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Pathway 3: Environmental backlashes and dialogue

Part 2. Pathways to cooperation

2.4 Pathway 3: Environmental backlashes and dialogue

A derivação das 11 linhagens de células-tronco, por meio da técnica de clonagem terapêutica pela equipe sul-coreana, foi um marco histórico no campo das células-tronco, reacendendo o debate sobre tais questões em muitos países. No Brasil, na véspera de aprovação da Lei de Biossegurança, a notícia foi bombástica, reativando os temores da clonagem reprodutiva e acirrando ainda mais a disputa entre os grupos favoráveis e contrários à utilização de embriões em pesquisas. Ao analisarmos as matérias referentes à façanha alcançada pela equipe sul-coreana, focalizamos inicialmente a retórica da esperança presente nos argumentos utilizados pelas matérias das três mídias propostas.

Na Folha de S. Paulo, os principais argumentos utilizados em que encontramos o regime de esperança, se referiam aos avanços na técnica de obtenção das células-tronco; à esperança de novos tratamentos que esses avanços propiciariam no futuro; à escolha por determinada fonte para extração de células-tronco; aos argumentos de autoridades trazidos nas

matérias para justificar o uso das células e, por fim, à defesa partidária das pesquisas. Na revista Pesquisa FAPESP, os argumentos que encontramos referentes ao regime de esperança não variaram muito dos encontrados na Folha de S. Paulo. Encontramos diferenças apenas nos argumentos de autoridades trazidos pelas matérias para justificar o uso das células, que não foram encontrados nessa revista. Já na Revista Ciência Hoje, foram encontrados apenas argumentos que se referiam aos avanços na técnica de obtenção das células-tronco e que se referiam à esperança de novos tratamentos propiciados pelos avanços técnicos no campo.

É na medida em que a técnica aponta para possíveis usos e benefícios que poderão advir do seu avanço, que ela passa a ser aceita por um grupo cada vez maior. A técnica em si, pura, não consegue atrair atenção e, a não ser que sejam pontuados os futuros benefícios, ela acabará atrofiando. Dessa forma, ficou claro que a euforia gerada pelo anúncio da notícia da pesquisa sul-coreana, de que haviam conseguido clonar o primeiro embrião humano, ocorreu nessa sintonia, em que pesquisadores acatavam uma nova fonte para se extrair células-tronco e de conseguirem angariar apoio de outros setores, pela promessa de futuros tratamentos e possíveis curas para inúmeras enfermidades:

“É um estudo impressionante. Obviamente representa um grande marco na medicina” (Folha de S. Paulo, 13/02/2004b).

“Isso abre perspectivas fantásticas para futuros tratamentos. Seria o caso de reconstituir a medula de alguém que se tornou paraplégico após um acidente, ou de substituir o tecido cardíaco em uma pessoa que sofreu um infarto” (Folha de S. Paulo, 13/02/2004a).

“O estudo abre caminho para a chamada medicina regenerativa, que poderá tratar doenças como diabetes [...], artrite [...]” (Ciência Hoje, março/ 2004).

“Trata-se de uma nova esperança de obtenção de células-tronco para fins terapêuticos, e poderá no futuro representar a esperança de cura para milhares de afetados por doenças neurodegenerativas, muitas delas letais antes da segunda década de vida” (Folha de S. Paulo, 13/02/2004a).

Outra vantagem que a técnica de clonagem terapêutica apresentava se devia ao fato de as células produzidas por esse processo serem totalmente compatíveis com o paciente, como foi informado em uma das matérias: “No experimento, tanto as células somáticas quanto os oócitos eram da mesma doadora. Isso permitia que as células-tronco obtidas neste processo fossem transplantadas para o doador sem que houvesse rejeição, problema comum em transplante de órgão” (Ciência Hoje, março/2004).

Um fator importante encontrado nas matérias analisadas é a fonte de onde são extraídas as células-tronco. Apesar de importantes estudos na área das células adultas estarem sendo veiculados, contribuindo a cada dia com surpreendentes resultados, a esperança maior centrava-se nas células originadas do embrião. Os experimentos pareciam indicar um suposto poder de diferenciação ilimitada dessas células comparadas às de outras fontes, como observado em algumas matérias:

“Existem células-tronco em vários tecidos (como medula óssea, sangue e fígado) de crianças e adultos. Entretanto, a quantidade é pequena, e não sabemos ainda em que tecidos elas são capazes de se diferenciar” (Folha de S. Paulo, 13/02/2004 a).

“Tal grau de plasticidade parece ser exclusivo das células-tronco retiradas de embriões e ainda não foi plenamente documentado em células-tronco extraídas de adultos ou de outros tipos de tecidos (cordão umbilical). Daí todo o interesse da pesquisa médica em encontrar formas de obter células-tronco de embriões” (Pesquisa FAPESP, março/2004a).

Em ciência, é comum pesquisadores reforçarem os assuntos que estão defendendo, por meio da evocação de argumentos de autoridade. Tais argumentos dão sustento ao pesquisador por enfatizarem o caráter social da ciência. Como já apontado no capítulo 1, não é pela verdade objetiva que os fatos se sustentam, mas pela lógica da sedução; só a partir do momento em que o pesquisador consegue convencer outras pessoas da importância do assunto que está defendendo é que seu argumento sai da controvérsia e caminha em direção à transformação em fato. As regras do jogo funcionam assim: se um pesquisador está sozinho e lança um argumento em defesa das pesquisas com células-tronco, será fácil ser desbancado por outra pessoa, pois um argumento por si só, não se sustenta. Para então evitar ser derrubado na primeira discussão em que entrar, o pesquisador tem que se munir de artifícios que o deem sustento e demonstrem que ele não está sozinho na discussão. Tais artifícios contribuem para que ele justifique de forma mais consistente as pesquisas com células-tronco que está defendendo. Nas matérias analisadas, foram observadas referências a cientistas renomados na área das células-tronco, empresas de biotecnologia e revistas de grande prestígio científico:

O estudo, [...] liderado por Woo Suk Hwang, especialista em clonagem veterinária da Universidade Nacional de Seul, [...] foi publicado hoje, eletronicamente, pela revista científica norte-americana Science [...] (Folha de S. Paulo, 13/02/2004c). ‘É um estudo impressionante. Obviamente representa um grande marco na medicina’, disse Robert Lanza, da companhia americana Advanced Cell Technology [...] Para Rudolf Jaenisch, do Instituto Whitehead para Pesquisa Biomédica, nos EUA, o trabalho é elegante e oferece a prova de que a técnica é viável em humanos. (Folha de S. Paulo, 13/12/2004b).

Há quem, como o pesquisador britânico Ian Wilmut, que acha, sim, imoral não prosseguir com os estudos com células-tronco embrionárias. [...] Wilmut é o pesquisador do Instituto Roslin, da Escócia, que, em 1996, produziu o primeiro clone de um animal no mundo, a ovelha Dolly, morta no início do ano passado (Pesquisa FAPESP, março/2004a).

Ao lembrarmos que o estudo da equipe sul-coreana foi publicado na época em que se discutia no Brasil a aprovação da lei de biossegurança, a própria pesquisa se torna um argumento em defesa dos estudos com células-tronco:

‘Achei bárbaro, e veio numa hora ótima - justamente quando está nas mãos dos senadores decidir se vamos poder fazer essas pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil’ [...] segundo a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP (Folha de S. Paulo, 13/02/2004b).

Outra estratégia encontrada nas matérias analisadas com o intuito de convencer as pessoas sobre os possíveis benefícios das pesquisas com células-tronco, se referia à citação de países em que eram permitidas tais pesquisas e ao apoio de academias de ciência, nacional e internacionais:

A maioria dos países da União Européia, o Canadá, a Austrália, o Japão e Israel aprovaram pesquisas para obtenção de células-tronco embrionárias obtidas por clonagem terapêutica ou de embriões com até 14 dias. Essa é também a posição das academias de ciência de 63 países, inclusive a brasileira (Folha de S. Paulo, 13/02/2004a).

O Reino Unido, aliás, tem uma das leis mais liberais a respeito da clonagem terapêutica: permite, por meio de licenças expedidas pela Autoridade em Embriologia e Fertilização Humana, que se usem embriões humanos descartados pelas clínicas de reprodução artificial para os experimentos com células-tronco. Também é autorizada a criação de embriões especificamente para fins de pesquisa. A Suécia tem legislação semelhante à britânica (Pesquisa FAPESP, março/2004a).

Comparações também se mostraram ricas estratégias na defesa dos estudos com célula-tronco. Isso foi percebido nas matérias estudadas, quando o assunto se referia à utilização do embrião em pesquisas com células-tronco, sendo ressaltadas as potencialidades de futuros tratamentos que poderiam advir se tais estudos fossem autorizados. Como para se avançar nas pesquisas, a destruição do embrião é fundamental, comparavam-se os benefícios que tais terapias poderiam trazer a muitas pessoas com a destinação dos embriões excedentes nas clínicas de reprodução em que, quase sempre, a única alternativa era o descarte:

É justo deixar morrer uma criança ou um jovem afetado por uma doença neuromuscular letal para preservar um embrião cujo destino é o lixo? Um embrião que, mesmo implantado em um útero, teria um potencial baixíssimo de gerar um indivíduo? Ao usar células-tronco embrionárias para regenerar tecidos em uma pessoa condenada por uma doença letal, não estamos na realidade criando vida? Isso não é comparável ao que se faz hoje em transplantes, quando se retiram os órgãos de uma pessoa com morte cerebral, mas que poderia permanecer em vida vegetativa (Folha de S. Paulo, 13/02/2004a).

Valer-se de estudos bem sucedidos na área, de tratamentos experimentais que deram certo, também compõe o arsenal da sedução. Mostrar resultados vale mais que mil palavras na defesa de um argumento, pois as pessoas veem benefícios factíveis com os próprios olhos, mesmo sendo em um número limitado de pessoas, ou que sejam com fontes diferentes de extração de células-tronco. O mais importante é que tais resultados aproximam as pessoas das promessas que os novos estudos poderão possibilitar: “Já existem algumas aplicações terapêuticas de células-tronco, envolvendo células adultas (não embrionárias). É o caso de células sanguíneas usadas como alternativa ao transplante de medula óssea em certos casos de leucemia” (Folha de S. Paulo, 13/02/2004a).

Por fim, também foi encontrada nas matérias estudadas uma espécie de defesa partidária das pesquisas com células-tronco e clonagem terapêutica, na qual os próprios autores ou os cientistas evocados no texto expõem de forma direta uma opinião em defesa das pesquisas com tais células, situando-se claramente no lado da discussão que apoia os estudos e, contra-atacando argumentos desfavoráveis às pesquisas quando necessário:

É fundamental que a nossa legislação também aprove essas pesquisas, porque elas poderão no futuro salvar inúmeras vidas (Folha de S. Paulo, 13/02/2004a).

[...] setores da sociedade favoráveis a esse tipo de pesquisa, em especial o meio científico, saíram em defesa de seu ponto de vista, pressionando os governos a adotar uma legislação mais liberal sobre o tema. [...] Os defensores da clonagem terapêutica também têm seus argumentos (nenhum cientista sério apóia a clonagem reprodutiva de seres humanos). Dizem que não há consenso sobre a visão dos religiosos de que embriões no estágio de blastocisto já são um ser vivo e afirmam não ser antiético continuar com as pesquisas. Há quem, como o pesquisador britânico Ian Wilmut, que acha, sim, imoral não prosseguir com os estudos com células-tronco embrionárias. Isso porque essas células primordiais podem, daqui a alguns anos, revolucionar uma série de tratamentos na medicina, como o transplante de órgãos, o tratamento de doenças crônicas (diabetes, mal de Alzheimer, Parkinson) e a produção de drogas mais compatíveis com o perfil genético dos doentes (Pesquisa FAPESP, março/2004a).

Assim, a ciência emerge como uma prática social ancorada na esperança. Porém, para que pessoas tenham esperança, muitas estratégias devem ser utilizadas pelos cientistas para seduzi-las sobre o que se está fazendo, sejam os avanços técnicos, sejam os argumentos de autoridade, seja a promessa de novas terapias que poderão propiciar curas para muitas enfermidades que assolam o mundo. Em suma, os cientistas procuram convencer diversos segmentos da sociedade sobre aquilo que fazem e diversos segmentos da sociedade apostam, com esperança, em possíveis benefícios, sejam as pessoas que poderão um dia ter doenças curadas, sejam empresas farmacêuticas que lucrarão com novos medicamentos, sejam os sistemas de saúde que diminuirão as despesas com tratamentos mais baratos.