Para uma melhor compreensão dos conceitos operacionais do presente trabalho, procedeu- se à realização de cinco entrevistas semiestruturadas em profundidade realizadas entre 3 de dezembro de 2014 e 21 de setembro de 2016 (ver apêndice 1). Os entrevistados foram escolhidos para este estudo pela profissão que desempenham e pela experiência no sector do livro que adquiriram enquanto autores e editores. Os guiões preparados para as entrevistas foram adaptados às profissões e à experiência dos entrevistados (ver apêndices 3 e 4). Foi feito o registo áudio das entrevistas, procedendo-se depois à sua transcrição, antes da análise (ver transcrição integral nos apêndices 5 a 9).
Francisco Viegas dirige a Revista LER e é editor da Quetzal. Foi diretor da Casa Fernando Pessoa (2006-2008) e Secretário de Estado da Cultura (2011-2012). Foi jornalista, produtor e apresentador de programas culturais.Dedica-se à escrita de ficção e poesia.
José Carlos de Vasconcelos é jornalista desde 1966 e dirige o Jornal de Letras há mais de 35 anos. É editor e escritor, tendo publicado mais de duas dezenas de livros.
A experiência de Manuela Goucha Soares enquanto jornalista do Expresso desde 1988, pela escrita de temas ligados à cultura e, particularmente, à literatura, e a experiência como autora justificam a sua seleção para as entrevistas deste trabalho.
Maria João Machado é assessora de comunicação da Assírio e Alvim, chancela da Porto Editora, desde 2010.
Fernando Pinto do Amaral foi Comissário do Plano Nacional de Leitura (2009-2017). Desenvolve atividades de crítico literário, poeta e autor.
As entrevistas tinham como temas principais a cultura portuguesa, a divulgação dos autores, o mercado editorial português, a promoção dos autores através dos meios de comunicação social e a relevância da crítica literária e das efemérides nesse processo, e o branding literário em Portugal.
Os entrevistados consideram importante a divulgação de livros, autores e editoras feita pelos órgãos de comunicação social, embora seja menos evidente a relação entre a crítica literária e a venda de livros. Francisco José Viegas (apêndice 5, pergunta 1) e Fernando Pinto
37 do Amaral (apêndice 7, pergunta 14) observam até que a crítica literária tem vindo a perder importância junto dos leitores, em detrimento de artigos não integrados na secção de livros e adaptados a outras secções onde falar sobre eles possa fazer sentido e da divulgação de eventos ligados à promoção dos livros e dos autores.
As opiniões relativamente à importância dos críticos literários como líderes de opinião são divergentes. Com este género jornalístico a perder importância e espaço nos media, os entrevistados acreditam que a sua opinião possa contribuir para a venda de livros, embora não seja determinante no momento do leitor escolher comprar determinado livro. José Carlos Vasconcelos lamentou a diminuição do tempo de antena da cultura nos media portugueses, pois considera que mais programas e notícias sobre esta área ajudariam a “haver uma maior consciência e um maior gosto” pelos livros (apêndice 6, pergunta 3); e Maria João Machado, concorda que “o espaço (ou a influência) é mais pequeno” mas, no caso da poesia, “muitos dos jornais que publicam habitualmente críticas interessam-se” (apêndice 9, pergunta 8). Fernando Pinto do Amaral lembra os “espaços novos” de divulgação de livros na internet (apêndice 7, pergunta 17).
Os entrevistados classificaram o mercado editorial português como mínimo, face a outras realidades europeias e mundiais, com poucos autores a conseguirem destacar-se nas vendas. A jornalista do Expresso afirma que neste mercado pequeno onde se publica muito, o tempo e espaço de exposição dos livros novos nas livrarias diminuiu, o que dificulta a sua divulgação junto do público (apêndice 8, pergunta 2). No que diz respeito à poesia, a realidade é ainda mais limitada com poucas editoras a apostarem em livros e autores deste “género de nicho”, como afirma Machado (apêndice 9, pergunta 3), e sempre que a aposta existe a tiragem é reduzida, “o que significa que não se venderão muito”, segundo Manuela Goucha Soares (apêndice 8, pergunta 10).
O consenso dos entrevistados regista-se também relativamente à existência de branding, que todos acreditam existir, principalmente nas editoras portuguesas de maior dimensão. Para a Assessora de Comunicação do grupo Porto Editora, o branding “pode ser focado num autor, numa geração e de uma forma geral em termos de poesia, num todo” (apêndice 9, pergunta 3) e a forma de trabalhar os autores também é distinta caso os autores sejam mais ou menos conhecidos, visto que o público se aproxima dos autores que conhece. “Um
38 branding relativo ao Fernando Pessoa e à Geração de Orpheu pode ser mais forte nesse sentido, pode chegar a mais pessoas porque mais pessoas reconhecerão aqueles nomes”, diz Maria João Machado (apêndice 9, pergunta 4). Francisco José Viegas lembra que a editora Quetzal trabalhou o autor Roberto Bolaño postumamente com sucesso pela grande aposta no branding direcionado ao autor: “transformámos o autor num autor vivo”, disse (apêndice 5, pergunta 6). Ainda que a tendência atual leve os leitores a atribuírem mais atenção ao autor no momento da compra, “a obra acaba por triunfar” porque “sobrevive de outra maneira que o autor não pode sobreviver”, segundo Pinto do Amaral (apêndice 7, pergunta 12).
Sobre a Geração de Orpheu, os entrevistados reconhecem a importância e o destaque adquirido por Fernando Pessoa face aos outros autores daquela geração, transformando-se num ícone da literatura de Língua Portuguesa e da cidade de Lisboa. A obra de Cesário Verde, Almada Negreiros e Sá-Carneiro também é reconhecida pela sociedade portuguesa, integrando o Plano Nacional de Leitura. Dos autores em estudo, Raul Leal mantém-se à margem, praticamente desconhecido, segundo Soares, condicionado pelas perturbações mentais e de comportamento que lhe eram reconhecidas (apêndice 8, pergunta 12).
Em relação à importância das efemérides para a divulgação de livros e autores nos media, os entrevistados voltam a mostrar uma opinião unânime e positiva. As efemérides, na opinião de Francisco Viegas, “têm a ver com a nossa memória, (…) com o nosso respeito pela história e com o nosso respeito pelos autores” (apêndice 5, pergunta 12) e levam os jornalistas a explorar e investigar temas importantes para a sociedade, que podem estar esquecidos mas se tornam atuais em determinadas datas. José Carlos de Vasconcelos considera-as “muito importantes para o jornalismo” pois “permitem-nos falar de autores de que se deixou de falar havendo essa âncora, esse ângulo de abordagem de atualidade” (apêndice 6, pergunta 10).