A primeira tentativa castelhana de conquista e colonização do Atlântico deu-se nas Ilhas Canárias que, antes de serem ocupadas nas décadas de 1480 e 1490, logo se tornaram objeto de grande disputa entre Portugal e Castela, na guerra da sucessão iniciada em 1475. Esse arquipélago, além de representar um excelente potencial exploratório em si mesmo, inspirava, aos castelhanos, sonhos de incursões à Costa Africana e ao Mar Atlântico, a exemplo dos portugueses.
Para viabilizar, no entanto, projetos dessa magnitude, foi preciso pôr em ação bem mais do que os insuficientes recursos da coroa de Castela. Na leitura de Elliott (1998), a ocupação das Canárias, como etapa inicial da empresa colonial espanhola, ilustrou, com perfeição, a aproximação dos interesses públicos e privados que já haviam caracterizado o sucesso castelhano nas guerras da reconquista do século XV. Diante dos desafios da conquista ultramarina, poderosos mercadores europeus associaram-se aos planos reais de Castela numa conjunção de forças que marcou, segundo Elliott (1998), as bases do estado moderno e do emergente capitalismo comercial. Boa parte do financiamento que garantiu as condições materiais necessárias à conquista da América foi garantida por influentes companhias genovesas e sevilhanas, na leitura de Elliott (1998).
Por outro lado, para assegurar o interesse real, conforme explicita Elliott (1998), eram assinados contratos formais, as capitulaciones, entre os comandantes das expedições e a coroa castelhana, pelos quais se reservava o direito da coroa sobre os territórios conquistados ao mesmo tempo em que se afiançavam, aos comandantes e
seus financiadores, privilégios e recompensas específicas. Nesse contexto, o genovês Cristóvão Colombo (1448-1506) persuadiu os Reis Católicos a patrocinarem sua primeira expedição em 1491. Nas capitulaciones assinadas com Fernando e Isabel, em 1492, Colombo foi autorizado a conquistar ilhas e territórios continentais no Mar Oceano e, em contrapartida, foi nomeado vice-rei e governador hereditário de todas as terras que viessem a ser descobertas nessa primeira expedição. Estava, ainda, sob o direito do almirante, designar funcionários judiciais nas áreas de sua jurisdição e usufruir de dez por cento dos lucros do escambo e do comércio por ele realizado.
Quando Colombo retornou dessa campanha inicial, em março de 1493, a coroa castelhana viu-se impelida a formalizar certas alterações no contrato original firmado com o explorador genovês. Informações inéditas sobre novas ilhas e novos povos compeliram os Reis Católicos a reconsiderarem o problema da conquista: como tratar as terras recém-descobertas? Colonizar ou simplesmente extrair delas todas as riquezas possíveis sem posse efetiva dos territórios? Quais estratégias utilizar com as populações indígenas?
A segunda viagem de Colombo, pelo que informa Elliott (1998), em 1943, fundou Hispaniola, a primeira tentativa concreta de colonização das lhas Canárias. O sonho maior dos homens de Colombo, nessa fase inicial da conquista, era o enriquecimento fácil, imediato. Ansiavam obter ouro em grandes quantidades a partir do simples escambo com os índios. Mas essa esperança frustrou-se rapidamente e Colombo viu-se numa posição difícil para justificar os investimentos feitos com Castela. O explorador apelou, então, para uma saída que lhe pareceu coerente: enviar índios caraíbas, para a coroa castelhana, como escravos.
A decisão de Colombo, mais uma vez, reposicionou o problema gerado pela conquista: que fazer com a população indígena de além-mar? Sabemos que, segundo as
prescrições do Direito Romano, qualquer “bárbaro”, tomado aqui como “estrangeiro”, podia ser escravizado normalmente. Na Idade Média, “bárbaro” era concebido, muitas vezes, como “infiel”. A situação nova desencadeada por Colombo pedia uma nova interpretação. Em 1500, Isabel, influenciada por ilustres teólogos da época, principalmente pelo seu confessor, o franciscano Jiménez de Cisneros (1436-1517), declarou que os índios eram livres e, portanto, não podiam e não deviam ser escravizados. O raciocínio era o seguinte: “bárbaros” podem ser escravizados porque rejeitam a fé cristã, são infiéis por opção. Os índios não são infiéis, são pagãos, à medida que desconhecem totalmente os preceitos do evangelho. Portanto, não devem ser escravizados, devem ser convertidos à fé e à “verdade” cristã.
Dessa maneira, Roma assumiu, na fase insular da colonização, um papel decisivo para o sucesso da conquista: colonizar a terra é converter seus habitantes nativos, como afirma Francisco López de Gómara (1511?-1566?), citado na epígrafe deste capítulo.
Entretanto, de acordo com o que afirma Elliott (1998), essa deliberação da coroa castelhana não era nem segura nem simples. Em 1503, os Reis Católicos permitiram que Nicolás de Ovando (1460-1518) utilizasse mão-de-obra indígena para trabalhos nas minas e nos campos de Hispaniola. Ovando, nomeado governador de Hispaniola em 1501, recebeu a difícil tarefa de reconstituir o equilíbrio da região, desestabilizada por uma população de colonos em conflito, dada a escassez de alimentos e de mão-de-obra. O assim chamado repartimiento viabilizava a distribuição de indígenas como força de trabalho nas lavouras e nas minas e exigia que os colonos beneficiários protegessem e instruíssem na fé os índios postos a seu dispor. Em conseqüência do repartimiento, surgiram as encomiendas, com características muito diferentes das costumeiras
terras aos colonos, que se tornavam meros depositários (encomenderos) de uma concessão estatal que incluía terras e reserva de mão-de-obra indígena.
Embora responsáveis pelo bem-estar e pela conversão dos índios que lhes cabiam por outorga real, os encomenderos, na maior parte dos casos, submetiam os indígenas a condições desumanas extremas. Também por isso, Hispaniola, depois de assistir a um suposto avanço dos objetivos coloniais europeus, mergulhou em profunda desordem social causada, sobretudo, pela crise demográfica que atingira as populações indígenas locais.
Os índios, expostos a todo tipo de desvarios, morriam por trabalhos excessivos, por maus tratos sistemáticos e, principalmente, por doenças diversas, trazidas pelos invasores, para as quais a população nativa não dispunha de proteção imunológica alguma. Em 20 anos, conforme assinala Elliott (1998), a primeira experiência colonizadora no Novo Mundo sucumbia mediante a escassez de alimentos e mão-de- obra. Hispaniola, o grande laboratório espanhol que guiaria a empresa da conquista americana no continente, não resistiu à violência e à presença dos colonizadores castelhanos. Outros índios, de outros povos que habitavam ilhas vizinhas, eram levados para a ilha, numa tentativa desesperada de pôr fim ao dilema. Mas todas as estratégias eram rapidamente frustradas e as mortes permaneciam em escala crescente.