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Pedagogs i mètodes musicals per l’educació

O quadro demonstrativo abaixo apresenta alguns aspectos que coloca o leitor em uma posição desconfortável, no sentido de não permitir o acomodamento. Guimarães Rosa requer do leitor o espírito pesquisador para uma leitura prazerosa.

Sumia-se no dia noturno a bela, grande cidade hanseática, nem se avistavam seu céu de ferro molhado e as silhuetas das cinco igrejas, suas torres de cobre em azinhavre. [p.108.]

Nota-se a presença da metáfora nesse fragmento “nem se avistam seu céu de ferro molhado”, pois a presença de bombas era constante. Em “suas torres de cobre em azinhavre”. Azinhavre168 é o nome dado à camada de cor verde resultante da oxidação do cobre ou ligas que contêm cobre, como o latão. O cobre e as ligas metálicas que contêm cobre, como por exemplo o latão ou o bronze, quando expostas ao ar úmido contendo gás carbônico, lentamente se oxidam, ficando cobertas por uma pátina de cor azul esverdeada. A essa formação dá-se o nome de azinhavre (que é tóxico e popularmente é chamado de zinabre).

Dava-se, que nem caudas de cobras, delgados Comparação e metáfora como recurso

glaciais chicotes — nevando, fortes flocos — o vento mordaz. Saindo para o Glockengiesserwall, se bem que abafado em roupas, eu tivera que me enregemer, ao resfrio cravador e à umidade, que transia. Via-se, a cada canto, o emblema: pousada num círculo, onde cabia oblíqua a suástica, a águia de abertas asas. [p. 108.]

literário.

Descrição: enregemer, resfrio cravador, vento mordaz, etc.

Suástica — um símbolo antigo que teve os mais diferentes significados ao longo do tempo, carregado de uma memória triste que marcou o século XX pelas atrocidades acontecidas na Alemanha Nazista.

A fora, as sombras dos troncos de árvores, na neve, e as curvas dos corvos, o corvo da desdita. Dizia-se que, este, muitos anos faz, seria o mais duro inverno, de concumulados gelos: morriam muitos pássaros. O coração daquela natureza era manso, era mau? [p.108]

Descrição de elementos da natureza.

Eufemismo como recurso literário “o corvo da desdita”.

A personificação da natureza com atribuições humanas — “O coração daquela natureza era manso, era mau?”

Sentia-se um, ao meio de tal ponte, à face do caos e espírito de catástrofe, em tempo tão ingeneroso, ante o critério último — o pe- cado de nascer — na tese anaximândrica.169 Todos pertencíamos, assim, mesmo, à vida. [p.108.]

Guimarães Rosa reconhecia que “o escritor, o bom escritor, é um arquiteto da alma”. Poeticamente, recolhe, em flashes, a vida cotidiana que palpita, em meio à guerra — [à face do caos, o espírito de catástrofe, à vida]. Anaximandro introduz o conceito de infinito, imortal e divino que governa o todo. A esse princípio chama de apeíron170 — do grego significa ilimitado, infinito ou indeterminado. É a essência de todas as formas do universo, sendo concebida como o elemento primordial a partir do qual todos os seres foram gerados e para o qual retornam após sua dissolução.

Relembrava — revocava — sorriu-se a um persistir de imagens? E estremeceu. Voltava às brumas do presente, à sua gélida pátria. Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados. [p. 110]

Uso do prefixo “re”

Neologismo rosiano — “hitlerocidades” Plasticidade — “persistir de imagens”

“às brumas do presente” — da neblina, da névoa que em linguagem figurada significa sombra, mistério.

2.4.2. “A velha”: do jornal ao livro impresso

As quatro crônicas em análise passaram por processo de mudanças quando migraram do jornal para o livro impresso. Umas com mais correções do que as outras. No quadro

169 Princípio anaximândrico. Disponível em: http://historiadafilosofia.wordpress.com/category/aristoteles/.

Acesso em 20.12.2010.

demonstrativo abaixo, encontra-se alguns fragmentos de “A velha” que sofreram mudanças quando passaram do jornal para o livro.171

Crônica 4 — “A velha” Jornal O Globo — 3/06/1961 Parágrafos: 16

Crônica “A velha”

Livro Ave, palavra — 1ª edição [1970] Parágrafos: 20

O recado se perdia, obrigação abstrata, no

diário tumulto de casos, o Consulado

invadindo-se de judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso, em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto prometendo-se a coativa esperança final do suicídio.

O recado se perdia, obrigação abstrata, no

tumulto diário de casos, o Consulado invadindo-se de judeus, sob mó de angústias, famintos de partir, sofridos imenso, em desengano, público pranto e longo estremecer, quase cada rosto prometendo-se a coativa esperança final do suicídio. [p.108]

Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismável, os judeus trateados.

Só então entrou a falar sob força de fatos: dos campos-de-prisão, as hitlerocidades, as trágicas técnicas, o ódio abismático, os judeus trateados.[p. 110]

[...] Dame Angélika, seria teuto-hebréia um mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código terrível.

[...] Dame Angélika, seria teuto-hebréia uma mischling, “mestiça do primeiro grau”, segundo o código hediondo.[p110]

Prometi-me de lá ir. Prometi-me de ir lá.[p.108]

Toquei e levaram-me ao salão — como se

umsubterrâneo. Toquei e levaram-me ao salão — como se subterrâneo. [p.108]

O escritor brasileiro usa palavras que detêm o leitor. As infiltrações vocabulares surpreendem e desafiam a curiosidade dos pesquisadores. Nem desta vez, a tarefa do leitor é facilitada, pelo contrário, há de aprofundar-se em novas veredas. Mas no caso do leitor que não se contenta com uma leitura só, Guimarães Rosa começa a propor uma segunda leitura e quantas forem necessárias, como afirma Antonio Candido: “Ler infatigavelmente o texto analisado é a regra de ouro do analista. A multiplicação das leituras suscita intuições, que são o combustível neste ofício.”172.

João Guimarães Rosa reelabora o cotidiano poeticamente, oferecendo ao leitor uma

171 Cf. Anexo 2.

excelente oportunidade para refletir sobre a palavra cuja semente deve germinar, inquietar, de modo a causar estranhamento para o leitor. O próprio escritor é exemplo do estado de inquietação, de pesquisa, de consciência artesanal que vem marcando seus textos.

Mobiliza recursos estilísticos como linguagem metafórica, alegorias, repetições, antíteses, ironia, humor, suspense, reflexões, argumentações. Com trabalho lógico, detalhista e conceitual o escritor garante sua excelência narrativa e propicia a fruição do leitor.

Guimarães Rosa esclarece em entrevista a Günter Lorenz no que concerne a sua escala de valores: “Fui médico, rebelde, soldado. [...] Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte.”173

Todavia, o diplomata não poderia supor a transmutação que sofreria esse espaço, no caso, a Alemanha — parte dele. O ambiente de tranquilidade, beleza e cordialidade se veria transformado em espaço de intolerância, medo e morte. A guerra destruiria não só as construções e as relações humanas do lugar, mas também a imaginação tranquila do autor brasileiro que acreditava ter chegado a alguma espécie de paraíso terrestre situado no primeiro mundo.

Sem dúvida, na maneira própria de construção do escritor brasileiro, encontram-se nas crônicas: “O mau humor de Wotan”, “A senhora dos segredos”, “Homem, intentada viagem” e “A velha”, a multiplicidade nessa escritura além-fronteiras, eminentemente autoquestionadora, em suas perguntas pelo sujeito, em colocar o leitor em uma posição desconfortável, no sentido de não permitir o acomodamento à desordem da realidade.

As crônicas de Guimarães Rosa têm características fundadas em experiências pessoais provenientes de sua experiência como diplomata e de uma disposição confessional que refletem realidade e abordagens literárias próprias.

173 LORENZ, Günter W. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa.