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Jacqueline de Romilly (1998) nos lembrou bem: a instituição da tragédia grega está inter-relacionada com o surgimento da tirania. As interconexões entre tragédia, dionisismo e tirania nos revelam as nuances de uma especialização dos espaços. Para falar deste Diônisos Týrannos utilizado por Pisístrato, em Atenas, bem como por outras póleis do mundo grego, é preciso tecer algumas considerações sobre a própria tirania e estes dois espaços que

alocam o deus, khóra e ásty. O espaço de suas festas, aqui as Grandes Dionísias e o espaço onde se materializa o teatro.

Há uma interconexão entre o surgimento da tragédia e a tirania. Existe o surgimento oficial quando o poeta Téspis, por volta de 536 e 534 a.C. encena sua tragédia para a Grande Dionísia. No entanto, para Jacqueline de Romilly a verdadeira tragédia nasce de tentativas hesitantes em diversos pontos do Peloponeso e por isso ela salienta que

Consequentemente, esse espetáculo adquiriu as características de uma manifestação nacional. O fato explica com clareza certos aspectos da inspiração dos autores de tragédia. Eles se dirigiam sempre a um grande público, reunido numa ocasião solene. (...) Esse aspecto da representação também tem a ver com as origens da tragédia: é muito provável que a tragédia só tenha podido nascer quando aquelas improvisações religiosas das quais ela surgiria foram reorganizadas sob o comando de uma autoridade política, com o apoio do povo. Numa característica realmente notável, o nascimento da tragédia está bastante ligado à existência da tirania – ou melhor, de um regime forte sustentado pelo povo, contra a aristocracia. Os raros textos sobre os quais podemos basear-nos, na busca das origens anteriores à tragédia ática, conduzem sempre a tiranos. Arion em Corinto na corte de Periandro (final do VII para início do VI a.C) Primeiro caso em que Heródoto (VI, 67) cita os coros trágicos é o de Sicione, onde coros cantavam as desgraças de Adrasto que foram “restituídas a Dioniso”, ora quem as restituiu a Dioniso foi Clístenes, Tirano desta cidade (Início do sec. VI). Sem dúvida temos aí somente um esboço da tragédia. Mas é dessa forma que nasceu a verdadeira tragédia. De tentativas hesitantes, em diversos pontos do Peloponeso, um belo dia surge a tragédia na Ática: deve ter existido alguns primeiros ensaios anteriores, mas houve um início oficial, que é o ato do nascimento da tragédia. Entre 536 e 533, Téspis produziu a primeira tragédia. Romilly, 1998: 15-6).

O caráter de institucionalização da tragédia empreendida pela tirania nos faz perceber também que o gênero trágico está delimitado pela comunicação entre o poeta e seu público, ancorado numa referência comum, uma espécie de pano de fundo a tornar inteligível sua estrutura (Vernant & Vidal-Naquet, 1999: 12). Portanto:

A tragédia não pode ter nascido a não ser que estas improvisações religiosas, de onde deveria sair, se encontrassem encarregues e organizadas por uma autoridade política que se apoiava no povo. Através de um traço assaz notável, o nascimento da tragédia está associado, em quase todo lado, à existência da tirania (Romilly, 1998: 17).

A tirania, sua inserção na Grécia antiga, consiste na ocupação do poder por apenas um homem, usando frequentemente a violência, é uma forma de governo específica e original. O tirano é a causa e o produto de um lento e complexo processo de transformações das estruturas políticas na Grécia antiga (Bignotto, 1998: 18; 41). O termo «tirano» - não era uma palavra grega, viera

da Lídia – ao princípio não tinha nenhuma das odiosas associações de ideias que adquiriu e ainda conservam; os gregos recordavam com gratidão o que deviam aos tiranos (Kitto, 1990: 174). Ao analisar a expansão urbanística de

Siracusa e o papel de seus governos tirânicos, Juliana Figueira da Hora nos lembra que no século VI a.C. esse termo foi utilizado por Sólon de forma clara e direta, bem como foi amplamente utilizado por diversos autores da antiguidade com significados díspares. É interessante notar que alguns autores da tragédia denominavam tyrannos, ao invés de basileu alguns governantes com o fito de acentuar o caráter negativo da palavra (Hora, 2013: 49).

Heródoto, em suas histórias narra assim o episódio que deflagrou uma nova ordem social em Atenas: havia uma disputa entre os atenienses da costa e da planície. Os da costa tinham por líder Mégacles, filho de Alcmêon, já os da planície eram liderados por Licurgo, filho de Aristolaídes. Pisístrato, que aspirava à tirania, formou uma terceira facção. Quando enfim reuniu adeptos e se apresentou como líder dos habitantes da montanha, usou do seguinte ardil: feriu a si mesmo e machucou os seus mulos, lançando também seus carros sobre a ágora como se acabasse de escapar dos seus inimigos, os quais tinham tentado matá-lo enquanto permanecia nos campos. Pediu então ao povo uma guarda pessoal para ele, que havia alcançado a glória na campanha contra os megáricos, capturando Nisaia e realizando outros feitos brilhantes. Os atenienses, assim ludibriados, lhe concederam trezentos doríforos (porta- maças) entre os cidadãos. Estes homens, ao lado de Pisístrato, rebelaram-se e

tomaram a Acrópole (Heródoto, I. 59). Os Pisistrátidas estiveram no poder por volta de 561 a 510 a.C. Antes de Pisístrato instituir seu golpe houve uma tentativa de se estabelecer a tirania em Atenas por Cílon (Heródoto, V, 71; Tucídides, 1.126).

Claude Mossé, se atendo à tirania de Cípselo nos dá uma descrição do tirano:

(...) a obra do tirano consiste em fazer desaparecer as desigualdades... destruindo tudo e todos que ousem sair do alinhamento das fileiras. Por conseguinte, já não se tratava apenas de usurpar um dado poder desapossando os seus legítimos detentores do uso desse mesmo poder, fossem eles reis ou magistrados, mas sim de eliminar pela força toda e qualquer oposição. E, de fato, ao contrário de Cípselo, Periandro teria baseado a sua autoridade numa guarda de trezentos porta-lanças (doríforos). Com a força desse poder absoluto, teria posto em prática uma política decididamente antiaristocrática (...) (Mossé, 1984: 173).

Tucídides (I, 13) associa o surgimento das tiranias nas cidades-estados com o início do poderio da Grécia e sua constante preocupação em adquirir riquezas, sublinhando também um fato primordial: os tiranos surgem em cidades-estados ricas e dotadas de uma poderosa armada (Tucídides, I, 17). Alguns têm argumentado que o próprio conceito de tirania não passaria de uma invenção do sec. V, colocado pela primeira vez por Heródoto por conta da História da Grécia arcaica, a fim de fornecer um contexto para a grande disputa entre a liberdade grega e a tirania do rei persa. Em contraste com este modelo de tirano individual, há a percepção de Tucídides a analisar Atenas como uma “cidade tirana”, dando a impressão, segundo δewis, que os tiranos teriam desaparecido da Grécia após 480 a.C. (Lewis, 2006: 5). Assim, sob a influência das formulações de Tucídides, a figura do tirano individual é substituída por uma visão de Atenas como a "cidade tirana”. Segundo Lewis, a tirania se torna um conceito puramente abstrato, em vez de uma possibilidade prática. (Lewis, 2006: 2-6). Mas a tirania não pode ser compreendida olhando-se apenas para Atenas, mas deve haver um ponto de visão mais amplo da dimensão e função de um governo autocrático; a idade dos tiranos, segundo Lewis, traz um modelo sob pressão em várias e diferentes direções no mundo grego (Lewis,

2006: 2-7). Atenas é o ponto de partida para qualquer análise grega, mas não deve ser o único.

A tirania surge como um momento integrante do mundo grego e tem seu lugar na história das cidades-estados da época arcaica. Ao destituir privilégios e penhorar as riquezas da cidade, o tirano remedia de certo modo as desigualdades sociais. Este espírito de comunidade surgido na tirania de Pisístrato esteve manifesto, sobretudo, nas obras públicas erigidas no período e nas Grandes Dionísias instituídas nessa época (Finley, 1963: 39). É nesse período que Atenas tem um novo reordenamento políade, no qual um discurso visual por meio da reestruturação monumental da pólis (Florenzano, 2011) é perceptível. Condilo sintetiza bem as mudanças empreendidas por Pisístrato:

Entre os seus feitos estão a construção de fontes e arquedutos – o que facilitou bastante o suprimento de água fresca na cidade; na Ática foi construído o Altar dos Doze Deuses que passaria a servir como referência para se mensurar as distâncias a partir de um ponto de Atenas; passa a haver um número maior de moedas com motivos cívicos e é no governo de Pisístrato, por exemplo, que a coruja, símbolo associado à Atena, patrona da cidade, surge e se estabelece como efígie permanente das moedas. Ocorre o desenvolvimento da cerâmica e maior produção de estatuetas; desenvolvimento da literatura – é nesse período, por exemplo, que são transcritos os poemas homéricos - do teatro (originado das procissões dos festivais de Dioniso), enfim, o tirano investe em todos os aspectos da cidade e é este incentivo, no caso de Atenas, que vai possibilitar que ela se torne o centro intelectual e artístico por excelência a partir do século V a.C. (Condilo, 2008: 35-6).

O dionisismo e sua utilização pelos tiranos nos mostra uma perspectiva mais global e menos atenocêntrica, se pararmos para pensar que ele nasceu na Ática, mas se difundiu por muitas póleis do mundo grego. O culto, suas festas e a especialização do espaço do deus do vinho, interconectando o elemento rural ao elemento urbano, presentes em algumas póleis do mundo grego nos mostra bem isso. Atenas é um caso singular e alinha-se com a diversidade grega das outras póleis helênicas. Elaine Hirata salienta que

(...) os tiranos nas áreas ditas coloniais instituíram sistemas de representação e legitimação de seu poder político (...) e inscreveram, no espaço político edificações sagradas que funcionaram como claros e duradouros marcos ideológicos, vetores da imbricação entre a religião e a política tão característica do mundo helênico (Hirata, 2010: 162).

Tanto nas áreas coloniais quanto na Grécia os tiranos empreenderam um reordenamento da pólis. Esse é o próximo passo da nossa discussão.

3.3. Um novo reordenamento políade e o discurso visual do tirano