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Particle-hole formalism

2.4 Second Quantization

2.4.4 Particle-hole formalism

Principais atores envolvidos, áreas de interesse e os apoios para a criação de um grupo de Economia Humana no Brasil

A Sociedade para Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais – SAGMACS nasceu em julho de 1947, vinculada ao Centre d’Économie et Humanisme, organismo fundado por Lebret, François Perroux e empresários católicos, na França. Alcançou notoriedade em países da América Latina através dos adeptos da Democracia Cristã, dos jovens da Juventude Universitária Católica – JUC e da Fraternidade Leiga dos Dominicanos de São Paulo, além dos que assistiram as aulas ministradas por Lebret no curso da ELSP, no contexto pós-segunda guerra mundial, período em que os Estados Unidos e a União Soviética se consolidavam potências econômicas e militares, e a Europa tentava se reerguer.

Para tanto, houve uma movimentação de organismos internacionais, sediados em países europeus, na tentativa de ampliar sua interlocução com os países localizados na América do Sul e África, os quais, a partir dos anos 1950, ficaram conhecidos como países de Terceiro Mundo. A preocupação com a questão econômica exposta aqui não se refere somente à polarização entre as duas grandes potências mundiais emergidas da Segunda Guerra – EUA e URSS, mas também à necessidade dos países europeus recuperarem seu domínio econômico, político e cultural sobre os demais países do mundo. Com os problemas emergidos durante a segunda guerra e a urgente necessidade de reconstrução das cidades e das indústrias arrasadas durante os combates, a economia europeia mostrava-se em declínio, de forma que era preciso buscar formas de superar esta crise para além do continente europeu e também para além das duas grandes

potências mundiais.

Neste sentido, Pelletier (1996) aponta que a fundação da SAGMACS em São Paulo teria se dado como forma de expansão do domínio cultural e econômico francês, a fim de contrapor-se à expansão imperialista norte-americana sobre o continente sul americano. Teria assim ocorrido como forma de expansão do domínio capitalista sobre o que na época era considerada a periferia do mundo. Porém, a nosso ver, outros aspectos nortearam a criação da SAGMACS em São Paulo, além da expansão do capital e da expansão territorial da ação do Économie et Humanisme.

Para Albertini, após a visita de Lebret ao Brasil e aos demais “países em vias de desenvolvimento”, como o Senegal, o Vietnam, Libano, Colômbia e Chile, os mesmos “lui confient l’analyse de leur situation économique et sociale et leurs projets de developpment.” Assim, “Lebret va élaborer une dynamique concrète et systémique du développement et être une des grandes voix qui feront percevoir l’urgence des problèmes des pays en voie de développement.” (2006, p. 20).162

A fundação da SAGMACS ocorreu em São Paulo, no ano de 1947, momento em que Lebret visitava pela primeira vez o Brasil, Chile, Argentina, Colômbia e Uruguai, países que nos anos 1950 ficaram conhecidos como de terceiro mundo. Na França o Économie

et Humanisme consistia em estudar os malefícios do capitalismo e do socialismo em

busca da proposição de uma terceira via, chamada por Perroux de Desenvolvimento Harmônico.

Na vinda de Lebret para o Brasil já havia a intenção de fundar em São Paulo um grupo vinculado ao EH francês, conforme exposto por Angelo em carta do frei Romeu Dale, recebida por Lebret. Assim, conforme já apontamos, Lebret conseguiu o apoio de personalidades importantes como dos professores Luiz Cintra do Prado e Lucas Nogueira Garcez, além do Frei Benevenuto de Santa Cruz, na defesa do ideário pregado pelo

Économie et Humanisme, o que culminou com a criação de um organismo de estudos e

pesquisas aplicadas aos complexos sociais, chamado de SAGMACS. Esta iniciativa colocou o Brasil na rota do movimento Économie et Humanisme, instituindo-se a cooperação técnica entre o meio intelectual católico e e empresariado paulista, e o vínculo do ideário lebretiano entre o Brasil e a França, mais precisamente entre os        

162 Confiam a ele a análise de sua situação econômica e social e seus projetos de desenvolvimento (Livre tradução do autor)

Lebret desenvolverá uma concreta e dinâmica sistemática de desenvolvimento e será uma das grandes vozes que perceberão a urgência dos problemas dos países em desenvolvimento. (Livre tradução do autor).

membros ligados ao padre Lebret em Lyon e a SAGMACS em São Paulo.

No período de fundação da SAGMACS, a cidade de São Paulo figurava como principal sede da produção industrial do país, absorvendo intenso crescimento populacional, o que lhe permitiu superar a população do Rio de Janeiro e se tornar a maior cidade do país na década de 1950. Devido às condições econômicas, Lebret enxergava em São Paulo e no Brasil o campo fértil para a expansão do Économie et Humanisme na América Latina, tentando empregar seus métodos de análise para desvendar os problemas do subdesenvolvimento e abrir espaço para um modelo de economia mais harmônica. Enquanto em sua origem na França o Centre d’Économie et Humanisme, fundado por Lebret, contava com a participação de profissionais das áreas de economia, filosofia e sociologia, que estudavam os malefícios do capitalismo e do socialismo e propunham uma terceira via, no Brasil a SAGMACS configurou-se como um organismo voltado para a pesquisa urbana e o planejamento territorial, não tendo descartado a temática do desenvolvimento econômico. A nosso ver, esta faceta se deve ao fato de Lebret não ter sido bem aceito pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, pois ali seus métodos eram vistos como antiacadêmicos e pouco científicos. Entretanto, conquistou simpatia na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e na Escola Politécnica, de onde saiu o primeiro diretor da equipe de Lebret no Brasil, o que abriu espaço para um engajamento maior dos engenheiros e arquitetos à equipe da SAGMACS, levando Lebret a realizar um trabalho voltado para as questões urbanas.

Através dos discursos e exposições de Lebret em palestras e cursos, notamos que uma de suas principais preocupações era com a formação de quadros, por isso buscava sempre vincular-se a setores da elite a fim de encontrar jovens com futuro político promissor e também estudantes e professores universitários. Desse modo, os adeptos de Lebret entre a juventude católica, principalmente a chamada JUC – Juventude Universitária Católica, passaram a estudar os problemas e as potencialidades de cada Estado. Estes estudos foram amplamente discutidos no Congresso da JUC, que Lebret organizou em São Paulo no ano de 1954, como atividade preparatória para o I Congresso Internacional do Économie et Humanisme.

Com tudo isso, Lebret conseguiu despertar, em sua primeira estada no Brasil, os universitários e futuros profissionais para a necessidade de agir e contribuir com o desenvolvimento regional, formando lideranças e fomentando o debate sobre as condições de vida do homem. E assim a SAGMACS atuava desde sua fundação, no levantamento de questões urbanísticas e das condições de vida dos habitantes, buscando conhecer, de forma empírica, os problemas da cidade, relacionando-os aos

complexos sociais.

As ideias de desenvolvimento harmônico difundidas por Lebret através do Économie et

Humanisme o qualificaram como uma autoridade na área do desenvolvimento

econômico, e por isso causaram grande interesse entre o meio empresarial paulista, especialmente entre os adeptos das ideias de Roberto Simonsen e da FIESP. Estes empresários buscavam uma maneira de alavancar o Brasil como grande potência mundial e líder do continente sul americano. Ao mesmo tempo, Lebret também enxergava no Brasil e em demais países do chamado terceiro mundo tal possiblidade, porém, apontava para a necessidade de não repetir os mesmos erros que os avanços do capitalismo vinham causando na Europa.

Dessa forma, a SAGMACS surge como possibilidade do Économie et Humanisme implantar uma espécie de laboratório no terceiro mundo, para difundir e testar as ideias defendidas acerca do desenvolvimento harmônico.

No início da SAGMACS a parceria de Lebret com a elite industrial paulistana foi tão rendosa que levou o grupo a ter sua primeira sede, instalada no Jockey Club de São Paulo, com espaços reservados aos diretores da equipe, que já começavam a estruturar trabalhos para possíveis parceiros e investidores. Além disso, é importante notar que, neste primeiro momento, a SAGMACS era subsidiada pelo Jockey, ainda que a maioria dos dirigentes e frequentadores deste clube estivessem muito mais identificados com uma doutrina econômica capitalista, mais monetarista do que progressista.

Subventionnée au début par le Jockey-Club de São Paulo, la SAGMACS avait été conçue comme un laboratoire d’enquêtes sociales où les dominicains n’apparaissaient pas officiellement. Son bureau comptait cinq laïcs: Luis Cintra do Prado, ancien directeur de l’École polytechnique de São Paulo, qui avait été l’assistant de Lebret dans son enquête; le docteur de Freitas, directeur de l’hôpital de São Paulo; un ingénieur pauliste, Lucas Garces; le docteur Montoro, jeune professeur à la Faculté de Droit et secrétaire général de l’Action catholique pauliste; Mlle Pinheiro enfin, ancienne militante du parti communiste brésilien passée à l’Action catholique. Ils furent assistés jusqu’à la fin de 1949 par un directeur technique envoyé par La Tourette, auquel succéda alors Santa Cruz.163 (PELLETIER, ibid., p. 298).

       

163 Financiada inicialmente pelo Jockey Clube, em São Paulo, a SAGMACS foi concebida como um

laboratório para pesquisas sociais, onde os dominicanos não aparecem oficialmente. Seu escritório tinha cinco leigos: Luis Cintra do Prado, ex-diretor da Escola Politécnica de São Paulo, que havia sido assistente de Lebret na sua investigação; Dr. Freitas, diretor do Hospital São Paulo; um engenheiro paulista Lucas Garces; Dr. Montoro, um jovem professor da Faculdade de Direito e secretário geral da Ação Católica Paulista; Senhorita Pinheiro, ex-militante do Partido Comunista do Brasil que seguiu para a Ação Católica. Eles foram atendidos até o final de 1949 por um diretor técnico que foi enviado a La Tourette, e foi substituído depois por Santa Cruz. (Livre tradução do autor).

Já em 1947, tão logo se deu a fundação da SAGMACS, Lebret realizou seu primeiro trabalho com foco na questão urbana, o qual ocorreu no Brasil, a partir da pesquisa sobre as diferenças da estrutura residencial entre uma cidade industrial sul-americana e as cidades industriais francesas. A pesquisa chamada de “Lo Logement de la Population de São Paulo”, publicada pela Revista do Arquivo Municipal, em 1951, sob o título de “Sondagem Preliminar a estudo sobre Habitação em São Paulo”, coordenada por Lebret e Raymond Delprat, será apresentada e analisada no próximo capítulo deste trabalho. Esta pesquisa marca a fase fundadora dos trabalhos da SAGMACS no Brasil e revela o caráter da pesquisa empírica utilizada por Lebret e sua equipe, sendo importante salientar que, neste período, os principais membros da equipe eram ligados às áreas de economia e sociologia.

Segundo Valladares (2005, p. 80), Nogueira Garcez foi a figura chave para que Lebret conseguisse penetrar neste meio empresarial e político paulistano, que teria rendido esta parceria com o Jóckey Club. Garcez ocupou posto chave na composição da primeira diretoria da SAGMACS, porém, coube ao Prof. Luiz Cintra do Prado o cargo de primeiro Diretor Presidente da equipe.

3.5. Formação das equipes, cronologia, períodos e etapas na atuação da