No presente estudo, nos dados fornecidos pela participante, é possível perceber a presença de algumas influências, como: influência de professores; da família; do ambiente escolar; do ambiente não escolar. A seguir enunciarei cada uma dessas influências, segundo a percepção da participante.
As experiências que mais parecem ter influenciado a participante sobre ensino, aprendizagem, professor e aluno, servindo também como fonte de inspiração para sua atuação, são aquelas referentes à atuação de alguns
professores, principalmente os da pré-escola e do primário, que Júlia preferiu
chamar de modelos e alguns de antimodelos, dos quais os primeiros formarão o seu pilar de sustentação para sua atuação docente e os outros, uma referência a ser negada
Quando eu for professora, quero que meus alunos guardem as mesmas boas lembranças que eu guardo das minhas primeiras professoras e que nunca tenham más lembranças minhas para apagar (entrevista, 10/11/01).
Da pré-escola guarda doces lembranças, principalmente da Dona Ana, a quem não economiza elogios, referindo-se a ela como uma professora
carinhosa, amorosa e paciente que despertava e continua a despertar nela um
grande respeito e admiração. Lembra-se de fatos que a marcaram, como pedir à sua mãe que penteasse seus cabelos na calçada, a fim de ver quando a professora passava, para acompanhá-la, a fim de chegar à escola em sua companhia. Recorda-se também de quando passou mal e a professora a levou, no colo, até sua casa. Relata também que esta professora notava-a na igreja, comentava sobre seu cabelo, suas roupas. Enfim, percebia-a como gente, prestava atenção nela. Admite
que até hoje, ao fechar os olhos, consegue ver aquele sorriso sereno e cativante com o qual ela os recebia todos os dias. Credita a essa professora o valor que ela dá ao professor que reconhece seu aluno como pessoa individual, única e não como mais um entre tantos. A minha professora da pré-escola, me reconhecia na
igreja, comentava sobre o meu cabelo, minhas roupas. Enfim me percebia como gente, prestava atenção em mim (entrevista, 10/11/2001).
Recorda-se com carinho da sua professora da 1ª série, Dona Amália, embora não se lembre de detalhes, nada em especial, só que ela era
serena, não xingava e não gritava.
Mas relembra com tristeza e até mesmo com amargura a sua professora da 4ª série, que, segundo ela, marcou-a negativamente, ressaltando o quanto era estúpida e grosseira com as crianças. Percebe ainda hoje resquícios desta professora por não gostar de matemática e ciências, que eram os conteúdos que ela lecionava.
Um fato que me marcou muito foi quando eu estava na 4ª série, a professora pediu que uma criança fizesse uma operação na lousa, ela resolveu a operação errado. Sem pensar eu levantei para apagar e corrigir. Nesse momento a professora, que estava sentada no fundo da sala, gritou comigo: ”o que você está fazendo? A operação está correta!” Eu, toda sem jeito, quis fazer uma gracinha dizendo: “nossa! Eu quase apaguei”. A professora, ainda mais brava gritou: “vai sentar! Além de atrevida, não tem confiança no que faz, sua engraçadinha”. Colocou-me sentada e apagou a operação, refez a operação sem trocar uma só palavra. Olhava-me com tanta raiva que me senti pequena e humilhada. Eu não consegui entender sua atitude, pois a operação estava errada sim. Até hoje ao lembrar desse fato me sinto constrangida e é por isso que todas as vezes que uma criança, lá no estágio, faz uma gracinha eu não consigo ser ríspida com ela. Procuro entender o espírito da brincadeira, porque pode ser que ela queira participar da aula dando sua opinião, mesmo que esta não seja correta. Tem outras formas de corrigir sem com isso ter de humilhar a criança
(entrevista, 10/11/2001).
Nos seus relatos, há também indícios de importantes influências do
possibilitou a Júlia uma estreita relação com a profissão docente. Gostava de ajudar sua irmã a preparar os materiais que seriam usados nas aulas, percebia
satisfação e entusiasmo por parte da irmã em relação à profissão, além de sentir-
se atraída pelos trabalhos motivava-se ao perceber os avanços das crianças.
[...] eu gostava muito de ajudar a minha irmã a preparar atividades de coordenação motora nos caderninhos das crianças, era gostoso perceber que antes a criança não conseguia fazer uma atividade e que depois já conseguia. Era uma sensação que eu não consigo descrever, só sei que era gostosa. E quando perguntava para ela sobre alguma atividade, do porquê dela, ela me explicava com tanto entusiasmo que eu sentia que ela gostava muito do que fazia [...]. Estas experiências de certa forma, também tiveram peso na minha escolha (entrevista, 10/11/2001).
Há também indícios que apontam influências importantes exercidas pelo ambiente escolar, como o relato da participante sobre a escola onde fez a pré-escola, que caracterizou como uma escola que não mais existe, e parecia, segundo ela, um parque de diversões, se contrapondo às escolas sisudas e pouco
atraentes que existem hoje. Recorda-se de festas de confraternização, que
aconteciam com certa regularidade na escola e as aulas de música, que deram a ela a primeira oportunidade de tocar teclado.
A escola que eu fiz, a pré-escola, parecia um parque de diversões[...], eu me lembro bem das festas que aconteciam, com certa regularidade, da troca de carinho, não só da minha professora, mas da merendeira, das outras professoras. Todos da escola sabiam o nome da gente, todos conheciam nossos pais. A escola era um lugar gostoso, alegre, não esse lugar frio que eu vejo hoje (entrevista, 10/11/2001).
As influências recebidas do ambiente não escolar, relacionadas à sua crença religiosa, ajudaram-na também na sua opção pela docência, uma vez que, a seu ver, o professor é valorizado, respeitado e admirado pela comunidade religiosa da qual participa. Todas as vezes que recebia um elogio, fosse ele
explícito ou por olhares de aprovação pelo seu desempenho, ao tocar teclado na sua igreja, relembrava, com certa nostalgia, que tudo começou lá na pré-escola.
Desde muito cedo eu comecei a ter aulas de teclado. Essa minha vontade foi despertada nas aulas de música lá na pré-escola. Então eu comecei a freqüentar as aulas na igreja, onde aprendi a seguir regras, obedecer e ter disciplina. A monitora, responsável pelo meu aprendizado, sempre dizia que sem dedicação ninguém consegue nada. Mas esta dedicação não era só de minha parte, ela também era muito dedicada e isso nos contagiava. A gente via o prazer estampado no rosto dela, e, esse prazer nos impulsionava a dedicar cada vez mais [...] Então eu acho que o processo de ensino-aprendizagem tem que estar ligado ao prazer, na vontade de aprender e esta vontade de aprender tem ligação no prazer de ensinar [...] Muito tempo se passou... Hoje sou a tecladista da minha igreja (entrevista 10/11/2001).