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Nomeamos atores sociais aquela comunidade que tem uma relação direta com a escola e dá corpo à sua cultura. Faz parte desse contexto a comunidade escolar como um todo, ou seja, os alunos, os professores, a equipe da gestão escolar (diretor, vice-diretor e coordenador pedagógico), a equipe de apoio e os pais.

Sem negar a importância da família e de outros componentes da comunidade escolar, conforme ratificaremos posteriormente, ressaltamos que nesse contexto se sobressaem: o aluno e o professor11.

2.3.1 Alunos e professores: sujeitos socioculturais

[...] são 13:00. Algumas crianças estão próximas ao portão aguardando a sua abertura. Duas ou três acompanhadas por alguém da família. As crianças conversam, às vezes empurrando o colega, e

11 Fundamental se faz ressaltar que envolvemos a equipe da gestão escolar na categoria “professor”, por

compreendermos que essa categoria tem uma abordagem um tanto significativa e porque todos foram professores da escola, com exceção da coordenadora pedagógica, que está na escola há um ano e meio. Outro ponto relevante diz respeito à estruturação do texto. O nosso texto se caracteriza pelo cuidado teórico e por uma complexidade argumentativa, no entanto a categoria “professor” se encontra no masculino, pela própria categoria e não para evidenciar o gênero masculino. O nosso estudo também não traz esse foco. Quanto à identificação dos entrevistados, fizemos uso de letras do alfabeto que se aproximam do nome do entrevistado.

continuam de olho no portão. O portão se abre. Na entrada se encontra o porteiro e logo depois uma funcionária. Eles controlam a entrada. Às pressas as crianças se dirigem para sua sala, algumas andando rápido e a maioria correndo.

[...] são 16:50. Muitas crianças estão na fila próximo ao portão. O porteiro controla a saída, reclamando com um ou outro. Algumas crianças querem sair rapidamente. Ele pede pra voltar pra fila. Dois deles se agarram “brincando”, depois voltam pra fila. Algumas mães, irmãs, um pai aguardam as crianças lá fora (anotações no diário de campo).

Para Gomes, “os alunos são mais do que sujeitos de aprendizagem, são portadores e produtores de cultura” (GOMES, 1996, p. 86). Os breves recortes que fizemos do nosso diário de campo revelam, dentre outros pontos, que a cultura da escola está constantemente permeada pelos conflitos gerados pelos sujeitos nas suas relações sociais e no processo cultural. Daí a compreensão do aluno e também dos professores como sujeitos socioculturais.

Nos estudos realizados acerca do professor como sujeito sociocultural, dentre os aspectos a serem considerados, destacamos uma observação feita por Teixeira, parafraseando Velho (1986):

Os sujeitos sócio-culturais se constituem historicamente, a partir de sua experiência cotidiana, de seu mundo vivido, inseridos em estruturas, instituições e processos sócio-históricos. Os sujeitos se constroem a partir da sua experiência, num mundo que delimita potencialidades, circunstâncias e limitações (TEIXEIRA, 1996, p. 182).

Os alunos são peças fundamentais para o nosso estudo, são vistos como seres de sociabilidade e cultura, como já enfatizamos, que possuem uma historicidade, visões de mundo, “escala de valores”, sentimentos, desejos, emoções, projetos (DAYRELL, 1996). E, para serem compreendidos pela escola e pelo professor, necessário se faz levar em conta a sua experiência de vida. Recorrendo a Velho (1994), Dayrell (1996, p. 141) afirma que a experiência vivida deve ser entendida como um “conjunto de crenças, valores, visão de mundo, rede de significados, expressões simbólicas da inserção dos indivíduos em determinado nível da totalidade social, que terminam por definir a própria natureza humana”.

Sob várias formas esses alunos são capazes de influenciar as decisões sobre o currículo, o que ocorre, por exemplo, quando eles cooperam ou não. Assim, o processo de construção do currículo se manifesta de diversas maneiras, seja nas interações e

diálogos que estabelece com o grupo e com o conhecimento, seja pelas resistências apresentadas perante as normas e regulações da escola, ou até mesmo perante as discriminações que se fazem presentes e, por sua vez, se tornam atuantes.

Os professores são “seres” que ensinam projetando suas crenças e concepções nas decisões que tomam e nas ações que desenvolvem. “O conhecimento que um professor desenvolve ao trabalhar com um grupo de crianças incorpora necessariamente elementos de outros domínios de sua vida” (EZPELETA; ROCKWELL, 2007, p. 12).

Cabe aqui destacar um ponto considerado por Moreira como de grande relevância: as categorias que os professores empregam para tratar o seu aluno. Nesse sentido, o professor exerce um papel decisório no desdobramento do currículo na sala de aula, resultante das interações. Este, de tamanha dimensão, responsável pelas naturalizações, rotulações e preconceitos, mas também pelas trocas e interações no contexto escolar. “Normas e valores que são implicitamente, mas eficazmente, ensinados nas escolas e sobre os quais o professor em geral não fala nas declarações de metas e objetivos” (APPLE, 2006, p. 127).

Reafirmamos que os professores assumem uma posição de destaque no papel desempenhado na sala de aula, assim como na materialização do currículo.

Sabemos que a escola não pode ser vista, apenas, a partir do aluno e do professor, mas perante um corpo, um coletivo, que envolve a comunidade escolar e a comunidade onde a escola se insere ou, no caso da CMC, a comunidade de onde provêm esses alunos, com destaque para a família.

ƒ Alunos e professores da CMC

Os professores que atuam na CMC são, na sua maioria, de uma camada social média, mais empobrecida, de forma que muitos deles acabam trabalhando arduamente 60 horas semanais. Apresentam, portanto, pouca disponibilidade para reuniões e encontros na escola, o que interfere na proposta de se desenvolver um trabalho coletivo, de acordo com o posicionamento da coordenadora pedagógica. Interfere no currículo escolar.

Quanto ao aluno, é abordado pelo Projeto Pedagógico como aquele estudante com baixo poder aquisitivo, sendo grande parte vítima de desemprego e de violência social, “sem maiores perspectivas de futuro”. Apresentam uma baixa auto-estima, oriundos de famílias, em sua maioria, desestruturadas, que residem em bairros

periféricos e residências paupérrimas. Em decorrência de diversos fatores, um número considerável de jovens está envolvido no tráfico e/ou no consumo de drogas, pequenos furtos, assaltos e/ou prostituição. São marcados pela exclusão, pela violência e pela marginalidade presentes em seu meio.

Observa-se que a escola reconhece o “outro”, mas será que ela se reconhece no outro ou o outro se reconhece nela? Como se pode afirmar que o seu aluno não tem perspectiva futura? Essa questão não partiria de uma idéia preconcebida? Acreditamos que muitas palavras, por mais inconscientemente que sejam traçadas, acabam por conduzir a espaços tendenciosos e perigosos, como se fossem um terreno de areia movediça que deglute o outro, impossibilitado de agir, de ser reconhecido e se reconhecer. Às vezes, nós educadores somos deterministas e generalizadores, não temos consciência disso. O futuro social do aluno das camadas populares, um tanto comprometido, nessas circunstâncias acaba por se tornar irreversível.

ƒ Outros colaboradores/Critérios de Seleção

Colaboraram também, de forma significativa para o nosso estudo, os pais dos alunos e dois funcionários da escola (secretaria e serviço de apoio). Os funcionários forneceram informações e apoio nos encontros e conversas que realizamos. A seleção dos funcionários foi feita pela experiência maior na escola, como também devido à interação construída. Os pais, apesar de limitada participação, conforme apresentaremos em seguida, foram fundamentais para o nosso estudo. O critério de seleção dos pais, professores e turmas se encontram, posteriormente, no corpo do texto.

Os alunos colaboradores dessa pesquisa foram distribuídos da seguinte maneira: ƒ Ciclo I formado por duas turmas totalizando, aproximadamente, 40 alunos. ƒ Ciclo II formado por duas turmas totalizando em torno de 40 alunos.

Os professores colaboradores para o estudo foram aqueles que atuavam nas quatro turmas acima mencionadas. Quanto à sua formação, apontamos, conjuntamente, no quadro anterior. Dois com o Curso do Magistério e os outros com História e Pedagogia.

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