4.1 Den feministiske sirkelen
4.1.4 Vi kvinner vil ha vårt rom
Ao se falar de mito, relacionando-o a um personagem do enredo de Derval de Castro, torna-se necessário esclarecer que não se trata de um mito com características metafísicas, sobrenaturais, como os mitos religiosos. O mito sobrevive em nossa sociedade tranvestido, com outras roupagens. Apenas sofreram um processo de laicização. Foram dessacralizados e se manifestam em nível profano (ELIADE, 1989, p. 19), não querendo dizer com isso que na atualidade não existam mitos sagrados. Eliade, vê o mito como resultado da tentativa humana de decifrar o enigma do universo, rompendo assim, o silêncio e a falta de resposta da natureza muda.
Da mesma forma Nelson Omegna em A Cidade Colonial (1971, p.69), ao analisar o surgimento de algumas cidades sob a influência do mito, afirma que o mesmo surge “como uma forma de interpretação engendrada pela fantasia coletiva para explicar os enigmas da vida, da história e do mundo.”
O mito, então, para esses autores, seria uma construção cujo objetivo seria encontrar uma resposta àquilo que não nos é dado conhecer pela natureza. Sua gênese seria uma resposta à sede de conhecimento humano. Assim, à indagação feita pela ignorância, responde o mito, quebrando o silêncio e contentando ao que indaga. Aqui se aproxima do pensamento de Barthes, quando ele vê o mito como uma fala, um sistema de comunicação, uma mensagem.
Esta fala é uma mensagem. Pode, portanto, não ser oral; pode ser formada por escritos ou por representações: o discurso escrito, assim como a fotografia, o cinema, a reportagem, o esporte, os espetáculos, a publicidade, tudo isso pode servir de suporte à fala mítica (BARTHES, 1978, p. 132).
Não se quer aqui entrar na discussão sobre os antecedentes míticos que faltariam a análise do personagem capitão-mor, de Derval de Castro, tal como as características metafísicas e sobrenaturais. Segundo Eliade (1989, p. 17) faltando-lhe estes antecedentes, já estaria excluído de todo da mitologia.
É bom que se atente, porém, para o fato de que se recorreu nesta dissertação à interdisciplinaridade para se trabalhar com o mito. Barthes, com sua reflexão, contribuiu grandemente para que fosse encontrado o fio de Ariadne que levou a determinar a origem, a formação histórica da mitificação em tela. Essa reflexão é plausível. Azzi (1987, p. 11), escreve que os mitos são sempre estruturados dialeticamente, e que
[...] a partir dos conhecimentos científicos oferecidos pela razão é possível, com freqüência, determinar a origem e a formação histórica dos mitos. Não obstante, inserido no horizonte da crença, o homem religioso vê sempre o mito como um objeto de fé, como fruto de uma revelação superior, como uma manifestação do próprio mistério do qual ele emana e no qual está imerso.
Portanto, afasta-se, aqui, do mundo da crença que vê o mito como um objeto de fé, fruto de uma epifania ou coisa no gênero, para refletir, nesse caso, a mitificação de uma figura histórica inserida em um discurso.
Barthes, como já observado, vê o mito como um sistema semiológico, logicamente, abrangendo um pequeno espaço no vasto campo de estudo dessa ciência. Ele concebe a mitologia como um exercício dialético: “faz parte simultaneamente da semiologia, como ciência formal, e da ideologia, como ciência histórica: ela estuda idéias e formas” (BARTHES, 1978, p. 134).
O mito, visto pela semiologia, portanto, não se queda apenas como objeto formal da comunicação, mas também como objeto carregado de intenção, em que se aproxima da ciência histórica, constituindo este campo, manancial fecundo para o estudo da história social.
Não é a toa que Azzi (1987, p. 12) em seu estudo da cristandade colonial, vale- se justamente da ideologia para o estudo de caso:
Enquanto a força do mito está exatamente no seu caráter primordial, no seu aspecto de princípio fundante do mundo e da sociedade, a ideologia permite analisar o efeito histórico do mito na organização social e cultural de um povo e sua cristalização nas cosmovisões estruturais no decorrer dos tempos.
Azzi, ainda, em sua análise do mito, busca na ciência histórica um instrumento de leitura racional do mundo, dissecando os mecanismos intrínsecos dos enredos míticos, deixando descoberto as intenções e interesses subjacentes ao mito. É nesse
particular que escreve: “enquanto o mito religioso possibilita vivenciar a situação de mistério que envolve o homem, a análise científica permite relativizar este mistério [...]” (AZZI, 1987, p. 18). Da mesma forma a análise científica pode compreender a construção mítica e o objetivo almejado.
O que se pretende com este pequeno arrazoado sobre o mito é demonstrar como Derval de Castro procurou mitificar a figura histórica do capitão-mor Salvador Pedroso de Campos, inserindo-o na tradição inventada. Estas duas categorias de análise, imaginário e mito, são coadjuvantes do enredo criado para a história oficial de Curralinho. A ideologia, como instrumento de análise da reconstrução da memória em Derval de Castro, tem o condão de demonstrar a intenção daquele escritor nas entrelinhas de sua obra. Neste mister, a tradição inventada por ele carrega em si uma intenção, tem uma ideologia que permeia sua reconstrução, querendo alcançar um objetivo.
O imaginário e o mito, neste caso em apreço, cercam e preenchem a tradição inventada, dando-lhe uma aura de verossimilhança, inserindo-a, falsamente, na cadeia dos acontecimentos históricos.
Construindo o seu discurso no sentido de mencionar o capitão-mor como o fundador de Curralinho, exaltando-lhe a figura como o tronco genealógico mais antigo e genuino do lugar, Derval escreve, ao refutar as dúvidas quanto a esses fatos que:
Si dúvidas houvessem nesse sentido, seria bastantante syntomático o facto de sabermos que a unica família existente em Itaberahy sem origem de tronco estranho aos nativos tradiccionaes, é a que descende do Capitão-Mór Salvador Pedroso de Campos. Os seus elementos são, assim, genuinamente, itaberahinos (CASTRO, 1933, p. 14).
Derval quis a todo transe demonstrar que a memória de Curralinho deveria estar ligada insofismavelmente ao capitão-mor, pois a ele é que se deve a sua fundação, e seus descendentes são os que podem ser chamados de genuinamente itaberinos e deles é que se “origina quasi toda a população de classe” (CASTRO, 1933, p. 14), legitimando assim a liderança que sua família desfrutava na política de Itaberaí.
O mito capitão-mor Salvador Pedroso de Campos traz para a história oficial de Curralinho a erudição lírica comum à época da feitura do livro. A figura histórica do capitão-mor se viu diluída em meio à reconstrução de Derval de Castro – sua origem,
nascimento, feitos e morte, como narrados por Derval, são imprecisos, vagos, quando confrontados com os documentos trazidos à luz pela pesquisa em diversos arquivos e mesmo quando de frente à tradição popular. Porém, sua figura mítica atravessou os anos e perdura na memória dos itaberinos de hoje que aprenderam a história de sua terra no livro de Derval, adotado nas escolas. Nesse contexto, torna-se oportuno citar Patai (1974, p. 72):
Quando um evento histórico se converte em mito, perde muito em precisão e minúcias, aformoseando-se no correr do processo pela adição de traços fantásticos, que podem tornar incrível todo o mito para o estranho crítico. Ao mesmo tempo, no entanto, ganha incomensuravelmente em longevidade, em eficácia contínua e em potência cultural.
Foi exatamente isso o que se deu com a figura mítica do capitão-mor Salvador Pedroso de Campos inserido por Derval no enredo para a narrativa do Annaes da Comarca do Rio das Pedras.