Já é do domínio público que o bilionário Henry Ford manifestou assentimento em relação ao nosso convite de visitar esta capital (Belém), em tempo que ainda não foi determinado146.
Para compreendermos como foi possível a implantação de um investimento milionário da empresa Ford Company em meio à Floresta Amazônica, devemos verificar quais as facilidades que foram disponibilizadas para viabilizar tal projeto.
A documentação referente à gestão do governador Dionysio Ausier Bentes, à frente do Governo do Estado do Pará de 1925 na época, disponibiliza informações importantes que tornam possível compreender como ocorreu a concessão de terras em território brasileiro e, principalmente, permite verificar as relações entre o poder público brasileiro e a Ford Company. A escolha por terras brasileiras, para o empreendimento que tinha como objetivo a exploração do látex, não foi um simples acaso, pois existiu um estudo da área que verificou sua viabilidade de exploração, como anteriormente apontado. Além disso, o desejo dos poderes públicos brasileiros e precisamente os esforços do Governo do Estado do Pará foram os responsáveis por “atrair” os investimentos que deram origem a Fordlândia.
Existiu também interação do consulado brasileiro, presente nos Estados Unidos, com a Ford Comapy, com o objetivo de cuidar dos trâmites legais adotados, para que o empreendimento se concretizasse de fato. Entre os nomes que se destacaram nessa função,
145 GRANDIN, 2010, p. 90.
146 PARÁ, Mensagem Apresentada ao Congresso Legislativo do Estado do Pará em sessão solene de abertura,
temos o inspetor consular Sr. José C. Alves de Lima e os ministros do exterior e da agricultura, Feliz Pacheco e Miguel Calmon, respectivamente.
O contato do inspetor consular José C. Alves de Lima com o governador do estado do Pará, Dionysio Ausier Bentes, através de uma carta oficial147, aborda algumas vantagens que
necessitavam ser oferecidas, além da concessão de terras públicas, para que o negócio com a Ford se concretizasse no Brasil.
A carta acaba por mostrar algumas condições que o estado do Pará deveria oferecer para Ford Company, para que o empreendimento tivesse maior possibilidade de ser implantado em terras paraenses, porque existia a possibilidade, segundo o documento, de que a plantação de árvores de seringueira fosse feita nos Estados Unidos, no estado da Florida, o que seria uma grande desvantagem, de acordo com o autor da carta, não só para a região amazônica, mas para todo o Brasil. Seria uma segunda nacionalização, em terras estrangeiras, da borracha brasileira. Para que isso não ocorresse, dependia inteiramente das vantagens oferecidas pelo governo do estado, para que o empreendimento de Henry Ford acontecesse em terras brasileiras.
A Amazônia não foi a primeira tentativa de plantar a árvore de seringueira pela Ford
Company, visto que Henry Ford tentou empreender uma plantação em seu país de origem, os
Estados Unidos:
Já em 1924, Ford havia pensado em cultivar seringueiras nas “terras sujas” dos Everglades da Florida. Mas boatos de seu interesse pela Flórida levaram especuladores de Detroid a organizar a Florida and Cape Cod Realty Company para comprar e subdividir grandes extensões de terra na cidade de Labelle. “sem dúvidas”, escreve um investigador da Comissão de Valores Mobiliários de Michigan. “Muitos funcionários da Ford serão ludibriados se comprarem lotes com base no suposto experimento do sr. Fod com a borracha”. Mas o projeto não foi muito além de umas poucas plantações para verificar se poderiam ser extraídas quantidades industriais da seiva148(Sic).
Mesmo com o experimento de Ford, no estado da Flórida (EUA), sendo um verdadeiro fracasso, ele disponibilizou os elementos necessários para a criação de certa pressão sobre as autoridades brasileiras, forçando-as, dessa forma, a aceitar as condições impostas pela companhia norte-americana, pois acreditava-se que, em caso de não oferecer as vantagens solicitadas, o investimento poderia “escapar por entre os dedos dos brasileiros”, o que forçaria
147 NEW-YORK. Carta ao governador do Estado do Pará (Brasil) Dionysio Ausier Bentes, José. C. Alves de
Lima - Inspetor Consular do Brasil nos Estados Unidos, 25 de fevereiro de 1925. In PARÁ. Mensagem
Apresentada ao Congresso Legislativo do Estado em sessão solene de abertura, Ed. 2º Reunião da sua 12° legislatura Dionysio Ausier Bentes, 1925, p. 24 – 25.
um investimento nos Estados Unidos ou mesmo em outro local, provavelmente com características tropicais para favorecer o cultivo.
Uma eventual desistência por parte do investidor norte-americano, nesse momento, significaria para o estado do Pará imenso prejuízo, porque existia uma grande estagnação financeira na região, causado principalmente pela crise da borracha que se instalou anos antes, devido à produção asiática, o que derrubou os preços do produto brasileiro.
Entre as vantagens exigidas pela empresa Ford Company, que precederam a sua implantação em terras brasileiras, pode-se encontrar alguns benefícios que chegam a parecer abusivos. Porém, devemos compreender que existia um ligeiro alvoroço, por parte da classe política, em receber na Amazônia uma das empresas que gozava de grande prestígio em nível mundial. Entre os incentivos inicias disponibilizado, por parte do governo brasileiro para a exploração em larga escala da árvore de seringueira a partir de investimentos estrangeiros, pode-se destacar os seguintes:
- concessão de grandes áreas de terras públicas, para a plantação extensiva da árvore de seringueira, entre outras atividades ligadas à indústria;
- diminuição de imposto sobre exportação de 12 % para 3%;
- proibição de criação de novos impostos sobre produtos de cultivo em todos os municípios do estado do Pará;
- facilidade na entrada de mão de obra estrangeira, caso necessário.
Os incentivos disponibilizados para que Henry Ford e sua organização se estabelecessem em terras amazônicas podem ser interpretados como benefícios unilaterais, mas é preciso levar-se em consideração que a ida de uma indústria do porte da Ford Company para a Amazônia significava, para o período, o desenvolvimento e a modernização de que a economia precisava aos olhos dos poderes públicos vigentes:
Henry Ford, pela sua posição especial, única no mundo inteiro, pode; mas não deve dispensar o nosso paiz. Por isso mesmo, para attrahil-o, eu lembraria a v.exc. lhe offerecer, gratuitamente, a maior somma possível de terras públicas, com a condição expressa delle cultivar a nossa hévea nas mesmas. No final de contas, o Pará e o Brasil inteiro lucrariam muitíssimo mais que o próprio Henry Ford149 (Sic).
149 NEW-YORK. Carta ao governador do Estado do Pará (Brasil) Dionysio Ausier Bentes, José. C. Alves de Lima
- Inspetor Consular do Brasil nos Estados Unidos, 25 de fevereiro de 1925. In PARÁ. Mensagem Apresentada ao Congresso Legislativo do Estado em sessão solene de abertura, Ed. 2º Reunião da sua 12° legislatura Dionysio Ausier Bentes, 1925, p. 26.
Além das reduções de impostos fornecidas para as atividades ligadas à produção de produtos cultivados, existia no período uma lei que garantia a todos os investidores nacionais e internacionais concessão de terras no estado do Pará, mediante o capital que seria aplicado no estado. Essa lei foi citada na correspondência entre o governador do Pará, Dionysio Ausier Bentes, e o inspetor consular do Brasil nos Estados Unidos, José. C. Alves de Lima, datada de 26 de maio de 1925, e expedida de forma oficial:
Neste assumpto, o simples conhecimento das leis em vigor, que junto envio a v. s. habilita- o a garantir todos os favores porventura visados. A citada lei n. 1.950, art. 2ª, a) concede dez mil hectares de terras devolutas para cada 100 contos de capital a empregar, o qual foi reduzido para 50 contos pela lei n. 2.174, de 14 de outubro de 1923. Não tem limite e pode ser, conforme o capital, gradualmente ampliada a concessão. A lei n. 2.266, de 14 de novembro de 1.923, concede a Arthur Maria Schindelar e pelo. art. 16 e a quaisquer outras pessoas ou empresa, 700.000 hectares ou 1.000.000 (Art. 6ª) com isenção e todas as facilidades para uma atuação económica intensa150.
Ainda dentro da análise da correspondência do governador do estado do Pará direcionada ao inspetor consular brasileiro nos Estados Unidos, podemos verificar que existiu a intenção de esclarecimento sobre as leis que poderiam beneficiar um possível investimento em terras brasileiras de capital norte-americano. Dessa maneira, podemos afirmar que o caráter das correspondências, por parte do governo brasileiro, era informar que já existiam as vantagens necessárias previstas e amparadas por Lei, tornando o estado do Pará apto a receber investimentos para a exploração da borracha de um modo mais moderno:
“Desta forma, o sr. Henry Ford tem no Pará todas as facilidades para a applicação e desenvolvimento de seu capital e, posso afirmar-lhe, todas as garantias duma terra policiada com governo certo e justiça organizada e respeitada151(Sic).
Muitas vezes a concessão para a Ford Company, na Amazônia, abre precedentes para críticas, até mesmo sobre uma possível ameaça à soberania nacional brasileira. Contudo, as leis que permitiram as concessões de terras destinadas para investimentos estrangeiros já existiam,
150 BELÉM. Carta ao Inspetor consular do Brasil nos Estados Unidos Sr. José. C. Alves de Lima Dionysio Ausier
Bentes, 26 de maio de 1925. In PARÁ. Mensagem Apresentada ao Congresso Legislativo do Estado em sessão solene de abertura, Ed. 2º Reunião da sua 12° legislatura Dionysio Ausier Bentes, 1925, pp. 28 - 29.
ou seja, Henry Ford foi beneficiado por leis já existentes no estado do Pará para o incentivo a indústria.
“Heróis e vilões na Amazônia.”
152As leis que disponibilizavam vantagens para possíveis atividades económicas desenvolvidas em terras amazônicas, sozinhas não foram responsáveis pela escolha do Pará para receber os investimentos de milhões de dólares, com o objetivo de criação de plantações de árvores de seringueiras. Essas atividades seriam coordenadas e desenvolvidas pela empresa norte-americana Ford Company na Amazônia.
Deve-se destacar que o tipo de árvore de seringueira encontrada no Pará, próximo à cidade Santarém (Pará), precisamente na região conhecida como Baixo Amazonas, é de ótima qualidade, tanto que as árvores dessa região serviram como base genética para o processo de aclimatação executado por Henry Wickham na Inglaterra, o qual deu origem às plantações asiáticas nas colônias britânicas, francesas e holandesas153.
Mesmo com a economia da região passando por grave estagnação, muito pela crise da borracha, como já explanado, a notícia da concessão de terras para o empreendimento que pretendia “plantar borracha” na Amazônia não foi recebido como algo positivo por todos. No entanto, a partir de 1927, começam a circular nos jornais notícias sobre as terras adquiridas por Henry Ford, mas envoltas em muita dúvida:
152 A expressão “heróis e vilões” é utilizada na tese de doutoramento intitulada: Heróis a vilões: imagem e
autoimagem dos colonos da Amazônia mato-grossense, 2008, Rosane Duarte Rosa Seluchinesk.
Apesar de existir diversos benefícios previsto em Lei, que acabavam por beneficiar os investimentos que Ford pretendia implantar para a produção de borracha na Amazônia, vale ressaltar que não eram benefícios específicos para o Henry Ford, pois, já eram previstos em Lei, para empresas nacionais e estrangeiras que empregassem capital na Amazônia.
As concessões das terras acabaram por ser bastante complicadas, muito devido à falta de comunicação entre o Estado e a Ford Company. Os envolvidos na negociação, por parte da Ford, acabaram desconhecendo as leis que a beneficiariam, havendo um esforço financeiro que pode ser considerado desnecessário por parte da empresa Ford para adquirir terras no Pará, o que gerou suspeitas de corrupção envolvendo até políticos e famílias tradicionais da região.
Quando se trata das controvérsias que envolveram as obtenções de terras no estado, uma das figuras que se destaca, sem dúvidas, é Jorge Dumont Villares. Ele pertencia a uma tradicional família de São Paulo, mas conhecia bem o Pará, e, mesmo com a crise da borracha, conseguiu prosperar com negociações envolvendo tentativas de reerguer o comércio da borracha na região. Villares era bem conhecido nos ciclos da elite brasileira, principalmente por ser sobrinho do famoso pioneiro da aviação, Alberto Santos Dumont (1873-1932).
Villares acabou por associar-se ao Dr. William Lytler Schurz, responsável técnico da expedição de 1923, que também conhecia bem a região, porque, anos antes, constatou a viabilidade de uma plantação em terras amazônicas a pedido dos governos do Brasil e Estados Unidos.
Figura 10: Notícia sobre a possível concessão de terras a Henry Ford na Amazônia. Fonte: Jornal Pacotilha, 19 de setembro de 1927, p. 1
Schurz era conhecedor de que existia a lei que concedia terras, “principalmente depois das declarações do governador Dyonísio Bentes”154 sobre todos os empreendimentos que
fossem cultivar borracha ou atividades ligadas à indústria no estado do Pará, lei nº 2.226 de 14 de novembro de 1923. Porém, por se tratar de um diplomata norte-americano, não podia solicitar terras em seu nome. A associação com Villares buscou conseguir algum lucro com o desconhecimento das leis estaduais pela Ford Company.
Schurz e Villares tinham informações privilegiadas sobre o interesse da Ford em terras amazônicas para o desenvolvimento de atividades ligadas ao cultivo da árvore de seringueira e, dessa forma, buscaram lucrar o máximo possível com isso. Villares acabou conhecendo Antônio Castro, prefeito de Belém, e Dyonisio Bentes, governador do Pará, por meio de um inglês que morava na capital do estado, Maurice Greite. Os dois governantes, com a promessa de receber uma parcela em dinheiro, garantiram seu total apoio para que o projeto da Ford
Company “aportasse” na Amazônia.
Dyonisio Bentes, governador do estado do Pará, em setembro de 1926, concedeu as terras para Villares, Schurz e Greite, “uma opção sobre pouco mais de 10 milhões de hectares no baixo vale do Tapajós”155. As terras em questão localizavam-se onde Schurz, na expedição
de 1923, constatou como: “viável para o cultivo de árvores de seringueira para a extração do látex”156. Os três “proprietários” tinham três anos para desenvolver a propriedade ou vendê-la.
Ao passar-se esse tempo, caso não tivessem feito nada, a propriedade voltaria para posse do estado do Pará.
Segundo Greg Grandin, no seu livro Fordlândia: ascensão e queda da cidade
esquecida de Henry Ford, Villares, em posse das terras, encontrou com Henry Ford no final do
verão de 1926, em Dearborn (Michigan). Nesse encontro, apresentou as propostas para Ford, caso optasse pelas terras na Amazônia, oferecendo-lhe a oportunidade de explorar ouro, petróleo, madeira e diamantes, além da borracha que seria plantada.
Toda essa especulação exaltando a potencialidade da região, apresentada por Jorge Dumont Villares, fez com que Henry Ford criasse grande expectativa na região, contudo, seguidamente ao encontro com Villares, Ford encaminhou para o Brasil o botânico Carl D. La Rue, do campus de Ann Arbor da Universidade do Michigan, com o objetivo de encontrar uma área favorável para desenvolver as plantações.
154 GRANDIN, 2010, p. 93. 155 Ibidem, 2010, p.94.
LaRue fez parte da equipe da “missão norte-americana na Amazônia”, em 1923, como especialista em Hevea brasiliensis e sua cultura no Oriente157. Veio ao Brasil, em uma segunda
oportunidade, com ordens expressas de verificar um local propício a uma plantação em larga escala da árvore de seringueira, para que, dessa forma, fosse possível à Ford company iniciar suas atividades na região amazônica.
Porém, sabe-se que LaRue supostamente favoreceu, nos resultados conclusivos enviados para os Estados Unidos, terras que foram concedidas pelo governo do Pará para Villares e Schurz, localizadas ao vale do Tapajós. Embora exista evidente favorecimento, que buscou beneficiar as terras que Villares possuía em concessão, não existem provas que indiquem que LaRue recebeu algum tipo de vantagem financeira para fazer as observações positivas sobre elas. Porém, Carl D. LaRue, mesmo sendo um especialista em Hevea
brasiliensis e seu cultivo de modo controlado, não foi de nenhuma forma envolvido nas
plantações de Fordlândia e Belterra desenvolvidas tempos depois.
O relatório de LaRue de 19 de abril de 1927 constatou que as terras às margens do rio Tapajós eram apropriadas para iniciar as atividades de plantação de modo imediato. Esse relatório seria, para Henry Ford, o mais relevante que se tinha sobre estudos da região do Tapajós. Desse modo, pode-se dizer que o estudo contribui para a escolha do local que ocupou o projeto de Fordlândia, mas as conclusões são contestáveis, visto que:
Este fato, bem como o das áreas não serem as melhores disponíveis - uma vez que eram montanhosas, a chuva era muito abundante, o solo não era rico e a navegabilidade era restrita a algumas épocas do ano já expressariam um “mau começo”. Este aspecto montanhoso, referido, na verdade refere-se às diferenças entre terra firme e várzea, sendo que a primeira se constituía de terrenos menos inclinados, o que já não ocorre na segunda158(Sic).
Os dados sobre a produtividade da terra são claramente contestáveis. O que acaba proporcionando desconfiança sobre a natureza de elaboração do relatório sobre a região. LaRue faz a comparação de uma possível plantação na região com o cultivo que ocorria em Sumatra, afirmando que a floresta encontrada às margens do rio Tapajós proporcionaria maior produtividade de borracha, logo, possibilitaria um produto de superior qualidade. Seguidamente observou: “Growth: the growth of the trees should be about the same in both places, but the
Tapajos will undoubtedly prove superior to buy the very best areas in Sumatra”159 (O
157 CARDOSO; HEIZER, 2012, p. 166.
158 LOURENÇO, Elaine. Americanos e caboclos: Encontro e Desencontros em Fordlândia e Belterra, São Paulo:
USP, 1998, p. 27.
crescimento das árvores deve ser o mesmo em ambos os lugares, mas a região do Tapajó, sem dúvida, é superior comparado às melhores áreas de Sumatra).
A questão da navegabilidade da região foi deixada de lado, pois apresentava variações de acordo com as estações do ano, e o rio Tapajós, em certas épocas, tem sua navegabilidade restrita devido ao baixo nível de água, ou seja, a navegabilidade é estreitamente relacionada às estações chuvosas, que elevam o nível do rio. Esse fato foi totalmente negligenciado na elaboração do documento, talvez de modo estratégico.
Também foi motivo de destaque a questão da possível produtividade que a região poderia exercer, principalmente devido ao solo que, nessa região, segundo LaRue, era rico em minerais, o que favorecia uma possível plantação de árvores de seringueira. Porém, sabe-se hoje que o solo da Amazônia, sem sua floresta nativa, apresenta-se muito pobre para atividades ligadas à agricultura. Dentro do tópico – “Yield” (rendimento/produtividade), nota-se que o autor busca esclarecer que a região pode fornecer borracha de melhor qualidade, devido às propriedades do solo: “ [...] the Tapajós area will all be planted in the best way on the best soil
avaliable”160 ([...] a região do Tapajós será toda plantada da melhor maneira possível e no melhor solo disponível). Em síntese, todas as observações sobre a região seriam basicamente convertidas em vantagens no cultivo da Hevea brasiliensis:
160 BRASIL. Report of The Exploration of The Tapajos Valley by: Carl D. LaRue, 1927, p.6.
Figura 11: Trecho do relatório elabora por Carl D. LaRue sobre a região do Tapajós, 1927, p. 6. Fonte: thehenryford.org
Outro elemento utilizado com destaque no relatório foi a pobreza que assolava os trabalhadores envolvidos com as atividades ligadas à extração do látex na floresta, pois ele sabia que a condição humana, de alguma forma, prenderia a atenção de Ford, não por causa nobre ou humanitária, mas pela preocupação de quem desenvolveria os trabalhos em suas plantações na Amazônia:
LaRue ligou de forma explícita a miséria que testemunhou ao sistema de “servidão” pela dívida, que ele sabia que seria de especial interesse para Ford. Ford, nascido no ano que entrou em vigor a Proclamação de Emancipação, gostava de comparar seu sistema salário industrial com o sistema de escravidão (havia sempre uma fronteira porosa entre a maneira pela qual ele via o sul dos Estados Unidos e a Amazônia). LaRue fez o mesmo, ecoando um gênero de proposta de reforma comum na época, que comparava os empobrecidos estados rurais do sul da América (Estados Unidos) com o norte industrializado e prospero161.
A preocupação com a mão de obra por parte da Ford Company se justificava, porque,