A proposta da Avaliação de Quarta Geração (GUBA, LINCOLN, 2011) emerge como instrumento metodológico de abordagem construtivista e responsiva. A avaliação é responsiva a medida que pode ter a visão de diferentes grupos de interesse (steakholders), e responde às questões na subseqüente coleta de informações. Neste estudo, o enfoque responsivo buscado foi por meio da identificação das questões dos usuários, familiares e trabalhadores dos serviços territoriais de atenção à saúde mental, que podem ser relevantes para eles, e pela busca de novas sínteses direcionadas ao que pode ser considerado boas práticas em saúde mental.
Com relação à Metodologia Construtivista, esta baseia-se em um sistema de crenças oposto à ciência positivista que caracterizou a avaliação realizada no último centenário. Esse sistema de crenças é, com frequência, denominado paradigma. Não é possível aprovar ou desaprovar um paradigma de modo absoluto, mas Guba e Lincoln (2011) afirmam que o paradigma positivista apresenta limitações que podem ser superadas pelo construtivista.
Ontologicamente, nega a existência de uma realidade objetiva, afirmando que a realidade são construções sociais da mente, e que existem tantas construções quanto existem indivíduos, sendo a própria ciência uma construção. As realidades, sendo construções, não podem ter, a não ser por imputações mentais, leis naturais imutáveis, tais como leis de causa e efeito.
Epistemologicamente, o paradigma construtivista nega a possibilidade do dualismo sujeito-objeto, sugerindo que os achados de um estudo existem precisamente porque existe uma interação entre observador e observado que, literalmente, cria o que emerge da pesquisa. Metodologicamente, e em conseqüência dos princípios ontológicos e epistemológicos, o paradigma construtivista rejeita a abordagem científica que caracteriza a ciência hegemônica e a substitui por um processo hermenêutico-dialético, contando com a interação observador/observado para criar uma realidade construída, mais informada e
sofisticada possível em um ponto particular no contexto social e histórico. Existe ressonância entre um paradigma que propõe a metodologia hermenêutica-dialética e um modelo de avaliação que depende exatamente desse tipo de processo: o foco responsivo pede uma metodologia construtivista, e a metodologia construtivista encaixa-se exatamente nas necessidades do processo de pesquisa de uma avaliação responsiva (GUBA; LINCOLN, 2011).
Um processo avaliativo, balizado em uma metodologia construtivista, não pode estabelecer indicadores a priori que não sejam oriundos do contexto do serviço, que não tenham importância e que não sejam problema para os grupos de interesse. Portanto, neste estudo, o envolvimento do grupo de interesse tem o objetivo de apontar questões pertinentes dentro do contexto das práticas dos serviços, e que estejam articulados à proposta de Thornicroft e Tansella (2010) no que se refere à boas práticas em saúde mental na atenção psicossocial.
A criação de espaços dialógicos e participativos pode ser um instrumento importante para estimular o (re)direcionamento das ações, constituindo-se, também, uma estratégia para influenciar as políticas públicas dessa área. Nesse sentido, a Avaliação de Quarta Geração (GUBA, LINCOLN, 2011), referencial metodológico deste estudo, pode ser um instrumento interessante na construção de espaços inclusivos e participativos de discussão e construção de novos saberes e práticas em saúde mental.
Para alcançar as condições até aqui expostas Guba e Lincoln (2011) propõem um fluxo de 12 passos para o desenvolvimento do processo avaliativo.
1º passo: contratar, ou seja, formalizar o contrato com o campo a ser avaliado.
2º passo: organizar, visando à seleção e treinamento dos pesquisadores, organização da logística e trabalho de campo.
3º passo: busca-se identificar os grupos de interesses e também elaborar estratégias de busca dos sujeitos.
4º passo: é definido pela geração de construções conjuntas nos grupos, por meio da criação dos círculos hermenêuticos.
5º passo: objetiva ampliar as construções conjuntas dos interessados por meio de novas informações, podendo utilizar informações documentais, e também fazer a interação entre entrevistas e dados de observações.
6º passo: busca selecionar as questões não resolvidas, separando-as como componentes de relato de caso.
7º passo: visa priorizar as questões não resolvidas.
8º passo: é a coleta de informações, com o objetivo de aumentar o nível de esclarecimento.
9º passo: visa a preparar a agenda de negociação 10º passo: conduzir a negociação
11º passo: objetiva divulgar os resultados.
12º passo: é o da Reciclagem dos Dados, que objetiva reciclar o processo como um todo.
Após o contato inicial com o campo e a organização das questões logísticas é fundamental reconhecer os diferentes grupos de interesse (stakeholders), isto é, pessoas que serão potencialmente vítimas ou beneficiárias da avaliação. Guba e Lincoln (2011) identificaram três: Agentes: as pessoas envolvidas em produzir e implementar o serviço; Beneficiários: todas as pessoas que se beneficiam, de alguma forma, com o uso do serviço; Vítimas: as pessoas que são afetadas negativamente pelo serviço: grupos excluídos do seu uso, grupos que sofreram efeitos negativos, pessoas politicamente em desvantagem, sem poder, influência ou prestígio, pessoas que perderam oportunidades que não podem ser exploradas porque os recursos necessários estão alocados para dar suporte ao objeto da avaliação.
A vivencia do campo, permite as construções iniciais do trabalho, bem como a conquista definitiva do direito de entrada do avaliador. Para tanto, os métodos de coleta a serem utilizados incluem a observação, denominada por Guba e Lincoln (2011) de etnografia prévia (prior ethnography), e as entrevistas, as quais obedecerão a dinâmica do círculo hermenêutico dialético, como um caminho para alcançar consensos ou expor e esclarecer as diferentes visões reconstruindo as construções individuais do inicio do processo (GUBA, LINCOLN, 2011).
A etnografia prévia (prior ethnography), proposta por Guba e Lincoln (2011) possibilita ao avaliador viver e experienciar o contexto do serviço, sem ainda estar engajado nas atividades de avaliação, conversando com as pessoas, identificando os líderes formais e informais, realizando as primeiras aproximações com o campo de pesquisa, de modo a ganhar o direito de entrada nos serviços. Esta será realizada de acordo com um roteiro de observação previamente elaborado (ANEXO xxxx).
A partir de então iniciam-se as entrevistas, por meio dos círculos hermenêuticos-dialético. Denomina-se hermenêutico porque tem caráter interpretativo, e dialético porque implica comparação e contraste de diferentes pontos de vista, objetivando alto nível de síntese. Os autores afirmam que a maior proposta desse processo não é justificar a sua própria construção ou atacar as fraquezas das propostas oferecidas por outros, mas uma forma de conexão que leve à exploração mútua de todas as partes.
O objetivo é alcançar um consenso, quando possível; quando não, expõe e esclarece as diferentes visões. Caso o processo tenha êxito, é porque todas as partes, incluindo o pesquisador, reconstruíram as construções iniciais. Todas as partes são, simultaneamente, educadas e desenvolvidas.
Guba e Lincoln (2011) apontam que uma negociação produtiva requer certas condições, que incluem: compromisso das partes de trabalharem em uma posição de integridade, sem espaço para mentiras e enganos deliberados; competência mínima para se comunicar; compromisso de compartilhar poder; compromisso de mudar frente a negociações persuasivas; compromisso de reconsiderar os seus valores, quando apropriado; compromisso de dispor de tempo e energia requeridos pelo processo.
O seguinte modelo esquemático é proposto pelos autores:
Figura 1 - Círculo Hermenêutico Dialético. Fonte: Guba, Lincoln (2011).
O circulo hermenêutico-dialético, consiste na seleção de um respondente inicial (R1), geralmente escolhido de forma intencional pelo pesquisador por ser um sujeito emblemático no grupo, e os demais vão sendo indicados pelos entrevistados, até que o círculo retorno, por indicação ao respondente 1.
A partir da primeira entrevista os temas centrais, conceitos, ideias, valores, problemas e questões, levantados por R1, são analisados pelo pesquisador, e incorporados a novas questões, resultando em uma formulação, designada C1, que é o resultado da questão inicial, mais as demandas que emergiram de R1.
A construção C1 servirá como base para a entrevista com R2, que iniciará com a questão aberta inicialmente proposta, mais as questões que surgiram da entrevista de R1, e assim sucessivamente até que o grupo entenda que o grupo de interesse tenha sido contemplado.
As informações que serão exploradas podem ser introduzidas de acordo com as demandas que a oportunidade e a necessidade originam, entre as quais construções que emergem do próprio grupo de interesse, dados de observação, documentos, literatura relevante e a construção ética do pesquisador.
Assim, a primeira entrevista é iniciada com uma questão aberta, a partir desta, as questões que emergirem serão introduzidas nas demais entrevistas, em busca de informações mais detalhadas e específicas, ou seja, cada entrevista será seguida imediatamente pela análise dos dados, tornando o material das entrevistas
prévias disponível para as seguintes, nas quais, além de falar sobre as suas próprias construções, o entrevistado será convidado a comentar sobre as construções das entrevistas anteriores. Desse modo, parte do processo de análise dos dados ocorre concomitante à coleta, e o processo é repetido através da adição de novos informantes, sendo entrevistados todos os componentes de determinado grupo de interesse.
Ao final das entrevistas é realizada uma oficina com o grupo de interesse para a validação e negociação das informações obtidas durante o trabalho de campo. Assim, após a coleta dos dados brutos da entrevista, é realizada uma análise prévia com o objetivo de estruturar oficinas de validação, onde são apresentados os dados refinados para que todos tenham acesso à totalidade das informações e a oportunidade de modificá-las ou afirmar a sua credibilidade. Esse espaço tem uma grande potencialidade, pois permite que os processos de trabalho sejam discutidos de forma clara e construtiva, proporcionando os avanços que a avaliação construtivista se propõe.
Após a realização da negociação e validação dos dados, estes são divulgados em diferentes meios, por fim, Guba e Lincoln (2011) destacam a reciclagem dos dados como parte do círculo hermenêutico-dialético, até que se atinja um consenso acerca das questões não resolvidas, com base nas entrevistas realizadas, observações e momento da negociação dos dados com o pesquisador e grupos de interesse.
Dessa forma, a coleta de dados obedece esquematicamente aos seguintes passos: