1.9 Perineuronal nets
1.9.5 Perineuronal nets in learning and memory
Cada vez mais, no entanto, o que preocupa muitos pesquisadores no século XX, em particular depois da Segunda Guerra Mundial, é o conhecimento das realidades internacionais emergentes, ou realidades propriamente mundiais. Sem deixar de continuar a contemplar a sociedade nacional, em suas mais diversas configurações, muitos empenham-se em desvendar as relações, os processos e as estruturas que transcendem o Estado-nação, desde os subalternos aos dominantes.
(...) a história se constitui em um conjunto, ou sucessão, de sistemas econômicos mundiais. Mundiais no sentido de que transcendem a localidade e a província, o feudo e a cidade, a nação e a nacionalidade, criando e recriando fronteiras, assim como fragmentando-as ou dissolvendo-as. 422
Os teóricos da globalização têm ressaltado por meio de conceitos como “economia- mundo” ou “sistema-mundo” as relações que rompendo, refazendo, ultrapassando e até dissolvendo fronteiras transcendem as realidades nacionais. Importa notar, entretanto, que tais relações transcendem, mas não eliminam o Estado-nação, afinal, este continua a constituir a base da articulação capitalista e, conforme destaca Octavio Ianni, “aparece todo o tempo, como agente, realidade parâmetro ou ilusão”.423
Assim sendo, é possível afirmar que a consideração das economias-mundo e da força que transcende os Estados nacionais não implica a invalidação dos estudos que os consideram como base, mas possibilita um novo ângulo de estudo capaz de trazer à luz relações que permitem a descoberta de novos sentidos para o passado, o presente e até o futuro.
422 “As economias-mundo” In: IANNI, Octavio. In: Teorias da globalização. p. 30 – 31. 423 IANNI, Octavio. “As economias-mundo”, p. 44.
Um exemplo dessa nova possibilidade é o correlato do sistema-mundo na literatura: uma espécie de sistema-mundo literário424 em que as relações de poder entre centro e periferia se repetem, especialmente por meio de empréstimos que dominam as relações entre esses pólos também no nível cultural. Importa destacar: tais empréstimos, via de regra, chegam até a periferia como sinônimo de modernidade. Essa “modernidade”, entretanto, não se realiza sem se coadunar com a matéria local, daí ser possível afirmar que “(...)quando uma cultura ensaia movimento na direção do romance moderno, é sempre como uma conciliação entre forma estrangeira e matérias locais”.425 Tal conciliação pode se dar em várias instâncias, mas,
a mais freqüente costuma ser a da voz narrativa que freqüentemente deixa transparecer o conflito entre o universo do narrador, normalmente urbano, culto, moderno e o universo das personagens: rural, iletrado, pré-moderno.426
Se insistirmos nas metáforas da árvore e da onda empregadas por Moretti427, constataremos que uma perspectiva não exclui a outra como inicialmente nos fazem crer afirmações como a seguinte: “Esta, pois, a base para a divisão de trabalho entre literatura nacional e mundial: literatura nacional para pessoas que vêem árvores; literatura mundial para pessoas que vêem ondas.” Antonio Candido tem demonstrado ser possível e bastante produtivo estudar “árvores”, entretanto reparando nas “ondas” que as atingem, ou seja, estudar a dialética entre local e universal.
Esse ponto de vista tem se mostrado bastante profícuo para estudar a literatura brasileira que participou ativamente do processo de formação nacional, baseando-se para tanto em autores e conceitos externos às nossas fronteiras e mais: no conceito de modernidade subjacente à idéia de nação (que pressupõe homogeneidade e alguma justiça social). É fácil constatar como a modernidade juntamente com a idéia de nação ocuparam desde cedo o centro do debate intelectual brasileiro. Nossos autores sempre se remeteram à nação, fosse para apontar os caminhos que deveríamos trilhar para alcançar a autonomia e a modernidade, fosse para denunciar a face cruel com que esta mesma modernidade passou a se materializar entre nós.
424 Cf. MORETTI, Franco. “Conjeturas sobre a literatura mundial”. 425 MORETTI, Franco. Op. cit., p. 177.
426 BASTOS, Hermenegildo. “A história literária: de Candido, Rama e Cornejo-Polar ao pós-colonial”, p. 4. 427 Segundo esse autor, haveria duas formas de se analisar a cultura em escala mundial: a primeira seria
considerá-la como árvore, portanto, verificando a passagem da unidade à diversidade, ou, em outras palavras, baseando-se nos Estados-nação cujos ramos podem ser as tradições locais, ou, a segunda opção, observá-la da perspectiva da onda, isto é, verificar de que modo a unidade (que pode ser o mercado ou o romance moderno) se impõe sobre as diversidades iniciais. Cf. MORETTI, Franco, op. cit., pp. 179 - 181.
Assim sendo, para falar com Otília Arantes e Paulo Eduardo Arantes, a despeito do que muitos esperam,
a construção nacional interrompida [ou, por outras palavras, o fato de não termos conseguido alcançar o status de nação moderna], não anula, antes exige, o ponto de vista histórico da formação justamente por ser um ponto de vista crítico, o único de que dispõe um intelectual na periferia, por sorte condenado ao comparatismo e portanto à ‘reflexão’ que o define como tal. Rifar essa perspectiva alegando que passou o ciclo das formações nacionais, e que já é tempo de entroncarmos diretamente na universalidade ‘global’, além de reativar nosso balofo bovarismo de sempre (a moléstia de Nabuco, como diria Mário de Andrade), um devaneio de tamanho nacional e bem provinciano, é uma maneira de varrer para baixo do tapete a marca cruel do subdesenvolvimento que nos deprime(...).428
Essa situação (de subdesenvolvimento) precisa ser levada em consideração nesse debate, afinal, é ela a geradora da modernidade como mito de Sísifo entre nós.
Na periferia, há sempre um descompasso entre a arte moderna e os pressupostos materiais por ela requeridos. Via de regra, a modernidade cultural pode ser mais facilmente alcançada porque depende basicamente do artista, ao passo que a modernidade econômica depende de uma série de fatores que transcendem o nível individual do artista a quem resta tentar contribuir para esta modernidade impossível por meio da arte que termina, dado o descompasso, por se constituir como simulacro.
E os nossos artistas, como podem ser abordados hoje, em pleno século XXI, mediante todas essas questões postas até aqui?
Para começar, importa refletir sobre suas posições na “árvore” da literatura brasileira. Lima Barreto está entre os chamados pré-modernistas, enquanto Oswald, é modernista. Talvez mais, talvez “o modernista”. E, embora alguns defensores desta divisão insistam não haver entre os dois períodos nenhum sentido de hierarquia, basta lembrarmos da acepção
temporal do prefixo “pré” em alguns termos freqüentemente usados entre nós (pré-escolar, pré-vestibular, entre outros) para chegarmos à conclusão diversa.
Posta esta diferença, importa verificar as semelhanças. Ambos os autores vivem e criam suas obras em momentos em que suas cidades passavam por um momento importante do processo de modernização. Além disso, tanto Lima Barreto quanto Oswald de Andrade revelam em suas obras importantes reflexões sobre esse processo, inclusive explicitando a relação deste com as questões em torno da identidade nacional, tais como língua e povo. Nas obras de ambos, se nota ainda a percepção do descompasso de que tratamos acima entre a arte e as condições materiais em que vivia a maioria da população.
Lima Barreto, entretanto, e aí temos mais uma importante diferença entre os dois autores, reivindica, por meio de sua obra, os pressupostos materiais que fariam talvez com que nos tornássemos uma nação de fato, moderna nas suas relações sociais. Além disso, quer nos livrar da obrigação da sintonia com o moderno que vem de fora.
Oswald de Andrade também faz reivindicações por meio de sua obra, mas estas se voltam para a aproximação ainda maior com a arte moderna, ou seja, a que se fazia àquela altura nos países centrais. Isso em um primeiro momento. Em um segundo momento, partindo mais uma vez da observação dos países mais desenvolvidos, volta-se para a questão do nacional como uma maneira de encontrarmos nós também, à semelhança daqueles, a nossa especificidade e aí, sim, nos integrarmos em “pé de igualdade” ao grande “concerto mundial”.
Diante de tudo isso, importa ainda destacar que, conforme demonstram algumas pesquisas da área, as diferenças observadas até aqui não são meramente individuais. Elas fazem parte de um conjunto de diferenças que demonstram ter a modernidade assumido uma face distinta nas cidades, isto é, nos grupos a que pertenciam os autores de que estamos tratando.
Tais diferenças, relevantes para o que viemos discutindo até aqui, não devem ser entendidas, entretanto, no sentido de diminuir um ou outro escritor. Elas têm o propósito de contribuir para o debate que se vem desenvolvendo em torno das questões nacionais e do capitalismo mundial e, portanto de nossa sociedade. Mônica Velloso, por exemplo, atenta a essas especificidades, afirma: “Assim, no Rio, não houve propriamente um movimento de vanguarda organizado em torno da idéia de moderno. O moderno é construído na rede informal do cotidiano (...)”. 429 A mesma autora ainda destaca, apoiada em autores como Foot Hardman, que para entender o processo de instauração do modernismo, como processo que
vai acarretando mudanças significativas de percepção do tempo e do espaço, fazendo coexistirem múltiplos valores culturais,430 é necessário, então, verificar como a idéia e os valores da modernidade foram vivenciados, sentidos e postos em prática pelos intelectuais brasileiros, ou por outras palavras, por meio de que dimensões políticas, sociais e filosóficas eles registraram o impacto das várias temporalidades em choque.
Todas essas considerações vêm no sentido de fortalecer a convicção da relevância deste estudo que abordou as obras de Lima Barreto e Oswald de Andrade, enfocando especialmente o papel da língua nacional, da memória, e até da mulher, bem como a configuração do espaço e tempo a integrarem os projetos literários ao mesmo tempo nacionais dos dois autores fortemente relacionados à modernidade. Dessa perspectiva, esperamos ter contribuído para a reflexão em torno dos critérios que servem de base para a periodização literária, para a melhor compreensão das obras aqui estudadas e dos vínculos guardados entre literatura e sociedade brasileiras.
Sabe-se que o conceito de nação é duplamente questionável: por um lado, pelos entusiasmados de plantão que acreditam na “universalidade global”, por outro lado, por aqueles que, com razão, destacam a espécie de homogeneização embutida no conceito que passa por cima de diferenças e funciona também a partir de apagamentos de grupos em prol de outros grupos. Entretanto, alguns autores têm demonstrado com coerência a necessidade deste conceito para se compreender o novo pacto de dominação mundial e, portanto, para uma possível autolocalização, se não de toda a população, ao menos da sua parcela intelectualizada que vem contribuindo, a seu modo, para a manutenção dessa comunidade imaginada chamada Brasil.
430 Ibid. p. 32.