4. Estudi empíric
4.1 Mètode
4.1.1 Participants
Em Ourém existia uma grande diversidade de estruturas agropecuárias (Saraiva 2008), mas nem todas estavam inscritas no perímetro das casas dos trabalhadores agrícolas. Mais representativo da relação entre a casa, a família e os campos é o conjunto que abordo com mais detalhe de seguida133. Eram construções rudimentares, da autoria dos seus proprietários, que materializavam a casa agrícola e a indissocia- bilidade entre a habitação e o campo, designadamente ao nível da organização da propriedade. A extensão agrícola, a capacidade produtiva e, por conseguinte, a condição económica do proprietário era refletida no número e áreas destas estruturas que funcionavam, por isso, como indicadores económicos da família. Umas casas tinham eira, alpendre e palheiro, cabana de palha-milha e palheiro, outras apenas palheiro, expressando a maior precariedade económica da família134. Estes anexos refletiam, ademais, a mobilidade económica e social dos trabalhadores agrícolas, que construíam novas estruturas à medida que melhoravam de nível de vida. Se as habitações eram pouco alteradas ao longo das vidas dos proprietários, como adiante se verá, já os anexos de apoio eram sucessivamente erguidos e ampliados. Eram as expressões arquitetónicas mais dinâmicas das casas agrícolas.
Este tipo de construções foi estudado por Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira (Dias, Oliveira e Galhano 1963; Oliveira, Galhano e Pereira 1988 [1969]; Oliveira e Galhano 1994). À luz destes estudos, a diversidade encontrada em Ourém vem confirmar a natureza plural de uma região de transição. A dualidade das casas agrícolas entre as povoações do centro- -norte e do sul também ocorria nas estruturas agropecuárias, e era influenciada pelos materiais de construção e pela natureza dos produtos agrícolas. A geomorfologia e o tipo de agricultura determinaram ainda a distribuição de alguns equipamentos de apoio aos campos e à habitação, como as cisternas no sul (confinadas às zonas de sequeiro) e os espigueiros e cabanas de palha-milha no centro-norte (zona de maior
133 Consultar Anexo III. Casas rurais 1900 – 1960, 6.6. Estruturas agropecuárias. 134 Estas situações eram correspondentes aos assalariados rurais.
produção de milho). Foram, contudo, identificados poucos espigueiros, quase todos em madeira e tijolo, confirmando a aproximação do tipo de agricultura e deste tipo de construções com a Alta Estremadura, conforme apontaram Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano ao referirem a existência pontual de espigueiros isolados em Leiria e Alcobaça (Dias, Oliveira e Galhano 1963: 106).
Palheiro e curral
A delimitar o pátio e, em alguns casos, contíguo à habitação, este importante espaço de apoio à casa agregava as cortes ou currais dos animais e o armazém de forragens ou palheiro. Era uma construção retangular rudimentar e ajustada ao terreno, que variava na dimensão e nos acabamentos. Construído de improviso e com acrescentos sucessivos, no centro-norte tinha paredes de taipa ou adobe e no sul de pedra calcária; apresentava em ambos os casos cobertura de duas águas com telha suportada por asnas de madeira. Eram deixados vãos, mais ou menos extensos e aleatórios, por vezes protegidos com tábuas de madeira fixas à estrutura.
O piso térreo, não pavimentado, dividia-se em compartimentos estabulados que acomodavam os animais (o cortiço do porco, o curral do rebanho, os estábulos dos bois e coelheiras). Incluía um espaço amplo semicoberto para o arrumo de alfaias agrícolas, arcas com cereais e o carro de bois. Separado por um sobrado de madeira, o piso superior armazenava os pastos que o tratante deitava aos bois por um alçapão alinhado com a manjedoura, o que poupava trabalhos e defendia de eventuais ataques pelos animais. Este piso servia ainda como dormitório para os rapazes, nos casos já enunciados, e como albergue ocasional de mendigos que vagueavam pelas aldeias à míngua de comer e de um abrigo para pernoitarem.
Eira
Implantada no pátio ou nas imediações da casa, em zona com boa exposição solar, a eira era uma extensão de terreno limpo e batido, pavimentado ou lajeado, onde se malhavam, descascavam, trilhavam e secavam leguminosas e cereais, em espiga ou em grão, antes de serem armazenados. A maioria dos trabalhadores agrícolas dispunha destes equipamentos, com exceção de assalariados rurais, sem espaço para a sua construção, e de alguns profissionais pluriativos com atividade agrícola reduzida, que recorriam ao empréstimo a vizinhos.
No centro-norte, as eiras eram circulares e prolongavam o palheiro em resposta ao cultivo extensivo de milho. O seu desenho corresponde ao modelo de eiras de secagem e debulha que Jorge Dias, Fernando Galhano e Ernesto Veiga de Oliveira atribuíram parcialmente à Estremadura e ao Ribatejo, numa identificação com o panorama atlântico (Dias, Oliveira e Galhano 1963: 26). Os chãos térreos, naturalmente planos e batidos pelo vento, eram transformados em terreiros para debulha e secagem de cereais e leguminosas. À medida que esses solos iam sendo pisoados, a sua aptidão era aperfeiçoada e ao cabo de vários anos a camada superficial já estava compactada o suficiente para minorar a mistura de terra com os cereais. Em outros casos, era assente uma camada de argamassa rudimentar resistente e lisa à base de argila, cal e ocasionalmente borras de azeite e palha. Delimitava-a um murete de pedras rebocadas com o mesmo ligante, com uma abertura para a passagem do carro dos bois e para varrer os resíduos para o exterior.
A sul135, as eiras estavam instaladas nas imediações da casa, no prolonga- mento do alpendre. Também existiam algumas em terrenos de cultivo, sobre afloramentos naturais de calcário. Eram eiras de debulha, sem alpendre ou sequeira, para descasque das leguminosas e onde o cereal era batido, mas não seco, que os referidos etnólogos associaram à área transmontana e mediterrânica e a certas zonas estremenhas (Dias, Oliveira e Galhano 1963: 26). As eiras junto da habitação eram executadas com lajes calcárias e delimitadas com pequenos blocos de calcário, com recurso esporádico a bosta de muar ou de boi para isolar as juntas, alvos fáceis dos efeitos erosivos das chuvas e dos ventos (Martins 2001: 44). Nalguns casos, eram ainda levantadas paredes sobre as quais assentava um terraço com algum desnível, acumulando a debulha e secagem de cereais e um depósito para o qual escorriam as águas pluviais, que eram recolhidas por um postigo, através de um balde içado com uma corda. Nestas povoações, a eira circular convivia com a eira quadrangular ou retangular, evidenciando a posição de charneira e dimensão compósita de Ourém e confirmando a pertinência da faixa entre Coimbra e o norte da Estremadura como zona de transição entre as regiões atlântica e mediterrânica, adiantada por Jorge Dias e a sua equipa:
Aparece, ao lado do tipo quadrangular, que vem do norte, o tipo redondo, próprio do sul mediterrânico, ora um ora outro, conforme as localidades, sem
ordem geográfica aparente, coexistindo, muitas vezes mesmo, ambos na mesma povoação (Dias, Oliveira e Galhano 1963: 28).
Regulada pela sazonalidade, a utilização das eiras era mais intensa nos meses quentes. Na primavera, as gramíneas eram ceifadas e secadas na eira e depois acarretadas com forquilhas ou em panos para o palheiro. Após a ceifa do trigo e do centeio no verão, seguia-se a secagem e a debulha na eira com manguais lançados alternadamente pela força braçal masculina136. Os grãos eram recolhidos e a palhiça reunida em pequenos feixes e armazenada no palheiro. No pico do verão, o feijão era colhido, secado em vagem, debulhado e novamente secado na eira e, por fim, armazenado em grandes sacas de linhaça ou na arca de madeira. Em setembro, a desfolha do milho ou descamisada ocorria num sistema rotativo de entreajuda entre vizinhos, que acertavam por boca o calendário de desfolha em função da maturação das colheitas de cada casa. Era um dos rituais agrícolas mais agregador do concelho por espacializar as dinâmicas económicas, familiares e sociais. O ciclo anual de funcionamento da eira encerrava com as vindimas, onde o “bagaço”137 ou “bagulho” das uvas era seco em finais de setembro.
Alpendre
Nos locais de cultivo intensivo de milho, o alpendre estava no prolongamento da eira para abrigar o cereal em secagem à noite ou aquando de condições climatéricas instáveis. Com o pavimento revestido no mesmo material da eira, o interior do alpendre armazenava a debulhadora e o limpador do milho, feijão e azeitona, os cestos em vime com casca (usados na faina do campo), as arcas para o milho e o feijão já secos e as alfaias agrícolas. Podia albergar ainda lenha e estendais para secagem das roupas. O alpendre superior, assente num tabuado, armazenava o milho e as batatas e, no verão, acolhia as palhas, o que explica a designação de palheiro. Era dos espaços mais polivalentes no apoio à casa agrícola.
No centro-norte, estes anexos de dois pisos e forma retangular (com três a quatro metros de comprimento por quatro a cinco metros de largura e de altura)138 tinham cobertura de duas águas, revestida com telha de meia-cana disposta sobre um
136 Quando existia uma junta de bois, substituía esse trabalho ao percorrer a eira em círculos,
debulhando o grão pelo pisoteio.
137 Designação usada no norte concelhio para as cascas prensadas das uvas, mas também para as
massas igualmente prensadas das azeitonas.
ripado, travado por uma viga de carvalho ou outra madeira duradoura. As paredes laterais e a tardoz eram levantadas em taipa ou, mais raramente, em adobe, sem reboco ou caiação. A parte superior do alçado principal era revestida com tábuas tratadas com óleo queimado e na base duas portadas, no mesmo material, eram abertas ou fechadas consoante as oscilações climáticas.
Mais a sul, as estruturas eram erguidas com pedra não aparelhada e o alçado principal ocasionalmente revestido com madeira. Em ambos os territórios a disposição interior era semelhante. O piso superior, em tabuado, era firmado sobre dois ou três barrotes em madeira, embutidos nas paredes laterais, e o acesso fazia-se por uma abertura no sobrado ou a partir do exterior por uma janela, através de uma escada amovível de madeira.
Cabana de palha-milha
Estas cabanas ou barracas, mais comuns no centro-norte concelhio, destinavam-se a armazenar as forragens do milho. Os modelos mais comuns, com cinco a seis metros de altura (até à cumeeira), quatro a cinco metros de largura e cinco a seis metros de comprimento, eram divididos em dois pisos separados por um sobrado de madeira. O piso era de terra e a cobertura de duas águas era suportada por traves de pinho e, mais recentemente, de eucalipto. O frechal, o contrafrechal e os caibros sustentavam o sobrado de tábuas largas de pinho sobre barrotes. Com blocos de adobe nas extremidades, os alçados laterais eram levantados por dois conjuntos de três pilares (dois nas extremidades e um ao centro), unidos por fiadas de ripas de madeira dispostas alternadamente na vertical e na horizontal. Estas estruturas de ripado eram preenchidas por corutos e folhas do milho para alimentar o gado nos meses frios e, sobre os tabuados verticais, armazenavam-se pastos de trigo e aveia debulhados e palhiças inaptas para armar. O interior abrigava o carro agrícola, em alternativa ao palheiro, uma pilha de lenha para abastecer a casa, enxadas de pontas e rasas, podoas, serras e serrotes, foices, escadas de madeira139, cordas140, vara de picar os bois e outras alfaias agrícolas.
139 Eram fabricadas artesanalmente (compostas por duas ripas compridas dispostas lado a lado e
ligadas por pequenas ripas dispostas transversalmente com intervalos aproximados de 30 cm entre si).
140 Muito utilizadas para amarrar feixes de feno cortado nas terras e para amarrar uma ovelha num
terreno quando o rebanho estava a pastar para não dispersar, ou em panos para a apanha da azeitona, feijão, etc.
Palheira do pasto
Erguidas nas imediações das eiras ou das barracas do pasto e dos currais, mas também em terrenos com milho, as palheiras do pasto recolhiam os excedentes das forragens que não cabiam nas barracas. Apresentavam semelhanças com as cabanas de palha-milha, mas tinham uma aparência mais rudimentar e eram mais frágeis, porque assentavam, sem sapatas, no solo. As dimensões, entre dois metros de comprimento por dois metros de altura e quatro metros de comprimento por três de altura, variavam em função da quantidade de pastos a armazenar. Com uma configuração triangular, as estruturas eram compostas por duas paredes armadas com ripado de pinho em forma de cruz e a distância entre si aumentava da base até ao topo, por vezes rematada por um telheiro de duas águas para resguardar as forragens das chuvas. Quando existiam menos forragens, era erguida uma única parede de ripado e apoiada em uma ou duas oliveiras.