No atual contexto político da realidade paraense, pode-se afirmar que o Partido dos Trabalhadores – PT, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB e o Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB são as principais forças exponenciais no Estado do Pará, disputando a adesão, mais ou menos equilibrada, do conjunto da sociedade, com base na concepção e materialização de seus projetos nessa perspectiva.
Isso é decorrente da própria dinamicidade e movimento contraditório da realidade na medida em que, em outras épocas e contextos, nem sempre foi assim, posto que esse quadro começou a se delinear em período recente. Cabendo verificar, por isso, o panorama da década passada, no que interessa, a partir dos anos 1990.
O Estado do Pará possui, atualmente, cento e quarenta e três municípios, isso para uma extensão territorial de 1.253.164,5 km2. Da mesma forma que a magnitude da sua grandeza territorial, comparativamente, são os desafios para o seu processo de desenvolvimento, em face de problemas acumulados e presentes na sua realidade, muitos dos quais, aliás, de gênese histórica enquanto herança, e baseados em um modelo que tem origem desde a época colonial, sobretudo os de feição social, características de uma Região historicamente segregada e alijada do grau de atenção que era dado, por exemplo, às Regiões Sul e Sudeste, estas que sempre usufruíram de acelerado processo de desenvolvimento.
Por conta desse quadro, onde a miséria e o atraso econômico, por exemplo, são seus aspectos acentuados, o Estado sempre foi palco de práticas políticas – como o coronelismo, o paternalismo, o patriarcalismo, o populismo, o clientelismo12 – concebidas como arcaicas e retrógradas, em desacordo do ponto vista de se estabelecer a existência de condições e concepções mais apropriadas para a construção de uma sociedade democrática e autônoma, em contraposição a um modelo calcado em valores, justamente, do que aquelas formas citadas são partes e ilustrações constituintes.
Não por acaso, nesse quadro, o Estado foi palco, politicamente, de governos13 fortes, centralizadores e autoritários, como os de Magalhães Barata, Antônio Lemos (como Prefeito/Intendente de Belém), Hélio da Motta Gueiros e Jáder Barbalho, este último, ainda, em franca e ativa movimentação na política paraense, sendo-lhe uma de suas principais expressões no cenário atual, e mais recentemente Almir Gabriel e Simão Jatene.
12 Para melhor entendimento sobre o assunto, pode-se consultar: Weffort (1980) e Ianni (1975). 13 Sobre os dois primeiros, consultar autores como Souza Júnior (2000) e Sarges (2000).
Historicamente, seguindo a própria realidade e tradição brasileira, as elites locais “acostumaram-se” a se revezar no Poder, mediante um Estado onde o controle da máquina político-administrativa sempre se deu através da bipolarização das elites e setores dominantes locais. Situação esta que começou a ser alterada com o surgimento e crescimento do Partido dos Trabalhadores – PT, identificado, programaticamente, com os estratos mais populares da sociedade paraense14.
Nesse sentido, essas principais forças expressivas da política paraense travaram um primeiro embate eleitoral no pleito de 1990, onde, de um lado, estiveram o PSDB e o PT, através da candidatura de Almir Gabriel, para enfrentar, de outro lado, o PMDB, este na figura de Jáder Barbalho que, no final, foi vitorioso. Contudo, essa hegemonia consegue ser quebrada no processo eleitoral de 1994, com a eleição de Almir Gabriel, que contou com o apoio, em grande medida, implícito e indireto, da militância petista no 2º turno15, que tinha apoiado Ademir Andrade (PSB) no primeiro turno.
A partir deste momento (em 1995), e em consonância com o próprio espectro político nacional, o PSDB ascende à hegemonia do processo político, em nível nacional e estadual, com Fernando Henrique Cardoso, Almir Gabriel e Simão Jatene (estes últimos em linha de sucessão estadual). No Pará, inaugurou-se, assim, um período político conhecido como “Novo Pará”, que perduraria por doze anos, a partir de onde, em 2007, o Partido dos Trabalhadores – PT passou a ocupar a hegemonia da vida política paraense, com a assunção da sua candidatura, Ana Júlia Carepa, vitoriosa nas eleições de 2006.
Entretanto, cabe assinalar que o “Novo Pará”constitui o período referido onde interessa analisar a política de formação continuada de professores, associada às políticas públicas educacionais estabelecidas à época. Escolha que se justifica por sua correspondência com o processo de reforma do Estado, oriundo do ajuste neoliberal de que se reveste o sistema estrutural vigente, referenciado ao longo deste texto.
Em síntese, de forma correspondente com o discurso emanado e levado às suas conseqüências em nível nacional (com Fernando Henrique Cardoso – FHC), o “Novo Pará” será o instrumento ou depositário das mudanças propagadas em tempos neoliberais, mediante o seu processo de globalização, e que, no Estado do Pará, começou a ser fertilizada pelos referidos governantes, em alusão ao fato de que será o próprio PSDB, em nível nacional, o
14 Conferir: PETIT, Pere. A esperança equilibrista: a trajetória do PT no Pará. Belém: Editorial Boitempo, 1996.
15 Em reunião sobre o assunto, após o 1º turno, o Conselho Deliberativo (Diretório Regional) do Partido decidiu pela “liberação” da militância para tal, atitude que propiciou a que boa parte da mesma recomendasse o voto em Almir Gabriel.
núcleo político-ideológico e efetivo dessa concepção que assinala um movimento de ruptura com a visão do Estado do Bem-Estar Social, de grande predominância até aquele momento, em âmbito mundial, cujo declínio remonta desde a década de 1970.
Dessa forma, o “Novo Pará”, a partir da eleição de Almir Gabriel, em 1995, assinala, marcadamente, um movimento de diferenciação e ruptura com o Governo anterior, de Jáder Barbalho. Demonstração com essa finalidade pode ser encontrada, por exemplo, na “Mensagem do Governo do Pará à Assembléia Legislativa” (PARÁ, 1999a, p. 12), onde, ao tecer um balanço da sua 1ª Gestão (1995-1998), o Governador faz referência ao “quadro de desgoverno” ou “a degradação progressiva do aparelho de Estado” (PARÁ, 1999a, p. 25), associando-o com o desempenho do governo passado.
Além disso, o Documento enumera vários itens como remanescentes e herdados da gestão passada: extensa dívida recebida (aproximadamente R$324 milhões); sucateamento de obras; colapso no sistema de energia; desaparelhamento da rede de saúde; “aluno-jacaré como expressão paradigmática da educação”; situação crítica das empresas estatais. Ainda na mesma linha denunciativa, o Documento vincula esse quadro descrito ao “histórico perfil patrimonialista” (PARÁ, 1999a, p. 23) presente no Pará, portanto, com a conivência dos governos que, até então, o conduziram.
Depois, e com base no diagnóstico apresentado, Almir Gabriel, na verdade, vai propugnar e ressaltar a emergência de um novo ciclo na história da política paraense, consubstanciado, agora, no que denomina de “Novo Pará”. Posteriormente, em documento de idêntica finalidade, (PARÁ, 2003. p. 11), assinalando o início da sua gestão à frente do Estado, o Governador Simão Jatene reitera o mesmo discurso, a mesma concepção. Portanto, em linha de continuidade com o projeto que fora anunciado por seu antecessor e em íntima consonância com a sua gestão.
Entretanto, o “Novo Pará” não somente correspondeu a um ciclo no sentido cronológico e linear da história (política) paraense. Além disso, foi, também, a explicitação de uma nova visão e concepção de lidar com o Estado e a coisa pública.
Desta vez, em estreita correspondência, e em função do reordenamento estrutural de que se revestia o sistema vigente, em âmbito internacional, capitaneado pelo processo de globalização, cujos reflexos se coadunaram com a visão neoliberal, a partir de onde emanou, no Brasil, a reforma do Estado, sob a gestão, em nível nacional, do Presidente Fernando Henrique Cardoso e com ressonância em nível da unidade federativa do Estado do Pará, nomeadamente, Almir Gabriel e Simão Jatene, que, assim, se pronunciaram em perfeita sintonia.
Se, em âmbito nacional, Fernando Henrique Cardoso deu conseqüência e efetividade ao ideário neoliberal, no início da década de 1990, consoante o processo de Reforma do Estado, tendo criado para tal, inclusive, um órgão específico, o Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE)16, responsável pela elaboração do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado (PDRE), concomitante, no âmbito estadual, Almir Gabriel faz ressonância ao mesmo discurso, em perfeita harmonia, ao falar dos objetivos do seu governo, enfatizando:
A reforma e a modernização do Estado, com o objetivo de aumentar sua eficiência, fortalecer os instrumentos de gestão e consolidar as bases da cidadania, determinaram a redefinição das competências entre as esferas de governo e a reorganização do aparelho estatal, exigindo fortes mecanismos de redução de despesas e ajuste fiscal, bem como a revisão do próprio papel do Estado, levando-o à privatização de setores básicos para o desenvolvimento econômico (PARÁ, 1999a, p. 23).
Recorre-se aos mesmos termos – reforma, eficiência, competências, redução, ajuste,
papel do Estado, privatização –, próprios ao discurso neoliberalizante, como forma de dar
substância conceptual ao que se tem em vista realizar à frente do Governo do Estado, assim, no “rastro” com o que já vinha ocorrendo em nível mais abrangente, reflexo da sua onda.
Idéia que é referendada por seu sucessor, Simão Jatene, em 2003, ao assinalar a diferença do “Novo Pará” em relação aos demais não alinhados com o mesmo, afirmando que: “Implantar um novo padrão gerencial voltado aos processos de descentralização e gestão das políticas públicas, esse era o objetivo maior do Governo do Estado ao alterar seu modelo de gestão” (PARÁ, 2003, p. 24).
Foi o “Novo Pará”, assim, constituído em pólo irradiador, no que tange à realidade estadual, do processo de reforma que já se operava em escala mais ampla, primordialmente, a partir da esfera econômica, impulsionada pelo mercado, mas que se espraiaria para outras áreas, como a educação, mediante o estabelecimento de políticas públicas concernentes a esse campo.
Ainda em 1999, no início da sua segunda gestão (que se estenderia até 2002), o governador Almir Gabriel enfatizou acerca da importância das “medidas institucionais e administrativas sob a égide rigorosa da racionalidade e da eficiência” (PARÁ, 1999a, p. 13). Diretriz essa que foi impressa, paulatinamente, no âmbito de sua política educacional.
16 Criado em 1995, através da transformação da Secretaria da Administração Federal no referido Ministério, tendo como titular Luiz Carlos Bresser Pereira.
Vale assinalar, entretanto, que a preocupação com a educação, sobretudo em seu aspecto escolar, é característica histórica que remonta desde a época moderna, quando surge o interesse por essa modalidade educativa, sob os auspícios dos ideais universais (Liberdade, Fraternidade e Igualdade), difundidos pela Revolução Francesa, ocorrida no final do século XVIII(1789).
Daí em diante, a educação, a ênfase no seu desenvolvimento, frequentemente, tem sido foco dos discursos difundidos em sociedades, nos diversos e múltiplos espaços-temporais. O Estado do Pará, assim, não foge à regra, principalmente por fazer parte de uma Região, onde os índices de baixa qualidade educacional são acentuados, em correspondência com as desigualdades econômicas e regionais existentes, assim, sendo palco permanente de um discurso alusivo à melhoria da educação, como característica dos seus sucessivos governos, embora isso, quase sempre, não passe de simples retórica.
Nesse sentido, antes mesmo do “Novo Pará”, o documento intitulado “Plano Decenal
de Educação para Todos (1993-2003)”, formulado sob o governo de Jader Barbalho, já fazia
referências, em sua introdução, ao quadro dramático da educação no Estado, citando, por exemplo, “os altos dados de evasão escolar, de repetência e o baixo nível de aprendizado do Ensino Fundamental” (PARÁ, 1993, p. 11) e anunciava a necessidade e premência de “construção de uma escola de qualidade total [...] com conhecimentos úteis, habilidades de raciocínio, aptidões e valores” (PARÁ, 1993, p. 12).
E um dos obstáculos, no Pará, que essa proposta deveria dar conta seria, enquanto diagnóstico, a “inexistência de uma política de comprometimento com as questões do magistério, no que diz respeito a sistema de formação, capacitação e melhoria das condições de trabalho docente.” (PARÁ, 1993, p. 11). Do que se infere, consequentemente, o grau de atenção que deverá (ou deveria) ser objeto a formação docente.
Já se percebe no presente documento o discurso da “qualidade total”, máxima de muita proeminência no âmbito educacional ainda naquele período inicial dos anos de 1990, como se pode identificar nos documentos e discursos emanados à época, mas que o Neoliberalismo, em franca expansão globalizante, se encarregaria de redimensionar assentado na reforma do Estado, mediante um novo discurso tal qual já enunciado pelos governos de Almir Gabriel e Simão Jatene.
Com estes gestores públicos, as premissas da redução, do ajuste, da eficiência, da
competência, da privatização, da reforma, do padrão gerencial e de outros congêneres,
delinearão e conformarão as ações do Estado, do que a área educacional estará em estreita correspondência. Contudo, vale acentuar o nível de continuidade, no que tange à preocupação
com a educação, por parte dos distintos governos paraenses, em linha de seqüência, provavelmente, com estratégias diferentes, porém, valendo-se do mesmo e sutil exercício lingüístico, no interesse pragmático, mediante um vocabulário que ressignifica conceitos, inverte termos e sinais, de modo a torná-los convenientes a seus paradigmas (SHIROMA, 2004).