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Este capítulo compreendeu um estudo sobre o contexto histórico da capoeira regional em um campo nacional, ressaltando a biografia de seu criador, Mestre Bimba e, em Belém do Pará, abrangendo seu pioneiro, Mestre Bezerra, e, finalmente, registrando a capoeira do Contra-Mestre Canela. Na verdade, por meio da história desses três capoeiras mestres e contra-mestre, respectivamente, busquei compreender os corpos da capoeira regional, quanto ao que se manteve e ao que se transformou nos traços distintivos de suas movimentações e seus significados. Assim, as biografias dos mestres Bimba e Bezerra me possibilitaram a esse respeito um entendimento teórico, enquanto a convivência com o Contra-Mestre Canela me oportunizou, além de conhecer a história mais recente da capoeira regional em Belém, experimentar a prática in loco, na qual observei os corpos dos capoeiras, identificando e realizando seus movimentos de base, que apresento nas próximas páginas deste estudo.
Força, velocidade, agilidade; ataque, contra-ataque, defesa; espaço e tempo; corpos humanos e instrumentos musicais; sons e movimentos; regras e liberdade; disciplina e mandinga; sagrado e profano compõem as movimentações corpóreas da capoeira e são elementos que identifiquei, vivenciei e apliquei neste estudo sobre processo de criação. Embora estes tenham sido organizados e afirmados, enquanto capoeira regional, a partir da década de 1930, não posso negar a história anterior de corpos com vigor e malícia, nos quais se originou a capoeira, quando não era nem angola e nem regional, corpos que parecem resistir nos corpos-capoeiras da atualidade, nos quais foquei o meu olhar de coreógrafo, sempre voltado para a arte da cena, em busca de desafios para os processos em criação.
A percepção desses aspectos foi fundamental para a elaboração dos capítulos seguintes, pois os movimentos dos corpos dos capoeiras foram os elementos fundamentais e iniciadores do processo de criação que aqui proponho.
2 CORPOS E CORPOS
Corpos e corpos São espelhos, imitações, repetições... Corpos condicionados, corpos que treinam; Corpos que gingam, malícia, mandinga, corpos-capoeira; Que suam que comprimem que alongam que se expandem; corpos ágeis. Corpos e corpos São espelhos, imitações, repetições... Corpos-bailarinos, corpos que repetem; Corpos que buscam essência, potência, vigor; corpos-capoeiristas; Que negam padrões estéticos, e ao mesmo tempo têm técnica e não têm. Corpos vigorosos e dinâmicos, corpos em tempo Lento/ Rápido. Corpos no espaço que almejam fluxo Direto/ Flexível, Corpos no peso Leve/ Contido, que criam e transformam; Corpos-bailarinos que incorporam e intensificam, Intensificam corpos e mais corpos. Corpos e corpos Que repetem e intensificam potência.
Movimentos que movem e repetem Tornam-se corpos-capoeiristas. Lindemberg Santos Porto Alegre (RS), julho de 2011.
Este capítulo22, sobre Corpos e Corpos23, apresenta o processo de desenvolvimento
do condicionamento das movimentações básicas da capoeira regional no corpo-bailarino. O fato de se tratar de uma etapa de condicionamento não descarta a necessidade dese entender a complexidade dos movimentos corporais em uma perspectiva de comunicação dos dois sujeitos desta pesquisa com os seus corpos-bailarinos na incorporação de movimentos do corpo-capoeira, cuja trajetória pretendi orientar especificamente por processos sinestésicos, isto é, das sensações.
Tais sensações foram conectadas a pensamentos e fazeres corporais da capoeira e eu as tinha em vista em minha busca de domínio e retradução dos movimentos corporais dessa manifestação. Eu visava a organizações corporais guiadas pelas sensações que estimulassem a conexão entre aqueles corpos, ou seja, a comunicação entre eles.
Os processos sinestésicos a que me refiro evidenciam a complexidade do corpo, uma vez que põem em cena todos os seus sentidos, relacionando-os. Tal compreensão não é
22Devo esclarecer que, já neste primeiro momento, se inicia o processo de
“ressignificação”, embora este não seja o foco principal desta etapa, que, portanto, não desenvolverá tal conceito, oportunamente tratado no próximo capítulo.
23 Esse jogo de palavras tem o objetivo de sugerir uma percepção sobre corpo na dança contemporânea, como
“corpo aberto” a perceber as manifestações exteriores por meio de estímulos e abarcando todas as suas concepções culturais.
novidade e pode ser flagada em pesquisas realizadas em campos diversos, como a Biologia, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a Matemática, e principalmente nos estudos sobre movimentos na Dança e no Teatro. Segundo Christine Greiner (2005):
[...]. François Cusset lançou em 2003 uma obra importante (French theory) que mapeia mais de setenta anos de complexas relações entre a produção norte americana e francesa, de onde parecem emergir alguns dos mais importantes estudos do corpo. [...]. O primeiro ocorreu entre as décadas de 40 e 50 quando muitos intelectuais franceses se exilaram nos Estados Unidos. (Greiner, 2005, p. 29).
O êxodo europeu para os Estados Unidos, de uma certa maneira, reuniu pensamentos diversos da área artística, e pesquisadores e artistas de diversos países puderam prosseguir seus variados estudos e trabalhos sobre o corpo.
Para este capítulo, interessa a contribuição destacada por Greiner (2005) do coreógrafo e pesquisador alemão Amos Hetz, que escreveu um artigo na revista alemã
Balletanz International (body.con.text), propondo um mapeamento para os estudos do corpo,
partindo de três eixos principais, o formal, o emocional-associativo e o sensório, e interessado na especificidade do corpo do artista, isto é, o corpo que dança e o corpo do ator. A análise formal proposta por Hetz investiga as partes do corpo, seus membros, tronco etc., ou pedaços do movimento, módulos ou padrões. Já os eixos emocional-associativo e sensório são explicados pelo pesquisador como as diferentes possibilidades de relação do corpo com as informações que vêm de fora e são internalizadas, tratando do processamento das emoções como ignições de movimento e especificamente do tato (sensório) e das funções da pele (de dentro e de fora).
A percepção das partes do corpo, das sensações e emoções é domínio fundamental para desencadear organizações corporais por processos sinestésicos, ao mesmo tempo que dá as condições para conexões intra e entre corpos.