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Raciocinamos e inteligibilizamos o mundo em conformidade com os dados fornecidos pelos sentidos. Estes podem sofrer condicionamentos consoante o quadro de referências culturais.174

Segundo Castoriadis, a imaginação cria representações, finalidades e afectos, portanto, é com toda a justiça que lhe reservamos aqui um lugar. Esta criação é entendida pelo filósofo José Gil

como um acto estético por natureza.175 Para o atingir a noção do estético é necessário que o corpo

percorra três fases de tratamento da natureza: a percepção de formas triviais, a noção de estrutura espacial e a interpretação de unidades de forças em movimento, a fase em que surge verdadeiramente a percepção estética. Após ter consciência deste processo, o indivíduo tomará o sentido das coisas como algo inteligível e constituirá um saber sobre o mundo, o que José Gil chama de practognose.

No capítulo anterior vimos como as significações simbólicas podem gerar essas três formas de relação com o mundo. A criação de representações da realidade é a forma que o nosso cérebro tem de tornar presente o que está ausente, tornando possível substituir a realidade física por formas mentais que são mais facilmente articuláveis e flexíveis, de tal forma que se realizam associações, lógicas ou analógicas entre umas coisas e outras. Esta capacidade de associação de ideias e coisas não deriva de uma irracionalidade, como o fazem crer os teóricos racionalistas: a imaginação, que

174 Santos, Joãos Soares, “Os sentidos, o sentido e as normas”, Vértice, 76: 43-55.

permite a associação de elementos à partida com naturezas diferentes, tende a uniformizar os eventos e as coisas num plano onde as contingências do mundo físico não entram. É por isso que, mais do que uma demência, imaginar é brincar com a realidade, emprestar-lhe uns sentidos e retirar- lhe outros. A conferição de sentido ao mundo provém precisamente da capacidade que o corpo tem de gerar a invenção através da imaginação, situando-se assim no plano do enquadramento de racionalidades posteriores. Quando as populações associam os limites do espaço aos limites da imaginação nada mais estão a fazer do que a aplicar na realidade o que parece racionalmente impossível. Sendo assim, a imaginação aparece como a mãe das artes e do engenho, envolvendo a própria razão.

A ideia de a imaginação ser capaz de atribuir sentido à realidade provém dos tempos em que

os românticos se degladiavam com os iluministas.176 Durante muito tempo, a maior parte das coisas

que hoje têm o estatuto de verdade antropológica foram vistas como irracionais. Este aspecto tinha implicações de várias ordens; uma delas era etiquetar o conhecimento do povo de irracional, de demente. Foi preciso esperar para que se descobrisse que a nossa mente tem tendência a abusar da realidade, que o nosso corpo é mais do que uma entidade pensante (como o entendia o cartesianismo), é uma entidade sentinte, como o entende António Damásio (que provou que o nosso corpo antes de pensar sente). 177

Sendo assim, a imaginação tem o poder criador e transformador de realidades. Entende-se, portanto, que a imaginação está por detrás dos processos cognitivos. Ou seja, é ela que confere o sentido (ou o seu limite) à realidade; e é também ela que estende os limites da razão. Se assim não fosse, não surgiriam ideias e ideais, que são sempre coisas impossíveis antes de se tornarem possíveis. Jeremy Bentham advogava a hipótese de tudo ser uma construção da imaginação, tendo a realidade um estatuto imaginário e revelando-se sempre como ficções, porque nada se pode

176 Shweder, Richard A., “A rebelião romântica da antropologia contra o Iluminismo, ou de como há mais coisas no pensamento para além da razão e da evidência”, Educação, Sociedade &Culturas, 8: 135-188. Vide também Tambiah, S. “Multiple orderings of reality: the debate initiated by Lévy-Bruhl” (disperse), 1990.

177 O conceito “corpo sentinte” é utilizado pelo filósofo francês Jean-Luc Marion e foi encontrado por nós num artigo publicado no Jornal de Notícias de 31 de Outubro de 1999.

considerar como estando completo e, como diria Giambattista Vico, só o que é feito é que é verdadeiro.

Esta reflexão inicial vem criar o mote para os dois capítulos finais deste trabalho, que explorarão precisamente essa capacidade de imaginar que o homem tem, e que é, verdadeiramente, aquilo que o distingue dos restantes seres.

Tanto as artes como as comemorações são entendidas por nós como os principais modelos de representação da cultura, pelo que estes dois últimos capítulos do trabalho procurarão comprovar essa função de projecção cultural.

Abordaremos inicialmente a capacidade estética que os carlonenses têm, quer criando representações artísticas da realidade, tornando-a, mais uma vez, uma construção simbólica e com um sentido que extrapola os limites da mesma, quer modelando discursos que reflectem precisamente os limites do entendimento, passando-os da natureza para a cultura através de um trabalho mental que confere a dimensão maravilhosa aos lugares, tornando-os não apenas lugares de memória, mas também lugares de delimitação da identidade cultural e individual, dois dos tipos de identidade social mais interessantes de estudar.

Capítulo 1

AS ARTES

É a imaginação que possui uma primazia ontológica, não o “real” ou a “razão”. De facto, o social-histórico nada mais é do que a solidificação do imaginário humano, o que equivale a dizer que a história é expressão de criatividade.178

Uma palavra que justifica a existência do espaço orça o primado da oralidade, porque só a palavra é que pode dar sentido ao espaço e validá-lo.179

A necessidade de emoções está por detrás da grande valorização que a arte e as comemorações adquirem no nosso tempo. Davydd Greenwood comprovou que as artes e as comemorações são os principais emblemas culturais, que atraem as populações a determinados locais onde elas podem ser contempladas, sendo mesmo dos principais factores de estímulo ao

turismo.180 A tendência que os grupos humanos têm em movimentar-se para conseguir contemplar

as artes e as comemorações advém daquilo a que António Ferro (o grande dinamizador do turismo

178 Heleno, José Manuel “Castoriadis: a libertação da imaginação” in AAVV., Do mundo da imaginação à imaginação do mundo, Fim de Século, Lisboa 1999. 179 Godinho, Rafael “Corporeidades – Espaço, Geometria, Visão”, Vértice, 51: 12-21.

180 Greenwood, Davydd (1989[1977]), “Culture by the Pound: An Anthropological Perspective on Tourism as Cultural Commoditization”, in Smith, Valene, (ed.) Hosts & Guests – The Anthropology of Tourism, University Pennsylvania Press, Philadelphia: 171-185.

em Portugal e da criação de um “Portugal português”) designou como diferenciação cultural. É a procura do diferente que motiva as pessoas a viajar. A procura de culturas diferentes das que se conhecem revê-se na necessidade de criar motivos de visita, i.e., de demonstração da especificidade cultural, que são precisamente as artes populares e as comemorações, autênticos mostruários da cultura.

Visto representarem a cultura, as artes e as comemorações (quando não profissionalizadas, bem entendido) são as formas pelas quais a identidade é consciencializada pelos agentes sociais. Como indica Stuart Hall, “Representation (…) is closely tied up with both identity and Knowledge.”181 As representações estão assim intimamente ligadas com a cultura onde elas são emitidas, elas transmitem uma visão do mundo particular. Hall continua dizendo que…

“Also culture is about feelings, attachments and emotions as well as concepts and ideas. The expression on my face “says something” about who I am (identity) and what I am feeling (emotions) and what group I feel I belong to (attachment), which can be “read” and understood by other people, even if I didn’t intend deliberately to communicate anything as formal as “a message”, and even if the other person couldn’t give a very logical account of how s/he came to understand what I was “saying”.”182

É por isso, segundo o autor citado, que a cultura deve ser entendida como uma partilha de significados. Esta partilha faz-se sobretudo por imagens e palavras, as principais representações culturais. Assim, “representar a realidade” depende dos mapas conceptuais que regulam as modalidades de interpretação que cada cultura em particular possui. Esses “mapas conceptuais” é que atribuem o sentido ao mundo e conferem a este uma visão própria. Com efeito, refere Hall, nem o sentido é pré-existente aos mapas conceptuais (ele não existe no mundo), nem nasce no sujeito

181 Hall, Stuart, (ed.) “Representation – Cultural Representations and Signifying Practices”, SAGE, London, Thousand Oaks, New Delhi 1997. 182 Idem: 2,3.

(ele precisa do mundo e da sua inconstância). Esta apenas se serve das possibilidades que as coisas e os mapas conceptuais lhe permitem compreender. O sentido é, antes de mais, uma construção gradual, nem as coisas nem os sujeitos fixam os significados na linguagem; ele depende da função simbólica dos signos (estes são os “objectos mentais” que são interiorizados e reduzidos à sua invariância pela sociedade, enquanto os símbolos emprestam flexibilidade a esses mesmos objectos e permitem-lhes adequar-se a perspectivas culturais concretas).183

Se o sentido depende de três elementos (implicados no processo de identificação), que são o sujeito, a coisa e o mapa conceptual, então o sentido varia de cultura para cultura (relativismo cultural). Isto quer dizer que, ao estudarmos as representações estamos a estudar o sentido que as coisas têm em dada cultura em particular. Por outras palavras, o estudo das representações dirige- nos para o estudo das “visões do mundo”, que é o mesmo que dizer, para o estudo da identidade cultural.

A identidade cultural depende assim da relação intrínseca entre as representações, os objectos (leia-se, mapa conceptual) e as coisas. Esta peculiaridade da representação do mundo leva- nos, inevitavelmente, à noção de esquemas sociais, os quais são resultantes de um processo de confrontação entre as pessoas e o mundo que as rodeia (e vice-versa).184

Supõe-se portanto que, sendo escaparates da cultura, as artes e as comemorações pressupõem uma consciência dessa mesma cultura, que é o verdadeiro fundamento da identidade cultural. Mais, visto que representar pressupõe conhecer, as artes e as comemorações são por si só processos de conhecimento da realidade, é por isso que, para se “conhecer” uma cultura importa antes de mais descobrir os segredos que estão por detrás das suas representações, isto é, só a partir

183 À primeira abordagem sobre a natureza das representações, Hall chama “reflexiva” (o sentido assenta no objecto e o sujeito apenas o reflecte); à segunda chama “intencional” (o sentido imprime um sentido específico à mensagem) e à terceira chama “construcionista” (o sujeito depende do mapa conceptual que regula a sua visão do mundo para “retirar”, do confronto entre esse mapa e a realidade, o sentido. (Idem, ibidem: 24, 25).

184 “Esquemas sociais” são “(…) cognitive structures which contain Knowledge of the social world.”, “(…) a mental structure which contains general expectations and knowledge of the world.” (Augoustinos, Martha & Walker, Iain, “Social Cognition – An Integrated Introduction”, SAGE, London, Thousand Oaks, New Delhi 1996).

das representações, que é algo visível, é que podemos ousar descobrir o sentido profundo que rege todo processo de construção da realidade social.

Não queremos dizer que, após estes dois capítulos ficaremos a conhecer a cultura de Carlão, para isso é necessário muito mais… Mas, se nos preocuparmos com essa questão, estamos certos que não estes dois capítulos, mas eles precedidos dos anteriores oferecer-nos-ão já algumas pistas sobre o processo de construção da realidade social, tendo em conta que aquilo que até agora dissemos reflecte esse complexo processo pelo qual o carlonense se situa perante o mundo. Descobrir o seu mapa conceptual é um passo que tentaremos dar depois de estudarmos as principais representações da cultura de Carlão. Ao as estudarmos estamos indirectamente a estudar o mapa conceptual que lhes serve de matriz e directamente a analisar a identidade cultural local.

Assim, e para conseguir tal intento, neste capítulo apresentaremos a forma pela qual a arte reflecte a identidade cultural. Sugerimos, como basae operatória, que se pense a arte no seu sentido erudito, e não simplesmente tradicional, visto que esta dimensão da arte não é visível em Carlão.185

Mas, em Carlão existe um tesouro artístico, formado por pinturas, muitas pinturas, que já estiveram em muitos espaços de exposição e levaram a cultura de Carlão até esses espaços, principalmente ao Porto e a Vila Real. O senhor António Pinto, o pintor de Carlão, assume-se assim como um representador da cultura local, ao mesmo tempo que a divulga, que a expande além dos

limites geográficos, tornando-a confrontável com outros modos de vida.186

185 Apenas usamos a expressão “arte erudita” para a distinguirmos das artes tradicionais. Falamos em concreto de pintura. A pintura que vamos apresentar é feita pelo senhor António Pinto, um dos nossos principais informadores e uma pessoa de inúmeros interesses, sendo este o que mais tempo lhe toma. O senhor Pinto não é um pintor profissional (é por isso que a expressão “arte erudita” é uma exploração da sua condição de pintor), mas, nas suas pinturas podemos descobrir algumas das principais representações da identidade carlonense. Ele pinta as coisas de Carlão, os cenários típicos; no fundo, ele é um representador da cultura local.

186 Em antropologia do turismo conhece-se a figura do culture broker, como aquele que, sendo autóctone, abre as portas da sua cultura às influências exteriores, causando a intromissão de novas ideias e comportamentos no seu grupo social. O senhor António Pinto pode ser comparado com essa figura, pois também ele atrai pessoas do exterior devido ao transporte que faz da sua cultura para fora dos limites geográficos de Carlão. As pessoas que vêem as suas pinturas decerto se sentirão tentadas a procurar em Carlão aquilo que viram nos quadros. É assim que Carlão se torna um espaço aberto ao exterior, muito para além dos limites da realidade física. É de representações que se trata; no fundo, é do transporte de emoções.

Vejamos então como o senhor Pinto representa a cultura local: