• No results found

O respeito por um edifício, traduzido na consideração pelo estilo arquitetónico do passado que ele ostenta, resulta do reconhecimento da valia histórica ou rememorativa da construção. É a compreensão dessas qualidades que promove a preservação da preexistência, dando corpo à ideia de monumento histórico. Na reedificação do templo do Convento do Carmo, estas questões concetuais de implicações muito práticas encontram-se manifestadas com superior clareza. Ainda com grande evidência, o caso demonstra como determinadas formas arquitetónicas são identificadas e diretamente relacionadas com uma personalidade histórica precisa cuja lembrança determina eficazmente o perfil da intervenção arquitetónica levada a cabo. Nas Gazeta(s) da década anterior ao sismo sucedem-se anúncios a publicações que exaltam a figura de D. Nuno Álvares Pereira e elogiam a Ordem do Carmo. Aliás, no decénio anterior, já o condestável, os seus feitos e fundações mereceram presença alargada nas Memorias para a Historia de Portugal, que comprehendem o governo del rey D. Joaõ o I, compostas pelo académico José Soares da Silva351. Em dezembro de 1744, o suplemento ao

número 50 da Gazeta divulga a obra Heroe Portuguez, vida, proezas,

349 Id.¸ ib., pág. 342.

350 Ib., t. 8, 1770, pp. 182 e 190.

351 SILVA, José Soares da, Memorias para a Historia de Portugal, que comprehendem o

acçoens, e milagre do Condestável de Portugal Dom Nuno Alvares Pereira, livro de frei António de Escobar que volta a estar publicitado no número 24 do ano de 1749 e a ser referido noutro de Março de 1754. Finalmente, também em 1749, o número 43 da Gazeta dava a saber que fora impressa «segunda vez a vida do Cõdestavel de Portugal D. Nuno Alvares Pereira», da autoria de frei Domingos.

Entretanto, já em fevereiro de 1746 o periódico informava que saíra «impresso o tomo I da Cronica dos religiosos do Carmo em Portugal. Obra digna de especial estimaçam pelas noticias, que dá particulares do Santo Condestavel D. Nuno Alvares Pereira». O título da obra é Chronica dos Carmelitas da antiga, e regular observancia nestes reynos de Portugal, Algarves e seus domínios, publicada em dois volumes (1745 e 1751) devidos a frei José Pereira de Santana, que tivemos ocasião de citar, no momento inicial desta dissertação. O corpo do volume inaugural da crónica tem quatro gravuras que ocupam cerca de um terço da página e marcam o início de partes da história narrada; duas delas têm representado o Convento do Carmo de Lisboa.

A primeira das estampas onde consta a casa surge com a parte III do texto, aberta pelo capítulo «Do motivo, que ocorreo para se fundar este sumptuoso Edificio [Convento do Carmo de Lisboa]»352. A imagem mostra a fachada

principal do templo, no qual se diferencia, quase como elemento caracterizador e identitário do edifício, o portal de arcaria gótica do pano central da frontaria. Ao fundo, de um dos lados da igreja, figuram ainda os arcobotantes da construção primordial. O primeiro plano da gravura tem representado D. Nuno Álvares Pereira a apontar para o edifício que estabeleceu enquanto conversa com frades carmelitas, dispostos ao centro da composição em cujo canto se vê um arquiteto. Condestável fundador,

quatrocentos e trinta e tres¸ t. 2, Lisboa, na Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1734, passim, pp. 575, 748-755.

352 SANTANA, José Pereira de, Chronica dos Carmelitas da antiga, e regular observancia

nestes reynos de Portugal, Algarves e seus dominios, Lisboa, na Officina dos Herdeiros de

religiosos carmelitas e arquitetura gótica da instituição do convento, são, em suma, os três tópicos da imagem.

A segunda gravura em que o edifício consta aparece a assinalar a parte IV da crónica, «Do nosso famoso Carmo de Lisboa, no estado presente», inaugurada com o capítulo «Da situaçaõ do Edificio, e formalidade da Igreja»353. Agora é dada uma perspetiva posterior do convento, destacando-se na imagem a cabeceira portentosa da igreja, com altos janelões góticos e contrafortes, a definir o contorno deste elemento do edifício, rematado por ameias. Alonga-se na composição gravada a casa conventual de arquitetura moderna anexa ao templo, mas é para a cabeceira medieval da campanha fundacional da igreja que aponta o leigo de aparência nobre no centro do primeiro plano da imagem, citando claramente a gravura anterior, da qual repete também o diálogo da personalidade secular com os frades e a presença de um arquiteto. Assim, mostrando outra vista do convento e trazendo para a atualidade a

representação da estampa antecedente, mantém-se a tónica na estética de origem da casa e na proeza da sua obra.

O texto que continua o capítulo atesta-o, como o que pertence à parte da outra gravura. Aí está descrita com detalhe a dedicação do condestável à obra do convento de Lisboa354. De facto, a vida de D. Nuno Álvares Pereira

está extensa e exaustivamente tratada no primeiro volume da crónica carmelita. Da leitura da narrativa ressalta a ideia de que o condestável é

353 Id., ib., pág. 571. 354 Ib., pp. 345 e ss..

FIGS.23-24 Chronica dos

decisivo na nobilitação da ordem religiosa que professou e lhe exalta as virtudes na história do próprio instituto, merecendo declarado realce355.

O discurso apologético de D. Nuno perdura para lá de meados do século. Em 1785 faz-se publicar a terceira edição da obra seiscentista O Condestabre de Portugal D. NunAlvares Pereira, de Francisco Rodrigues Lobo, de onde destacamos os versos «Começou nesta idade já madura | De taõ grandes despezas pouco avaro, | A Senhora do Carmo santa e pura, | Aquelle templo altivo, illustre e raro, | Que na firmeza, na obra e fermosura | Naõ tinha Lusitania outro taõ claro, | Nem o excede nenhum da nossa idade, | no lugar, fortaleza, e majestade»356. No ano seguinte é dado à estampa o tomo 5 da Historia geral de Portugal, e suas conquistas, de Damião António de Lemos Faria e Castro, que afirma: «Depois [D. João I] fez fundar o Mosteiro da

Senhora da Victoria que nós dizemos da Batalha, e o deo aos Padres Prégadores da Ordem de S. Domingos. O Condestavel cumprio a sua promessa na mesma forma a Santa Maria de Ceiça em Ourem, e edificou o Convento de Nossa Senhora do Carmo de Lisboa: Dous Padrões magníficos, que conservaõ immortal a memoria da gloriosa batalha de Aljubarrota, e dos dous Heróes, Authores da nossa liberdade, o Rei D. Joaõ I., e o seu Condestavel D. Nuno Alvares Pereira»357.

355 Lê-se na advertência aos leitores da Chronica dos Carmelitas¸ ob. cit., [s.p.]: «vaõ escritas poucas Vidas de Religiosos de virtude (…). Basta para utilidade publica, que se lêaõ as duas maravilhosas Vidas; huma dos grande Elias, que como Patriarca, e cabeça da Religiaõ deve ter em todas as Chronicas della o lugar primeiro. Outra he do Bemaventurado Condestavel D. Nuno Alvares Pereira, que por Fundador deste Real Convento, devidamente repito a memoria de suas heróicas acçoens com circumstancias gloriosíssimas, que ainda naõ corriaõ impressas».

356 LOBO, Francisco Rodrigues, O condestabre de Portugal D. NvnAlvres Pereira, ed. lit. Bento José de Sousa FARINHA, Lisboa, na Offic. de Joze da Silva Nazareth, 1785 (ed. orig. 1610), pág. 394.

357 CASTRO, Damião António de Lemos Faria e, Historia geral de Portugal, e suas

conquistas, tomo 5, Lisboa, na Typ. Rollandiana, 1786, pág. 361.

FIG.25 O condestabre de

Portugal D. Nvnalvres Pereira, 1785 (ed. orig.

Por último, em 1798, Cavaleiro de Oliveira vê publicado os seus Elogios do condestable D. Nuno Alvares Pereira, e Affonso d’Albuquerque, sintetizando assim os conteúdos que nos importa reter dos livros enunciados: «Mas para que me tenho cançado em provar a Religiaõ de Nuno com todas estas acçoens tiradas da sua historia, bastando-me huma só, innegavel, sabida de todos, que naõ somente achamos escrita, e consta da tradicção, mas está utenticada por monumentos visiveis, que nos naõ podem enganar. Soberbos restos de Gotica arquitectura, que escapastes á voraz fúria do fatal fenomeno que reduzio Lisboa em hum montaõ de ruinas: respeitáveis relíquias do antigo, e magestoso Convento do Carmo, fallai, testificai a Religiaõ de Nuno»358.

Como a documentação demonstra, a biografia de D. Nuno redunda na edificação do Convento do Carmo de Lisboa e confunde-se, por vontade dos próprios carmelitas, com a história da ordem religiosa que o condestável engrandece. É neste contexto que os frades procedem à reedificação da sua igreja e é ele que justifica o facto de os carmelitas terem procurado reerguer o edifício com as feições góticas que, como vimos, o caracterizam e nobilitam. Assumido o valor histórico da arquitetura dos primórdios do convento, a preocupação estilística passa dominar a intervenção iniciada em 1758 e continuada pelas décadas seguintes, sem que se chegue a concluir a construção.

358 OLIVEIRA, Francisco Xavier de, Elogios do condestable D. Nuno Alvares Pereira, e

Affonso d’Albuquerque, Lisboa, na Off. de João Antonio da Silva, 1798, pág. 133.

FIG.26 Elogios do

condestable D. Nuno Alvres Pereira, e Affonso de Albuquerque, 1789.

O carácter excecional desta reedificação em estilo está analisado por Paulo Pereira que equacionou a intervenção à luz da problemática do neogótico em Portugal359. O historiador nota que os freires carmelitas procuraram «devolver a dignidade gótica ao convento – que era também a dignidade do seu fundador», não conseguindo porém ultrapassar as dificuldades que uma estética ainda carente de estudos e de tratadística

padecia em Portugal360. O resultado da reedificação não vai, por isso, ir além de «um gótico falso ou um pseudo-neo-gótico», assegurado pelo vértice alteado dos arcos da nave da igreja, forma aguda em que o arquiteto desconhecido se apoia para conferir a aparência original da casa ao edifício que tenta consertar361.

Tanto na intervenção da Igreja do Convento do Carmo de Lisboa como na da Igreja do Mosteiro de Santa Maria de Belém, convergem abordagens de apreciação artística, perspetiva histórica e cuidados de preservação, atitudes que em conjunto determinam o aparecimento do conceito de monumento histórico, também anunciado nas observações a alguns apontamentos das Memórias paroquiais e de textos coevos que explorámos atrás. Como vimos

359 PEREIRA, Paulo, “A Igreja e Convento do Carmo: do gótico ao revivalismo”, ob. cit., pp. 107-112. Como expusemos na introdução ao presente volume, Regina Anacleto não concorda que a intervenção tenha decorrido sob a preocupação de retomar a linguagem gótica do edifício, afirmando tratar-se de uma tentativa de tornar o templo funcional, concluindo-o sem ruturas (ANACLETO, Maria Regina Dias Baptista, A arquitectura

neomedieval portuguesa, ob. cit., pág. 105). Como vimos então, Anacleto é a única autora a

negar que os carmelitas tenham procurado restabelecer o templo dentro do seu estilo primitivo.

360 PEREIRA, Paulo, “A Igreja e Convento do Carmo: do gótico ao revivalismo”, ob. cit., pág. 110.

361 Id., ib..

FIG.27 Igreja do Convento do Carmo de Lisboa.

observando, é o reconhecimento daqueles valores e o peso que é dado a cada um deles no momento de atuar sobre a preexistência que determina o tipo de intervenção arquitetónica a realizar.