No início da pesquisa, sempre que questionava familiares e colegas de trabalho sobre os poetas populares de Mossoró, havia referência imediata à Casa do Cantador do Oeste Potiguar. Assim, sempre ouvia afirmações como: “Você vai encontrar isso na Casa do
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Cantador”, “O pessoal da Casa do Cantador com certeza sabe”, “Nos eventos da Casa do Cantador, você encontra muita gente”. Ao mesmo tempo, demonstrava-se um desconhecimento geral sobre a atual situação da associação, de modo que as afirmações acima eram seguidas de comentários como: “Não sei quem está a frente hoje...”, “Nunca mais participei de nada”, “Não sei se ainda funciona ali...”.
A Casa do Cantador do Oeste Potiguar foi durante muito tempo uma instituição de referência para reunir poetas populares, especialmente os repentistas, em Mossoró, tendo o Congresso de Repentistas Nordestinos como seu principal evento anual. A sede localizava-se em uma casa no bairro Planalto 13 de Maio, onde era possível reunir os poetas. Em 2010, foi reconhecida como de utilidade pública pela lei municipal nº 2.640/2010, o que evidencia a forte atuação que tinha na cidade.
Entretanto, nos últimos anos, a Casa do Cantador passou por muitas intempéries. Depois da morte do poeta Luiz Antônio30, seu último presidente cantador, a casa que servia de sede à associação foi invadida, depredada e incendiada. Dado o estado precário em que se encontrava a construção após o incêndio, a diretoria optou por demolir a casa. Segundo a atual presidenta – Maria Eleni de Lima –, eles ainda estão buscando recursos por meio de projetos submetidos à análise da prefeitura para a construção de uma nova sede.
Isso, juntamente com a falta de patrocínio, levou a uma diminuição das atividades da Casa do Cantador, que tem se restringido à organização de algumas cantorias, principalmente como colaboradora. Entretanto, a instituição continua sendo uma referência importante no cenário cultural da região, especialmente pela trajetória percorrida na cidade.
A criação de Casas do Cantador no Brasil está relacionada ao contexto de migração da cantoria da área rural para a urbana. Segundo Osório (2006), “elas surgiram com o objetivo de divulgar e manter manifestações culturais ligadas à literatura de cordel e à cantoria nordestina” (OSÓRIO, 2006, p. 65). Em vários municípios do Nordeste, ou mesmo fora dele (como evidencia o caso da Casa do Cantador de Brasília), foram criadas Casas do Cantador com o intuito de preservar e assegurar a continuidade do repente.
A existência de uma estrutura física – a Casa – torna-se fundamental para abrigar os cantadores que estão de passagem pela cidade. Domingos Martins Fonseca, um dos principais batalhadores pela criação da Casa do Cantador no Ceará e no Piauí, idealizava o espaço como um local que abrigaria cantadores e artistas sem recursos, mas também conteria uma
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Luiz Antônio era poeta repentista e cordelista. Nascido na Paraíba, morava em Mossoró desde a década de 1970. Faleceu em março de 2009.
biblioteca de pesquisas folclóricas, uma escola de curso primário para os filhos dos cantadores e um salão de diversões populares (ARAÚJO, 2010).
Em Mossoró, a Casa do Cantador foi criada em 1977. Assim como nos demais estados, tinha como principal papel acolher os cantadores que migravam da área rural para urbana, ou que estavam de passagem por Mossoró. Segundo a presidenta, a casa tinha cerca de 600 sócios, poetas ou apologistas, mas eles não contribuíam financeiramente com a associação. Assim, a instituição funcionava principalmente com recursos públicos, obtidos por meio de projetos, e patrocínios de comerciantes.
O principal evento realizado, como já mencionado, era o Congresso Potiguar de Repentistas Nordestinos, que tinha como objetivo “divulgar a cultura nordestina, bem como manter viva a cultura popular entre os jovens” (MOSSORÓ..., 2012). O formato do evento dependia dos recursos arrecadados, públicos ou privados (adquiridos por meio de patrocínio). Inicialmente, realizava-se durante três noites, mas com a diminuição dos recursos obtidos por meio de patrocínio reduziu-se para duas e depois para apenas uma noite.
Nos últimos anos, o Congresso havia se ampliado. Com recursos obtidos de editais da PETROBRAS, tornou-se possível realizar os eventos em três noites e em lugares diferentes – Natal, Caicó e Mossoró. Outra fonte importante de financiamento foi a Fundação José Augusto, principalmente no período em que Joaquim Crispiniano Neto – um dos fundadores da Casa do Cantador do Oeste Potiguar – era presidente. Segundo Eleni, Crispiniano é “o pai dos poetas” e deu muito apoio à Casa quando esteve à frente da Fundação José Augusto.
No Congresso, vinham cantadores de diversas localidades, convidados pela organização do evento. Junto com os cantadores, também se apresentavam outros poetas, recitando versos nos intervalos da cantoria. Esse tipo de evento provocou uma mudança na forma como se apresentavam os cantadores, como chama atenção Araújo (2010), referindo-se à atuação da Casa do Cantador do Ceará:
Assim como o encontro de repentistas promovido por Ariano Suassuna – no Teatro Santa Isabel, em Recife – no ano anterior (1946), o I Congresso de Cantadores, que aconteceu no Teatro José de Alencar, foi um marco na atividade repentista, ao apresentar os desafios fora dos tradicionais ambientes pés-de-parede. Das casas de família, fazendas, bares e feiras a cantoria subiu ao palco do mais importante teatro cearense, ganhando um formato de espetáculo diferente. (ARAÚJO, 2010, p. 53)
Isso também modificou a forma como os cantadores se identificam. Osório (2006), pesquisando as cantorias de pé-de-parede em Brasília, observou que os repentistas fazem questão de ressaltar sua identidade enquanto artista. Busca-se afastar a imagem do cantador
como um mendigo, necessitado, que canta para obter a esmola dos turistas nas praias ou praças; os repentistas são profissionais da arte, tendo esse status hoje reconhecido por lei:
Recentemente, no dia 14 de janeiro de 2010, o presidente Luís Inácio Lula da Silva sancionou a lei que reconhece a atividade de repentista como profissão artística. A lei de número 12.198 considera quatro categorias: os cantadores e violeiros improvisadores; os emboladores e cantadores de coco; os poetas repentistas e os contadores e declamadores de causos da cultura popular; os escritores da literatura de cordel. A profissão de Repentista passou a integrar o quadro de atividades a que se refere o art. 577 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT (1943). (ARAÚJO, 2010, p. 68)
Entretanto, na organização dos Congressos em Mossoró, o apoio logístico ao evento dependia ainda de uma rede de amizades, que dava um caráter mais festivo e acolhedor ao evento. Para a organização, a diretoria da Casa contava com um grupo de amigos que se dispunha a dividir tarefas – hospedar poetas, garantir o transporte da rodoviária para o hotel ou evento, etc. Pode-se observar isso no depoimento de uma senhora, que não teve aproximação com a instituição da Casa do Cantador, mas apreciava a cantoria e era amiga de muitos cantadores e apologistas:
Eu me lembro que em alguns momentos eu ajudei na organização. Na organização, assim... eu não era da equipe de organização, mas como eu era muito ligada ao pessoal, teve momentos que eu ajudei. Por exemplo, ir pegar alguém na rodoviária... Eu me lembro que uma vez eu fui pegar Patativa na rodoviária. Essas coisas assim: de alguém ir se hospedar lá em casa... (Depoimento anônimo de uma apologista31)
Dessa forma, o público do evento era composto também, em grande parte, por essa rede de amizades dos poetas e apologistas, sendo bastante variado quanto à faixa etária e o gênero. No caso de Mossoró, observa-se também uma peculiaridade, que foi a intensa aproximação dos movimentos sociais:
Dava muito o pessoal do movimento [no Congresso de Repentistas Nordestinos]. Eu me lembro que era casa cheia. Eu me lembro inclusive que, quando eu fui ter minha primeira filha, eu saí de um Congresso de violeiro sentindo dor. (…) Mas era mais o pessoal do movimento, dos movimentos sociais, movimentos populares, do PT, das pastorais, dos sindicatos... (Depoimento anônimo de uma apologista)
A existência de um público específico relaciona-se com outro papel que, segundo Celeste Guimarães, apologista da cantoria e um dos principais envolvidos nas ações da Casa, a associação assumiu no cenário político da cidade:
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O mais importante da Casa do Cantador de Mossoró, particularmente, foi a linha política que foi dada às cantorias. Acabou-se aquelas cantorias de louvar, de você chegar na casa do fazendeiro e cantar, passar a noite cantando versos muito mais puxando saco do dono da casa e passou a ser uma cantoria mais crítica, inclusive bem mais politizada; acho que isso partiu muito aqui de Mossoró, a politização da cantoria, e da Casa do Cantador, né? (Celeste Guimarães Neto, apologista).
Esse viés político também evidencia uma atualização da cantoria, relacionada a um novo contexto cultural – o urbano. Dessa forma, os cantadores traziam para seus repentes a realidade local, os problemas sociais que enfrentavam, as campanhas e disputas políticas do momento. Essa mudança – do rural para o urbano – pode ter influenciado significativamente, não apenas no tema, mas na forma de produzir a cantoria:
No contexto urbano, os cantadores migrantes viveram possíveis transformações: na perspectiva do tempo, distribuído em horas de lazer e labor, por exemplo, a cidade talvez tenha imposto um ritmo de trabalho diferente, obedecendo a outras lógicas de produção. [...] O fluxo migratório de sertanejos ao litoral desafiou a um novo campo de negociação de saberes, crenças, formas de lazer. O repente estava ligado ao cotidiano do campo, onde muitos agricultores aproveitavam as horas de lazer para tocar viola e improvisar. (ARAÚJO, 2010, p. 27; 29).
Mas o “papel político” também se refere a um contexto histórico maior, nacional, que era a ditadura militar:
Costumo dizer que criamos uma ESCOLA CORDELÍSTICA em Mossoró, que foi a Casa do Cantador. Ali, uma geração entre os quais, eu, Antonio Lisboa que se encontra em Recife e Chico Diassis, que se encontra em Brasília, procuramos colocar a poesia popular a serviço da luta popular. E conseguimos, isto se espalhou pelo Nordeste, mas o lugar mais autêntico nesse sentido foi mesmo Mossoró. Hoje, acho que está muito nivelado. A influência de Mossoró se espalhou e se diluiu e em todo canto se canta política, mas também perdura a cantoria alienada, inclusive por alguns de Mossoró. Mas é fato que Mossoró fez a diferença, neste sentido, no final do regime militar, quando a maioria dos poetas populares praticava a auto-censura, mesmo cantando de improviso, evitavam ferir o discurso da ditadura. (Crispiniano Neto)
O Congresso de Repentistas não é realizado em Mossoró desde 2012. De lá para cá, a Casa tem funcionado promovendo algumas cantorias, que não dependem da existência física de uma infraestrutura para a associação. Segundo a presidenta Eleni, quando os cantadores de outros estados têm a cidade em seu percurso, eles fazem o contato com ela para a organização da cantoria – o que evidencia que a Casa do Cantador é uma referência importante para esses profissionais.
O apoio logístico para as cantorias continua sendo realizado pelos amigos – cantadores e apologistas – que se dispõe a colaborar e mesmo pela família de Eleni, segundo seu relato. Ela busca patrocínio para financiar o local do evento e a divulgação, mas não exige muito custo: “A gente só gosta de fazer no meio da rua mesmo. Normalmente tem bandeja32, não tem cachê estipulado. E dá certo. O objetivo é divulgar, não tem fins lucrativos”.
Muitas vezes, o evento é realizado pelo artista Zé Lima33, sócio da Casa, que conta sempre com a colaboração da Casa do Cantador por meio da pessoa de Eleni. Nesse caso, eles possuem o patrocínio de muitas empresas comerciais e o evento é transmitido no programa “Coisas do Sertão”. A divulgação é feita por meio de jornais impressos, nas rádios, por cartazes, panfletos e, dependendo da dimensão do evento, também por outdoor.
Não há parcerias com outras instituições de cultura da cidade, segundo Eleni, “a Casa do Cantador é individual”. Também não participam da organização do Festival de Repente que é realizado todo ano pela prefeitura municipal – inserido na programação do Mossoró Cidade Junina sob a responsabilidade de Aldaci de França – cantador, professor e funcionário da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN) – o que a presidenta da Casa não considera muito justo. Apesar disso, ela caracteriza a relação com o poder público municipal boa, participando, a convite, dos eventos realizados. Às vezes, são chamados inclusive para opinar sobre a organização e realização do que é promovido.
A obtenção de verbas para a reestruturação da Casa, no entanto, tem se mostrado mais difícil do que a realização das cantorias:
Os entraves e as dificuldades, a gente sabe que tem muitas, né. E principalmente diante de cultura, você sabe, você como tá nessa pesquisa você vê, como cultura, assim... umas coisas eles valorizam demais e as outras menos; não é um bolo que você fatia com fatias iguais. Não. Uns é demais, outros menos. Vai assim, aquelas portas: umas são mais portas abertas, outras fechadas e assim vai essas coisas. Mas a gente gosta, aí tem que não desistir, persistir. (Maria Eleni de Lima)
O que pode se observar é que a associação funciona atualmente somente por meio de ações isoladas da presidenta. A identificação entre ela e a instituição pode ser observada inclusive na apropriação que faz do arquivo. O acervo da Casa do Cantador continha fotos e registros de eventos, troféus, livros e cordéis, além das fichas de sócios. Os registros antigos
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A “bandeja” pode ser uma caixa, uma cesta, ou uma bandeja mesmo como o nome sugere, onde os espectadores depositam dinheiro (em valores variados) para pagar o cantador. Voltaremos a falar disso adiante.
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Zé Lima é compositor, cordelista, violeiro, repentista e apresentador do programa “Coisas do Sertão”, que é exibido semanalmente no canal da TV Cabo Mossoró (TCM).
foram destruídos no incêndio, mas os novos são mantidos na própria residência de Eleni, esperando uma nova casa para serem guardados.
Celeste Guimarães fez uma análise mais negativa da situação atual da Casa. Para ele, as ações estão paralisadas e a associação não existe mais. Contudo, ele também atribui a isso outras causas para além da falta da sede e do patrocínio:
Complicado, muito complicado. Acho que não existe mais Casa do Cantador. As Casas dos Cantadores tudo começaram a ter problema depois que os cantadores começaram a fazer congresso. Então, tem um congresso de cantador aqui. Era o congresso de quando Luiz Antônio era cantador. Então, não era o congresso de Cantador, era o Congresso de Luiz Antônio. Então Luiz Antônio convidava pessoas que vinham para a cantoria aqui porque convidavam ele para ir pra de lá. E começou a ficar muito cantador à margem. Hoje, a situação das Casas de Cantadores, não só a de Mossoró (a de Mossoró também é pior porque nem existe mais)... Então começou a haver essa política e o grupo de cantadores inclusive... Está acabando, mas é uma política muito séria! Eles se destruindo, os velhos contra os novos. [...] Isso acabou agora, mas foi uma fase, de uns cinco a seis anos aí muito, muito ruim. Foi muito ruim pra cantoria. Então o que que acontecia? Os cantadores bons, que não pertenciam ao grupo, que não faziam esse jogo de chamar os outros para a cantoria, não vinham para Mossoró porque não era do grupo. Vinham muitos cantadores bons também, mas quem não fosse do grupo não vinha. Pessoas como Oliveira de Panela, Lourinaldo Venturino, grande nome nacional. Eu fiz até uma cantoria só pra trazer esse pessoal aqui. E ainda hoje está arrumado dessa maneira. Então isso acabou muito a cantoria, mas de qualquer maneira é uma coisa que não morre nunca. [...] O cantador não tem mais a sua entidade, o seu lugar de apoio em Mossoró. Não tem mais de jeito nenhum. [...] Isso é muito sério. É muita insatisfação no meio dos cantadores. Cada cantador que você falar, não tem nenhum satisfeito! Todos muito tristes, me procuram, mas eu não sou cantador! Me procuram para ver se faz alguma coisa, o que a gente poderia fazer? (Celeste Guimarães)
Percebe-se nesse depoimento que a Casa do Cantador constituía-se não apenas um espaço para viabilizar as cantorias, mas um “lugar de apoio”, de encontro e convivência, entre cantadores e apologistas. Para Celeste Guimarães, esse espaço de convívio é muito importante, de forma que ele gostava mais de conversar com os artistas do que ouvir a cantoria, pois “na hora da conversa, da prosa, é que a poesia sai com mais naturalidade”.
Nesse sentido, os cantadores são também caracterizados como pessoas engraçadas.
Eu particularmente achava muito divertido, quando a gente sentava numa mesa de bar. Eu achava muito divertido porque eles ficavam brincando um com os outros, com aqueles repentes que eles fazem... como é que eles chamam? Tem um nomezinho, que eles gostam de brincar com as palavras... Trocadilho! Eles fazem muito trocadilho um com o outro. Aí tem umas coisas bem interessantes. Por exemplo: eu me lembro que uma vez... (acho que foi com Luiz Campos, não me lembro quem era a outra pessoa) falou assim, que tava com vontade de vomitar. Aí o outro falou assim: “E você tem vontade de vomitar? Nunca tive vontade de vomitar.” “Luiz, você quer bem dizer que nunca teve vontade de vomitar?” “Não, eu já vomitei, mas que eu tivesse vontade não.” As brincadeiras que eles ficavam fazendo um com os outros, né. Eu lembro dessa coisa, da diversão. (Depoimento de uma apologista)
Histórias de humor como essa estão sempre presentes nas cantorias, sendo contadas nos intervalos. Essa, entre outras características que discutiremos adiante, contribuem para formar um clima informal de festa e de roda de conversas que prevalece nos eventos. Na ausência da casa, o espaço de confraternização tem se concentrado nas cantorias, onde essa comunidade – de cantadores e apologistas – reúne-se, troca histórias e relembra fatos compartilhados no passado.