• No results found

6.1 Analysis disregarding different applications

6.1.6 Penalty function

A publicação em periódicos é uma função central na vida acadêmica, uma vez que possibilita que o resultado da pesquisa seja divulgado. Publicar na vida acadêmica é comunicar e ter a expectativa de ser lido e conhecido pela comunidade acadêmica. Esse tipo de comunicação cientifica tornou-se um indicador para determinar qualidade do programa de ensino superior e para aumentar a visibilidade da produção cientifica dos docentes. No contexto brasileiro, em função da aplicação do modelo Capes de avaliação de qualidade dos programas de pós-graduação em vigor desde 1997, fortaleceu-se uma política institucional que elege a publicação como indicador de qualidade do trabalho acadêmico. Os critérios e conceitos do processo avaliativo consolidado pela Capes ainda provoca discussões e opiniões contraditórias no meio acadêmico e “desconforto no

132

universo da pós-graduação brasileira” (HORTA, MORAES, 2005). Na Poli, esse modelo que premia mais a produtividade do que o processo de formação e produção parece ainda gerar perspectivas antagônicas entre os acadêmicos:

É uma cultura que está mudando agora, sabe, a pós em si ela sempre foi muito reticente com relação à produção de artigos. A cultura da Poli nunca foi uma cultura de muita publicação, né, então hoje em dia você vê meio como uma divisão, tem gente que acha que tem que publicar bastante, né, que é uma coisa importante, tem gente que acha que não, acham que é uma faculdade de tecnologia e a gente tem que produzir e publicação é uma coisa secundária (...) então tem gente aí que tá tendo uma briga, mas como existe uma quantificação junto à Capes de qualidade que está relacionada à publicação essa história de que publicar é importante e está ganhando cada vez mais espaço. (Dálio)

O forjamento de um sistema cultural institucional parece ser um processo e não uma fórmula que se aplica e é capaz de transformar a realidade e o padrão de comportamento individual em uma questão temporal determinada. A normatização de mudanças parece ter um efeito ambíguo entre o padrão comportamental dos professores, mais evidentes na fala de que há professores que “acham que tem que publicar bastante” e há professores que “não acham que tem que publicar”. Nesse sentido, Mattos (2008) realça que existe uma pressão em relação à publicação. Nas palavras do autor:

Á flor da pele, está a pressão institucional por publicação. Ela motiva por toda a parte mudanças em rotinas e normas, discussões, queixas e até observações jocosas, como aquela que nos associa glamourosamente ao publish or perish de nossas matrizes acadêmicas (MATTOS, 2008, p. 144).

Observa-se a existência de um grupo de professores que apresenta algo semelhante a uma resistência cultural às transformações dos valores e regras institucionais. Fica evidente também que entre os atores envolvidos nesse quadro institucional manifesta-se um processo de etiquetagem entre “os que publicam” e “os que não acham que têm que publicar” (BECKER, 2008). Inclusive a política de contratação dos professores parece estar em sintonia com a procura por aqueles etiquetados como “os que publicam”:

As próprias contratações que estão sendo feitas hoje em dia são contratações que tentam achar gente com o perfil de produção cientifica elevada, então isso é parte dos critérios de julgamento e isso tem sido levado cada vez mais em conta. (Dálio)

Conforme já tratado no Capítulo 5 a atuação direta do departamento pode não ser capaz de orientar a competência e atividade docente. A questão do professor que

133

“acha que tem que publicar bastante” e do professor que “não acha que tem que publicar” vai depender em alguma medida da atitude dos próprios docentes e de suas interpretações em relação às funções da docência universitária. Por mais que haja pressão institucional que legitima e motiva a criação de um novo ethos acadêmico, a sedimentação mental desses novos valores e práticas parece se constituir em um processo lento:

As coisas ficam muito espalhadas, as forças ficam muito espalhadas e você não consegue direcionar todo o esforço para um objetivo comum, então como existe essa autonomia sempre terá um grupo de professores que vai querer ir em outra direção, você não vai ter um sistema universitário em que seja perfeito, né, então existe essa intenção, existe cada vez mais esses incentivos a publicação vindo mesmo dos departamentos, né, da reitoria, da direção da escola, mas não existe uma política comum (...) até existe uma definição, mas não existe uma forma de impor isso a todo mundo, então essas políticas, essa missão, esse tipo de coisa é sempre muito complicado dentro da universidade, mas existe uma intenção. (Magno)

Em uma das falas de um professor fica evidente que o modelo Capes de avaliação de qualidade dos programas de pós-graduação virou um padrão sistêmico, sustentado também por diferentes órgãos públicos que alimentam essa nova ética acadêmica, citando o programa do CNPq de bolsas docentes de produtividade em pesquisa como um outro mecanismo que alimenta a lógica de premiar mais a produtividade do que o processo de formação e produção:

O que conta hoje é o número de trabalhos que você consegue aprovar, isso entra agora não só na avaliação dos diversos cursos de pós- graduação, como passou esses números de produtividade, como passou a constar também na avaliação da carreira dentro do CNPq, né, existe uma complementação salarial chamada de bolsa de produtividade em que o professor é enquadrado de acordo com a produtividade refletida pelo número de trabalhos publicados. Então o interesse em ter o maior número de trabalhos passou a ser grande porque até influi no rendimento mensal que o professor vai passar a usufruir. Então trabalhos são repetidos, disfarçadamente com um pedaço aqui outro pedaço lá. (Fausto)

Outrossim, percebe-se nas entrevistas que a pressão exercida pelo modelo de avaliação parece ter consequência sobre as orientações em torno do trabalho acadêmico. Na percepção de um professor, essas mudanças podem apresentar um efeito adverso com conseqüente redução da qualidade dos trabalhos acadêmicos desenvolvidos pelos alunos de pós-graduação. O próprio entrevistado reconhece que essa é uma percepção pessoal que não deva ser generalizada para todas as áreas de conhecimento da comunidade acadêmica:

134

Você ouve o professor dizer “dessa tese nós vamos poder fazer três

trabalhos”, não se ouve dizer “dessa tese resultou um belo trabalho” ou “dessa tese resultou uma bela contribuição”, não “dessa tese

resultou dois ou três artigos e isso vai contar pontos, isso vai melhorar minha classificação, vai melhorar a classificação do meu curso, vai trazer mais dinheiro pra nós”, infelizmente o sistema de avaliação contribuiu muito para essa nítida decadência da qualidade das teses que estão sendo defendidas, pelo menos na área que eu conheço, não posso generalizar isso. (Fausto)

Esta fala revela uma inquietação acerca de uma ciência quase objetificada em função de quantas publicações ela possibilita, ainda que pouco questionada acerca da sua contribuição para a produção de novos conhecimentos ou mesmo dos efeitos que o fracionamento da sua divulgação possa produzir para a apreciação do mérito integral do trabalho realizado. É possível interpretar a partir da fala “não se ouve dizer” que a nova forma de produzir e divulgar o trabalho acadêmico pode ter se transformado em um habitus. Este habitus, que valoriza a forma de divulgação do trabalho cientifico, pode estar impulsionando a academia a deixar na esteira da história um jeito “mais puro” e menos pragmático e utilitário de comunicar a produção de conhecimento cientifico, tal como concebido pelo modelo humboltiano em que o papel dos professores e alunos deve se restringir à realização de pesquisa acadêmica e básica. Interpretando a fala do professor com o pensamento de Bourdieu (1997, 1983) esta nova forma de produzir e divulgar o trabalho científico pode estar representando que o grau de autonomia das ciências duras esteja mais sensível a padrões e influências de caráter extra-cientifico.

Outra questão que foi percebida nas entrevistas diz respeito à teoria da “dependência acadêmica” nos processos de produção de conhecimento nas áreas da engenharia. A idéia central desta teoria é que mundialmente existe um processo de subordinação dos acadêmicos do Terceiro Mundo ou dos países denominados de periféricos ou do Sul aos acadêmicos de uma produção determinada pelo Ocidente ou pelos países considerados de centro ou do Norte. Segundo Alatas (2003, 2000), assim como existe o imperialismo econômico e político que age sobre os setores econômicos e governamentais da sociedade, homogeneizando esses ramos da sociedade, assim também existe um processo histórico e contemporâneo de imperialismo acadêmico que contribui para processos de domesticação intelectual em relação àquilo que se espera de uma reflexão científica ou acadêmica. O sociólogo malaio explica que, no colonialismo, o controle sobre o pensamento reflexivo de um povo era fortemente marcado por características panópticas (sistemas escolares “importados” e implantados diretamente nas colônias). Na contemporaneidade, esse controle é exercido indiretamente por meio

135

de um sistema de legislação internacional, pela pressão de instituições comerciais de investimento como o Banco Mundial, por intermédio de estratégias clandestinas ou ocultas de nações influentes, entre outras alternativas. Nesse sentido, políticas e táticas que procuram excluir, como a penalidade pela não-adesão, e incluir, produzindo efeitos homogêneos e equiparando o local com o global, parecem ser utilizadas para fortalecer a dependência acadêmica na contemporaneidade.

Apesar da teoria da dependência ser mais utilizada para caracterizar a dependência do pensamento social de países periféricos, a teoria também parece ser aplicada às áreas das engenharias e tecnologias. A fala de um professor na Politécnica leva a crer que a publicação científica nas áreas das engenharias é marcada pela dependência acadêmica. Segundo o professor, existe um controle internacional de tópicos científicos “admissíveis” e “não-admissíveis”:

A literatura internacional diz “Olha, a rede elétrica é poluidora, você

usa o sistema fotovoltaica que não é poluidora”. Assim, isso é verdade se a rede elétrica é sustentada por queima de carvão, por exemplo. Mas na situação brasileira que a rede elétrica é sustentada por água de chuva isso não é verdade. Então pra ligar do jeito que nós ligamos, treze milhões de pessoas é uma Bolívia e meia ou algumas vezes o Uruguai, sabe, a custo baixo, dentro de algo que os encargos que têm na conta de luz pagam, sem precisar de dinheiro internacional, é muito difícil conseguir publicar nessa área, mas se eu for falar que for comprar sistemas painéis fotovoltaicas vendidos pelos Estados Unidos, aí é fácil de eu publicar, você está entendendo. Então, o que é o

moderno aí?, moderno é ter uma energia fotovoltaica que não posso usar geladeira, não posso ferro-elétrico, não posso usar chuveiro- elétrico ou eu botar um transformadorzinho bem baratinho que vende em qualquer esquina ou qualquer cidade tem uma loja que vende, tem uma porção de firma que faz que a pessoa pode se sentir como você ou eu ou qualquer outro cidadão. O que que é moderno? (Miguel)

Dessa forma, engenheiros ou tecnólogos de países periféricos podem enfrentar maiores obstáculos para competir pelos disputados espaços de publicação de alto impacto caso a temática desenvolvida em sua publicação esteja em descompasso com a demanda da agenda de pesquisa internacional. Fica claro que a relevância nacional do tema de pesquisa e o fato de estar trabalhando no limite do conhecimento para alcançar inovação para problemas sociais ou mesmo para o desenvolvimento de tecnologias sociais – e não tecnologias de ponta – não são garantias para a aprovação da publicação em periódicos internacionais. Contudo, o controle causado por essa condição de dependência é tão sutil que por mais que exista uma demanda interna que se diferencie dos tópicos científicos internacionais muitas vezes o pesquisador ainda precisa ter

136

publicação internacional em função da política de seu departamento ou mesmo em razão de precisar priorizar sua progressão na carreira. Não fica claro no seguinte trecho se a publicação internacional é fruto de uma pressão direta (formal) ou indireta (subjetiva), mas a questão é que a busca por essas publicações pode estar causando uma padronização de tópicos orientados pela agenda internacional, legitimando uma condição de dependência acadêmica:

Eu particularmente acho que é importante a publicação, né, acho que não é a única coisa que deve ser feita, mas eu acho que dentro da universidade a gente tem uma função social aqui que é realmente produzir conhecimento e a forma mais interessante de você divulgar esse conhecimento é através de publicação, né, boletim interno pode estar disponível mas pra pessoa chegar a esse tipo de canal é muito complicado. Você pode ter dez ou quinze alunos defendendo o mestrado e doutorado aí, as teses e as dissertações vão estar disponíveis na biblioteca, mas pra alguém chegar a essa informação, né, só se ela quiser chegar, se ela quiser chegar, né, não precisa nem vir aqui, pela internet você consegue acesso ao banco de dados de teses da USP, mas não é uma coisa que está num banco de dados universal, tipo o EASY ou uma coisa assim. Então acho que o que fica mesmo é o artigo que você publica em revista internacional, esse também mostra a qualidade mostra qualidade do seu trabalho frente à comunidade internacional, que é uma coisa também que esta mudando bastante, a USP está querendo se inserir no mercado, tem uma intenção já, mas tá querendo aumentar essa importância na comunidade internacional científica. (Dálio)

Nesse sistema que estabelece uma hierarquia de publicações, sendo as publicações internacionais de maior prestígio, Hanafi (2011) alerta que as publicações internacionais, que dependem de revisores internacionais, podem afastar pesquisas que têm como finalidade tratar de problemas de importância nacional e local. Segundo o autor, “os professores [de países periféricos] têm reclamado da avaliação dos revisores que afirmam que o manuscrito: ‘não é relevante para uma audiência americana’ ou ‘importante literatura americana não foi citada’ ou ‘misturou academia com discurso de defesa’ (HANAFI, 2011, p. 292). Dessa forma, consolida-se a idéia de uma colonização global sobre a esfera nacional ou local e, com isso, o desenvolvimento de uma relação desigual entre países centrais e periféricos que propicia uma geopolítica desigual da publicação e visibilidade de conhecimento científico. Nessa geopolítica de dependência, portanto, fica impossível uma competência internacional justa entre acadêmicos de países centrais e periféricos.

Resumindo, assim como existe um padrão de exclusão para acadêmicos que decidem não produzir, há também um padrão de exclusão do cenário internacional para

137

acadêmicos que decidem resolver problemas sociais locais ou nacionais que não tenham respaldo ou saída internacional. A lógica parece ser de excluir quem não se encaixa ou quem não produz, consolidando a concepção, conforme concluído no Capítulo 4, que na contemporaneidade a racionalidade societária que caracteriza as universidades de pesquisa parece ser mais de ordem industrial do que de ordem artesanal.