Pinto et al., 2005).
De facto, a chegada da LPN à região do Campo Branco em 1993 parece ter sido um importante fator para que as populações de abetarda aumentassem, através das suas ações de gestão e de proteção do território destas aves.
Já o Plano Zonal de Castro Verde, criado em 1995, integra um conjunto de medidas que disponibiliza apoios destinados à manutenção dos sistemas agroflorestais de relevo para a preservação da avifauna (INCF, 2013c).
Ao Plano Zonal sucederam-se outros planos, nomeadamente pela introdução da Intervenção Territorial Integrada (ITI de Castro Verde) que se aplica ao território abrangido pela Zona de Proteção Especial (ZPE) de Castro Verde. A ITI de Castro Verde abrange um conjunto de medidas silvo e agroambientais.
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A Zona de Proteção Especial (ZPE) de Castro Verde criada no âmbito da Rede Natura 2000, em 1999, integra a área nuclear do Campo Branco. Esta é, também, a maior ZPE de Portugal contando com mais de 85 mil hectares. Aliás, cerca de 23% do território português está classificado como Rede Natura 2000 (Sequeira et al., 2011).
As Zonas de Proteção Especial foram estabelecidas ao abrigo da Diretiva Aves, destinando-se a garantir a conservação das espécies de aves, dos seus ovos e ninhos, dos seus habitats e das espécies de aves migratórias cuja ocorrência seja regular no território. Nas ZPE estão ainda limitadas as atividades cinegéticas a um conjunto de espécies e em determinadas condições e períodos, proibindo alguns métodos de captura e abate (ICNF, 2013d).
O objetivo primordial que leva à criação desta ZPE é a proteção das aves estepárias e do seu habitat. Assim sendo, os objetivos da ZPE de Castro Verde reconhecem como fundamental a manutenção do cultivo de cereais em extensivo, bem como a manutenção de manchas florestais de montado de sobro e azinho e dos olivais tradicionais A manutenção deste mosaico paisagístico consta nos objetivos primários da ZPE de Castro Verde, que para isto disponibiliza medidas de apoio aos agricultores, para que estes continuem as práticas de cultivo agrícola e florestal em regime extensivo. (ICNF, 2013c). Os agricultores que adotam tais medidas são compensados financeiramente de modo a manterem competitividade económica com as outras explorações que não adotaram as medidas, já que o nível do rendimento que os produtores agrícolas conseguem retirar das terras é menor e, portanto, os seus lucros potenciais também irão ser menores.
Os agricultores subscritores da atual ITI de Castro Verde devem adotar práticas agrícolas em que seja restrito o uso de agroquímicos, devendo optar por outras técnicas alternativas, já que o uso destes produtos conduz à diminuição da capacidade reprodutivas das aves estepárias, bem como ao aumento da mortalidade das mesmas (ICNF, 2013a).
Os agricultores não devem fazer a lavra no início da primavera, devendo também retardar a ceifa e o corte de feno (ICNF, 2013c). A ZPE de Castro Verde assume-se como a mais importante área de nidificação de aves estepárias, em especial para a abetarda e para o peneireiro-das-torres, bem como para algumas espécies de aves invernantes. Pelo que a ceifa e a lavoura de pousios realizadas no período de nidificação das aves estepárias constituem ameaças à sobrevivência das espécies, já que a lavoura e a ceifa são responsáveis pela destruição de ovos e morte de crias (ICNF, 2013a). A ZPE determina, ainda, o condicionamento da construção de infraestruturas e da expansão urbano- turística, bem como a construção de barragens em zonas sensíveis. O regulamento da ZPE menciona ainda que devem ser tomadas medidas de forma a reduzir a mortalidade da avifauna causada pelas linhas elétricas (INCF, 2013c).
Devido às cada vez maiores dificuldades em manter a viabilidade económica das explorações agrícolas, verifica-se que a manutenção das populações destas aves poderá estar em risco. De facto, poderá ser difícil a manutenção deste tipo de sistema agrícola, que revela ter uma importância
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extrema para a manutenção das populações das aves estepárias, já que as extensões de cultivo de cereais constituem parte fundamental do habitat destas espécies.
O desaparecimento do cultivo de cereais em sistemas em extensivo é, portanto, o maior fator de ameaça às aves estepárias. A baixa rentabilidade das explorações agrícolas, altamente dependentes de sistemas de subsídios, alia-se ao abandono das terras menos produtivas. O aliciamento dos produtores agrícolas para a florestação do terreno em virtude de apoios comunitários ou a pastorícia com encabeçamentos superiores, são igualmente fatores que ameaçam a continuidade deste sistema altamente biodiverso que é a estepe cerealífera (Pereira et al., 2009; ICNF, 2013a; ICNF, 2013c). Ainda a intensificação da agricultura pelo recurso a monoculturas de cereais, em detrimento de culturas de leguminosas, pousios e montado disperso, levam a que o mosaico paisagístico que caracteriza a zona de Castro de Verde se reduza significativamente. Assim, poem-se em causa o habitat das aves estepárias, já que se reduz a disponibilidade alimentar e áreas de reprodução (ICNF, 2013a).
De facto, a compatibilização das atividades agrícolas e florestais e a conservação da natureza através de uma correlação forte ao nível da gestão das práticas que atuam sobre o solo existe em 90% da Rede Natura 2000 portuguesa (Lima Santos in Sequeira et al., 2011). Em Castro Verde verifica-se esta premissa, já que a proteção dos valores naturais está altamente dependente da gestão das atividades relacionadas com o solo.