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Ana Paula Amaral e Diana Evangelista

Escola Superior de Tecnologia da Saúde, Instituto Politécnico de Coimbra, Coimbra - Portugal

O envelhecimento da população mundial parece ser um percurso inevitável, sendo mais acentuado nos países desenvolvidos ou industrializados. Portugal, de acordo com os Censos 2011, apresenta um quadro de envelhecimento demográfico bastante acentuado, com uma população idosa (pessoas com 65 e mais anos) de 19,15%, uma população jovem (pessoas com 14 e menos anos) de 14,89% e uma esperança média de vida à nascença de 79,2 anos. Em 2050 prevê-se que se acentue a tendência de involução da pirâmide etária, com 35,72% de pessoas com 65 e mais anos e 14,4% de crianças e jovens, apontando a longevidade para os 81 anos. Notória é, também, a presença maioritária de mulheres (58%) no grupo etário dos 65 e mais anos, em relação à dos homens do mesmo grupo (42%) (Instituto Nacional de Estatística [INE], 2011). Como sequela de uma sociedade envelhecida, as demências constituem um dos principais problemas de saúde pública deste século, não só pela sua prevalência, mas sobretudo pela forma como afetam o doente e aqueles que o rodeiam.

A demência consiste na deterioração intelectual, devido a uma causa orgânica não específica que origina progressiva perda de memória e deterioração na capacidade de aprendizagem (Sequeira, 2010). Devido às alterações nas funções cognitivas e aos problemas motores decorrentes da demência, o indivíduo tem mais dificuldade em realizar atividades que envolvam atenção, memória e equilíbrio. Por isso, deve-se con- tinuar a estimular o seu envolvimento nas atividades de vida diária, de forma a manter as suas capacidades durante o maior tempo possível (Cruz et al., n.d.). De acordo com a Associação Alzheimer Portugal (2009), em Portugal não existe nenhum plano ou estratégia para as pessoas com demência, nem para as pessoas em situação de incapacidade.

A promoção de um envelhecimento saudável é uma tarefa complexa cujo objetivo é aumentar a qualidade de vida dos idosos. Para tal, são fundamentais os programas de promoção de saúde (Assis, 2002). Vários autores, entre os quais, Sícoli e Nascimento (2003) sugerem que a participação dos idosos em programas de promoção de saúde, com prática de exercício regular, é uma excelente forma de reduzir e/ou prevenir o número de declínios funcionais associados ao envelhecimento.

A capacidade de adaptação e reorganização da dinâmica do sistema nervoso permite que se obtenham benefícios com a estimulação cognitiva (Pascual-Leone Amedi, Fregni, & Merabet, 2005). Segundo Mueller (2007), a prática regular de atividade física origina

-Ana Paula Amaral, Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra, S. Martinho do Bispo. Apartado 7006, 3046 854 Coimbra, [email protected]

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uma melhoria no fluxo sanguíneo e na oxigenação cerebral, contribuindo para um melhor funcionamento da atividade neuronal.

Vários estudos têm demonstrado que as intervenções psicossociais podem ser efetivas em atrasar o declínio funcional e cognitivo, em pessoas com demência. O “Programa da Cinesioterapia Funcional e Cognitiva em Idosos com Doença de Alzheimer” (PRO-CDA) procura desde 2006, através da prática de atividade física, atenuar os sintomas progressivos da doença. Este programa tem evidenciado uma evolução positiva tanto na capacidade funcional, como nas funções cognitivas e qualidade de vida dos idosos (Garuffi et al., 2011). Vários programas têm sido desenvolvidos em diferentes países evidenciando que a atividade física e a estimulação cognitiva, contribuem para manter e/ou melhorar a capacidade cognitiva (Apóstolo, Cardoso, Marta, & Amaral, 2011; Garuffi et al., 2011; Kemoun et al., 2010; Winchester et al., 2013; Yágüez, Shaw, Morris, & Matthews, 2011). Tendo como ponto de partida a evidência da literatura que sugere que é possível manter as funções cognitivas ou atrasar a progressão da demência através de intervenções psicossoais, planificámos e realizámos um programa que procurou integrar duas componentes: atividade física e estimulação cognitiva.

O presente programa teve como objetivo geral, conhecer o impacto da atividade física e estimulação cognitiva, na funcionalidade, na cognição e na qualidade de vida de idosos com demência. Foram definidos como objetivos específicos: 1) melhorar a capacidade cognitiva; 2) melhorar a capacidade funcional; e 3) melhorar a qualidade de vida dos idosos com demência.

MÉTODO Participantes

Os idosos foram selecionados tendo em consideração alguns critérios de inclusão e exclusão. Definiram-se para critérios de inclusão: ter diagnóstico clínico de demência; possuir alguma autonomia (andar, sentar e levantar) e não praticar atividade física e mental regular. Para critérios de exclusão foram definidos: total dependência nas atividades básicas de vida diária e não falar/conversar. Participaram 22 idosos institucionalizados3, 12 no grupo de intervenção e 10 no grupo de comparação (inicialmente 12), que mantiveram a sua rotina diária.

O Grupo de Intervenção (GI) foi constituído por 9 mulheres e 3 homens e o Grupo de Comparação (GC) por 9 mulheres e 1 homem. Em relação às idades, estas são um pouco dispersas, uma vez que temos idosos entre a faixa etária dos 60 e a faixa etária dos 90. A média da idade do GI é de 86,9 (DP=4,74), sendo a maioria acima dos 80 anos (58,3% entre os 80 e os 89 anos e 33,3% entre os 90 e os 99 anos). O GC tem uma média de 78,7 (DP=9,73), sendo a maioria abaixo dos 80 anos (20% entre 60 e 69 anos e 40 % entre 70 e 79 anos). Em síntese, o GI tem uma idade mais avançada que o GC. Material

Na avaliação pré e pós programa de intervenção utilizámos três instrumentos de avaliação: o Mini Exame do Estado Mental (MEEM: Folstein, Folstein & McHugh, 1975, versão portuguesa de Guerreiro et al., 1994), o Índice de Katz (Katz et al., 1963, versão portuguesa de Sequeira, 2007) e a Escala de Avaliação da Qualidade de Vida na Doença de Alzheimer (Logsdon et al., 1999; versão portuguesa de Novelli, 2003).

O Mini Exame do Estado Mental (MEEM, Folstein et al., 1975) é um dos instrumentos mais estudados e utilizados por todo o mundo para avaliar a função

3 Idosos institucionalizados em Lares e Residências do distrito de Leiria (Caldas da Rainha, Benedita e

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cognitiva e rastrear quadros demenciais (Lourenço & Veras, 2006). É um teste de fácil e rápida aplicação (Gil & Busse, 2009). É constituído por várias questões agrupadas em domínios cognitivos diferentes: orientação; retenção; atenção e cálculo; evocação; linguagem e habilidade construtiva. Cada questão tem uma pontuação de 0 ou 1, sendo a pontuação máxima de 30 pontos.

O Índice de Katz, índice de independência nas atividades básicas de vida diária, desenvolvido por Katz et al. (1963), é um dos instrumentos mais antigos e citados na literatura nacional e internacional (Duarte, Andrade & Lebrão, 2007). Esta escala foi desenvolvida para avaliar o funcionamento físico das pessoas idosas e doentes crónicos, em relação a seis atividades básicas da vida diária, nomeadamente, tomar banho, vestir/despir, usar a casa de banho, mobilidade, controlo de esfíncteres e alimentação (Mendes, 2008). Com a versão de Sequeira (2007), em cada uma das actividades podemos avaliar se o idoso é dependente, necessita de ajuda, necessita de supervisão ou é independente. A pontuação das atividades vai de 1 a 4 para cada item, sendo que a pontuação 1 representa dependência completa, 2 necessidade de ajuda, 3 necessidade de supervisão e 4 independência total (Sequeira, 2010). Assim, quanto maior a pontuação, melhor é a funcionalidade do idoso, isto é, quanto mais próximo de 24 valores, maior a independência do idoso, relativamente às atividades básicas de vida diária (Sequeira, 2007).

A Escala de Avaliação da Qualidade de Vida na Doença de Alzheimer é uma escala genérica de qualidade de vida na demência, com 13 itens de avaliação: saúde física, disposição, humor, memória, família, amigos, casamento, pessoa em geral, capacidade para tarefas, capacidade para atividades de lazer, dinheiro e vida em geral. As opções de resposta são pontuadas de 1 a 4, as pontuações gerais variam assim entre 13 a 52 pontos, sendo que pontuações mais altas significam melhor qualidade de vida (Inouye, Pedrazzani, Pavarini, & Barham, 2009).

Logsdon, Gibbons, McCurry e Teri (2002) referem que existe fidelidade e validade nas avaliações de qualidade de vida, feitas pelos próprios idosos com demência, nos estádios iniciais. Apesar da perda de discernimento e consciência habituais na demência, acredita-se que estes consigam ser independentes na perceção de bem-estar e dos próprios estados emocionais (Inouye et al., 2009). De acordo com Novelli (2003), a pontuação da escala não sofre redução com o aumento da gravidade da demência de leve para moderada.

Procedimento

Após os procedimentos formais relativos às autorizações institucionais e de serem respeitadas as condições éticas necessárias, isto é, garantida a confidencialidade e o anonimato aos idosos participantes, o direito à não participação e a toda a informação sobre o programa, procedeu-se ao início do estudo. Numa primeira fase, efectuou-se a primeira avaliação (T1) dos 24 idosos participantes, aplicando-se os três instrumentos de avaliação. A segunda fase corresponde à implementação do programa de intervenção direccionado para a atividade física e estimulação cognitiva, com a duração de quatro meses. Na terceira e última fase, efetuou-se a segunda avaliação (T2), aplicando-se novamente os três instrumentos de avaliação aos 22 idosos.

O programa de intervenção decorreu durante quatro meses consecutivos, mais precisamente desde a primeira semana de novembro de 2012 à última semana de fevereiro de 2013, duas vezes por semana (um dia dedicado à atividade física, outro à estimulação cognitiva), perfazendo um total de 30 sessões, com duração máxima de 60 minutos por sessão.

Estando o grupo de intervenção repartido por duas instituições, o programa foi executado separadamente, isto é, foram realizadas as 30 sessões em cada instituição. As

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atividades decorreram em grupo, privilegiando-se a interacção entre os idosos. O programa de intervenção foi dividido em dois módulos com um nível de dificuldade crescente. Ao longo das diversas actividades utilizaram-se materiais diversificados: bolas, balões, cordas, tintas, pinceis, telas, barro, revistas, cola, tesoura, objetos vários, computador, entre outros.

a) Atividade Física -A atividade física consistiu em ginástica habilitativa para os idosos, que teve como objetivos: 1) manter o condicionamento físico geral; 2) reforçar a resistência muscular e o equilíbrio; 3) trabalhar a coordenação motora; 4) manter o funcionamento das articulações e da flexibilidade; 5) fomentar o espírito de grupo e cooperação. Para tal, organizaram-se um conjunto de exercícios habilitativos com vista a melhorar a mobilidade, promover a manutenção ou o ganho de força muscular, desenvolver o equilíbrio, entre outros aspetos que interferem na capacidade funcional do idoso. Estes exercícios focaram-se no reconhecimento corporal e proporcionaram uma reeducação postural de forma a facilitar a realização das atividades de vida diária.

b) Estimulação Cognitiva - A estimulação cognitiva consistiram num conjunto de sete atividades diferentes, com o objectivo de estimular a criatividade, o raciocínio lógico e a capacidade de memorização, mas que também estimulavam a motricidade fina. Como exemplos, temos a pintura, a colagem, a montagem de puzzles e o manuseio do barro. Desenvolveram-se, também, actividades específicas para a memória tátil, visual e auditiva. Por exemplo, através do tato, era solicitada a identificação de objetos utilizados no dia-a-dia. Para a memória visual, entre outras actividades, projetaram-se fotografias de pessoas famosas, paisagens e profissões, permitindo analisar as cores e as diferenças entre as imagens visionadas. Relativamente à memória auditiva utilizaram-se vários sons de animais e do corpo humano, para que através da audição identificassem cada um deles e posteriormente fossem recordando os sons que ouviram anteriormente. Todas as actividades desenvolvidas para além de associadas a um objectivo específico, permitiram fomentar o espírito de grupo e a cooperação entre os idosos, atuando a nível das relações interpessoais.

Os dados foram analisados através do programa SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 13 para Windows Vista. Foi utilizada estatística não paramétrica.

RESULTADOS