Em uma casa na favela Um jovem lá morava
Não tinha pai, não tinha mãe Não tinha família para orientá-lo
Ele vivia no meio da perdição
Ele era apenas um cidadão
Que gostava de andar como os outros, Com roupa nova e dinheiro no bolso
E muito mal tinha cursado o 1º grau E a vida que levava não era legal Tinha vivido seu passado no escuro, E seu presente era sem futuro
Independente de tudo Queria ser feliz
Viver sem preconceito no seu próprio país Mas entre a sociedade não obteve respeito
E a cada dia que passava aumentava o preconceito
E se sentiu fracassado Perdeu a razão de viver
E já não se emportava em ser feliz ou sofrer E perguntava a si mesmo
"Onde foi que eu errei?" Para carregar na vida O mal que herdei
Fico cansado de tentar achar as respostas
E todos que se diziam amigos viraram-lhe as costas E sua vida se tornou um grande tormento
Até que ele "colocou" Jesus em seu pensamento E a partir daquele dia sua vida mudou
Ele encontrou alegria Ele encontrou o amor
Ele encontrou tranquilidade que faltava no lar Ele aceito Jesus
Encontro, Cachoeirinha, ... já aceitaram Jesus
falta você aceitar
Vem Boréu, vem Formiga,... já aceitaram Jesus
falta você aceitar
Abarão, Mestre de Jacarepaguá já aceitaram Jesus
falta você aceitar
Nova Brasília a fé, Chatuba e Agamba Vigário, Vila Ideal, Dois Irmãos, Cidade Alta já aceitaram Jesus
falta você aceitar
com muita fé em Deus paramos por aqui eu, Catra, o fiel eu, Duda, MC
que todos sejam iluminados pelo justo dos céus
eu, Duda, MC eu, Catra, o fiel
para quem não se ligou acho bom se ligar.
O enunciador inicia o discurso Casa na favela por meio do adjunto adverbial de lugar “em uma casa na favela”, marcando, dessa forma, a cenografia em que se desenvolve a temática acerca da trajetória da vida de um jovem que, lá, mora. Como se não bastasse fazer parte dessa classe social marginal, o jovem é orfão de pai e mãe, o que significa estar mais ainda à margem da sociedade, pois Não tinha família
Esse jovem queria ser como qualquer outro: usar roupa nova, ter dinheiro, ter estudo, ter futuro, ser respeitado, ser feliz: Ele era apenas um cidadão/ Que gostava
de andar como os outros/ Com roupa nova e dinheiro no bolso. No entanto, por
morar na favela e ter, lá, suas raízes, ele era vítima do preconceito que a sociedade e o seu país dispensam aos denominados invisíveis:
E muito mal tinha cursado o 1º grau/ E a vida que levava não era legal/ Tinha vivido seu passado no escuro,/ E seu presente era sem futuro/ Independente de tudo/ Queria ser feliz / Viver sem preconceito no seu próprio país/ Mas entre a sociedade não obteve respeito/ E a cada dia que passava, aumentava o preconceito
Por conseguinte, tem uma trajetória de vida triste, sem perspectivas de futuro, sem amigos, um cidadão da exclusão à procura de respostas para a frequente indação que fazia a si próprio: Onde foi que eu errei/ Para carregar na
vida/ O mal que herdei? Resposta, esta, encontrada na religião, na fé, na aceitação
de Jesus: Até que ele colocou Jesus no seu pensamento/ A partir daquele dia, tua
vida mudou/ Ele encontrou alegria/ Ele encontrou amor/ Ele encontrou a tranquilidade que faltava no lar/ Ele aceitou Jesus.
O discurso se constrói permeado pelo discurso do preconceito, da discriminação, da marginalização. Observamos as marcas linguísticas favela,
perdição, preconceito, fracassado, sofrer, tormento, somadas a E muito mal tinha cursado o 1º grau/ E a vida que levava não era legal/ Tinha vivido seu passado no escuro, explicitando a dura realidade de um jovem da periferia, que está a margem
de uma sociedade excludente e de um país injusto, que trata o povo com desigualdade, sem respeito, desprovido de políticas públicas sérias. Em consequência, tem-se um jovem à beira do crime e das drogas – significado de
perdição, na memória coletiva, na relação com a vida na favela –, discriminado até por aqueles que se diziam amigos, cansado e castigado pela preconceituosa e discriminadora sociedade:
Queria ser feliz/ Viver sem preconceito no seu próprio país/ Mas entre a sociedade não obteve respeito/ E a cada dia que
passava, aumentava o preconceito/ E se sentiu fracassado/ Perdeu a razão de viver/ E já não se importava em ser feliz ou sofrer/ [...] Ficou cansado de tentar achar as respostas/ E todos que se diziam amigos viraram-lhe as costas/ E sua vida se tornou um grande tormento
A construção do discurso se dá por meio de uma narrativa em versos, apresenta rimas como 1º. grau/legal, escuro/futuro, feliz/país, respeito/preconceito,
viver/sofrer, errei/herdei, respostas/costas, tormento/pensamento, mudou/amor, lar/aceitar, mas, ao inscrever o referente numa nova cenografia – sua vida fora transformada por Jesus –, o enunciador impõe ao discurso um tom de testemunho:
Até que ele "colocou" Jesus em seu pensamento/ E a partir daquele dia sua vida mudou/ Ele encontrou alegria /Ele encontrou o amor/ Ele encontrou tranquilidade que faltava no lar/ Ele aceitou Jesus / Falta você aceitar
Verificam-se, dessa forma, marcas do discurso evangélico, conforme os recortes Até que ele colocou Jesus no pensamento e Ele aceitou Jesus, expressões que são da memória coletiva, no que se refere a se converter à religião evangélica, isto é, aquele que põe Jesus no pensamento, que aceita Jesus, torna-se envangélico.
Nesse tom de testemunho de vida, apresentado em igreja evangélica, o jovem passa a ser respeitado e serve como exemplo para outros jovens que estejam passando pelo mesmo tormento, justificado por Ele aceitou Jesus/ Falta você
aceitar. Observa-se que, neste momento, o enunciador se dirige ao co-enunciador ,
por meio do pronome de tratamento “você”, utilizando-se, pois, do discurso direto. Vale ressaltar que Jesus transforma a vida do jovem de tal forma que o amor, a alegria e a tranquilidade que lhe faltavam passam a fazer parte de um lar e, não, uma casa na favela. A marca linguística lar, que demonstra aconchego, opõe-se a
uma casa na favela, que traz consigo todos os significados ruins de origem:
daquele dia sua vida mudou/ Ele encontrou alegria/ Ele encontrou o amor/ Ele encontrou tranquilidade que faltava no lar/ Ele aceitou Jesus/ Falta você aceitar.
Casa na favela é um discurso que deixa bastante latente o antigo e primeiro propósito da música funk, o de manifestação cultural suburbana, de conscientizador, no que tange ao preconceito e à discriminação, embora, apresentando-se, também, como testemunho de vida (pretexto), com o objetivo de abarcar fiéis. Ao mesmo tempo, pode-se levantar a hipótese de que converter-se pode ser a única solução para amenizar o sofrimento da periferia, obter conforto para enfrentar os problemas do dia a dia, preencher o vazio deixado pelo sentimento de invisibilidade.