5. Additional Analyses Related to Potential Endogeneity
5.7 Personal Characteristics of Partners Switching to and from Big-4 Firms
A atenção a diversas formas de culturas urbanas, próprio dos estudos contemporâneos sobre cultura, possibilitou um emergir de novos olhares sobre a cultura, uma mudança no entendimento de cultura, ampliado de um significado elitista, que prendia o entendimento de cultura a textos e representações, para um significado mais cotidiano, que centra seu entendimento sobre as práticas vividas e que pode ser destacado como fundamental para a ampliação das pesquisas no campo dos Estudos Culturais, fazendo surgir uma variedade de perspectivas teóricas tendo como preocupação central a cultura.
O conceito de cultura, longe de se constituir em um consenso, é objeto de discordância, discussões e das mais variadas nuanças. Para Williams (2008) cultura é um conceito fluido e escorregadio que, confundindo mais do que esclarecendo, remete-nos para a descrição dos modos de vida global. Para este teórico a dificuldade do termo é óbvia, no entanto podem ser destacadas duas formas principais que melhor esclarecem sua definição, que são assim expressas:
Podemos distinguir uma gama de significados desde (i) um estado mental desenvolvido– como em “pessoa de cultura”, “pessoa culta”, passando por (ii) os processos desse desenvolvimento – como em “interesses culturais”, “atividades
culturais”, até (iii) os meios desses processos – como uma cultura considerada
como “as artes” e o “trabalho intelectual do homem”. Em nossa época, (iii) é o
sentido geral mais comum, embora todos eles sejam usuais. [...] A dificuldade do termo é, pois, óbvia, mas pode ser encarada de maneira mais proveitosa como resultado de formas precursoras de convergência de interesses. Podemos destacar duas formas principais: (a) ênfase no espírito formador de um modo de vida global, manifesto por todo o âmbito das atividades sociais, porém mais evidente
em atividades “especificamente culturais” – uma certa linguagem, estilos de arte,
qual uma cultura específica, quanto a estilos de arte e tipos de trabalho intelectual é considerado produto direto ou indireto de uma ordem primordialmente constituída por outras atividades sociais. (WILLIAMS, 2008, p. 11).
Santos (1996), trabalhando com duas concepções, em que a primeira remete para o entendimento de todos os aspectos da realidade social e a segundo diz respeito ao conhecimento, crenças e idéias de um povo de forma mais específica, define cultura como a dimensão da sociedade onde se inclui todo o conhecimento, de forma ampla, assim como todas as formas específicas de como este conhecimento é expresso dinâmica e processualmente.
Um campo que sempre teve a cultura como objeto de reflexão é o da antropologia, fomentando discussões ricas e variadas e constituindo-se na preocupação constante de autores nacionais e internacionais. Neste sentido, se destaca os trabalhos de Vannucchi (2002), que, destacando a pluralidade de tendências e explicações sobre cultura, a partir do campo de conhecimento da antropologia cultural, define cultura como tudo aquilo que não é natureza, mas tudo o que é produzido pelo homem.
Com uma vasta experiência e familiaridade com as mais diversas culturas, Laraia (2002), em um trabalho sobre o que denominou de reconstrução do conceito de cultura, que, segundo o autor, foi fragmentado por numerosas reformulações, aponta para o entendimento da cultura como a principal característica humana, a forma como os homens vêem o mundo, processo dinâmico, longo e acumulativo que carrega o conhecimento e a experiência adquirida pelas numerosas gerações humanas podendo ser transmitido através do processo de socialização.
As abordagens de Williams (2008) e Thompson (apud ESCOSTEGUY, 2001), fornecem contribuições relevantes para o desenvolvimento dos Estudos Culturais. Williams (2008), como fica evidente na citação acima, centra seu foco de estudo sobre uma demarcação das várias questões a serem abordadas sobre o conceito de cultura, demonstrando os diversos significados do termo, notadamente a forma como podem interagir, evidenciando como os sentidos de cultura enquanto modo de vida global vem adicionar-se ao sentido mais especializado, mesmo que mais comum, como os sentidos de
cultura, atividades artísticas e intelectuais, numa leitura carregada de noções antropológicas e sociológicas, o que, por seu lado, leva ao entendimento de cultura como processo complexo por meio do qual toda espécie de definição, assim como todo tipo de significação, são socialmente construídos e transformados historicamente.
Por outro lado, Thompson (apud ESCOSTEGUY, 2001), conduzindo seus estudos dentro na tradição marxista e resistindo à idéia de cultura em uma forma de vida global entende a cultura como uma rede de práticas e relações que compõem a existência cotidiana das pessoas, em que o papel que cada indivíduo desempenha deve ser considerado mais relevante, deve vir em primeiro plano, deixando evidente seu entendimento de cultura enquanto a luta entre modos de vida diferentes.
Para Certeau (2003, p. 19) a cultura se constitui em “[...] uma proliferação de invenções em espaços circunscritos”, uma arte social, condicionada pelos lugares, regras e dados. Seria, nesse sentido, uma criação em oposição à natureza, mas também, segundo esse pensador, o termo cultura está envolto em um sistema plural, de possibilidades, como ressalta na passagem a seguir:
Toda exposição relativa aos problemas culturais caminha sobre um solo de palavras instáveis. É impossível fixar uma definição conceitual nesses termos: seus significados estão ligados a funcionamentos em ideologias e sistemas díspares. É necessário pelo menos fixar a utilização que se terá aqui de cultura e
cultural. O termo cultura ocorre em “difusão da cultura”, “cultura de massa”,
“política da cultura” etc. pode-se distinguir vários de seus empregos,
característicos de abordagens diferentes. [...] Cultural aparece em uma série de
expressões usuais: “ação cultural”, “atividade cultural”, “assuntos culturais”, “centro cultural”, “cadeia cultural”, “discurso cultural”, “desenvolvimento
cultural”, “ambiente cultural”, “promotor cultural”, “lazer cultural”, “política
cultural”, “renovação cultural”, “sistema cultural”, “vida cultural” etc.
(CERTEAU, 2003, p. 193-195).
A partir dessa reflexão, Certeau (2003) destaca de forma mais explícita os empregos a que se refere em relação às abordagens de cultura, que vai da possibilidade de designar os traços do homem culto a partir de normas impostas, passa pela noção ou ideia
de um patrimônio de obras que devem ser preservadas e difundidas com o propósito de se situar uma suposta cultura clássica e acaba se posicionando a favor do sentido de cultura atrelado a comportamentos, ideologias e mitos que, compondo um quadro ou conjunto de referências, servem para diferenciar as sociedades umas das outras.
Ao enfatizar uma reflexão sobre a categoria da mundialização da cultura, própria das sociedades atuais, Warnier (2003, p. 13) concebe cultura em “[...] totalidade complexa que compreende as capacidades e hábitos adquiridos pelo homem em sua condição de membro da sociedade”, levando à compreensão que não se pode pensar em cultura fora de um contexto histórico e geográfico de determinada sociedade.
Referendando esse raciocínio, procurei demonstrar, no contexto da pesquisa, que a capoeira ao ser concebida como um artefato, uma expressão cultural criada e desenvolvida no Brasil pelo povo africano escravizado e seus descendentes, é marcada profundamente pelos espaços e condicionamentos históricos em que se envolta, inicialmente se caracterizando enquanto uma luta eficiente e de resistência frente às opressões impostas a esse povo, é perseguida até quase sua extinção levando a se reinventar em um código gestual e oral de sobrevivência nos grandes centros urbanos do Brasil do século XIX, até alcançar status de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, sendo reconhecida como prática educativa de significativo valor na educação integral de crianças e jovens, notadamente ao adentrar os espaços de educação formal.
Quando opto por transitar pelo campo dos Estudos Culturais, trago de forma explícita um entendimento que, em primeiro lugar, nega qualquer intenção de universalizar a cultura, evita considerá-la como modo de vida global. Em segundo lugar, procuro construir um entendimento sobre cultura bem próximo daquele defendido por Hall (Apud NELSON et al, 1998), ou seja, como o terreno real e sólido, que envolve todas as formas materiais e simbólicas de práticas e representações que caracterizam qualquer sociedade específica.
A Cultura, a partir das análises dos Estudos Culturais é percebida como “[...] um campo de luta em torno de significação social.” (NELSON et al, 1998, p.133), e por isso mesmo caminha no sentido de definir como os grupos e as pessoas, envolvidas e identificadas com cada grupo social específico, devem constituir sua identidade, de seu
modo de ser e de agir, numa relação em que se conectam e se confundem a cultura específica ou particular, as significações, a própria identidade e as relações de poder. Ao tentar revelar as origens e as conseqüências dessas relações sociais, os Estudos Culturais assumem um propósito eminentemente político, identificando as relações de poder existentes numa situação cultural determinada, onde determinados grupos apresentam-se culturalmente em desvantagem a outros.
Concordo que a cultura, segundo Albuquerque, pode ser entendida como “[...] o conjunto de crenças, valores e modos de vida de grupos humanos particulares; [...] o cimento social que mantém unidas as pessoas e os grupos; [...] o que distingue os diversos grupos humanos entre si, e o fator que explica grande parte dos conflitos sociais.” (2004, p.169).
O texto de Nelson (1998) é bastante esclarecedor para se compreender as múltiplas significações que cercam o entendimento de cultura a partir da multidimensionalidade de categorias proporcionada pelos Estudos Culturais. Inicialmente o autor chama a atenção de que os Estudos Culturais jamais podem ser entendidos ou enquadrados como uma disciplina tradicional, pois se propõe ao aproveitamento de qualquer campo para produzir conhecimento, sobre o amplo domínio da cultura, além de se utilizar de uma metodologia que tem como marca principal o desconforto, visto que
[...] na verdade, não têm nenhuma metodologia distinta, nenhuma análise estatística, etnometodológica ou textual singular que possam reivindicar como sua. Sua metodologia, ambígua desde o início, pode ser mais bem entendida como uma bricolage. Isto é, sua escolha da prática é pragmática, estratégica e auto-reflexiva. (NELSON et al, 1998, p. 9).
Ao repudiar a adoção acrítica de qualquer metodologia, supostas segurança e garantia, tornando impossível qualquer definição ou narrativa essencial, os Estudos Culturais abrem um leque para pesquisas em um diversificado e controverso universo de temáticas, diferentes posições, estratégias e contextos específicos, favorecendo a
possibilidade de estudar a cultura e a história dos marginalizados e excluídos, possibilidade essa considerada inimaginável ou não-solicitada a partir da racionalidade que impera nas práticas disciplinares formalizadas na academia.
É essa possibilidade que me levou a situar minha pesquisa nesse campo, assentado na liberdade possível de, ao optar por entender a capoeira enquanto prática educativa36, investigar o processo de formação próprio das escolas de educação não-formal, as escolas de cultura, identificando suas interfaces com a educação formal, escolar, oficial, sistematizada, educação escolar, notadamente porque a capoeira que outrora “invadiu” esses locais em busca de espaços para se desenvolver, hoje é atividade ou disciplina componente do currículo escolar, presente em significativa parcela dessas escolas, amparada por políticas públicas oficiais que institucionalizam projetos em que sua prática aparece como central, conforme explicitarei mais adiante.
Todo esse processo não pode deixar de considerar as contribuições da História Cultural que, de acordo com Melo (2010),
[...] incentivam a buscar temáticas antes consideradas insignificantes aos historiadores, preocupados com temas até então tidos como de maior valor historiográfico. Com a multiplicidade de objetos as fontes também foram alargadas, expandindo inclusive o seu significado, para além do velho dito-escrito oficial, os jornais, os depoimentos orais, as fotografias, vão mais adiante dos antigos manuais dos métodos de pesquisa. (MELO, 2010, p. 18).
Os Estudos Culturais reforçam a importância de se analisar a história não como uma narrativa linear, vinculada de forma não-problemática ao progresso, mas como uma série de rupturas. A História, neste sentido, é uma dinâmica humana mais complexa
36 O termo “Práticas Educativas” me foi sugerido por meu orientador nesse projeto, José Gerardo
Vasconcelos, a partir das discussões no NHIME (Núcleo de Pesquisas em História e Memória da Educação), na FACED/UFC, por se tratar de um termo abrangente, que envolve uma vasta gama de práticas em educação, avançando em relação ao discurso que insiste em conceber educação somente a partir da escola, das práticas pedagógicas dos professores em sala de aula, dos intelectuais da educação etc. O termo favorece a liberdade de se pesquisar os marginalizados, os excluídos, dentre outras histórias silenciadas ou não-solicitadas.
tornando disponível aos estudantes certas narrativas, histórias locais e memórias que foram excluídas e marginalizadas nas interpretações dominantes da história oficial, ou seja, a história é abordada a partir do sentido de processo construído, pelas próprias pessoas, “[...] de maneira compartilhada, complexa, ambígua e contraditória.” (PORTELLI, 2001, p. 80).
Segundo Albuquerque Junior (2007) a História é, acima de tudo
[...] conceitualização, ou seja, intervenção de conceitos para a elaboração de um passado que coexistia com o presente do historiador. Esta conceitualização, requer, sobretudo, o uso do pensamento, de categorias abstratas com as quais se organiza o material empírico das fontes. [...] A História é um ponto de vista externo ao acontecido, e uma interpretação a posteriori do fato, uma conceitualização que trabalha muitas vezes com as experiências de inúmeros grupos. (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007, p. 206).
Adotar uma concepção de cultura a partir do entendimento da centralidade do humano na construção e na representação dos fatos e acontecimentos históricos, em especial em contexto escolares, pode contribuir na formação de pessoas críticas, ativas e solidárias, e ajudar na reconstrução duma realidade mais igual, sendo imprescindível que se desprenda uma importância prioritária aos conteúdos culturais, assim como a determinadas estratégias de ensino e aprendizagem e avaliação promover tal objetivo. (SANTOMÉ, 1998).
O próprio Santomé (1998) nos chama a atenção para as atitudes de racismo e discriminação através do silenciamento de acontecimentos históricos, culturais e sociais envolvendo determinados grupos ou etnias, tratados dissimuladamente de inferiores ou primitivos, através, por exemplo, das narrativas dos livros didáticos em escolas, notadamente as escolas públicas, onde se encontra estudando a quase totalidade de crianças oriundas das classes sociais menos favorecidas economicamente.
Como amostra dessa discriminação política pode-se considerar o exemplo da invasão dos povos europeus aos países de terceiro mundo, como no caso de Portugal com relação ao Brasil, em que práticas de exploração e esgotamento das riquezas do país é representada como ato de heroísmo, descobrimento para civilizar, aventura de povos
desenvolvidos para levar o progresso aos povos primitivos e bárbaros, dentre outros estereótipos criados e repassados como naturais e únicas possíveis, com raros casos em que se enfatiza ou se denuncia a exploração, domínio, brutalidade e escravidão com que tais invasões são efetivadas e levadas a cabo.
Ao mesmo tempo, as lutas por libertação e de resistência contra as políticas de escravidão impostas pelo homem branco europeu ao povo negro africano em terras brasileiras, para legitimar e tornar possível a exploração total que pretendia efetivar na colônia dominada faz surgir determinadas manifestações culturais que preservam em seus discursos e formas de comunicação narrativas que nos contam a mesma história apresentada nos currículos das escolas, por meio dos livros didáticos, de uma forma diferente, a partir do olhar dos povos oprimidos, que sofreram diretamente os abusos e as desumanidades das práticas escravistas, a partir da concepção e percepção dos vencidos.
É neste sentido, que a capoeira, cultura genuinamente brasileira, nascida em situações de discriminação e por isso mesmo carregando determinados estigmas e representações preconceituosas nas concepções de grande parcela da sociedade, através de suas cantigas e das histórias de seus movimentos e de seus personagens, pessoas comuns do cotidiano quase nunca retratadas ou narradas nos discursos “oficiais”, pode se constituir numa prática de questionamento e desconstrução das narrativas oficiais das classes hegemônicas, com especial atenção às escolas públicas, por envolver a presença de crianças e jovens oriundos das classes menos favorecidas econômica, política, cultural e socialmente, e que mais necessitam de cuidados no sentido de terem acesso a teorias e práticas realmente questionadoras, de conscientização e de esclarecimento das reais condições em que se deram a construção de identidades sociais e culturais, encaminhando a um processo inverso de reconstrução destas identidades e representações político-culturais.