O estudo dos sons utilizados pelo homem para produzir a linguagem falada pode ser feito sob a ótica de duas disciplinas: a Fonética e a Fonologia. Apesar de ambas se ocuparem do fenômeno da linguagem no seu caráter vocal, os conceitos e os procedimentos de análise diferem o suficiente para estas disciplinas se colocarem como estudos autônomos. Entretanto, os conhecimentos produzidos por cada uma contribuem entre si para esclarecer aspectos relevantes ao funcionamento da linguagem humana. Na prática, essa distinção é atribuída ao advento da Lingüística no início do século XX, que propiciou a separação entre Fonética e Fonologia, no I Congresso Internacional de Haia, em 1928, quando então foi propugnada por R. Jakobson e N. Trubetzkoy.
Na verdade, tal separação reflete a dicotomia saussuriana entre língua e fala, de modo que a Fonética estuda os sons do ponto de vista da fala, do fenômeno físico em si mesmo, e a fonologia os estuda do ponto de vista da língua, da organização, das relações internas. 28
Entretanto, tais preocupações não são recentes. De fato, os estudos de natureza fonético-fonológica remontam aos antigos hindus e gregos, mas serão realmente desenvolvidos a partir do século XIX, devido o interesse em se descrever as línguas do ponto
27 cf. Scherre, 1992, 1996; Naro, 1996; Sankoff, 1988; Pintzuk, 1988; Pinto & Fioretti, 1992.
28 Na obra “Fonema e Fonologia” (1967), Jakobson discute o estatuto do fonema, como conceito básico da fonologia: “Designamos por esse termo as propriedades fônicas concorrentes que se usam numa língua dada para distinguir vocábulos de significação diversa. Na fala sons variados podem ser um mesmo e único fonema.” (p.11).
34 de vista da fala, pois pode-se dizer que até então predominava o estudo do texto escrito, tomado como representante da fala, como atestam alguns estudiosos:
Na segunda metade do século XIX, os estudiosos compreendem que a língua oficial não representa o desenvolvimento espontâneo e popular, e que as chamadas línguas clássicas, em sua forma literária, não representavam um estado de “língua superior” às chamadas “línguas vulgares”. Começam, então, a estudar as falas populares e ocorre o interesse pelos dialetos, já que estes, segundo esta visão, na época, conservavam numerosos traços antigos que poderiam esclarecer a história da língua nacional. (SILVEIRA,1986, p. 23).
Isso permite o gradativo abandono do texto escrito como forma exclusiva de estudo da língua, à medida que os neogramáticos interessam-se cada vez mais pela elaboração das leis fonéticas. Assim, tem lugar um estudo fonético cada vez mais especializado, com o avanço da fonética experimental, isto é, os estudos dos sons por meio de instrumentos, e da fonética acústica e articulatória. O que trará à tona a variabilidade lingüística, que se torna, portanto, um fato comprovado por meio de experimentação, pela mensuração dos sons. Como diz Silveira:
Os foneticistas tornam-se habilidosos em depreender e descrever os matizes articulatórios e acústicos. Com o resultado obtido de suas análises, realizadas com auxílio de instrumentos, afirmam a “infinita variabilidade” de realizações de um mesmo som, por um mesmo falante (...). (SILVEIRA, 1986, p. 23).
A questão da variabilidade dos sons também levanta outras questões como quais seriam os sons de fato pertinentes numa língua. Estavam então lançadas as bases fundamentais para as ciências dos sons da linguagem no campo da descrição e da interpretação, ou da fonética e da fonologia, levadas a cabo naquele congresso.
Desde então, entende-se que a Fonética dedica-se ao estudo dos sons da fala humana, considerando as diversas realizações: o modo como são produzidos e pronunciados pelos falantes de um grupo lingüístico qualquer; apresenta os métodos para descrição, classificação e transcrição dos sons da fala. Segundo Cagliari (2002, p. 17):
35
A Fonética preocupa-se principalmente com a descrição dos fatos físicos que caracterizam linguisticamente os sons da fala. Descreve os sons da fala, dizendo quais os mecanismos e processos de produção de fala estão envolvidos em um determinado segmento da cadeia sonora da fala.
Trata-se do estudo do meio fônico pelo qual se realiza uma língua, lida, pois, com o aspecto concreto da manifestação lingüística, de acordo com as possíveis realizações que os sons utilizados possam assumir ao serem produzidos pelos indivíduos dentro das possibilidades do aparelho fonador e conforme são transmitidos em ondas sonoras.
A preocupação é com as qualidades articulatórias resultantes dos movimentos dos órgãos fonadores (Fonética Articulatória), acústicas devidas às vibrações do ar pela transmissão do falante ao ouvinte (Fonética Acústica) e perceptivas dos sons (Fonética Auditiva) em si mesmos. A Fonética fornece para os sons uma classificação conforme as características/qualidades apresentadas, sem se preocupar com o papel deles como unidade que serve para veicular sentido numa língua. Não se trata, portanto, de um ramo da Lingüística, mas de uma ciência cujas descobertas fornecem dados para os estudos lingüísticos descritivos e/ou interpretativos, nesse caso, fonológicos, sobre o aspecto sonoro das línguas.
Há, no entanto, uma ressalva a ser feita: a fonética tem como ideal teórico descrever os sons o mais próximo possível do modo como são produzidos, classificá-los, e atribuir-lhes uma representação baseada no princípio da biunivocidade. Entretanto, como nunca um som é exatamente igual a si mesmo, ela leva em conta aqueles aspectos mais gerais que dão a um som uma identidade específica, seja qual for a variação que apresente. Por exemplo, uma consoante muda de característica conforme o som que vem depois, mas será sempre dada como a mesma consoante por manter um conjunto de semelhanças maior do que as diferenças possíveis de serem realizadas.
No entanto, se nem todas as diferenças são totalmente perceptíveis aos falantes de uma mesma língua, há aquelas realizações que, por razões históricas, sociais e culturais são identificadas como marcas de grupos sociais ou regionais, podendo, inclusive, serem estigmatizadas por indivíduos de grupos diferentes, mas falantes de um mesmo sistema fonológico. Ao falar das noções de sotaque e dialeto, Lyons (1987) chama a atenção para as reações que podem ocorrer às diferenças de pronúncia entre os membros de uma comunidade lingüística:
36
O que torna a noção de sotaque tão importante sociolinguisticamente, apesar de se sobrepor à de dialeto, é que os membros de uma comunidade lingüística reagem freqüentemente a diferenças de pronúncia fonêmica e subfonêmica da mesma maneira, como indicadores da proveniência regional ou social do falante. (...) A questão é que certas diferenças fonéticas entre sotaques podem ser estigmatizadas pela sociedade, da mesma forma como certas diferenças lexicais e gramaticais o são. (LYONS, 1987: 249).
Fatos como esses interessam particularmente à Dialetologia e à Sociolingüística que se ocupam do fenômeno lingüístico de um ponto vista dos usos da língua por indivíduos de regiões diferentes e/ou de diferentes estratos sociais.