5.3 Drøfting av resultater
5.3.3 Personlige forhold
Na cultura portuguesa a fábula poética sobrepôs-se nitidamente à fábula tradicio- nal, embora esta última tenha tido alguma expressão nos livros de leitura do Estado Novo, tão cioso dos temas e formas nacionais. Os animais, protagonistas, reduzem-se tendo em conta dois factores complementares, a sua densidade simbólica e a sua expressividade poética e narrativa.
A densidade simbólica cristaliza-se em torno dos mamíferos predadores, a raposa e o lobo, que se tornaram paradigma de toda a luta civilizacional, a luta da luz contra as trevas, a luta da frágil existência contra as forças brutas da natureza e do caos, a luta da inteligência contra a arrogância da ignorância. A vitória do engenho e da arte actua- liza, a seu modo, o mito de Prometeu. A raposa é a verdadeira conquistadora do fogo. Ela é fundadora da sociedade tecnológica e preside ao percurso libertador da humani- dade. O lobo é metáfora das forças irracionais, sem os constrangimentos sociais, liber- dade bruta, associada às forças do inconsciente. A intensidade com que deseja preser-
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var o seu poder absoluto e a sua auto-satisfação, impede-o de se adaptar, de aprender de se desenvolver e de crescer, isto é de sobreviver. (A sua extinção não terá sido fruto de um exorcismo colectivo?)
Pesquisas dos nossos alunos identificaram a fábula A Cigarra e a Formiga como a mais representada nos livros de leitura dos quatro primeiros anos de escolaridade pos- teriores ao 25 de Abril, confirmando a sua popularidade nos livros escolares por nós pesquisados (Pereira, 2003). A Formiga e a Pomba, A Raposa e o Lobo, A Cegonha e a
Raposa, O Velho, o Rapaz e o Burro são as que encontraram em pelo menos três livros
de leitura num total de quarenta e dois consultados. Num inquérito que realizámos a cinquenta e dois alunos, a fábula A Raposa e a Cegonha era a que estava na memória do maior número deles. Seguiam-se-lhe A Lebre e a Tartaruga, A Cigarra e a Formiga, A
Raposa e o Corvo, O Rato e o Leão, A Raposa e as Uvas, A Formiga e a Pomba, O Lobo e o Cordeiro, O Rato da Cidade e o Rato do Campo e para terminar O Boi e a Rã. As outras
não foram referidas em número suficientemente significativo.
A formiga será sempre uma metáfora do trabalho, da economia do esforço, da humil- dade e da gentileza, enquanto imperativos estruturantes de qualquer sociedade humana, democrática, que preze a produção da riqueza e a solidariedade social. O rato é o símbolo da solidariedade entre humildes e poderosos, isto é, da harmonia social. A tartaruga elo- gia a perseverança, a paciência e o espírito de sobrevivência relacionado com os valores de resistência e de vitória sobre si próprio. Coloca o conceito de relatividade no interior do próprio pensamento científico. A velocidade, relação entre matéria, espaço e tempo, afirma-se como dependente do próprio universo em que ocorre a deslocação. O esforço e o mérito são relativos, princípio fundamental da educação e das sociedades modernas.
Em cada fábula ecoa a voz do povo: «Quem não trabuca não manduca», «Quem tudo quer, tudo perde», «Devagar se vai ao longe», «Quem muito fala, pouco acerta», «Quem te avisa, teu amigo é», «Cá se fazem, cá se pagam», «Há mas são verdes (que as madu- ras já se comeram)», «Quem desdenha, quer comprar», «Não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti», «Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar», «O que verga não quebra», «Palavras loucas, orelhas moucas», «Dá Deus nozes a quem não tem dentes», «Quando a esmola é demais o pobre desconfia», «Mais vale pobre e honrado do que rico e deformado», «É mais que tolo aquele que dá ao mundo satisfações»...
O núcleo duro do nosso imaginário «fabulístico» valoriza o trabalho, a persistên- cia, a coragem, a solidariedade, a liberdade, a capacidade de adaptação, a generosidade e o reconhecimento; a inteligência, a perspicácia, a astúcia, a segurança e a indepen- dência. A cobiça, a cobardia, a inveja, o desrespeito, o desdém, a traição, a vaidade, a ignorância, a humilhação, a tirania, a insegurança são os valores mais reprováveis e mais reprovados.
As diversas ocorrências «fabulísticas», das mais eruditas, às mais populares, das mais sérias às mais jocosas, das mais didácticas às mais recreativas, todas confirmam o
género como um género alegórico com uma profunda relação com a sabedoria tradicio- nal; um género narrativo que, ao contar, reactiva arcaicas experiências de vivências simbólicas, das mais libertadoras às mais redutoras.
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Resumo: Este estudo pretende evidenciar as características específicas e originais da fábula
enquanto género literário. Apresentamos a evolução do conceito referindo alguns dos períodos mais significativos da nossa cultura ocidental, o período clássico, a idade média e o renascimento. A reflexão de La Fontaine e o intenso debate posterior contri- buíram para a emergência de uma consciência cultural comum. Apresentamos também uma análise e uma interpretação mitocrítica das características formais e ideológicas da fábula enquanto género alegórico. Referimos algumas das fábulas mais conhecidas e recorrentes em Portugal, as suas morais e as conotações culturais dos seus principais protagonistas. A investigação relaciona a fábula com outros géneros alegóricos e com a forma mais tradicional da cultura popular: o provérbio.
Abstract: The purpose of this paper is to outline the original and distinctive characteristics
of the fable as a literary genre. We review the development of the fable concept, refe- rring to some fundamental stages in Western culture, specifically focussing on the Greek, Medieval and Renaissance periods. La Fontaine’s interpretation of the fable and the ensuing intense literary debate contributed to the emergence of a common European cultural consciousness. We develop here an analysis and interpretation of the formal and ideological specificity of the fable as an allegorical genre, using critical myth analysis and interpretation methods. This study also presents some of the most popular fables in Portugal, their moral lessons and the cultural connotations of their main characters. The research connects the fable with other allegorical genres and the most traditional and popular form: the proverb.
Palabras-claves: fábula latina, Progymnasmata, fábula «El lobo (león) y el perro». Keywords: Latin fable, progymnasmata, the wolf (lion) and the dog.
1. Introducción
Las certeras palabras de uno de los estudiosos de la fábula antigua grecolatina bien nos pueden servir de introducción a estas líneas:
Pocos géneros literarios, si es que existe alguno, presentan una mayor continuidad a lo largo de su historia que la fábula, desde Sumeria hasta nuestros días. Ha pasado de literatura en literatura, de lengua en lengua, produciendo incesantes derivaciones, imitaciones, recreaciones. Siempre igual y siempre diferente, ha absorbido religiones, filosofías y culturas diversas, a las que ha servido de expresión. Pero también de contraste, pues la fábula ha comportado siempre un elemento de crítica, realismo y popularismo...Y es que la fábula es un género popular y tradicional, esencialmente «abierto», que vive en infinitas variantes, como tantos otros géneros populares. Los mismos copistas de los manuscritos se creen autorizados a introducir variantes intencionadas de contenido, estilo o lengua. Hay infinitas contaminaciones, prosificaciones, versificaciones. Las fábulas pasan de los ejemplos sueltos a las colecciones y al revés, indefinidamente. Y las colecciones aumentan o disminuyen su material, se escinden, etc.... Para los cínicos la fábula era un arma al tiempo de enseñanza y de ataque, mezcla de serio y de broma. Pero luego la fábula volvió a prosificarse, en medio de un pulular de redacciones múltiples, moralizándose y usándose en la enseñanza en general, no sólo por parte de los cínicos, sino en las escuelas (Rodríguez Adrados, 1979: 11-12).