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1 INTRODUCTION

1.1 Participants

Meira Mattos iniciou seu trabalho intelectual versando a temática guerra e seus estudiosos, assunto que não admite a exclusão do general prussiano. Clausewitz filosofou sobre a guerra com grande maestria e profundidade, e sua obra basilar Vom Kriege (Da

Guerra) provocou (e continua a provocar) a admiração de pensadores que vão de Lênin a

Raymond Aron, além de Rapoport (MEIRA MATTOS, 1986). O interesse por Da Guerra provém do rigor metodológico sobre as “coisas” da guerra – sua gênese, natureza e consequências no contexto histórico e sociológico. Para Meira Mattos, “Clausewitz faz filosofia quando procura compreender a essência do fenômeno bélico e suas derivações no processo existencial da humanidade” (MEIRA MATTOS, 1986, p. 2).

Para ele, a máxima segundo a qual “a guerra é um ato de violência destinado a forçar o inimigo a submeter-se à nossa vontade”, é uma expressão completa e concisa sobre os principais conflitos vivenciados e analisados por Clausewitz: as guerras da Revolução Francesa e as campanhas napoleônicas (MEIRA MATTOS, 1986). Tal apreciação “dominou o espírito dos autores alemães, franceses e russos durante este século e meio que nos separa, hoje, da primeira edição de Vom Kriege” (MEIRA MATTOS, 1986, p. 3). No período da Guerra Fria, Meira Mattos revelou-se um leitor de clausewitzianos como Rapoport e Aron, autores que discutimos no capítulo anterior deste trabalho. “Um instrumento da política nacional”, eis a questão essencial da teoria da guerra de Clausewitz para Rapoport (MEIRA MATTOS, 1986). A partir deste axioma Rapoport pesquisou a evolução do conceito de guerra clausewitziano até a contemporaneidade. Aron dedicou atenção ao aspecto político, frisando a

ideia de que a guerra é unicamente um instrumento da política, e “estabelece a clara hierarquia entre o objetivo político e a ação militar ou, sintetizando, entre o poder político e o poder militar” (MEIRA MATTOS, 1986, p. 4).

Marcado pela Guerra Fria, Rapoport defendeu que a acepção clausewitziana da guerra como uma política nacional foi abalada devido à disseminação da teoria marxista sobre os valores do proletariado internacional, pois o sujeito da guerra – política nacional – estaria permeado por concepções internacionalistas da luta de classes (MEIRA MATTOS, 1986). Como vimos no primeiro capítulo, Rapoport criticou Lênin por ter distorcido as palavras de Clausewitz. Raymond Aron contrariou esta teoria, a seu ver, o essencial no pensamento clausewitziano – predominância da violência e da política – continuaria presente (MEIRA MATTOS, 1986). Já para Meira Mattos, o conceito clausewitziano mais popular e referenciado é “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Ao ver de Mattos o divulgador fundamental deste aforismo foi o revolucionário comunista Vladimir Ilitch Lênin. O russo, no entanto, fez a “contraversão” do famoso adágio, declarou a guerra o estado permanente e a política o instrumento transitório (MEIRA MATTOS, 1986).

O general brasileiro não aprofundou as diferenças entre esses três leitores de Clausewitz – Rapoport, Aron e Lênin –, preferindo expor resumidamente as opiniões destes. Assim, com exceção da recusa clara a Lênin, não se pode concluir qual das leituras foi aceita por Meira Mattos. O que se pode afirmar é que o interesse de Meira Mattos foi apresentar as estratégias militares existentes na modernidade, sem, no entanto, descartar a associação com a política.

Para ele, a estratégia não pode ser pensada sem a política.

A Estratégia é uma decorrência da Política, razão porque para conceituá-la devemos antes conceituar a Política. Esta é a arte ou ciência de governar. É a concepção de como governar o Estado. A Estratégia é a arte de executar a Política. Compreende a ação, ou as ações, necessárias para alcançar os objetivos da Política (MEIRA MATTOS, 1986, P. 7).

A estratégia é a aplicação de uma política e existirá uma estratégia para cada política nacional (econômica; psicossocial; militar). A estratégia inerente ao estudo de Meira Mattos é a estratégia militar, que é definida como a arte de conduzir a guerra. Nesse sentido, ele reafirmou que Carl von Clausewitz foi um dos autores que deixou evidente o fato da estratégia ser decorrente da política através da sua máxima ‘a guerra é a continuação da política por outros meios’ (MEIRA MATTOS, 1986). O general prussiano foi, inclusive, um dos primeiros a relatar a mudança da estratégia a partir da Revolução Francesa. As guerras de

gabinete transformaram-se em guerras do povo e a partir de então os conflitos não conheceriam mais limites, seria a prenunciada guerra total de Clausewitz (MEIRA MATTOS, 1986). Novamente a concepção de guerra total é atribuída à Clausewitz:

É o próprio Clausewitz quem antecipa esta evolução do conceito de estratégia quando escreve: A guerra não mais pertence ao domínio das artes ou das ciências, mas se relaciona com a existência social. Ela é um conflito entre grandes interesses decididos pelo derramamento de sangue. Parece-se mais com a Política (MEIRA MATTOS, 1986, p. 9).

Com a Revolução Francesa ocorreram transformações expressivas no caráter da guerra e, consequentemente, as estratégias militares também se modificaram. Para Meira Mattos, surgiram, então, no pensamento militar moderno, três escolas estratégicas: estratégia de ação direta, estratégia de ação indireta e estratégia de dissuasão. A estratégia de ação direta, preconizada por Clausewitz, é a estratégia pensada através da batalha direta, do choque inevitável. A estratégia de ação indireta, que teve Liddell Hart como seu defensor, é uma variante da estratégia supracitada. Hart apresentou-se contrário à estratégia, segundo ele, defendida por Clausewitz, e pronunciou a necessidade de se pensar em uma nova estratégia, a de ação indireta: ‘A estratégia perfeita será obter a decisão pela derrota do inimigo e sua rendição sem combate’ (HART apud MATTOS, 1986, p. 12). A estratégia de dissuasão, analisada entre outros, por Beauffre, é aquela na qual a eminência de um confronto nuclear acaba por paralisar o conflito bélico. A saída estratégica, nesse caso, parece vir através de ações políticas e econômicas.

Mattos abriu parênteses para apontar outro tipo de estratégia, a leninista. Lênin adicionou em sua teoria estratégica o elemento político-revolucionário. No conceito de estratégia aplicado por Lênin está a semente da chamada guerra revolucionária, “que visa minar o moral do inimigo ‘atuando essencialmente sob sua mente, através da propaganda, dos atos de terrorismo e de intimação” (MEIRA MATTOS, 1986, p. 13)78. A apreensão com a

guerra revolucionária foi constante nos oficias brasileiros no período da Guerra Fria, não constituindo uma característica particular de Meira Mattos79.

Um dos maiores ensinamentos de Clausewitz foi a dependência dos objetivos militares aos objetivos políticos, mas leituras equivocadas da obra do general prussiano permitiram a ideia contrária a essa tese.

78 Meira Mattos também publicou um texto para falar sobre a guerra revolucionária, intitulado Operações na Guerra Revolucionária, publicado no ano de 1966.

79 Para maiores informações sobre a importância da doutrina militar brasileira para o combate da guerra revolucionária, ver Martins Filho (2008).

A compreensão dessa dependência do objetivo militar ao objetivo político não foi alcançada facilmente. Durante todo o século XIX e até o meio da grande guerra (1914- 1918), o cânone básico da doutrina militar foi que ‘a destruição das forças principais do inimigo no campo de batalha’ constituía o único e verdadeiro objetivo da guerra. Isso foi aceito em todo o Ocidente e impresso em todos os manuais militares (MEIRA MATTOS, 1986, p. 22).

Meira Mattos distanciou-se do pensamento Liddell Hart sobre Clausewitz e o defendeu de suas veementes críticas, alegando que foram os seguidores deste os responsáveis por deturparem sua teoria, levando-a a extremos não pensados pelo general prussiano.

Segundo Liddell Hart, a influência dos livros de Clausewitz muito contribui para fortalecer esse conceito. Mas os discípulos de Clausewitz levaram sua teoria a extremos não desejados pelo mestre (MEIRA MATTOS, 1986, p. 22).

A estratégia militar da ação direta, exposta por Clausewitz, é aquela da destruição da força militar do inimigo, sendo que, a conduta estratégica ideal é a busca do centro de gravidade de suas forças para numa batalha decisiva, destruí-las. Por tal pensamento o prussiano obteve o posto de patrono da ação direta, o que lhe ocasionou diversas críticas no decorrer do tempo, sobretudo do principal advogado da ação indireta, Liddell Hart, que buscou explanar a viabilidade da submissão das forças inimigas, predominando a manobra estratégica e não a batalha. Ao contrário de Hart, Meira Mattos apostou na atualidade da estratégia de ação direta de Clausewitz, com nova aparência, revivida na estratégia de guerra nuclear. Essa tese foi corroborada pelo teórico de maior destaque da estratégia nuclear, general Beaufre: “A estratégia levou aos extremos a forma de ação direta de Clausewitz” (BEAUFRE apud MEIRA MATTOS, 1986, p. 31).

Dada às conceituações e os princípios basilares das estratégias modernas, Meira Mattos defendeu a relevância de um Planejamento Estratégico Militar. Mais uma vez, procurou Clausewitz para embasar suas perspectivas. O general prussiano discorreu sobre a importância do plano de guerra, o qual compreende o ato militar como um todo: previsão de desenvolvimento da guerra, extensão dos meios a serem empregados e o esforço necessário para cada ação. O plano de guerra clausewitziano foi aceito e difundido por renomados pensadores militares do século XX, tais como Liddell Hart e o General Beaufre (MEIRA MATTOS, 1986). Meira Mattos nos forneceu, ainda, outro dado relevante para acreditarmos na presença e na influência da teoria clausewitziana no meio militar brasileiro ao dizer que a elaboração do Manual de Planejamento do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA) não se afastou do pensamento teórico de Clausewitz sobre o assunto.

O objetivo do ensaio de Meira Mattos foi elaborar uma estratégia adequada à realidade brasileira. A conclusão trazida pelo autor é que a estratégia a ser adotada pelo Brasil deveria ser baseada em uma atitude defensiva não passiva. Trazendo Clausewitz para as condições brasileiras, ele salientou:

Diante de nossa expressão geopolítica – território, população, industrialização, recursos industriais – devemos reconhecer que mesmo dentro de uma Política militar defensiva muito temos a preservar. Isto posto, nossa Estratégia defensiva não deve significar uma postura de passividade, mas uma atitude de vigilância, nas fronteiras terrestres, marítimas e aéreas, na preservação das rotas que interessam à nossa liberdade de movimentos” (MEIRA MATTOS, 1986, p. 76).

Por fim, no livro até aqui analisado, Meira Mattos alertou para a necessidade de um constante redimensionamento da estratégia aplicada. Com a progressiva evolução das tecnologias utilizadas no cenário bélico o perigo de ficar ultrapassado no campo de batalha é cada vez maior. A sucessiva atualização dos conhecimentos dos militares é a chave para o sucesso estratégico da Nação brasileira. Percebe-se neste livro de Meira Mattos uma leitura muito mais refinada, ainda com alguns equívocos, mas que enfatizou a importância da subordinação militar à política e que reconheceu as deturpações que o pensamento clausewitziano sofreu ao longo do tempo. Acreditamos poder dizer que as leituras de comentadores e críticos (Aron, Rapoport e Liddell Hart) de Clausewitz proporcionaram maior discernimento sobre a leitura que Meira Mattos já tinha de Clausewitz. Meira Mattos evoluiu em sua compreensão sobre a teoria de Clausewitz.

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