Outro dos pontos que tivemos em atenção nos títulos analisados foi a questão da publicidade, na perspectiva de perceber até que ponto os anúncios publicados no jornal correspondiam às notícias veiculadas pelo periódico, fosse em termos das entidades, locais ou eventos.
O total dos anúncios contabilizados que de algum modo correspondem a peças publicadas no mesmo dia no jornal é de 169 no Diário de Coimbra e 185 no Diário As
Beiras. Tendo em atenção o total de notícias analisadas em cada um dos títulos,
obtemos uma percentagem de 5% para cada jornal, no que toca à taxa de coincidências entre conteúdos publicitários e conteúdos jornalísticos.
Não foi nosso objectivo olhar indiscriminadamente para a publicidade quando em paralelo com os textos noticiosos. Assim, fizemos uma distinção entre aquilo a que chamámos Publicidade Directa, ou seja, anúncios de entidades que são os protagonistas das notícias, e Publicidade Relacionada, ou seja, anúncios que estão relacionados com o tema da notícia. Um exemplo de Publicidade Directa é existir um anúncio de um concerto que vai haver e na mesma edição estar uma peça sobre esse espectáculo. Vejamos os exemplos abaixo.
In: Diário de Coimbra, 27/10/2005, p. 25
Publicidade Relacionada é aqui considerada, por exemplo, no âmbito da existência de uma peça sobre uma freguesia, estando nessa mesma página um anúncio de um café situado na freguesia. Em baixo está o exemplo.
In: Diário de Coimbra, 29/04/2006, p. 6
Feita esta distinção, vamos avançar para o número de peças que em cada um dos jornais corresponde a cada uma das categorias. Assim, no que diz respeito ao Diário de
Coimbra, encontrámos 100 ocorrências de Publicidade Directa, ou seja, 59% do total de
anúncios, e 69 ocorrências de Publicidade Relacionada, que representam os restantes 41% do total.
Já no que toca ao Diário As Beiras, a Publicidade Directa é motivo de existência de 94 peças, ou seja, 51% do total de coincidências entre texto e publicidade, e a Publicidade Relacionada está um pouco mais abaixo com 91 peças, ou seja, 49% do total. Numa
primeira análise podemos concluir que o Diário de Coimbra demonstra mais casos de Publicidade Directa do que o Diário As Beiras, onde os dois tipos estão equilibrados. O Gráfico 26 ajuda a olhar para estes dados.
Gráfico 26
Publicidade directa e relacionada no Diário de Coimbra e no Diário As Beiras
0 20 40 60 80 100 120 DC AB Pub directa Pub relacionada
Percebemos, por este gráfico, que o Diário de Coimbra tem uma taxa maior de coincidência directa entre anúncios e notícias, estando o Diário As Beiras mais equilibrado neste campo.
Para compreendermos um pouco melhor esta questão, do total de anúncios publicitários considerados como coincidentes com as peças jornalísticas, decidimos avaliar a taxa daqueles que estão precisamente na mesma página dos textos com que se relacionam. A resposta diz que, no que toca ao Diário de Coimbra, são 95 os anúncios que estão na mesma página das notícias, ou seja, 56%, e destes 27% são de Publicidade Directa e 73% de Publicidade Relacionada. No caso do Diário As Beiras são 127 os anúncios posicionados na mesma página do texto com que se relacionam, perfazendo uma taxa de 69% do total de anúncios. Destes, 28% dizem respeito a Publicidade Directa e os restantes 72% a Publicidade Relacionada. Os Gráficos abaixo ajudam na análise.
Gráfico 27
Publicidade e conteudo jornalístico correspondente por páginas
0 20 40 60 80 100 120 140 DC AB Mesma página Página diferente
Através do gráfico acima é fácil concluir que o Diário As Beiras tem uma maior taxa de anúncios colocados na mesma página das notícias que com eles têm correspondência. De facto, no Diário de Coimbra estas contas são mais equilibradas, ainda que o número de anúncios e peças relacionadas na mesma página seja superior àquelas que estão em páginas diferentes.
Gráfico 28
Publicidade e conteúdo jornalístico correspondente situados nas mesmas páginas
0 20 40 60 80 100 DC AB Pub directa Pub relacionada
No que toca a estes anúncios e textos jornalísticos com eles relacionados, a grande maioria dos que estão na mesma página dos jornais, dizem respeito a Publicidade Relacionada e não a Publicidade Directa. No caso do Diário As Beiras os números são
mais significativos e concluímos que, nos dois tipos de publicidade, existem mais ocorrências do que no Diário de Coimbra.
Não podemos deixar de questionar estes dados de modo mais aprofundado. Esta “promiscuidade” entre publicidade e texto noticioso leva-nos a pensar que as notícias em causa só o são porque o título contém publicidade das mesmas. Isto é mais verdade nos casos das empresas. Relembremos aqui as palavras de Pedro Coelho (2005, p. 159), quando fala no comprometimento dos meios de comunicação social locais com as elites, poderes, instituições e empresas da região. É de facto relevante questionar este aspecto, visto que este comprometimento pode por sua vez comprometer a independência do jornal e em nada contribui para o ultrapassar dos problemas que ainda subsistem na imprensa regional.
Ainda que a taxa de publicidade co-relacionada com notícias seja de apenas 5% em cada jornal, isso não quer dizer que não levemos em conta essa percentagem e que não questionemos o facto de que, por mais ínfima que seja essa percentagem, todos os dias existem notícias que poderiam não existir se não fossem suportadas pela publicidade. A publicidade é um dos principais suportes financeiros de um jornal, e muito já se falou, no que diz respeito à imprensa regional, nesta questão, ou falta dela. Como já aqui referimos, os dados do estudo “Retrospectiva da área da comunicação” do Obercom (2007, p. 73) retratam um crescimento de investimentos publicitários na imprensa regional. Em 2004, este tipo de imprensa contava com 7,4% de investimento. João Carlos Correia (1998, p. 158) afirma que esta escassa relação com a publicidade é um dos traços típicos do jornalismo pré-industrial que ainda subsistem na imprensa regional portuguesa.
Provavelmente esta escassez de investimento publicitário será a causa para que os periódicos, que são empresas como outras quaisquer, procurem contornar a situação arranjando novas alternativas. As notícias pagas no sentido puro e duro do termo já são uma opção para alguns investidores, que começam agora a lançar para o mercado títulos onde é assumidamente possível pagar para fazerem uma reportagem do nosso negócio. No entanto, as regras do jogo para estes jornais são bem diferentes das que pautam os periódicos aqui analisados, cuja função e abrangência é generalista. Sob pena de os objectos das notícias começarem a fazer exigências e a ter uma palavra a dizer quanto
ao conteúdo publicado, esta situação parece-nos algo delicada e poderá pôr em causa a independência do jornalista.
3.6.3.1
Os textos veiculados nos anúncios
Numa análise qualitativa da publicidade com correspondência às peças dos dois jornais, deparámo-nos como elementos textuais presentes em alguns anúncios. Decidimos aqui expô-los por considerarmos que eles vêm ao encontro dos dados acima analisados, que mostram a relação directa entre os anúncios e o texto em causa. Assim, é frequente encontrarmos publicidades onde a entidade associada ao acontecimento que está a ser relatado na notícia acrescenta frases como “Ourivesaria Catarino: Felicita a Escola Superior de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca” (Diário As Beiras, 19/10/2005, p. 13) ou ainda “Visite-nos na CIC” (Diário de Coimbra, 2/07/2006, p. I). De referir, no que toca a estes elementos textuais, que encontrámos dois casos no Diário de Coimbra e dez no Diário As Beiras. Mais abaixo encontramos exemplos.
In: Diário As Beiras, 26/07/2006, p. 5
Estes elementos textuais vêm confirmar a correspondência e co-relação entre as peças jornalísticas e os anúncios publicitários. Quem paga a publicidade decide que elementos quer que ela contenha e o facto de lhe associar frases como estas demonstram que os responsáveis pelos empresas ou entidades que fazem anúncios já sabiam que aquela publicidade iria sair junto ao texto em questão.
Conseguimos assim demonstrar que, ainda que a relação entre conteúdo jornalístico e conteúdo publicitário seja apenas de 5%, ela existe em ambos os jornais estudados. Quando falávamos na questão da objectividade e subjectividade, referimos aqui uma citação de Fernando Correia (2006, p. 68), que dizia que a proximidade da imprensa regional com as fontes, o poder e o público pode ser sinónimo de vantagens e desvantagens, sendo estas últimas a questão da “maior vulnerabilidade perante os constrangimentos e as pressões externas”. Esta mesma vulnerabilidade de que fala Fernando Correia poderá estar também patente na co-relação entre notícia a anúncio, fragilizando a posição do jornalista face ao responsável que pagou pelo anúncio e que se
pode achar no direito de fazer exigências ou exercer pressões para que o texto saia desta ou daquela maneira.
Quanto à hipótese levantada no âmbito da publicidade, não nos parece que a publicidade tenha um papel importante na construção das notícias dos jornais. Parece-nos antes que algumas daquelas notícias provavelmente existem porque os promotores dos eventos pagaram um anúncio publicitário. Além disso apenas 5% das edições têm publicidade que está de alguma modo relacionada com o conteúdo noticioso e destes, apenas alguns anúncios estão posicionados dentro do jornal junto às peças informativas.
4
Conclusão
Começámos este trabalho tendo como objectivo contribuir para o estudo da imprensa regional, até porque, partimos do pressuposto que ela estaria a sofrer reconfigurações e que estaria em fase de mudança, deixando de lado um jornalismo conotado com traços pré-industriais e com o poderio local. Tivemos como um dos nossos propósitos neste trabalho a crença de esta imprensa de ligação com um território e uma comunidade específicas teria ainda muito para dar, sobretudo porque o género está pouco estudado, os dados existentes não são exactos e Portugal, ao contrário de outros países da Europa, tem uma multiplicidade de títulos regionais dos quais pouco ou nada se sabe. Escolhemos a região de Coimbra pelo facto de esta cidade ancorar dois jornais de periodicidade diária (Diário de Coimbra e Diário As Beiras), facto incomum naquilo que é a realidade da imprensa regional, e também porque queríamos perceber o que preenchia os periódicos, face a uma cidade de clara importância no campo da educação, desportivo e de saúde. Queríamos, pois, saber mais acerca da identidade dos media de proximidade no seu todo, dando o nosso contributo para os estudos gerais sobre o sector, mas, particularmente, queríamos saber qual o conjunto de valores e factores que identificaria os jornais em causa para esta pesquisa. Colocámos de imediato como hipótese, que a sobrevivência dos dois títulos na mesma cidade assentaria em agendamentos mútuos e mimetismos editoriais, que ambos deveriam assentar em géneros e temas semelhantes e que as notícias veiculadas incidiriam maioritariamente sobre a localidade e, no limite, sobre o distrito de Coimbra. Questionámos ainda a associação da imprensa regional ao género da opinião e a sua conotação com a
publicidade, assim como com marcas de proximidade que hipoteticamente encontraríamos no conteúdo noticioso dos jornais estudados.
***
Analisados que estão os dados, a primeira grande conclusão que podemos retirar acerca do perfil do Diário de Coimbra e o Diário As Beiras é que eles são dois periódicos diários, implantados na cidade de Coimbra e ancorados à imprensa regional, que não se pautam pelas mesmas opções editoriais nem pela cobertura dos mesmos acontecimentos, mostrando mesmo lacunas espaciais na cobertura da informação. Fazem opções distintas em termos de conteúdo, mesmo quando tratam informação respeitante aos mesmos eventos, e conseguem ocupar espaços diferentes na região onde se inserem. Assim, concluímos que a vocação do Diário As Beiras está mais inclinada para o regional e a do Diário de Coimbra para o local, ainda que ambos estejam em primeiro lugar ligados à cidade de Coimbra, de onde escorre a maioria da informação que lhes ocupa as páginas da edição. Confirmam assim, em termos dos critérios de noticiabilidade, a importância da proximidade enquanto valor-notícia, sobretudo num sector da comunicação onde os acontecimentos “ali ao lado” têm prioridade na fila das notícias. As primeiras páginas primam também pela diversidade, tanto no que diz respeito às peças, como ao destaque que lhes é dado quando elas são as mesmas. Apesar disto congregam pontos em comum ou semelhantes, como o facto de serem ambos jornais vocacionados para a difusão de eventos maioritariamente ligados à Cultura e ao Desporto, sendo que no que toca aos eventos culturais, o Diário de Coimbra sobretudo, dá muita informação mas cada peça tem pouco destaque. Além disso os dois periódicos têm uma forte ligação com a imagem e, ainda que a cidade seja um pólo de educação e saúde, estas são temáticas com pouco destaque nos títulos. Acentuada em ambos os jornais é a vertente da agenda, ou seja, a veiculação de pequenas notas informativas acerca dos eventos que estão e irão acontecer, prestando assim uma informação útil e de proximidade ao leitor.
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A segunda grande conclusão que retirámos deste estudo é que os dois títulos contêm marcas fortes e inegáveis de proximidade, não só em relação à cidade e suas instituições, mas também em relação ao público. Denotam, por isso, características da imprensa regional, onde o grau de intimidade entre o órgão de comunicação social e o público-alvo é maior. Percebemos em determinadas alturas que os acontecimentos são vividos pelo jornalista como se deles fizesse parte, sendo que muitas vezes deixa antever a sua voz no meio dos textos noticiosos. A subjectividade é, por isso, uma marca presente em muitos conteúdos por nós analisados, sendo que sobretudo no que diz respeito aos jogos de futebol e às empresas, quem escreve a notícia deixa de lado todas as preocupações que aqui referimos que pautam a procura incessante da objectividade, e cai assumidamente em terrenos subjectivos. De facto, os jornais mostram que conhecem os temas e a sociedade, não se coibindo de veicular juízos de valor e apelar ao público, nem de fazer da adjectivação um dos elementos contidos nos textos, criticando e elogiando e deixando passar a voz e a subjectividade do jornalista. No caso do Diário de Coimbra e do Diário As Beiras, tratam-se de títulos que conhecem a sua zona de implantação e que procuram fidelizar os seus leitores mostrando que é a eles que as declarações são feitas, que foram eles que estiveram no local, e que são eles que se preocupam o suficiente com o público para retribuir actos tão simples como os votos de boas festas. Além disso, imprimem uma perspectiva regional a muitas notícias de âmbito nacional e, no caso do Diário As Beiras, está bem presente o valore-notícia da proximidade, que deixa antever uma política editorial prioritária em relação a este factor.
Numa altura em que o futuro da imprensa regional pode ser redesenhado, desde que haja empenhamento e vontade dos agentes em lutar pela mudança, o Diário de Coimbra e o Diário As Beiras são dois exemplos de títulos de imprensa diária, que sobrevivem na mesma cidade, competem e encontram soluções editoriais que marcam pela diferença de um em relação ao outro. Não estão conotados com a opinião nem dão sinais de dependerem dos poderes e elites locais, como seria esperado face à concepção existente em relação à comunicação social regional portuguesa. Além disso, a análise efectuada veio confirmar a nossa percepção de que os órgãos de comunicação social regionais em Portugal estariam efectivamente em processo de mudança, pelo menos no que diz respeito a estes dois periódicos estudados que, além do que já referimos, ainda demonstram ter uma ligação forte com a imagem. Se o futuro é o local, o particular e o específico, a imprensa regional pode ser o motor para chegar à diversidade e, sem falsas pretensões, ajudar na tarefa de desenvolvimento das regiões, dando voz a outros que não apenas aqueles que estão sedeados nas grandes capitais. O papel desta imprensa de proximidade em Coimbra é, assim, distinta no que toca à diferenciação dos dois jornais, sendo que um deles está mais vocacionado para a região Centro do que o outro. Não deixam, no entanto, de contribuir para que a informação regional chegue aos destinatários. Se o papel da imprensa regional em Portugal pode ser um veiculo importante para fazer as regiões chegar mais longe e para ser a voz e o espelho dos cidadãos que poderão operar essas mudanças, no caso da cidade de Coimbra a mudança já deu passos importantes. A cidade já provou que, num país onde subsistem traços de pré-industrialização nos órgãos de informação locais, consegue suportar a existência de dois jornais diários, que ainda que caminhem no mesmo sentido têm paralelamente caminhos diferentes. Cabe agora a cada um assumir a mudança, olhar em frente e deitar mãos à obra na construção das identidades regionais mais fortes.