O espírito humano, que se utiliza do corpo para manifestar-se, tem a razão como uma das faculdades “superiores” que lhe empresta a caracterização. Como se processa, para Vives, o entendimento do processo da razão?
Razão, processo de raciocinar ou de estabelecer uma lógica, se manifesta através da reflexão e no entendimento que as pessoas elaboram sobre as coisas e a vida no mundo. Para Vives (1974a), esse processo constrói-se com o envolvimento nas atividades, nos feitos e nas ações. O envolvimento permite a exercitação da razão, uma exercitação nem sempre metódica e definida a priori.
“... a veces la razón no tanto procede paso a paso como por pequeños saltos y vuelos, libando en cosas diversas a su antojo. Hay, efectivamente, una razón que anda por sus pasos contados, sin interrumpir ni truncar el ritmo, otra en cambio, va como saltando y deja espacios intermedios, ya porque ignora la senda recta y verdadera, ya porque no juzga necesario recorrerlos uno por uno. (Vives, 1974a, v. 2, p.1193)
Assim como para discorrer devidamente sobre as coisas selecionadas o processo de raciocinar dá-se não de forma única, utilizando um caminho linear, mas também selecionando outro caminho, a razão também não precisa ser pura no seu processo. Quer dizer, o discurso e a ação resultante do raciocínio elaboram-se com a utilização dos sentidos e da sensibilidade que dão suporte à imaginação, à fantasia, as quais, por sua vez, servem ao entendimento e à reflexão encaminhando para a efetividade da própria razão.
“Con todo, para la expedición del discurso no es menos necesario el recurso de la fantasía, ya que no desbocada, si suelta y libre; porque la razón utiliza también de fantasmas, aunque sin mezclarse con ellas. Así que el sentido sirve a la imaginación y ésta a la fantasía, la cual a su vez sirve al entendimiento y a la reflexión, y la reflexión al recuerdo, el recuerdo a la comparación y ésta a la razón, en último
151 término. El sentido es una como mirada de la sombra, la fantasía, o la imaginación lo es de la imagen; la inteligencia, del cuerpo; la razón, de la forma y de las fuerzas.” (Vives, 1974a, v. 2, p.1192)
O processo de raciocinar, portanto, pode ser guiado pela vontade, com princípios lineares, selecionados e conhecidos a priori; mas pode também ser movido de forma espontânea, com iniciativa própria, independente do traçado da vontade “movido por la fuerza libre de la mente, que no puede cesar”. Esta forma espontânea do processo de raciocinar é intrínseca à noção que o homem adquire primeiramente com o que os sentidos percebem para depois atingir aquilo que as forças intelectuais chegam a conhecer. Assim, em Vives, o processo de construção do conhecimento dá-se “de lo singular a lo universal; de lo material a lo espiritual; de los efectos a las causas; de lo inmediato y patente a lo recóndito”. (Vives, 1974a, v. 2, p.1192 - 1193)
Seguindo essa lógica da efetivação do processo da razão, Comênio (1966), na sua teoria pedagógica, enuncia:
“... porque nada pode ser objecto da inteligência que primeiro não tenha sido objeto dos sentidos, a mente recebe dos sentidos a matéria de todos os seus pensamentos e não pode desempenhar a função de pensar senão por meio da sensação interna, ou seja, contemplando as imagens abstraídas das coisas.” (Comênio, 1966, p. 198)
Esse caminho da razão, segundo Vives e Comênio, próprio da condição humana, é um princípio fundante do processo de construção do conhecimento. Partir do entorno, tomar as circunstâncias que se apresentam como o chão concreto para o início das reflexões e da compreensão do mundo vivido é o caminho “natural” da razão. Também é o caminho de uma abordagem do processo de construção do conhecimento. Ou seja, a indução do processo da razão que se efetiva com a produção das coisas e com a sistematização da ciência constitui-se numa forma de construir o conhecimento.
Nesse sentido, a ciência ou a elaboração do espírito humano, oportunizando o processo de construção que segue o rumo: sentidos, sensibilidade interna e forças intelectuais, ou seja, inteligência sentiente possibilita o conhecimento sobre a natureza, o mundo e o próprio ser humano.
“Nosotros (...), al conocer e inducir, seguimos más bien el camino de la Naturaleza, es decir, de Dios, según cada cual se distingue por su inteligencia, por la práctica de las cosas, o por la ciencia.” (Vives, 1974a, v. 2, p.1193)
É pertinente à “natureza” humana a razão exercitar-se nas atividades, nos feitos e nas ações, colocando em evidência as forças intelectuais que são próprias das pessoas. Através dessas práticas a ciência é construída, ou seja, a ciência, ou a elaboração do espírito humano, é sistematizada numa forma de conhecer a natureza, o mundo e o próprio ser humano. Nesse processo, os sentidos são os instrumentos imprescindíveis para a manifestação das forças intelectuais; todavia, eles se tornam humanizados, se recebem um retorno de sua expressão através da prática do fazer as coisas e do processo de raciocinar. Sem esse retorno, os sentidos são expressos por um rumo entorpecido, mais próximo das manifestações do animal selvagem.
Esse entendimento do processo de constituir-se humano é recorrente também em Erasmo78. A razão, para esse autor, só se torna uma faculdade desenvolvida em sua potencialidade se lhe for desvendada a função. "A verdadeira razão não se separa da sensibilidade, ela tenta compreendê-la; não denuncia a ilusão, reconhece-lhe o sentido e os limites". As emoções como a ira, a inveja e a paixão mais próximas do gozo vão e louco existem intrínsecas ao ser humano. Eliminando-as, elimina-se a própria mola da vida; no entanto, reconhecendo-lhes a presença e reencaminhando-as para uma ação "cultivada", favorecer-se-á a possibilidade da formação do indivíduo. Para a efetivação dessa atividade, entender a razão no seu processo é o que cabe à pessoa no desenvolvimento de sua educabilidade. (Jolibert, 1995, p. 43)
Seguindo essa direção de pensamento Comênio, fundamenta sua teoria pedagógica. Para que os humanos sejam artífices e industriosos, coloca nos seus tratados a ênfase no desenvolvimento dos sentidos. Assumindo que os homens e mulheres
8 Vives foi um leitor de Erasmo. Quando professor de Universidade de Lovaina, por volta de 1519,
conheceu Erasmo pessoalmente. Tornaram-se amigos, tendo concordância e discordâncias em suas construções. Os Diálogos sobre la educación de Vives foram lidos por Erasmo antes da publicação e receberam uma crítica severa. (Santidrián, 1987; Xirau, 1944)
153 constituem-se de uma espiritualidade, os sentidos, a sensibilidade e a razão no todo de seus corpos, conclama os humanos a exercitarem esse todo.
Esse todo é uma integridade de elementos interligados que, para os homens e mulheres se constituírem enquanto humanos, ora são enfatizados uns, ora outros. Práticas externas realizadas a partir de uma integridade do ser humano, ou seja, a razão que tem no seu rastro o suporte dos sentidos é uma faculdade de peso na efetivação das atividades humanas. Entretanto, sem a constituição de outra faculdade, não se evidencia em sua materialização. Essa faculdade manifestada no fazer, no agir, no intervir, os pensadores humanistas renascentistas vão denominar de engenho.