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Part 3: Recent tensions

In document Working Paper (sider 46-51)

E DA SANTA SÉ APOSTOLICA ARCEBISPO-BISPO DO ALGARVE, DO CONSELHO DE SUA MAGESTADE FIDELISSIMA, PAR DO REI- NO, ETC.

Aos Nossos amados diocesanos, saúde, paz e bênção em Jesus Christo, Nosso Senhor e Redemptor.

Quem abrir e compulsar as santas Escripturas n´ellas verá bem claramente expressada a tremenda responsabilida- de que peza sobre os pastores d´almas, e os termos enérgicos com que o Divino Espirito lhes prescreve o exacto cumprimen- to dos seus deveres.

Clamar incessantemente, insistir com toda a paciência e caridade no ensino das verdades da fé e moral christã, em qualquer ocasião e tempo, muito principalmente quando se afirmam e divulgam ideias erróneas e subversivas de tudo quanto há de mais indiscutível e sagrado na ordem religiosa e social, é obrigação de tal sorte inherente ao Nosso Aposto- lado, que, esquecel-a ou menosprezal-a o mesmo seria que trahir a espinhosíssima missão de que estamos incumbido.

Desempenharmo-Nos d´esse encargo na medida das Nos- sas forças, infelizmente tão minguadas e débeis, é o Nosso mais ardente desejo, para cuja realização invocamos a cada momen- to as graças e o auxílio d´Aquelle, sem o qual nada podemos.

E assim, filhos em Jesus Christo, se há bem pouco ain- da, no intuito de conduzir pelos caminhos da salvação as vos- sas almas, das quaes daremos estreitas e severas contas no tremendo dia, em que o Supremo Julgador dos vivos e dos mortos há-de decidir a sorte e destino eterno de cada um, vos exhortavamos com entranhado afecto á inteira observância dos vossos deveres religiosas na presente Quaresma, novos motivos Nos obrigam hoje a dirigir-vos a palavra e a reiterar as Nossas instancias para que vos conserveis inabaláveis na fé que professaes, firme nos ensinamentos imaculados e puros do Christianismo que, sem a mínima quebra do principio da igualdade que proclama entre todos os homens, nem offensa das conquistas do progresso legitimo, recomenda e preceitua o respeito do discípulo ao mestre, a obediência do filho ao pae, a sujeição do servo a seu amo, o preito e acatamento dos povos ás autoridades constituídas e á Lei, o socorro do desva- lido, o amparo da viúva e do órfão, o ensino do ignorante, a defesa do inocente, o perdão das injurias, tudo, enfim, quanto contribue para promover a prosperidade da família e da socie- dade, e para inspirar o maior fervor pelo serviço de Deus e da pátria. Bem desejáramos que nunca surgissem as causas, que

agora Nos determinam a levantar a voz no meio do rebanho que tanto amamos; de consolação imensa Nos sentiríamos possuído, se não tivéssemos de lamentar em tempo algum os erros e desvarios de qualquer das ovelhas da Nossa grey: não permitiu, porem, Deus, ante cuja adorável presença nos hu- milhamos profundamente com inteira submissão á Sua Divina Vontade, que lográssemos tamanha ventura.

É de crer, prezados diocesanos, que tenhaes já percebido o fim que Nos propomos, ao fallar-vos n´este momento, como vosso pastor e pae espiritual : queremos aludir a um facto ocor- rido há dias n´esta cidade, tão lastimável e triste, tão pungente e afflictivo, que Nos feriu no mais intimo da Nossa alma e veio esmagar-Nos o coração com o prazo de uma dor imensa.

Imprimiu-se e publicou-se na Capital da Diocese um fo- lheto com o titulo de – Elementos de Geographia astronómica – rematando com o que o seu autor chama “symbolo da fé ci- vil” em que nega a existência de Deus, a imortalidade da alma, a vida eterna, tendo anteriormente apresentado erros os mais grosseiros e proposições as mais absurdas acerca da origem e creação do mundo, acerca da santa Biblia, cujos livros clas- sifica de apocriphos, fabulosos e vãos, e com respeito a Jesus Christo Senhor Nosso, cuja Divindade contesta abertamente.

Não foi sem lagrimas e sem a maior das magoas que le- mos semelhante escripto.

Para logo se conhece sem duvida, que o seu autor não é um philosopho nem critico sem sabio: nada mais faz do que reproduzir, por modo tão impio como rude, os argumentos e sofismas, apresentados pelos seus mestres na incredulidade: nem a ideias atrahe, nem a forma seduz. E assim, filhos caríssi- mos, quer-Nos parecer, que não seriam muitos os iludidos pe- los ensinamentos nefastos, erróneos e monstruosamente sa- crílegos, que tanto abundam em tão poucas paginas, mesmo quando profusamente fora distribuído o folheto, a que nos re- ferimos, e cuja leitura não pode realizar-se sem que o espirito se horrorize; mas, um só que fora o alucinado pelo influxo de tão perniciosas doutrinas, uma só a ovelha que se perdesse e tresmalhasse do rebanho que apascentamos, motivo haveria e mais que suficiente para o vosso pastor se encher de tristeza e da mais acerba amargura.

Para evitarmos lance tão angustioso, temos implorado os favores e auxílios da Providencia Divina, e vimos, prezados diocesanos, como pae extremoso, que prompto está a dar a vida por seus filhos, se necessários for, prevenir-vos contra os ardis e sugestões, contra os assaltos e ciladas com que a im- piedade pretende arrancar-vos da alma as vossas mais puras crenças, e do coração os mais belos e nobres sentimentos.

Não trataremos n´este momento de combater em larga dissertação os erros e asserções desvairadas contidas no fo-

lheto, pois teem eles sido fulminados pela Igreja e refutados já mil vezes com brilhantíssimo triumpho pelos maiores génios da humanidade, pelos escriptores que mais se teem assigna- lado pelos fulgores do seu talento, e ainda pela própria natu- reza, que, em sua voz eloquentíssima, nos patenteia muitas verdades da ordem religiosa, como a da existência de Deus, profundamente gravada em caracteres indeléveis no grande livro do universo.

Tambem, certamente, todos vós protestaes com justíssi- ma indignação contra os ignominiosos ultrajes feitos à Mages- tade do Creador e contra a vossa Fé.

E preciso, filhos caríssimos, que o homem desça á mais aviltante degradação, para negar a Deus, que existe na cons- ciência da humanidade, que é o primeiro e ultimo élo da ca- deia dos conhecimentos humanos, o fundamento de todos os nossos raciocínios, a suprema condição logica de todos os nossos juízos.

Por toda a parte tem Deus escripto o seu nome. O ocea- no endereça-lhe os seus cânticos, cheios de harmonia e mag- nificência, anuncia o firmamento as maravilhas do seu poder, narram os ceus os esplendores da sua gloria e publica toda a terra os prodígios da sua sabedoria.

É Deus o supremo bem a que o homem tende constantemente, o termo inexcedível das suas aspirações, o seu destino sobrenatural, visto como nada do que existe no mundo pode saciar a sede de venturas que devora o coração humano, o qual só descança tranquillo quando se eleva até Deus; este aspirar irresistível á posse de Deus é testemunho evidente da immortalidade da alma.

Desgraçado aquelle que renega o Summo Bem! Infeliz o homem que, em sua incomprehensivel cegueira, ousa insur- gir-se contra o dogma da immortalidade da alma que é crença universal do género humano!

É impossível que, em taes condições, tenha esse desven- turado a paz e o repouso de que carece, porque a sua cons- ciência, embora combatida pelo gélido sopro das paixões ter- renas, sempre lhe mostrará com voz inexorável e terrivel, em cada hora, a todos os instantes, o abysmo de miséria e repug- nante abatimento a que se deixou arrastar; farlhe-há conhecer que só um coração insensato, no excesso do mais vertiginoso desespero, no horror da mais cruel ingratidão, commette o crime estupendo de negar o seu Creator e Bemfeitor. Foi por esta forma que, com a simplicidade magestosa que caracteriza o estylo bíblico, o Rei Propheta julgou os atheus de todos os tempos “dixilinsipiens in corde suo: non est Deus”.

Não acontece o mesmo com aquelle que crê e ama a Deus. Ou se assente em throno recamado de pedrarias, ou habite miserável tugúrio, quer possua montões de riquezas,

quer mendigue coberto de andrajos o pão de cada dia, o cren- te, o homem sinceramente religiosos, que procura observar o preceito do amor de Deus e do próximo, aque se dirige tudo quanto a Lei prescreve e os profetas teem anunciado, passa vida tranquilla e feliz, sem que consigam incutir-lhe receios ou desalentos os revezes e contrariedades que o visitarem, pois conhece que a sua luz, a sua salvação, o seu protector é Deus, a quem mesmo no meio dos combates eleva a sua alma cheia de esperança; não ignora que, segundo os livros santos, Deus tem preparado para os que o amam aquillo que jamais veio ao pensamento do homem, e muito bem sabe que na religião santa que professamos, única que pode erguer nos o espirito abatido e avigorar-nos o coração na hora do infortúnio, enchu- gando lagrimas e mitigando dores, encontra sempre o christão seguro asylo, e, prostado aos pés do Senhor, com os olhos fitos no Ceu, adquire a paz, o socego, a força, a resignação e a mais inteira conformidade com a vontade divina.

O incrédulo, o impio, esse não sabe para onde volver os olhos; no tumultuar da amargura, que o esmaga e dilacera, acha-se só, em luta com a desgraça e com o desespero.

Que triste e lamentável situação!

Firme é a vossa crença, fieis diocesanos, nas verdades catholicas, profunda a veneração rendida aos ensinamentos e preceitos da Religião de Jesus, inalterável o vosso respeito á doutrina omnimodamente verdadeira e santa da Sagrada Escriptura, entranhado o vosso afecto á Moral evangelica, tão elevada e pura, tão austera e sublime, que ninguém, ao medi- tar n´ella, deixará de confessar na mais intimo da sua alma a Divindade de Jesus Christo.

Julgamos, por isso, desnecessário entrar agora na ex- planação de argumentos para demonstrar que a Biblia é um livro inspirado, divino, onde tudo é magestoso e grande, e cuja leitura, arrebatando a alma e falando ao coração, como que nos transporta ás regiões celestes das verdades absolutas e de eterna salvação: também não Nos deteremos no exame das provas e citação dos testemunhos, que levam ao espirito de todos o mais decisivo e solido convencimento de que não há contradição entre a Biblia e a natureza.

Dirigimo-Nos a christãos sinceros, a filhos obedientes e submissos da Santa Egreja Catholica, e tanto basta para que Nos limitemos a apontar o mal a fim de que o eviteis, e a pre- venir-vos contra os discursos blasfemos d´aquelles que, pelo mais criminoso desvairamento, imaginaram celebrar o seu nome com atrozes invectivas aos dogmas da Religião e com insultos ultrajantes ás verdades mais incontestáveis e funda- mentaes na Egreja e no Estado.

É impossível, filhos dilectíssimos, que reconheça a de- pendência da terra, quem se insurge contra a dependência

do Céo; e é certamente no meio dos incrédulos e dos impios, entre os que negam a Deus e desacatam a sua Lei, que exis- tem e devem procurar-se o que não cessam de accender en- tre os povos o facho da revolta todo o poder e contra toda a autoridade, contra tudo o que serva para garantir a ordem e harmonia social; estes são também os mais implacáveis ini- migos do Christianismo, cuja doutrina e máximas desprezam, porque n´ella está a condemnação das suas paixões e dos seus desvaríos.

Livros ou escriptos que contenham doutrinas falsas, es- candalosas e subversivas da Religião e do Estado são causa de muitos males, que preciso é afastar; e para isso se conseguir, diversas providencias teem sido estabelecidas pelas leis ecle- siásticas e civis.

É fora de toda a duvida que o folheto, de que Nos temos ocupado, contem proposições impias, escandalosas, sacríle- gas, herecticas e blasfematórias, pelo que, invocando o nome de Deus, o reprovamos e condemnamos, esperando e muito confiando que, como prescrevem as Leis da Egreja sob graves penas contra os transgressores, os Nossos caros diocesanos se abstenham da sua leitura.

Não Nos é desconhecido que, em consequência do zelo e acertadas providencias empregadas pela digna Autoridade Ad- ministrativa d´esta cidade, com applauso e justa satisfação dos filhos d´esta terra, que, fieis á Santa Religião Catholica, que é também a do Estado, tanto se escandalizaram com as afrontas que no indicado folheto lhe são dirigidas, poucos exemplares se distribuíram; á ilustrada Autoridade que tão nobremente se compenetrou da sua elevada missão no meio social, e tão cre- dora se tornou de merecidos louvores, prestamos os Nossos mais vivos agradecimentos. Por isso e pelas razões já expendi- das, que temos por muito valiosas, não devemos receiar que tão impia publicação venha a produzir os funestíssimos resul- tados, que o seu autor se propoz; no entretanto para que um ou outro fiel, menos esclarecido nas verdades religiosas, ou por extremo desprecavido, não sinta o menor abalo em qual- quer ponto da doutrina que tem aprendido de seus paes, e que estes receberam de seus maiores por uma successão nun- ca interrompida até Jesus Christo Senhor Nosso, agora, como por tantas vezes o temos já feito, recommendamos e pedimos, caros diocesanos, que eviteis com escrupuloso cuidado a lei- tura d´este e de quaisquer outros livros, que ensinem doutri- na diversas d´aquella em que haveis sido educados pela Santa Egreja, que é a columna e firmamento da verdade, e que, á semelhança do seu Divino Instituidor, é hoje o que foi hontem a há se ser até á consummação dos seculos; sempre a mesma, invariável sempre na sua crença e na sua moral.

In document Working Paper (sider 46-51)