A prática da tatuagem, historicamente, no mundo ocidental, esteve associada ao estigma (GOFFMAN, 1998) e era atribuído o rótulo de desviante (BECKER, 2008) a quem a possuía. Estava fora dos padrões corporais, estéticos, médicos e jurídicos estabelecidos. Todavia, a partir dos anos 1980, o corpo ganhou visibilidade, reflexo da estetização da vida cotidiana (FEATHERSTONE, 1995), incluindo o movimento da body art, e das preocupações biopolíticas modernas.
Nesse contexto, a tatuagem se insere nos processo de: profissionalização, com a criação de uma máquina elétrica mais precisa; comercialização, com o estabelecimento dos estúdios e das lojas; higienização (COSTA, 2007) e medicalização (BRAZ, 2006), em que a preocupação com assepsia se tornou parte do processo; regulamentação e normatização do campo; e artificação (SHAPIRO, 2007) da prática, que passou a ser concebida como uma forma de arte. Há uma ênfase crescente nos procedimentos de cuidados corporais, médicos, higiênicos e estéticos na prática.
A tatuagem tornou-se uma forma de expressão das identidades dos sujeitos, marcando individualidades e trazendo em si identificações e diferenças. Os sujeitos atribuem significados às suas tatuagens, contando uma narrativa biográfica sobre si. Ao registrar no corpo momentos, lembranças, sentimentos e sensações, atua como uma memória na pele. Além de marcar ocasiões especiais da biografia do sujeito, as imagens podem homenagear, atrair sentimentos, expressar uma visão de mundo ou o gosto por algo, simbolizar algo que o sujeito se identifique, ser uma forma de se incluir em um determinado grupo ou, exclusivamente, adornar o corpo.
As tatuagens podem ser significadas e ressignificadas conforme o contexto social ou a biografia do sujeito. Entretanto, independente do motivo e do significado que a imagem carrega, a produção estética persiste. As construções corporais e estéticas tornam-se expressões de si.
Simultaneamente, os desenhos são rotulados pelos/as tatuadores/as sãocarlenses. A diferença entre “comercial” e “artística”, mais do que classificar identidades, é uma forma de buscar a legitimação da tatuagem enquanto arte. Apesar dos/as tatuadores/as referirem-se à personalidade do cliente, há uma disputa em que eles/as objetivam, ao hierarquizar, ter reconhecimento como artista e ser capaz de fazer obras originais, já que nem toda tatuagem é considerada artística.
Nesse contexto, a falta de criatividade e a reprodução da tatuagem “comercial” são desvalorizadas em favor da singularidade e originalidade dos/as tatuadores/as que buscam o estatuto de artista. Assim, essa diferença objetiva garantir legitimidades e estabelecer hierarquias dentro do campo das modificações corporais, reivindicando que a prática seja vista como arte e dissociando-a da marginalidade.
Ora, os sujeitos são corporificados e o corpo é visto como um espaço de gestão de identidades. A marca corporal é uma forma de expressão que contribui na construção do eu. Na Modernidade, o corpo deixa de ser instrumento e torna-se um objeto maleável ou uma forma provisória. A administração dele permite a construção de uma identidade, que é exteriorizada e materializada. Modificá-lo reflete sua autonomia e a expressão do eu.
A tatuagem é negociada na criação de uma imagem de si. Fazer uma tatuagem, como uma forma de modificar o corpo, pode afirmar a apresentação e representação da identidade do sujeito. É a possibilidade de construir um processo identitário que não define identidades necessariamente permanentes, mas permite criar uma narrativa biográfica sobre si mesmo. Já que ao modificar seu corpo e afirmar sua singularidade e sua diferença, o sujeito acaba por afirmar sua identidade, mesmo que de forma fragmentada e provisória.
Entretanto, sujeitos são agentes com escolhas limitadas. Constituídos discursivamente e historicamente, são resultado de um contexto social. Os padrões estéticos denunciam as posições assumidas pelos sujeitos e traduzem sua identidade. Eles mostram como o sujeito quer ser, sua compreensão de beleza e com quem quer e pode se relacionar. A partir da estética, diferenças são acionadas.
As posições geracionais, raciais, de classe e de gênero são reverberadas nos processos de identidade, identificação e diferença por meio das tatuagens. Assim, as diversas posições assumidas pelos sujeitos são negociadas na forma como a tatuagem é feita. Elas podem ser reiteradas e reafirmadas, apesar das possibilidades de questionamento. A forma como a tatuagem é realizada pode ser influenciada pela interseccionalidade de posições dos sujeitos.
Essas diferenças se tornaram mais visíveis pela observação nos três estúdios, que permitiram o contato com sujeitos de distintas posicionalidades. Com relação à geração, a escolha (entre impulsividade e planejamento) e local do desenho (entre mostrar e esconder) mostram a forma como a tatuagem é concebida por diferentes faixas etárias. As diferenças de gênero são conectadas ao tipo de desenho e ao local tatuado, reafirmando padrões de
feminilidade e masculinidade, normalmente heteronormativos. Já em relação à raça, há uma tendência de desqualificar a pele negra e racializá-la como uma pele que não está apta para receber tintas coloridas. Sobre classe, diferenças estéticas são as mais visíveis, em que um traço fino e definido é valorizado nas classes mais altas, que tem acesso a tecnologias e técnicas. Dessa forma, percebe-se que os corpos tatuados são corpos políticos e racializados.
Quando tudo é transitório, a tatuagem é para a vida. A marca corporal talvez seja uma tentativa de ancorar uma identidade, ao reforçar as posições do sujeito e naturalizar as diferenças. Contudo, a estabilização nunca é completa. O sujeito se mantém em um processo de transformação e mudanças.
Minha tese é de que a permanência da marca corporal não pode ser associada a um significado fixo. Como demonstrado, o significado pode variar conforme as posições assumidas pelos sujeitos, suas identificações e sua biografia. Da mesma forma que as identidades são fluidas, os significados e a forma como o sujeito significa sua tatuagem podem ser flexíveis.
O processo de construção de identidade, conforme Silva (2008), oscila entre a tendência de fixar identidades e de subvertê-las ou desestabilizá-las. Não é possível afirmar uma identidade de forma essencializada, principalmente a partir de um desenho, considerando que o significado iconográfico é construído na relação. Por mais que a tatuagem seja permanente, não há uma fixação, mas sim uma plasticidade dos significados.
Ademais, o corpo e a identidade são produzidos performativamente. Atos e gestos performativos conferem materialidade aos corpos. Butler (2002) aponta para a capacidade de questionamento da performatividade, pensando os corpos como uma matéria moldada que pode ser transformada. Tatuar-se é um ato perfomativo e apresenta um caráter transgressor quando os sujeitos fazem tatuagens não esperadas, considerando suas posições.
O corpo é negociado na construção e na administração da identidade. A aparência do corpo tornou-se central às noções de identidade, enquanto o “corpo é central para a experiência do eu” (ORTEGA, 2008; 42). O essencial é visível para os olhos . A tatuagem, 30
enquanto símbolo de identificações e diferenças, é negociada na construção de identidades, acionando tecnologias do eu (FOUCAULT, 1990).
No livro “O pequeno príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry, a raposa diz ao príncipe: “O essencial é invisível 30