• No results found

Personal development of younger school generation

As seis categorias ou correntes teóricas apontadas por Miège caracterizam o cenário em que hoje estariam concentradas, então, as mais importantes formulações acerca dos estudos comunicacionais. Embora não seja nosso objetivo aqui apresentar minuciosa descrição de cada contribuição, isto é, de cada escola ou projeto filosófico, ficará claro, a partir das escolhas metodológicas e encaminhamentos teóricos, que nossa análise acaba por se aproximar desta ou daquela tradição reflexiva. De qualquer forma, para evitar maior dispersão em torno da abordagem descritiva das diversas escolas e conceitos, gostaríamos de chamar atenção para um aspecto que não apenas perpassa boa parte dessas escolas, mas que, nos parece, acaba por reunir em seu bojo os traços responsáveis pela especificidade dessa disciplina cuja natureza científica diz-se embrionária. Diferente da análise descritiva da comunicação, como foi pensada pelas diferentes escolas ao longo da história, trabalho, aliás, de grande valor, seria preciso avançar nos marcos interpretativos que, então, possam vir a contribuir, em nosso entendimento, no sentido de avançar na constituição da especificidade comunicacional. Dito de outra maneira, trata-se, pois, de apontar para hipóteses de trabalho cujos temas possam reunir, de alguma forma, parte dessas produções, diluindo a dispersão que as caracteriza. Aqui, então, gostaríamos de oferecer nossa contribuição.

O aspecto em questão diz respeito, propriamente, à técnica moderna como fundamento de uma episteme comunicacional. Trata-se da nomeação, como hipótese de trabalho, do aspecto que nos parece não apenas fundar diversas teorias e tradições filosóficas em comunicação, mas que, efetivamente, surge como marco identitário do campo. Se a sociedade de massa aponta para o contexto histórico em que se compreendem as condições de aparecimento das primeiras teorias tidas como pioneiras em comunicação social, ou seja, o modo pelo qual a comunicação realiza sua demarcação histórica enquanto

prática social e, posteriormente, área do saber, a comunicação de massa constitui o próprio crivo epistêmico em torno do qual se realiza a demarcação da especificidade comunicacional. Significa dizer que, se levamos em consideração as palavras de Venício Lima de que tratar-se-ia dos estudos que aparecem na modernidade tardia “e que se distinguem da comunicação humana stricto sensu pelo uso de tecnologias específicas e pelo aparecimento de instituições (e que) contemporaneamente (...) se convencionou chamar meios de comunicação de massa (mass media) ou mídia”,188 duas questões, então, devem ser assinaladas aí. A primeira aponta para a especificidade dos estudos de comunicação como aqueles denominados estudos de mídia, isto é, não se trata de qualquer modalidade de comunicação oral, gestual, escrita ou imagética, mas daquela que encontra sua particularidade no conceito de mídia. Nesse caso, trata-se do processo cuja particularidade encontra na necessidade de agregar ao problema da mediação social, os desdobramentos colocados pelos aparatos tecnológicos, ou seja, da imprescindível compreensão provocada pelo engendramento entre as inovações técnicas e mediações simbólicas, espécie de hibridização social, responsável, então, pela produção de novas dinâmicas sociais, pelo que se pode chamar de tecnointerações.189 Segundo Rubim, trata-se de compreender a comunicação

mediada necessariamente por um aparato sóciotecnologico que requer uma peculiar organização e uma tecnologia determinada, implicando a fixação do lugar do falante e do ouvinte, a formatação das “massas” em patamar singularmente comunicacional e a existência de um trabalho coletivizado e especializado, portanto, de uma modalidade bastante distinta da comunicação interpessoal, de sua natural “espontaneidade”e “intercambialidade”. Em verdade, a emergência da comunicação midiatizada a partir de meados no século inaugura toda uma nova e distinta problemática na área da comunicação. 190

A segunda questão aparece como conseqüência direta da primeira. Em se tratando dos estudos de mídia como a especificidade do campo comunicacional, é possível observar aí o crivo fundamental exercido pela técnica não apenas como marca identitária, mas como

188

LIMA, A. Venício. Op. cit.: 25. 189

Termo utilizado por Muniz Sodré em Antropológica do espelho. Op. cit.: 15. 190 RUBIM, Albino. Comunicação e política. São Paulo: Hacker editores, 2000: 26.

fundamento de uma jovem ciência, isto é, como aquilo que subjaz, que a faz aparecer, realizando sua demarcação histórica, distinguindo-a e individualizando-a enquanto área do saber. Significa dizer, que estaria precisamente em sua constituição o aspecto responsável pela fundação de um novo campo do saber, na medida em que viria a individualizá-la, diferente da comunicação enquanto oralidade comum a todos os homens, objeto de estudo das áreas de letras, filosofia, antropologia e outras disciplinas; tratar-se-ia dos estudos de comunicação de massa ou simplesmente estudos de mídia, cujo histórico e avanços institucionais originariam um novo campo científico, a comunicação social, distinta de todas as demais.

A hipótese procura ancorar-se também na singularidade exercida pelo próprio contexto histórico que testemunha as primeiras práticas e teorias da comunicação. A época mais conhecida como sendo da grande Revolução Industrial produziria não apenas o advento da máquina a vapor e da energia elétrica, mas também, vasta cadeia de comunicar – telégrafo óptico, fotografia, cinema, rádio, televisão, vídeo e, finalmente, hoje, o computador –, responsável direta pelo aparecimento das primeiras teorias da comunicação. Trata-se do contexto histórico que marca o surgimento de uma determinada prática social caracterizada, sobretudo pelo fascínio exercido pela técnica moderna e que corresponderia ao início das primeiras teorias tidas como pioneiras nos estudos da comunicação.

Além da singularidade exercida junto ao aparecimento das primeiras teorias da comunicação, seria a própria técnica moderna um dos lugares de maior visibilidade desse grande acontecimento que foi a Revolução Industrial, talvez a principal influência do período em que surgem as primeiras teorias da comunicação. No contexto em que estavam em jogo mudanças estruturais como, por exemplo, aquela representada pela organização científica do trabalho, a técnica desempenha papel decisivo. O advento industrial radicalizaria o que se chamou de “aplicação da ciência à força de trabalho”,191 que não mais seria organizado a partir de determinados rituais em que pesavam a tradição, os hábitos e

191 Essa questão já foi desenvolvida no início no tópico que discute o aparecimento da comunicação como derivado sociológico. Segundo Aron, trata-se do advento da indústria, grande acontecimento do século XIX, cuja originalidade proporcionou o alcance da impressionante acumulação de riquezas, do crescimento da desigualdade social, da “concentração de capitais ou meios de produção nas mãos de um pequeno número de pessoas.” ARON, Raymond. Op. cit.: 97.

costumes, mas a partir da lei da mais-valia. A transformação faria do trabalho categoria histórica fundamental em torno da qual seriam formuladas as mais importantes teses, sobretudo no que diz respeito às ciências sociais e humanas. Advém dessa categoria histórica, por exemplo, a compreensão radical e revolucionária da pobreza e da desigualdade social como desafios a serem vencidos e não como dados imutáveis que brotam da natureza, como se quer justificar em nossa contemporaneidade.192 Advém desse período a compreensão do trabalho como categoria histórica ou imperativo teórico a partir do qual se demanda a insistência do homem sobre si mesmo, ou seja, a compreensão do trabalho como necessidade histórica da existência.193 Em torno da técnica, então, pode-se dizer que incidiria a legitimação do novo acontecimento, ou seja, sobre a necessidade de seu domínio repousou boa parte da força moral provocada pela paradigmática mudança social. A posse do “novo saber” tornar-se-ia condição pela qual se poderia ou não participar dos novos atrativos da época. Apossar-se de seu domínio tornara-se condição capaz de garantir alguma inserção na nova configuração social. Tratava-se da técnica como lugar de mediação entre o cotidiano e os avanços científicos, o que acabou por constituí-la como instância que legitimaria o signo de uma razão supostamente libertadora, ícone do progresso e autonomia humanos.

Essa característica marcaria profundamente o surgimento não apenas de algumas teorias pioneiras, mas efetivamente o próprio campo comunicacional. As primeiras práticas e teorias da comunicação nascem impregnadas pela lógica da técnica, cuja legitimidade o positivismo científico procurou, desde sempre, ancorar nas ciências naturais e em seu projeto de autonomia humana, sobretudo no primado da superação permanente das experiências de espaço e tempo. Aí repousa, então, a especificidade comunicacional.

192 Francisco de Oliveira em palestra na Maison de France ocasião de sua participação no círculo de debate “Mutações, novas configurações do mundo”, organizado por Adauto Novaes, no Rio de Janeiro, em setembro de 2007. Em sua fala, o sociólogo discutia o advento da revolução tecnocientífica sugerindo que as altas tecnologias, hoje, seriam responsáveis por uma nova forma de apropriação da riqueza, representada sobretudo pela financeirização da vida em sociedade proporcionada por um tipo de dominação econômica, hoje exercida em outros moldes. A acumulação produtiva a partir do domínio das finanças produziria hoje o que ele chama de uma representação fictícia da riqueza em que predominaria grande concentração da riqueza num mundo cada vez menos abundante. A financeirizacão da economia se teria tornado possível graças ao advento do computador, cuja tecnologia, grande responsável pela desqualificação do trabalho como categoria histórica, promoveria um tipo de economia marcado, por exemplo, pelo fim dos direitos trabalhistas, quebra da previdência, irrelevância da política).

Acreditamos residir em sua natureza um formato de comunicação distinto daquele pensado por outras áreas do conhecimento. Em torno de seu crivo histórico e epistêmico, portanto, encontrar-se-ia uma possível especificidade comunicacional. Esse, então, o primeiro motivo pelo qual gostaríamos de eleger a técnica moderna como possível fundamento de uma episteme comunicacional.

O segundo motivo pelo qual nos sentimos também estimulados a elaborar tal proposição trata da técnica moderna como sendo também o aspecto responsável pelo predomínio da instrumentalidade, marca hegemônica das reflexões da área. Além de constituir-se como o elemento que viria especificar o aparecimento tanto das chamadas práticas comunicacionais quanto de um novo campo de estudos, seria também a técnica moderna a origem do explícito predomínio de certa instrumentalidade como característica principal das pesquisas e reflexões da área de comunicação. Observa-se, em grande parte das análises teóricas em comunicação, a preponderância de uma modalidade aplicativa que a concebe majoritariamente como meio, modo pelo qual se alcança um determinado objetivo, se avalia um determinado efeito. A comunicação, nessa perspectiva, aparece como uma espécie de instrumento que permite cumprir determinada jornada. A abordagem não se perdeu e ainda hoje, para muitos, continua a ser não apenas o centro das reflexões, mas uma das problemáticas mais virtuosas da área. Ou seja, o campo da comunicação poderia ser caracterizado como lugar em que se reúnem e se acoplam, mas não se misturam, as diversas incursões teóricas advindas de diferentes campos sociais – acoplamento ou dispersão das diversas teorias que permeiam os debate em comunicação, cujos resultados advêm de abordagem histórica fundamentada nessa modalidade instrumental. A esse acoplamento costuma-se dar o nome de interdisciplinaridade, significando a hegemonia de um modo de pensar em que, de fato, os meios de comunicação aparecem simplesmente como meios, ou seja, modo de obter determinado fim. Estamos nos referindo, portanto, à predominância de uma determinação instrumental194 em torno da concepção de uma ciência comunicacional, uma vez que, de modo geral, as diversas teorias têm-se dedicado a pensar tal fenômeno ou prática social a partir dessa modalidade em que acaba aparecendo sempre como um meio para se alcançar um determinado fim.

194

Expressão de Heidegger presente no texto A questão da técnica In HEIDEGGER, M. Ensaios e Conferências. Op. cit.: 12.

Em certo sentido, estamos aqui diante de um paradoxo. Se, por um lado, no campo da comunicação, sem dúvida alguma, essa determinação tem poder de atração, posto que reúne e faz conviverem as mais diversas temáticas sociais, por outro, observa-se aí completa ausência de força de gravidade no sentido da realização de determinada síntese, cuja química nos ofereça chão ao longo do qual caminhar. Pensar essa síntese, essa unidade temática, é o que gostaríamos de eleger como objetivo de trabalho: pensar o que viria a ser um dos fundamentos de uma ciência comunicacional, a invenção da técnica moderna, uma vez reconhecida a centralidade de tal acontecimento, tanto na esfera originária, ou seja, no sentido de que marca o aparecimento de um novo campo do saber, como na consolidação de uma abordagem teórica hegemônica, que vem a ser sua concepção instrumental e aplicativa.

Em outras palavras, a pergunta e proposição em torno do advento da técnica moderna ocorrem, sobretudo, porque, além de observar-se aí um centro de gravidade que percorre as diferentes teorias na constituição do campo, ou seja, que perpassa diferentes temáticas e concepções metodológicas, estariam também, em torno da técnica, os traços que sinalizam o aparecimento e a individuação histórica do campo. Aqui, então, repousa não apenas nossa hipótese de trabalho, mas a própria contradição que define nossa problemática de pesquisa. Se, por um lado, as abordagens circunscritas a recortes eminentemente instrumentais podem criar uma série de empecilhos e limitações no pensar o campo, também apresentam o caminho pelo qual, hoje, encontrar-se-iam as respostas mais satisfatórias na tentativa tanto de compreensão dos efeitos de uma sociedade chamada comunicacional quanto da construção de uma episteme que traduza, solidamente, seus desdobramentos e conjunturas sociais. Nesse sentido, diferente dos movimentos que criticam ou exaltam o domínio da técnica – tornando-se esvaziados e sem força porque “operariam na mesma freqüência”, isto é, quando lutam para negar ou celebrar tal empreendimento, acabam por ele fagocitados, uma vez que o fazem a partir da própria determinação instrumental –, pretendemos, através de seu próprio questionamento, com ela estabelecer outra relação.

A atitude que se coloca, então, é aquela que torna imprescindível a apresentação da envergadura do problema de modo a justificá-lo enquanto tal, isto é, aquela que o questiona e se pergunta em que medida não seria ele mesmo o lugar dos desdobramentos mais importantes, no que diz respeito à formulação de uma episteme comunicacional. Para isso, então, recorremos, mais uma vez, ao método histórico-genealógico. Se desejamos retornar à nossa atualidade de forma propositiva, devemos apresentar, historicamente, os aspectos que marcam a constituição da técnica e de sua determinação instrumental junto à construção do conhecimento, para em seguida, então, retornar à nossa atualidade e explorar aqueles aspectos que incidem diretamente na consolidação de uma ciência da comunicação. Assim sendo, optamos por delimitar nosso recuo em três momentos decisivos quanto à determinação instrumental da técnica: origem, consolidação e desdobramentos atuais, sobretudo no que tange à constituição de uma “nova” área do saber.195Trabalhamos com a definição de técnica em Heidegger, escolha que se dá fundamentalmente por três motivos: pela densidade por ele consolidada com relação ao problema; pela profundidade com que discute as origens e desdobramentos epistemológicos da particularidade que nos interessa diretamente, ou seja, da análise da determinação instrumental da técnica; e, por fim, pela sugestão, encontrada em sua obra, de modo geral e mais especificamente no texto A questão da técnica, da problemática histórica que envolve o enigma da técnica e sua relação com a construção do conhecimento.196

195 O percurso dessa constituição, fundamentalmente realizado em torno da progressiva separação de natureza e linguagem, pode ser entendido a partir de sua fundação, que corresponderia à própria criação da razão científica, que, a rigor, se confunde com o surgimento da filosofia, quando da passagem do período da Grécia antiga ao período clássico; sua consolidação, na Modernidade, através da criação da ciência moderna, portanto, das ciências exatas e, se quisermos na seqüência, do Iluminismo, sobretudo através de sua grande invenção, o estado de direito; e por fim, chegando à nossa atualidade, chamada por muitos de pós-moderna, idade em que seriam observados os desdobramentos epistemológicos desse invento, ocasião em que alinhamos sua repercussão teórica junto à nossa hipótese de trabalho.

CAPÍTULO 4