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Primeiramente faremos uma interpretação de sete enunciados do Orkut, de forma intuitiva, sem aplicar as teorias em questão.

As escolhas foram selecionadas levando-se em conta a riqueza de implícitos.

Enunciado (1)

Quem eu sou: Alguém que nunca fui.

Ela provavelmente quer dizer que é uma pessoa diferente da que fora no passado. Pode ser que anteriormente a autora apresentava um comportamento que atualmente já não faz mais parte da sua vida. Possivelmente ela tenha adotado uma nova postura. Com esse enunciado, ela chama a atenção do leitor, fazendo–o pensar em como ela poderia ter sido antes e como ela é hoje.

Enunciado (2)

Quem eu sou: Eu sou aquele que passa sem ninguém ver... eu sou aquele que olha sem perceber... eu sou aquele que fala sem ninguém ouvir...Eu sou um cara legal..

Ao mesmo tempo em que ele passa a idéia de ser neutro, de não ter importância para os outros, considera-se uma pessoa de valor ao utilizar Eu sou um cara legal. Primeiramente, parece que ele não quer ser visto, notado. Mas, como todo membro do Orkut tem um perfil e precisa se marcar, possivelmente ele elegeu essa expressão como uma característica de sua personalidade.

Enunciado (3)

Quem eu sou: Protetor dos frascos e comprimidos. Nas horas de folga gosto de bons relacionamentos e amizade, estou à procura de alguém especial....

Geralmente uma pessoa que leva a vida muito seriamente não é vista com tanta evidência. Como, provavelmente, ele é um rapaz que valoriza os bons relacionamentos, utiliza uma metáfora bem humorada, quebra o ar de seriedade, mas não deixa de se mostrar comprometido com os seus ideais.

Enunciado (4)

Quem eu sou: Uma baixinha nervosa, mas que está bem mais calma, agora! Obrigada, gotinhas...

No conhecimento de mundo, geralmente as baixinhas são invocadas. Provavelmente ela utiliza essa expressão para se marcar. Porém, muda o foco, enfatizando que no momento atual está melhor (mais calma) devido a certas gotinhas que, possivelmente, sejam florais.

Enunciado (5)

Quem eu sou: Eu seria diferente se eu fosse mauricinho, criado com sustagem e leite ninho.

O autor utilizou recursos de linguagem, como a metáfora e a rima, a fim de provavelmente tocar o leitor. Nesse discurso ele diz que as pessoas as quais têm mais condições e mais tempo para usufruir a vida são as privilegiadas. Por dizer dessa maneira, talvez ele não tenha o estilo (ou vida) de que gostaria, ou seja, o de mauricinho. Ele reforça essa idéia com as palavras sustagem e

Enunciado (6)

Quem eu sou: Avalanche, terremoto, tsunami.

Pick up your sword and come! I’ll meet you face to face, eye to eye !!! Picante, sem-vergonha, delícia!

Hear me Roar!!!

O autor quer dizer que a sua presença é mais que notável. Assim, utiliza fenômenos naturais de grande impacto para enfatizar que, por onde ele passa, deixa marcas profundas. Além disso, evidencia um lado sensual, possivelmente característica de uma pessoa provocativa. Pode ser que, ao utilizar as expressões em inglês (requinte de linguagem), ele queira se mostrar um erótico refinado.

Enunciado (7)

Quem eu sou

:

Existem muitas coisas muito interessantes para serem estudadas ou conhecidas, experimente-se e permita-se.

Ele sugere às pessoas experimentarem e se permitirem fazer coisas. Com isso, o autor também se marca, dizendo que possivelmente é uma pessoa aberta, que foge à rotina, ou seja, ele não é acomodado e deve viver diferentes aventuras.

4.2 O ORKUT AOS OLHOS FRIOS DAS TEORIAS

Nesta parte do capítulo analisaremos, mediante o quadro teórico do terceiro capítulo, as inferências pragmáticas, implicaturas do Orkut. O estudo está se desenvolvendo, como vimos na segunda parte do trabalho, sob uma perspectiva Semântico/Pragmática para tratar dos discursos on-line. Cabe ressaltar que se trata de uma análise lingüística, portanto, não assumimos que a interpretação dada seja a única possível.

Grice foi o primeiro teórico a sistematizar as diferenças entre o significado do falante com o significado da sentença. Sua tese tem-se mostrado um dos melhores modelos para explicar as ocorrências pragmáticas da linguagem natural, uma vez que é informativo e suficientemente organizado para dar conta de um fenômeno lingüístico: as implicaturas.

O problema central da pragmática é que cada enunciado apresenta uma variedade de interpretações possíveis, todas compatíveis com a informação lingüisticamente codificada. O trabalho do ouvinte é reconhecer a interpretação pretendida pelo falante. A função da pragmática é explicar como isso se dá. Dessa forma Grice estabeleceu uma nova abordagem para a pragmática: a teoria da interpretação do significado.

A Teoria das Implicaturas aborda a distinção daquilo que é dito do que está implícito, ou seja, o que vai além do modelo de códigos. Nossa linguagem não está presa somente ao código, assim, há muito mais por trás daquilo que é enunciado pelo falante. O que está além do código está implicado, sofrendo interpretação pelo ouvinte e é dependente da situação comunicativa.

Uma expressão gera automaticamente expectativas que conduzem o ouvinte para o significado do falante. Essas expectativas são descritas nos termos do Princípio Cooperativo e as quatro máximas. Para que o dito além do dito seja compreendido, locutor e interlocutor interagem de forma cooperativa, segundo o Princípio de Cooperação, conforme Grice. Esse princípio consiste em se respeitarem certas máximas, tais como quantidade, qualidade, relação e modo. As máximas têm o propósito de oferecer uma troca de informações efetiva. Ligando-se o Princípio de Cooperação e as máximas com as implicaturas conversacionais, nota-se que o falante se utiliza das máximas e, ao violá-las, produz implicaturas, recurso reconhecido tanto pelo locutor como pelo interlocutor.