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6 DISCUSSION

6.2 T HE PROPOSED PATIENT JOURNEY

6.2.1 The patient perspective

Heidegger (1927/ 1999) usava o termo ‘hermenêutica’ como sinônimo de interpretação, de sentido. Para ele, todo desvelar o mundo é sempre interpretativo porque parte de uma existência. Este é o modo-de-ser do homem. Nós sempre interpretamos: “toda a compreensão guarda em si as possibilidade de interpretação, isto é, de uma apropriação do que se compreende” (Heidegger, 1927/ 1999, p. 218). Assim, toda compreensão é circular. Antes mesmo de interpretar, o pesquisador já possui uma pré-compreensão daquilo que ele vai interpretar:

toda relação de pergunta e resposta move-se inevitável e constantemente em círculo. Só que não é um círculo vicioso, um círculo que deveria ser evitado por ser supostamente errado. Antes, o círculo pertence à essência de todo perguntar e responder. É possível que eu já tenha um conhecimento daquilo pelo que pergunto, mas isso não quer dizer que eu já reconheça explicitamente aquilo pelo que pergunto, reconhecer explicitamente no sentido de ter apreendido e determinado tematicamente (Heidegger, 2009, p. 69)

Já destacamos que é num horizonte de humor que o ser humano dá sentido à sua experiência. Justamente por já ser-com, em relação afetiva com coisas e pessoas que nos vêm ao encontro, somos tomados pelos sentidos expostos e que caracterizam os modos-de-ser valorizados, criticados ou reprováveis, dentre outros, presentes em nossa sociedade atual. Ser tocado por algum fenômeno já traz si mesmo um sentido pré-compreensivo sobre ele. Se não fizesse sentido, não existiria para mim e, consequentemente, não haveria abertura no meu existir para que tal fenômeno pudesse aparecer.

Assim, a compreensão não é uma atividade que aconteça apenas em alguns momentos. Ela é uma estrutura essencial do Dasein. Sobre isto, Heidegger (1927/ 1999) afirma:

a pre-sença está originalmente familiarizada com o contexto em que, desse modo, ela sempre se compreende. [...] Na familiaridade com o mundo, constitutiva da pre-sença e que também constitui a compreensão de ser da pre-sença, funda-se a possibilidade de uma interpretação ontológico-existencial explícita dessas remissões (p. 131)

O que se desvela não é o fenômeno em sua totalidade, mas uma das muitas possibilidades, a partir da relação que irá se estabelecer entre pesquisador e colaborador, mostrando a importância da participação ativa do pesquisador no processo de elaboração de uma pesquisa. Suas afetações diante da existência e das suas relações com os outros homens levam-no a se interessar por determinados fenômenos do humano, ou nuances deles: “o interrogador faz parte do que ele quer saber e do que ele pode ver. Ele é elemento constituinte desse olhar em que tudo o que é tem sua chance de aparecer [...]” (Critelli, 2006, p. 149). Assim, é a partir do olhar do pesquisador, da compreensão surgida a partir da sua afetação diante da narrativa apresentada pelos colaboradores da pesquisa, que o fenômeno será interpretado e apresentado à comunidade científica. A maneira como o fenômeno se manifesta dá-se, justamente, por causa da relação única que será construída entre pesquisador e o participante da pesquisa. Desta forma, sendo o participante, alguém ativo na construção da pesquisa, recorremos a Amatuzzi (2001) para utilizar o termo colaborador para nos referirmos aos participantes do estudo.

Como procedimento metodológico que nos permita acessar o fenômeno tal como vivido pelos colaboradores, nos valemos da entrevista narrativa baseada na forma pensada por Benjamin (1994), e sistematizada por Schmidt (1990) e Dutra (2000), qual seja, uma forma de transmissão de experiência de pessoa para pessoa. O narrador é aquele que ouve a história de alguém e a transmite aos demais, partindo de sua compreensão sobre o que lhe foi relatado. A narrativa estampa a marca do narrador no sentido de que não é o “puro em si” que é expresso, mas o fato a partir das impressões do narrador, de sua afetação. Ele imprime sua marca tal qual o artesão imprime sua assinatura nas paisagens que constrói com a areia colorida. Segundo Benjamin (1994), o narrador tem liberdade para interpretar a história que lhe é

84 narrada como quiser e, assim, o episódio narrado vai além da simples informação. O termo ‘informação’, para o filósofo, refere-se a comunicar algo junto com suas devidas explicações, não havendo espaço para reflexão a respeito, o que vai de encontro ao que nos propormos ao pensar em uma pesquisa fenomenológica, que é dar sentido às expressões dos colaboradores, no caso, às suas narrativas.

A narrativa é, portanto,

[...] uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em

si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do

narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador (Benjamin, 1994, p. 205).

Entendemos que o pensamento de Benjamin (1994) se aproxima das ideias de Heidegger (1927/ 1999), e que faz sentido para a construção da metodologia utilizada no presente estudo, no que concerne ao fato de expressar que o conhecimento advindo da pesquisa é resultante dos sentidos construídos pelo pesquisador, a partir da relação estabelecida entre ele e os colaboradores do estudo, a respeito do fenômeno pesquisado.

Conforme já foi mencionado, o Dasein se caracteriza como a abertura que possibilita que fenômenos venham ao encontro, que apareçam. Tal abertura é apresentada como disposição afetiva, compreensão e linguagem. O Dasein já está sempre afinado em um humor e é a partir dele que poderá compreender o mundo de uma forma ou de outra. O humor é o jeito fundamental por meio do qual o Dasein se encontra e pode compreender o mundo.

Heidegger (1927/ 1999) chama o compreender de visão do Dasein, mas não a partir de um dos órgãos do sentido, mas como iluminação, a abertura do Dasein: a compreensão diz respeito “a particularidade do ver em que o ente a ele acessível se deixa encontrar descoberto em si mesmo” (Heidegger, 1927/ 1999, p. 203). No modo de ser do humor, o Dasein “vê” determinadas possibilidades. Ele se compreende e, assim, compreende os demais e o mundo a partir destas possibilidades.

O pesquisador compreende o fenômeno com determinado humor e, na sequência, expressa tal compreensão em palavras. A linguagem é a articulação da compreensibilidade e, portanto, se acha à base de toda interpretação e enunciado (Heidegger, 1927/ 1999). Sobre a importância da linguagem, Heidegger (1999) afirmava que não podemos cogitar a existência de relacionamento humano sem ela: “originalmente dizer significa ‘mostrar’” (p. 46). Se buscamos o mostrar-se de algo, a linguagem é o caminho.

A linguagem tem um lugar privilegiado no pensamento fenomenológico porque é por meio dela que o ser humano se revela e, assim, nos leva a uma compreensão dele: “toda disposição [Befindlichkeit] é compreensível e todo compreender é disposto, pois disposição e compreensão são igualmente originárias. Em terceiro lugar, o discurso [Rede] é igualmente originário. O compreender disposto é, em si, um dizer, um mostrar” (Heidegger, 2009, p. 250). Mas a linguagem não caracteriza apenas o que se fala. Ela também engloba o escutar. Não escutamos palavras soltas, mas o som de determinado objeto ou alguém que se dá a compreender a partir do que pronuncia. Como bem exemplifica Heidegger (1927/ 1999), em primeiro lugar, não escutamos ruídos ou complexos acústicos, mas o carro rangendo, a chuva caindo, um pássaro cantando, uma pessoa chorando ou o fogo crepitando. Isto somente é possível porque estamos, desde o início, compreendendo a nossa existência.

Heidegger (1927/ 1999) chamou a elaboração das possibilidades projetadas na compreensão de interpretação. Assim, compreender é sempre interpretar. A posição prévia, juntamente com a visão prévia e a concepção prévia formam o “círculo hermenêutico” apresentado por Heidegger (1927/ 1999) em Ser e Tempo. A posição prévia ou pré- compreensão, é resultante da abertura do Dasein a partir da sua disposição afetiva. Cabe à interpretação apropriar-se do que já está em uma posição prévia. Isto significa elaborar um recorte remissivo de acordo com uma possibilidade determinada de interpretação. Temos a visão prévia. A apreensão destes dois momentos diz respeito à concepção prévia.

86 A partir da nossa compreensão sobre o que Heidegger apresentou nesta obra, assim concebemos a circularidade com fins práticos de pesquisa:

A posição prévia diz das ideias iniciais da pesquisadora sobre o fenômeno. Trata-se da sua visão sobre o que seja um homem infértil, ou seja, é de onde partem as suas inquietações a respeito do fenômeno. Quando partimos para a entrevista com os colaboradores do estudo, precisamos fazer o exercício de abertura desta posição prévia, tornando-nos a clareira na qual o fenômeno poderá se desvelar. Embora tenhamos ideias iniciais sobre como a descoberta da infertilidade masculina pode afetar o homem, colocamo-nos disponíveis para conhecer, a partir da experiência existencial de quem o vivencia, o fenômeno da infertilidade;

 (2) O encontro com os colaboradores já permite à pesquisadora compreender novos sentidos sobre o fenômeno. Aqui, temos a visão prévia. Neste estágio, já é possível iniciar recortes do fenômeno a partir daquilo que a pesquisadora considera mais significativo, ou seja, no universo de possibilidades interpretativas possíveis, já se inicia uma delimitação destas possibilidades;

(3) A concepção prévia diz respeito à apreensão deste conjunto de posição e visão prévias. É o momento no qual as articulações se juntam: o que compreendia antes com o que se deu a conhecer a partir do encontro com o fenômeno. Trata-se dos sentidos possibilitados pela interpretação gerada a partir do encontro das ideias iniciais sobre o ser homem infértil, as diversas narrativas apresentadas pelos colaboradores, as anotações feitas a partir das afetações que os encontros com as pessoas e suas narrativas proporcionaram, bem como a partir do diálogo com a literatura sobre o assunto pesquisado.

Pensamos em termos de circularidade, posto que o nosso conhecimento nunca é fechado em si mesmo. No processo de pensar, conforme o pensamento meditante9, ao nos apropriarmos do nosso existir, damo-nos a conhecer e, assim, o sentido retorna para nós, ganhando uma nova compreensão, num círculo que é, em si mesmo, a abertura. A circularidade permite pensar o processo de investigação como provisório, tendo em vista que diz respeito a um momento existencial de afetação de determinado fenômeno. Ao mesmo tempo, esta estrutura circular indica uma compreensão e uma interpretação contínuas, ininterruptas e, assim, inesgotáveis, que são características do ser-no-mundo.