Para atingir os objetivos da pesquisa, o pesquisador teve de se inserir no contexto dos/as participantes, as escolas, a fim de possibilitar convívio e estabelecer diálogo com os/as docentes. Em algumas escolas o contato entre o pesquisador e educadores/as, professores/as e diretores/as, se deu em uma ou duas visitas. Em outras escolas, o pesquisador pôde estabelecer um convívio mais longo, que permitiu uma coleta de dados mais volumosa. Em ambos os casos, o contato estabelecido foi extremamente importante para a pesquisa, pois cada conversa, cada material fornecido pelos/as participantes e as observações em sala de aula foram utilizados como meio para compreender o fenômeno estudado.
Uma postura que contribuiu para o estabelecimento de diálogo com os/as participantes foi o pesquisador estar nas escolas, o máximo de tempo possível, às vezes não fazendo aparentemente nada, porém, sempre disponível para conversar. Estando nas escolas, principalmente na EPN-NY e EAC-DC, frequentemente o pesquisador era
105 abordado e interrogado sobre a pesquisa e/ou sobre outras questões, que, geralmente, geraram conversas importantes para o estudo. De forma geral, a maior parte do convívio se deu em conversas informais, mas também em entrevistas aos/às professores/as. Nessas conversas, o pesquisador procurou estar aberto ao diálogo e ser honesto, escutando mais do que falando, porém, não omitindo opiniões sobre as questões discutidas.
O pesquisador procurou deixar claro o objetivo da visita, a pesquisa, e esteve sempre disponível para compartilhar informações sobre o estudo e sobre o Brasil, envolvendo questões políticas, educacionais e culturais que interessavam aos/às docentes. No intuito de estabelecer diálogos, também foi importante que tivesse se oferecido para contribuir em atividades realizadas e que se pusesse à disposição para colaborar. Nesse contexto, o pesquisador foi beneficiado pelo seu conhecimento de certos aspectos da sociedade brasileira, principalmente referentes às relações étnico- raciais e à diversidade cultural. Diversas vezes, em conversas ou mesmo convidado a falar sobre tais questões junto aos/às estudantes, foi possível estabelecer vínculos com os/as professores/as e, de forma colaborativa, compartilhar saberes sobre a sociedade brasileira e estadunidense. Dessa forma, a presença do pesquisador na escola, em algumas situações, foi disparadora de atividades pedagógicas junto aos/às alunos/as.
Na convivência proporcionada pela pesquisa, o compartilhar de orientações ideológicas e inquietações entre pesquisador e professores/as contribuiu para o estabelecimento de diálogo. Frustrações sobre o ensino de Ciências e o desejo de contribuir para promover mudanças nele foram algumas dessas inquietações, assim como preocupações comuns, acerca da educação em geral e, principalmente, sobre a educação de estudantes negros/as. A identificação, pelos/as professores/as, de que a pesquisa tinha como intuito contribuir para mudanças sociais, identificando o papel do ensino de Ciências no combate ao racismo e na valorização da diversidade étnico-racial, foi também elemento que favoreceu muito o diálogo. A identificação de que esta pesquisa enfrenta questões consideradas relevantes por grande parte dos/as participantes foi importante para que procurassem superar dificuldades de comunicação, principalmente devido ao idioma, e quisessem dialogar. O interesse dos/as docentes pelos resultados do estudo motivou que colaborassem em sua execução, criando oportunidades de convívio nas escolas, em almoços “de conversa” e convidando o pesquisador para participar em cerimônias religiosas realizadas no ambiente escolar.
106 as relações estabelecidas. O fato de o pesquisador se auto-identificar como negro e assumir postura política frente a questões que afetam as populações negras no mundo contribuiu para a existência de trocas de saberes, assim como para o estabelecimento de vínculos. Por exemplo, Coffie – docente da escola afro-centrada pública de Washington DC – ao cumprimentar o pesquisador notou que ele sabia um aperto de mão coreografado, um “toque” (“hand shake”), comum aos negros/as estadunidenses e aos jovens da periferia de São Paulo ou São Carlos. Nessa identificação, o professor viu uma conexão entre negros/as no Brasil e nos EUA, que contribuiu para que, mais tarde, quisesse contribuir com a pesquisa e conversar demoradamente com o pesquisador.
Foram gerados vínculos de afetividade no compartilhar de histórias pessoais, que produziram amizade e sentimento mútuo de identificação, de pertencimento a uma comunidade formada por pessoas de ascendência africana em todo o mundo. Porém, o contato inicial também gerou estranhamentos. Um professor que havia conversado com o pesquisador por telefone, ao encontrá-lo pessoalmente, disse que estava esperando uma pessoa “diferente”, referindo-se aos traços fenotípicos do pesquisador, principalmente à pele clara. Alguns docentes, no primeiro contato e depois de certo tempo de conversa, em que o “gelo” foi quebrado, perguntaram como o pesquisador se considerava em termos étnico-raciais. Frente à resposta, os/as docentes mostraram certo alívio, explicando que há brasileiros/as, afro-descendentes, que se consideram latinos, o que, na visão de participantes, é um indício de que negam sua negritude.
Ressalte-se que, ao desenvolver pesquisa no convívio com outros sujeitos, diferentes sistemas de significação são postos em contato. Nessa interação, o pesquisador buscou suspender seus juízos prévios, a fim de evitar que os/as preconceitos que tinha sobre os/as estadunidenses dificultassem a compreensão da realidade. Um desses juízos é relativo à posição dos/as estadunidenses sobre os benefícios que têm em morar num país cuja riqueza é mantida pela exploração sistemática de outros países, como os latino-americanos. Ao conversar com os/as participantes, foi possível identificar que há muitas pessoas contra as orientações político-ideológicas dominantes e que estão envolvidas em lutas contra tais posições.
Por parte dos participantes, também houve superação de estereótipos a respeito dos/as brasileiros/as, relativos ao desinteresse sobre questões políticas, inclusive, envolvendo o pertencimento étnico-racial. Nesse sentido, Coffie, ao fim de uma entrevista, disse que tinha sido muito bom ter tido aquela conversa, pois o pesquisador o havia ajudado a superar preconceitos que tinha sobre os “irmãos brasileiros”
107 (“Brazilian brothers”).
Na intersubjetividade, os/as participantes foram dando as chaves para compreender seu mundo. Um exemplo claro disso foram as inúmeras sugestões de leituras feitas, a fim de “ajudar na pesquisa”. Algumas das sugestões foram livros que tratavam das injustiças ambientais nos EUA, do trabalho de docentes negros/as e da importância do Egito para as Ciências.
Processos educativos na prática de pesquisa
Os dados desse estudo mostram que a prática social de pesquisa pode ser educativa tanto para participantes quanto para o pesquisador. Cabe destacar que o educar-se é uma criação tão individual quanto coletiva e se dá no processo histórico de um grupo. Ao conviver, os sujeitos identificam-se e, na intersubjetividade, constroem-se e reconstroem-se.
Foi possível perceber que muitos/as participantes não haviam pensado anteriormente nas relações entre o ensino de Ciências e a identidade étnico-racial dos/as estudantes. Essas relações chamaram a atenção dos/as educadores/as, muitos dos quais demonstraram grande interesse em saber “o que vai ser encontrado” com a pesquisa. Alguns/mas docentes explicitaram passar a refletir sobre tais relações durante o tempo em que o pesquisador esteve presente. Essa observação é corroborada pelas várias situações em que docentes procuraram o pesquisador para conversar e compartilhar experiências vividas, nas quais explicitaram estarem pensando a respeito da pesquisa e de questões focalizadas nela. Por exemplo, após uma conversa com Gabinda sobre conteúdos curriculares e cultura africana, ela disse que não havia pensado nisso muito antes da mencionada situação. Ao fim da conversa, a docente agradeceu dizendo que o pesquisador, a partir da entrevista, a fez pensar em muitas coisas e que tinha ficado confusa, mas ia pensar mais sobre “tudo isso” a partir daquele momento.
Na interação, conhecimentos sobre as relações étnico-raciais e sobre o racismo foram construídos e explicitados. Uma situação em que esse tipo de aprendizagem foi revelado se deu na escola não afro-centrada, em que docentes questionaram um dos objetivos da pesquisa: compreender as relações étnico-raciais que se desenrolam na escola. Esse questionamento se originava na divergência de visões acerca do conceito de relações étnico-raciais, pois na visão desses/as docentes, elas se dão exclusivamente entre pessoas de diferentes pertencimentos raciais. O pesquisador explicitou algumas das referências teóricas adotadas, ressaltando entender que as relações étnico-raciais se
108 dão entre indivíduos de diferentes grupos, mas também entre aqueles de mesmo pertencimento. Após tal explicação, a coordenadora Rahima expressou que não havia pensado daquela maneira anteriormente e que, como na escola todos/as eram iguais, entendia que não havia “problemas raciais”.
Na visão de alguns/mas docentes, as interações com o pesquisador trouxeram benefícios, principalmente fazê-los/as pensar sobre questões relevantes. Tisha, por exemplo, explicou que as conversas tinham despertado questionamentos na docente (“sparkle things on me”) e que ia pensar mais sobre os assuntos abordados. Bahati mencionou que a reflexão provocada por conversas a inspirou a produzir mudanças profissionais e acadêmicas, já pensadas antes, mas que estavam “adormecidas”. Ela disse que pretendia tornar suas aulas mais “culturalmente centradas” e que passou a planejar a realização de um PhD na área.
Outras aprendizagens mencionadas referem-se a aspectos econômicos e culturais da sociedade brasileira. Os/as participantes explicitaram terem aprendido mais sobre as relações étnico-raciais no Brasil, assim como identificar similaridades com a sociedade estadunidense. Por exemplo, a professora Gabinda se impressionou com a porcentagem da população brasileira que é de origem africana. Essa mesma questão despertou o interesse do diretor Bakari e dos/as alunos/as da escola, durante visita do pesquisador.
Nesse sentido, é importante destacar que a presença do pesquisador nas escolas gerou situações pedagógicas em que os/as professores/as discutiram com estudantes questões relativas às relações étnico-raciais no Brasil e EUA. Bakari fez uma série de perguntas ao pesquisador, que passou a discutir com diretor e estudantes a existência de estereótipos sobre o continente africano. Juntos, foi possível identificar que há estereótipos comuns, compartilhados por brasileiros e estadunidenses, por exemplo, sobre o “primitivismo” na África e a pobreza crônica. Situação parecida ocorreu em outra escola, durante aula de Coffie. Desde que cumprimentou o pesquisador, o professor procurou mostrar aos/às estudantes que há similaridades entre as pessoas negras no mundo todo, assim como a necessidade de entender a situação dos/as africanos/as em todos os países que formam a “diáspora negra”. Nesse contexto, foram abordadas questões relativas à história do Brasil, envolvendo conceitos como a miscigenação e as relações entre africanos, portugueses e indígenas.
Também foram levantadas similaridades entre a situação de trabalho de docentes no Brasil e EUA. Algumas delas referem-se à identificação de que no ambiente escolar há muitas preocupações com questões que não são consideradas importantes pelos/as
109 docentes e a visão de que, na escola, cada setor age isoladamente sem formar um todo conexo. Nesse sentido, quando o pesquisador mencionou que as participantes da pesquisa no Brasil sentem que, muitas vezes, o ambiente age contra o trabalho que elas querem desenvolver, Bahati disse: “eu sinto exatamente o mesmo”. Outra similaridade identificada refere-se às relações de gênero no cotidiano escolar, mais especificamente, à identificação de que meninos têm um desempenho escolar inferior ao das meninas. Sobre essa problemática, pesquisador e uma participante, Rahima, tiveram uma longa conversa, em que as visões de cada um, muitas vezes divergentes, foram explicitadas, promovendo aprendizagens de ambos.
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CAPÍTULO 04 – As dimensões em que se constrói a educação
das relações étnico-raciais no ensino de Ciências
Neste capítulo é apresentada a análise dos dados obtidos por meio da metodologia inspirada na fenomenologia. Essa análise é expressa numa descrição compreensiva em que são concatenados significados atribuídos à educação das relações étnico-raciais e ao papel do ensino de Ciências na promoção de relações étnico-raciais positivas, observados pelo pesquisador à luz das visões dos/as participantes. Na primeira parte do capítulo são apresentadas as dimensões reveladas no convívio entre pesquisador e cinco docentes brasileiras, proporcionado por uma prática social, um curso de formação continuada. No segundo item, são apresentadas as dimensões reveladas no convívio entre pesquisador e treze educadores estadunidenses, propiciado por conversas e observações de aula no contexto da prática social de pesquisa.