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Essa categoria foi a que primeiro identifiquei na análise dos dados, sendo constituída por alguns dos processos mais recorrentes do corpus. Mostra as várias atividades de subsistência praticadas pelos falantes, a maioria delas coletiva (ator em 1ª. pessoa do plural). Os processos materiais são os preponderantes.

O verbo trabalhar é um dos mais utilizados entre os processos materiais, denotando a importância do trabalho para os ribeirinhos. Além disso, observa-se que a atividade é concebida como uma atividade coletiva, na maioria das ocorrências aparece com um ator na 1ª. pessoa do plural (nós/ a gente).

59. Nós trabalhamos com a mangaba, nós trabalhamos com o panã... 60. A gente trabalha hoje com a polpa do pequi, mas o pequi congelado. 61. (Nós) Trabalhamos junto em parceria.

62. (Nós) Vamos trabalhar com a farinha, com a rapadura e vamos

Outros verbos recorrentes entre os processos materiais que também aparecem representando ações produtivas são: fazer, plantar, pescar,

produzir, criar, vender.

Exemplos:

63. ...faço rede também?

64. ...Todos nós que fazemos carranca

65. ...a gente começa a plantar, a fazer plantação de capim...

66. ... aí a gente planta a ilha, aí vem a fartura, vem o milho, vem a mandioca, vem o feijão.

67. Aqui a gente pesca e planta.

68. mergulhando, até com as mãos nós pescamos, nós sabemos pescar 69. E quanto mais a gente produz, mais as coisas ficam baratas.

70. Nós produzimos umas coisinhas que a gente leva na feira do Buriqui... 71. algum cria sua vaquinha ...

72. A gente cria um gadozinho, que quase todo mundo cria.

73. Nós vendemos o arroz, entregamos não sabe nem a quem, e eles passam dois, três meses, cinco, até um ano sem pagar.

74. Hoje, nós vendemos tudo aqui mesmo na lavoura ou em casa.

O processo viver aparece na fala dos ribeirinhos designando ações de subsistência (processo material), seguido de uma circunstância de modo, que indica a atividade produtiva praticada, ou seja, de que forma conseguem o sustento diário.

Exemplos:

75. Vivemos da pesca e da agricultura.

76. Porque eles já vêm de uma geração de família que vive da cultura, da terra.

77. Porque a gente vive da pesca, hoje pega, amanhã não pega. 78. Porque a gente vive da lavoura e do Rio São Francisco.

3.6.1.1 A Escassez de Postos de Trabalho

E sem o seu trabalho O homem não tem honra E sem a sua honra Se morre, se mata... (Gonzaguinha)

Dentro dessa categoria, ocorre a subcategoria “escassez de postos de trabalho”, que reflete uma situação de inação involuntária vivenciada pelos falantes, e o desejo dos mesmos de voltarem a produzir. Nesses casos, os Ribeirinhos manifestam um estado de angústia por não estarem produzindo, seja pela inexistência de postos de trabalho ou pela falta de recursos para fazê-lo.

Essa representação é realizada linguísticamente através de processos mentais desiderativos (querer, esperar, desejar), cujo Fenômeno ou oração projetada exprime algo que falta aos Ribeirinhos e que se constituem objeto de anseio dos mesmos para que possam produzir.

Exemplos:

79. Nós só queremos trabalhar pra ter uma vida digna, honesta e honrada. 80. ... eu quero os três hectares pra eu poder trabalhar

81. ... A gente quer trabalhar, a gente quer o que é da gente.

82. Então eu queria que tivesse mais projeto de irrigação, para ter alternativas pro povo ribeirinho se manter, tanto na pesca como na agricultura.

83. Esperamos que o governo federal (...) tome também a responsabilidade de de estar fazendo também essa infra-estrutura.

Em alguns casos, há um processo mental desiderativo acompanhado de uma circunstância de causa ou causa que apresenta a intenção do ator social de produzir.

84. ... espero em Deus que logo a gente receba terra porque nossa intenção aqui é trabalhar.

85. Os trabalhadores e os pescadores ribeirinhos precisam da ilha pra dela tirar o fruto.

86. ... e nós queremos a terra para produzir; essas terras representam a sobrevivência dos quilombolas...

Esta subcategoria também se realiza com processos relacionais (exemplos 87 e 89) e existenciais (exemplos 87, 90, 91 e 92). Nesse caso, o verbo é precedido de “não”, indicando a inexistência de recursos materiais ou o esgotamento de recursos naturais fundamentais para o exercício da atividade produtiva.

Exemplos:

87. Não tem mais condição (de trabalhar com barco), porque o rio está raso,

está seco, com 40 centímetros...

88. O pescador não tem condições, não tem financiamento sério para o cara comprar o motor e pescar,não tem.

89. Aqui a única coisa que a gente não tem é recurso.

90. Isso tudo, infelizmente, se acabou (grandes entradas de água) ... 91. acabou a correnteza, então o rio ficou praticamente um deserto.

92. ...acabou a plantação do peixe, acabou o marisco, isso tudo desapareceu pra nós.

O trabalho constitui a atividade central para as comunidades ribeirinhas, o que se observa pelo número expressivo de processos criativos encontrados que se relacionam à atividade produtiva.

É por ele também que parte significativa da identidade é construída e encontra o apoio necessário para a construção de uma autoimagem positiva, como ser humano produtivo, honesto, que tem seu lugar na sociedade. Essa representação, como foi visto, é instanciada de forma bem contundente através dos processos relacionais, que deixam claro o orgulho das práticas produtivas desenvolvidas (sou pescador; a gente produz; a gente planta).

Por outro lado, um grande número de processos mentais projeta e traz à tona a angústia das comunidades pela perda de postos de trabalho, esgotamento dos recursos naturais de que necessitam para produzir, bem como a falta de acesso a máquinas e auxílio técnico.

O fenômeno da insegurança e angústia provocadas pela privação dos meios produtivos é discutido por Castells (2001) e serve para auxiliar na interpretação das realizações linguísticas encontradas no corpus, que apontam para essa questão:

À exceção de uma elite reduzida de globopolitanos (meio seres humanos, meio fluxos), as pessoas em todo o mundo se ressentem da perda do controle sobre suas próprias vidas, seu meio, seus empregos, suas economias, seus governos, seus países e, em última análise, sobre o destino do planeta. Assim, segundo uma antiga lei da evolução social, a resistência enfrenta a dominação, a delegação de poderes reage contra a falta de poder e projetos alternativos contestam a lógica inerente à nova ordem global, cada vez mais percebida pelas pessoas de todo o planeta como se fosse desordem (CASTELLS, 2011: 93 -94)

Pela análise dos dados, é possível verificar que as comunidades visitadas buscam a adequação aos novos tempos, assim como procuram formas alternativas de produção que lhes permitam assegurar sua subsistência, sem, no entanto, degradar o meio ambiente (... queremos a revitalização do rio, pra gente poder

pescar novamente; a gente planta e colhe os frutos típicos do cerrado) (Figura11,

página 77).

E da forma como que lhe é possível, as comunidades vão resistindo ao que poderíamos nomear, a partir das reflexões de Castells, como “desordem” produtiva.