7 Findings
7.1 Perception of the Subject
A avaliação in vitro dos complexos Tc2-Tc9 compreendeu o estudo da estabilidade in vitro em condições fisiológicas e ainda a determinação da afinidade dos compostos para a melanina. A análise por HPLC demonstrou que os complexos Tc2-Tc9 são estáveis em condições fisiológicas (PBS, pH 7,4; 37 ºC), não sofrendo qualquer tipo de degradação ao fim de 24 h.
A avaliação da afinidade in vitro dos complexos Tc2-Tc9 para o pigmento melanina foi efectuada através do estudo da ligação dos complexos à melanina sintética disponível comercialmente. Na literatura apenas se encontravam descritos estudos semelhantes para moléculas radioiodadas.102,104,107 Assim, foi necessário optimizar diferentes parâmetros
experimentais (tempo de incubação, concentração de melanina, entre outros) no sentido de transpor a metodologia descrita na literatura para os complexos de 99mTc.
A capacidade de ligação dos complexos à melanina foi determinada através da co- incubação dos complexos Tc2-Tc9 com uma suspensão de melanina sintética em água destilada, numa concentração de 0,5 mg de melanina por 10 mL de H2O. Os complexos de 99mTc foram previamente purificados por HPLC a fim de remover o ligando livre que
também apresenta afinidade para a melanina, tendo sido verificado que competia com o complexo na ligação ao pigmento. A ligação dos complexos à melanina apresenta uma cinética muito rápida, observando-se a mesma percentagem de ligação após 1 e 24 h de incubação. Assim, os ensaios in vitro da ligação de Tc2-Tc9 à melanina sintética envolveram a incubação a 37 ºC dos compostos com o pigmento durante 1 h. Ao fim deste tempo e após tratamento adequado, foram retiradas alíquotas do sobrenadante que contém a fracção de complexo que não se liga à melanina. A diferença de actividade entre estas alíquotas e alíquotas de tubos de controlo aos quais foi adicionado cada complexo em estudo, nas mesmas condições experimentais mas sem melanina, permitiu calcular a percentagem que se ligou à melanina, como descrito com mais detalhe na parte experimental. Na tabela 2.7 apresentam-se os valores de percentagem de ligação à melanina determinados para os complexos Tc2-Tc9 e também para os complexos modelo fac-[99mTc(CO)
3{3,5-Mepz(CH2)2NH(CH2)2NH2}]+ 51 (6) e fac-[99mTc(CO)3{3,5-
Mepz(CH2)2NHCH2COO}]55 (7) (figura 2.15). O estudo dos complexos modelo permitiu avaliar
o efeito da introdução dos fragmentos procanamida e 2-aminoetildietilamina na afinidade dos complexos funcionalizados para a melanina.
Tabela 2.7. Percentagem de ligação à melanina dos complexos Tc2-Tc9 e dos complexos-modelo 6
e 7, após 1 h de incubação a 37 ºC ([melanina] = 0,5 mg/10 mL)
Complexo % ligação à melanina
Tc2 79 ± 5 Tc3 94 ± 2 Tc4 77 ± 4 Tc5 71 ± 3 Tc6 76 ± 2 Tc7 67 ± 5 Tc8 60 ± 5 Tc9 87 ± 7 6 70 ± 2 7 0
Os complexos Tc2-Tc9 apresentam uma ligação à melanina moderada a elevada, com valores compreendidos entre 60 e 94%. De uma maneira geral, observa-se que os complexos catiónicos apresentam uma percentagem de ligação superior aos complexos congéneres neutros. O complexo modelo catiónico fac-[99mTc(CO)
3{3,5-
Mepz(CH2)2NH(CH2)2NH2}]+ (6) apresenta uma elevada ligação à melanina, sendo mesmo
comparável à apresentada pelos complexos Tc6 e Tc7 que resultaram da funcionalização da sua estrutura com os derivados da benzamida através do anel de pirazolo. Pelo contrário, o complexo fac-[99mTc(CO)
3{3,5-Mepz(CH2)2NHCH2COO}] (7) não apresentou
qualquer afinidade para a melanina, mas a sua funcionalização com os grupos procanamida e 2-aminoetildietilamina originou complexos (Tc4, Tc5, Tc8 e Tc9) com elevada afinidade para este pigmento. Como referido no capítulo introdutório, a melanina é um polímero amorfo de carga global negativa.70,120 Estudos in vitro mostraram que a ligação de
diferentes substratos à melanina envolve essencialmente forças de natureza electrostática e interacções hidrofóbicas, dependendo do tipo de compostos.70,120 A elevada afinidade
para a melanina encontrada para o composto fac-[99mTc(CO)
3{3,5-Mepz(CH2)2NH(CH2)2NH2}]+
(6) é certamente justificado pelo seu carácter catiónico que potencia o estabelecimento de forças electrostáticas, ao contrário do que acontece para fac-[99mTc(CO)
3{3,5-
Mepz(CH2)2NHCH2COO}] (7) que tem um carácter neutro.
Como dito anteriormente, a ligação dos derivados de benzamidas à melanina envolve duas componentes principais: forças electrostáticas e interacções hidrofóbicas.70,120 De modo a elucidar qual destas componentes seria predominante na
interacção com a melanina dos complexos de 99mTc descritos neste capítulo foram
efectuados estudos adicionais que envolveram a incubação de alguns dos complexos com melanina na presença de n-propanol e a avaliação do efeito da lavagem com soluções de força iónica diferente. Os estudos efectuados na presença de n-propanol (33% em solução aquosa) pretendiam elucidar o eventual envolvimento de interacções hidrofóbicas, uma vez que é o tipo de interacções que este álcool estabelece com o pigmento. As experiências que envolveram lavagens com soluções de diferente força iónica (soluções de NaCl de concentrações crescentes: 0,016 M e 2 M), após incubação prévia dos complexos de 99mTc com a melanina, deveriam indicar o envolvimento de forças electrostáticas na
interacção dos complexos com a melanina. Para realizar estes estudos, escolheram-se apenas os compostos Tc2-Tc5, funcionalizados através da amina central, uma vez que se pretendia avaliar essencialmente a influência da presença dos diferentes farmacóforos (procanamida vs 2-aminoetildietilamina) e da carga dos complexos na interacção com a
melanina. Nestes ensaios, a percentagem de ligação à melanina foi calculada como atrás descrito e os resultados obtidos encontram-se apresentados na tabela 2.8.
Tabela 2.8. Percentagem de ligação à melanina na presença de n-propanol e após lavagem com
soluções com diferentes forças iónicas, durante 1 h a 37 ºC ([melanina] = 0,5 mg/10 mL)
Composto % ligação à melanina H2O n- propanol(33%)/H2O 1ª lavagem NaCl 0,016 M 2ªlavagem NaCl 2 M Tc2 88 ± 6 79 ± 2 79 ± 5 23 ± 3 Tc3 94 ± 2 86 ± 5 76 ± 5 22 ± 2 Tc4 77 ± 4 30 ± 3 62 ± 4 49 ± 2 Tc5 71 ± 3 20 ± 2 60 ± 4 45 ± 5
Na presença de n-propanol, os complexos neutros (Tc4 e Tc5) sofrem um decréscimo pronunciado na sua percentagem de ligação à melanina que passa de valores da ordem dos 70-80% para valores da ordem dos 20-30%. Esta tendência não foi verificada para os complexos catiónicos, Tc2 e Tc3, cuja percentagem de ligação foi pouco afectada pela presença do n-propanol. Comparativamente aos complexos neutros, a percentagem de ligação dos complexos Tc2 e Tc3 foi mais afectada pela lavagem com soluções de NaCl de concentração crescente, diminuindo drasticamente após a lavagem com a solução de força iónica superior. Estes resultados indicam que a interacção com a melanina dos complexos catiónicos, Tc2 e Tc3, parece ser essencialmente de natureza electrostática. Por sua vez, para os complexos neutros Tc4 e Tc5 essa interacção parece ter predominantemente um carácter hidrofóbico.