9. Diskusjon
9.6 Pasientsikkerhet ved diagnostikk av hudkreft i et systemperspektiv
Segundo Bakhtin (2006, 2014), em qualquer análise de gênero do discurso, devemos considerar a forma arquitetônica e a forma composicional. Portanto, iniciaremos nossa análise pela forma arquitetônica.
71 <http://science.sciencemag.org>.
O suporte em que foi publicado o artigo científico objeto desta pesquisa - Induction of pluripotent stem cells from adult human fibroblasts by defined factors72 (ANEXO 02) - é o periódico (journal) CELL. De acordo com informações obtidas em seu site73, o CELL surgiu
em 1974 e, atualmente, faz parte do Cell Press, da família dos periódicos (journals) científicos. Esse periódico tem uma versão impressa e uma digital. Analisamos a versão online, em PDF, extraída deste site do periódico: <http://ac.els-cdn.com/S0092867407014717/1-s2.0- S0092867407014717-main.pdf?_tid=158f9de4-f6d2-11e5-a903-
00000aab0f02&acdnat=1459381967_5dce932371597e559e237223db8172cc1>, publicada online em 20 de novembro de 2007.
O critério adotado para as publicações desse periódico consistiu em considerar estudos cujos resultados apontem avanços conceituais significativos ou levantem questões e hipóteses provocativas a respeito de uma questão biológica importante, que contribuam para a Ciência e para a inovação. Mantém uma política de liberar gratuitamente a publicação dos artigos depois de um ano de publicado. Esse suporte, além de artigos primários de pesquisa, publica artigos de revisão e de opinião sobre os avanços recentes da pesquisa e questões que interessam ao seu amplo número de leitores.
Os artigos que serão submetidos a qualquer um dos periódicos da família CELL Press não poderão ser comentados pela produção CELL com a mídia antes de serem publicados. Somente 12 horas depois da publicação impressa e da publicação online é que o CELL fornece um press release, concede entrevistas, discute sobre dados e faz reuniões científicas e conferências de imprensa. Apesar de o periódico também convidar os autores a participarem dessas reuniões e a discutir sobre os dados com a mídia, exige que eles se abstenham de discutir sobre os dados além dos apresentados formalmente. Entretanto, apesar de os autores terem autorização para falar com a imprensa uma semana antes da publicação online, no dia da publicação, eles não podem dar qualquer informação até a meia noite. Os autores também podem discutir sobre o seu trabalho na imprensa sob o embargo com outras revistas científicas para fins de cobertura em material de revisão.
A esfera da atividade humana onde ocorrem a produção, a circulação e a recepção dos artigos científicos publicados no CELL é bem definida. As publicações são produzidas e circulam na esfera científica, porque os autores dos artigos científicos publicados nesse suporte são os próprios cientistas que desenvolveram a pesquisa e estão endereçados aos seus pares da
72“Células-tronco pluripotentes de fibroblastos induzidas de humanos adultos por fatores definidos” (tradução nossa).
comunidade mais ampla de cientistas e pesquisadores no âmbito internacional. O próprio periódico, em seu site, recomenda que o artigo científico deve ser escrito em uma linguagem acessível aos leitores do CELL, para demarcar seus destinatários, que são os cientistas que compartilham o mesmo horizonte social do enunciador, o mesmo código fechado, capazes de uma compreensão responsiva. E como os destinatários presumidos são outros cientistas, esse conhecimento disseminado gera outros conhecimentos e suscita réplicas por parte dos seus leitores. Essa prática fortalece o movimento dialógico preconizado por Bakhtin.
Os artigos submetidos para publicação podem ser aceitos ou recusados. Eles são avaliados pelos editores científicos em profundidade, e no caso de trabalhos aceitos, são enviados aos colaboradores e aos pesquisadores do CELL para ser avaliados e inseridos na mesma esfera. É exigido dos autores que divulguem a existência de conflitos financeiros de interesse que possam ser interpretados como influenciadores dos resultados da pesquisa.
O artigo científico em questão, cujo título aparece em letras maiúsculas - INDUCTION OF PLURIPOTENT STEM CELLS FROM ADULT HUMAN FIBROBLASTS BY DEFINED FACTORS - foi escrito pelos próprios cientistas da pesquisa, cujos nomes74 aparecem logo abaixo do título, seguidos de suas filiações, data de publicação de 20 de novembro de 2007 e apresenta os dados da publicação, como o DOI75. Esse artigo foi publicado online em 30 de
novembro de 2007.
Bakhtin (2006, p.261) considera a forma ou construção composicional como um dos aspectos mais importantes do gênero quando fala que os gêneros do discurso refletem as condições e as finalidades de cada esfera da atividade humana. “Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades” não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo de linguagem (...) mas também, acima de tudo, por sua construção composicional.” Isso, no entanto, não quer dizer que a forma arquitetônica seja menos importante, porquanto ambas são abordadas em Bakhtin sob a perspectiva do projeto estético. Além disso, a maneira como o conteúdo e o material são organizados leva em conta a forma arquitetônica. Essa interação implica a escolha de estilos de linguagem utilizada pelo enunciador.
Observamos que, no artigo científico selecionado, a forma composicional no suporte CELL é um tanto rígida. Os pesquisadores/enunciadores devem submeter seus textos às normas
74 Kazutoshi Takahashi, Koji Tanabe, Mari Ohnuki, Megumi Narita, Tomoko Ichisaka, Kiichiro Tomoda and Shinya Yamanaka.
75 O DOI (Digital Object Identifier) – Identificador de Objeto Digital - representa um sistema de identificação numérico para conteúdo digital, como livros, artigos eletrônicos e documentos em geral. Foi desenvolvido recentemente pela Associação de Publicadores Americanos (AAP), com a finalidade de autenticar a base administrativa de conteúdo digital.
prescritas para submeter o trabalho ao suporte. O CELL apresenta as normas para publicação do artigo científico nesta ordem: resumo (summary), introdução (introduction), resultados (results) e discussão (discussion), procedimentos experimentais (experimentais procedures), agradecimentos (akcnowledgements) e referências (references). Podemos observar que o artigo científico publicado no CELL tem os elementos padrão IMRD, porém com alteração em sua ordem para se adequar às prescrições desse suporte.
O número total de caracteres é 55.000, incluindo espaços, referências e legendas de figuras, e não deve ter mais de sete figuras e/ou tabelas; itens adicionais podem ser publicados na forma online como material suplementar.
No resumo, os autores apresentam a pesquisa, os principais resultados e algumas implicações de forma muito sintética. A introdução trata do estudo da arte e o que eles se propõem a fazer no estudo. A seção dos resultados traz os métodos, ou seja, a metodologia empregada, e está dividida em subseções com tópicos específicos, o que, de certa forma, facilita a leitura do artigo científico. Na seção da discussão, os cientistas retomam seu objeto de estudo e fazem considerações sobre o tema da pesquisa e as implicações dos resultados obtidos. A seção dos procedimentos experimentais está dividida em subseções ou tópicos, em que os autores descrevem como foram feitos os experimentos em humanos, e no final da seção, mencionam o quantitativo dos dados suplementares que ilustram o artigo científico, como as tabelas e as figuras, e o site onde pode ser encontrado. Na seção dos agradecimentos, os pesquisadores agradecem a outros colegas cientistas, a pessoas que deram suporte técnico e a programas e agências que financiaram a pesquisa.
O estilo do artigo científico é determinado por sua forma composicional e pode ser observado na materialidade do texto. Não há normas estabelecidas pelo periódico quanto ao estilo, só a sugestão de que o artigo científico deve ser escrito em linguagem acessível aos leitores do CELl, ou seja, aos cientistas. Contudo, ao delinear a forma como os autores devem estruturar seu artigo científico, consequentemente, há uma indicação do estilo. A seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua pelo autor/enunciador vão refletir a natureza do gênero artigo científico.
Observamos o uso da primeira pessoa do plural –“We”- ao longo da pesquisa, principalmente quando os autores estão descrevendo como realizaram a pesquisa e o que encontraram como resultado.
Exemplo 01:
In the current study, we sought to generate iPS cells from adult somatic cells by optimizing retroviral transduction in human fibroblasts and subsequent culture conditions. (p.861)
“No presente estudo, nós buscamos gerar células iPS de células somáticas adultas por meio da otimização de transdução retroviral em fibroblastos humanos e condições de cultura subsequente”.
Podemos observar a presença de relações dialógicas com enunciados já-ditos, já constituídos:
Exemplo 02:
Use of human embryos, however, faces ethical controversies that hinder the applications of human ES cells. (p.861)
“O uso de embriões humanos, entretanto, enfrenta controvérsias éticas que dificultam as aplicações de células-tronco embrionárias humanas”. (p.861)
O Exemplo 2 traz ecos de enunciados já proferidos a respeito de estudos empregando células de embriões humanos para criar as células-tronco, que levantaram discussões sobre aspectos éticos desse emprego. Ao serem levados para o contexto narrativo, esses enunciados entram em relações dialógicas com os enunciados atuais do enunciador do texto atual.
É interessante trazer para esse contexto uma ressalva que Bakhtin (2013) faz em relação ao artigo científico. Ele afirma que,
em um artigo científico, em que são citadas opiniões de diversos autores sobre um dado problema – algumas para refutar, outras para confirmar e completar – temos, diante de nós, um caos de inter-relação dialógica entre palavras diretamente significativas dentro de um contexto. (BAKHTIN, 2013, p.215)
Essa relação dialógica construída a partir do já dito, de opiniões de outros autores, também pode ser verificada, como a réplica que o autor/enunciador apresenta a um enunciado já dito por outro cientista no passado, que foi útil para sua pesquisa:
Exemplo 03:
To determine the differentiation ability of humans iPS cells in vitro, we used floating cultivation to form embryoid bodies (EBs) (Itskovitz-Eldor et al., 2000).
“Para determinar a habilidade de diferenciação de células iPS em vitro, usamos a cultivação flutuante de formas corpos enredados (EBs) (Itskovitz-Eldor et al., 2000)”.
Em toda a extensão do artigo científico, não vimos discurso de outrem em forma de discurso direto, mas o elo com os enunciados precedentes na forma do discurso indireto analisador do conteúdo (DIAC). Segundo Bakhtin/Volochinov (1997, p.160), nessa variante do
discurso, “a enunciação de outrem pode ser apreendida como uma tomada de posição com conteúdo semântico preciso por parte do falante, e nesse caso, através da construção indireta, transpõe-se de maneira analítica sua composição objetiva exata”. Esse tipo de discurso está presente em contextos epistemológicos e retóricos, de natureza científica, filosófica etc. Tal variante, segundo os autores, é propícia a réplicas e ao comentário no texto narrativo e conserva a distância entre a voz do enunciador e as palavras citadas. Quando o autor/enunciador refere que estudos futuros são necessários para determinar se as células iPS podem substituir as hES nas aplicações médicas, seu enunciado fica aberto a réplicas e entra em relações dialógicas com enunciados futuros.
Exemplo 04:
Furher studies are essential to determine whether human iPS cells can replace hES in medical applications. (p.869)
“Futuros estudos são essenciais para determinar se células iPS humanas podem subsitutir as hES em aplicações médicas.” (p.869)
O autor usa as próprias palavras, de forma concisa e objetiva, para levar o conteúdo semântico do discurso de outrem para o seu contexto narrativo. Assim, há um distanciamento entre os limites da palavra do enunciador/pesquisador e o discurso de outrem, como pode ser visto no exemplo 05:
Exemplo 05:
HES cells are different from mouse counterparts in many respects (RAO, 2004). hES cell colonies are flatter and not override each other. hES cells depend on bFGF for self renewal (Amit, et al, 2000), whereas mouse ES cells depend on the LIF/Stat3 pathway (MATSUDA et al., 1999; NIWA et al., 1998). (p.868)
“As células-tronco embrionárias de humano (HES) são diferentes das homólogas nos ratos (RAO, 2004). As colônias de células hES são mais estimuladas e não se sobrepõem a cada uma. As células hES dependem do bFGF para a auto-renovação (AMIT, et al, 2000), enquanto que as células ES do rato dependem do meio LIF/Stat3 (MATSUDA et al., 1999; NIWA et al., 1998)”.
Nesse exemplo, vemos que o autor/enunciador traz para o seu enunciado o discurso de outrem, que vem diluído nas palavras do enunciador. Contudo ele mostra a pertença desse discurso colocando entre parênteses o nome do autor-criador (RAO, 2004), (AMIT, et al, 2000), (MATSUDA et al., 1999; NIWA et al., 1998). A data se refere à relação de espaço-tempo entre o enunciado atual e o já dito, proferidos em épocas diferentes por pessoas diferentes, mas que entram em relação de sentido com o enunciado atual, estabelecendo relações dialógicas. No entanto, apesar de sabermos que o enunciado não é totalmente do autor/pesquisador, porque,
logo depois dele, vem a marca da alteridade, em que aparece a autoria do enunciado, não há como delimitar seus limites, onde começa e termina a voz de cada um.