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Conforme apontei no capítulo anterior, os estudos sobre as possíveis causas das dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita se desenvolveram a partir dos estudos do campo médico da neurologia, apoiando-se nos conhecimentos científicos construídos a partir da busca pelo entendimento da relação entre a anatomia e a fisiologia cerebrais.

Neste ínterim, as dificuldades apresentadas pelas crianças têm sido justificadas pela possibilidade da presença de um déficit nos processamentos das informações, atribuindo a causa do fenômeno a um defeito neurobiológico.

Estas concepções têm sido fortemente questionadas por alguns pesquisadores e estudiosos do desenvolvimento humano sob a perspectiva histórico-cultural. Estes pesquisadores têm buscado compreender a relação entre os homens e a criação e o desenvolvimento da cultura como os processos responsáveis pela humanização e suas implicações para a evolução dos comportamentos tipicamente humanos. Assim, os questionamentos ao conceito vigente de dislexia nasceram a partir de estudos e discussões sobre o desenvolvimento humano e social, e não necessariamente para debater as dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita.

Estes estudos assumem a escrita como um revolucionário e empoderador objeto de cultura, responsável pelas importantes mudanças históricas fundamentais para a evolução do homem e das civilizações.

A associação destes estudos com os processos de aprendizagem escolar foi se dando à medida que os pesquisadores procuraram compreender as relações que os sujeitos estabelecem com a linguagem escrita enquanto objeto de cultura e como esta se constitui como função social.

A leitura prévia das teses e dissertações que compõem o escopo desta pesquisa apontou que os principais debates teóricos que questionam o conceito de dislexia vigente podem ser compreendidos em dois grandes grupos: aqueles permeados pela perspectiva sócio- histórica, e aqueles que se apoiam nos debates sobre os processos de medicalização e/ou patologização da educação.

As discussões destes dois grupos e suas considerações contra o conceito de dislexia têm apresentado algumas aproximações, entre as quais é possível destacar suas concepções acerca do desenvolvimento humano, e a maneira como concebem a relação entre a oralidade e a escrita durante o processo de alfabetização.

Sobre a relação entre a oralidade e a escrita, os estudos da Sociolinguistica têm contribuído significativamente para a compreensão e elucidação das ações infantis nas atividades de escrita, nos permitindo melhor entender as trajetórias que as crianças assumem durante a escolarização e desmistificando os erros cometidos, trazendo contribuições significativas e elucidativas para o debate.

A Sociolingüística procura compreender o desenvolvimento da língua a partir das relações que são estabelecidas entre os sujeitos falantes que, ao fazerem uso dela, a desconstroem e reconstroem em razão de suas necessidades e das exigências do contexto. Desta forma, a língua está sempre em constante movimento de construção, assumindo novas e antigas formas, para que a compreensão seja efetiva para todos os interlocutores envolvidos.

De acordo com a Sociolinguística, as constantes transformações da língua, assim como a relação entre a oralidade e a escrita, costumam se refletir durante o aprendizado da linguagem escrita, quando a criança expõe na forma gráfica seus conhecimentos sobre a língua que fala (BAGNO, 2009; SOUSA, 2009; BAGNO, 2011; HORA; AQUINO, 2012).

Portanto, é possível constatar que as perspectivas que têm embasado as críticas e questionamentos à maneira como a dislexia tem sido concebida e difundida têm encontrado apoio nas ideias e concepções abordadas nos estudos do campo da Sociolinguística, apontando a maneira como os ditos sintomas do distúrbio podem se tratar apenas de reflexos da oralidade na escrita.

Nas seções a seguir, abordarei as concepções advindas da Perspectiva Histórica- cultural, da Medicalização e/ouPatologização da Educação e da Sociolinguística, apontando a maneira como estas concepções têm questionado o conceito de dislexia e a maneira como se relacionam com a aprendizagem da leitura e da escrita.

3.1- A Perspectiva Histórico-Cultural

 

A perspectiva histórico-cultural nasceu da evolução promovida pelo advogado, literato e historiador Lev SeminovitchVigotsky nos estudos do campo da psicologia do início do século XX.

De acordo com Cole; Scribner (2007), o campo de estudos da psicologia se encontrava em crise em razão das divergentes concepções acerca do desenvolvimento e constituição das formas mais complexas do pensamento. E foi neste cenário que o trabalho de Vigotsky no Instituto de Psicologia de Moscou começou a se destacar.

Ao aproximar as concepções da teoria marxista e os métodos e princípios do materialismo dialético dos estudos da psicologia, Vigotsky postulou que a compreensão dos mecanismos pelos quais se constroem as formas complexas de pensamento e a maneira pela qual a cultura se torna parte constituinte dos sujeitos envolve o entendimento da maneira como as interações sociais implicam sobre os sujeitos de forma quantitativa e qualitativa, considerando, ainda, as constantes mudanças e transformações que ocorrem nas sociedades nas quais os sujeitos se encontram inseridos (COLE e SCRIBNER, 2007). Realizando estudos nesta perspectiva, Vigotsky e seus colaboradores descreveram e postularam a importância e o papel da linguagem dentro destes processos.

De acordo com o psicólogo e cientista social Alexis Nikolaevich Leontiev (1903 – 1979), importante colaborador de Vigotsky, as características tipicamente humanas de comportamento provêm da natureza social do homem e de sua vida em uma sociedade permeada pela cultura (LEONTIEV, 2004). Estas características e aptidões não são transmitidas pela via da hereditariedade biológica, pois só podem ser adquiridas por meio das relações interpessoais as quais permitem que os sujeitos se apropriem da cultura criada e desenvolvida por todas as gerações precedentes. Desta forma, os sujeitos aprendem a serhomens a partir das apropriações que fazem da cultura, e não fazendo uso exclusivo de seu aparato biológico (LEONTIEV, 2004).

Os estudos desenvolvidos por Luria (1986), Leontiev (2004) e Vigotsky (2007) apontaram que os processos de apropriação da cultura são dependentes da mediação oferecida pelos atos comunicativos entre os sujeitos do grupo social do qual o indivíduo faz parte desde

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