As narrativas são modos de organizar o mundo ou a relação dos indivíduos no mundo. Esta é uma definição ampla que tem o objetivo de compreender o contexto das narrativas jornalísticas na contemporaneidade. Ao diálogo, chamamos o pesquisador Luiz Gonzaga Motta, que pensa a narrativa, entre outras características, como dispositivos argumentativos utilizados em nossos jogos de linguagem, já que afirma que “estudá-las é refletir sobre o significado da experiência humana e sobre o que as narrativas realizam enquanto atos de fala” (MOTTA, 2012, p. 23). Ou então,
A narrativa traduz o conhecimento objetivo e subjetivo do mundo (o conhecimento sobre a natureza física, as relações humanas, as identidades, as crenças, valores e mitos, etc.) em relatos. A partir dos enunciados narrativos somos capazes de colocar as coisas em relação umas com as outras em uma ordem e perspectiva, em um desenrolar lógico e cronológico. É assim que compreendemos a maioria das coisas do mundo (MOTTA, 2008, p. 143).
Com base numa Narratologia28, Motta (2013, p. 123) busca “compreender os valores canônicos de uma cultura em ação, para estudar a criação interlocutiva de significados, a construção e instituição simbólica da realidade”. Ou seja, um campo e um método de análise das práticas culturais. Segundo o autor, as narrativas não são e nunca serão objetos fechados. Na verdade, ele acredita que elas fazem parte de um contexto, no qual o texto é o ponto de partida para a análise maior.
As narrativas só existem em contexto e, para cumprir certas finalidades situacionais, sociais e culturais, não podem nunca ser analisadas isoladamente, sob pena de prenderem o seu objeto determinante. As narrativas são dispositivos argumentativos produtores de significados e sua estruturação na forma de relatos obedece a interesses do narrador (individual ou institucional) em uma relação direta com o seu interlocutor, o destinatário ou a audiência. (MOTTA, 2013, p. 120-121).
Desta forma, o texto sempre será o elo entre o narrador e o destinatário, sujeito que recebe a mensagem e lhe atribui significado. A ele cabe a tarefa de reconstituir de forma intuitiva qual é a intenção comunicativa do emissor com os dados que possui, levando em
28 Motta (2013) acredita que o mais apropriado seria chamar de Teoria e Análise da Comunicação Narrativa, pois
a expressão Análise da Narrativa remete a produtos isolados e fechados em si. Chamando a metodologia de Teoria e Análise da Comunicação Narrativa é possível contemplar a dinâmica do ato comunicativo que acontece entre dois interlocutores, que está relacionada a fala integral e considera o contexto sociocognitivo. No entanto, o autor ressalta que como a expressão Análise da Narrativa já está consagrada continuará tratando-a desta forma.
consideração contextos verbais e não-verbais (MOTTA, 2013). Do mesmo modo, não se pode prescindir das estratégias utilizadas para convencer o receptor.
As estratégias narrativas realizam-se em contextos pragmáticos e produzem certos efeitos de sentido, de acordo com os contratos comunicativos e a burla consentida (e compreendida) desses contratos cognitivos. A comunicação narrativa gera, assim, certo tipo de relação entre os sujeitos interlocutores: consciente e inconscientemente, o narrador investe na organização narrativa do seu discurso como um projeto dramático e solicita uma determinada interpretação de parte do seu destinatário (se essa interpretação se realizará de fato, é outra questão). A análise pragmática do processo de comunicação narrativa requer, portanto, que o texto seja analisado como ponto de referência entre alguém que contribui argumentativamente com sua expressão narrativa, para induzir seu locutor a interpretar os fenômenos relatados conforme sua intenção. (MOTTA, 2013, p. 126-127).
Essa compreensão de Motta é importante quando pensamos nos apresentadores dos programas de televisão ou rádio, que ao falarem sobre a violência da cidade, por exemplo, estão sempre munidos de argumentos que colaboram com suas ideias, já que a maneira como as narrativas são construídas tem como base a persuasão. A maneira como as narrativas são construídas ajuda o público a aceitar a ideia da cidade como sinônimo de caos, ou seja, o discurso do locutor induz o entendimento do receptor e satisfaz seu desejo inicial.
De maneira geral, a Análise da Narrativa é empírica e rigorosa por natureza, buscando entender o significado dos discursos que fazem parte de contextos culturais, sociais, políticos, ideológicos, econômicos ou históricos. A mídia seria reflexo da união destes elementos, logo a narratologia pode contribuir para decifrar os discursos e as intenções subjacentes às construções. A partir desse método, afirma Motta (2004, p. 32), “é possível remontar sequências de notícias sobre um mesmo tema recompondo histórias integrais plenas de sentido que nos permitem visualizar aspectos simbólicos nem sempre explícitos”.
A Análise Pragmática da Narrativa considera o enunciado e a interpretação. Cada narrativa possui um significado especial que só pode ser atribuído segundo o contexto do qual faz parte, logo não podemos retirar expressões e comentários de uma situação sem entender que estas frases pertencem a um cenário mais amplo, no qual o todo deve ser considerado.
Desta forma, Motta propõe que, para fazer a Análise Pragmática da Narrativa, o primeiro passo seja eleger os elementos do conjunto, o que significa ter a visão ampla do objeto, para em seguida observar sua essência e como se estabelecem suas conexões. A cada momento que examinamos o objeto de maneira minuciosa é possível perceber que ele é
complexo e formado por inúmeras camadas de sentido e interpretações que têm o poder de mudar o que está sendo observado.
A narrativa observada nesses passos sucessivos não é mais a mesma narrativa que serviu como ponto de partida – é agora um objeto com outras significações, com uma inserção mais nítida e mais ampla no plano cultural. [...] a teoria modifica o objeto. (MOTTA, 2013, p. 123-124).
Antes de adentrar nos procedimentos operacionais da metodologia nos cabe reforçar que a Análise Pragmática da Narrativa busca “analisar como as pessoas compreendem, representam e constituem argumentativamente o mundo através dos atos de fala de narrativos intersubjetivos” (MOTTA, 2013, p. 129). Significa dizer que a metodologia está interessada em mostrar de que forma a comunicação mostra a realidade e ressignifica contextos sociais, sempre a partir do que autor chamará de “negociação”, pois se trata de uma ação imposta ou colaborativa que envolve sujeitos com valores e ideais distintos.
Ao falar dos procedimentos de análise, Motta (2013, p. 133) sugere que as análises devem ser processos livres, criativos e inventivos, pois “quase sempre, o próprio objeto indica como pretende ser desvelado”. Ele afirma que o texto possui três instâncias do discurso narrativo, ou seja, é possível dividi-lo em três partes, apenas para efeito de análise, não havendo hierarquia entre elas, que são: 1) plano de expressão; 2) plano de estória; 3) plano de metanarrativa.
A primeira instância diz respeito ao discurso e está relacionada à linguagem. Ela leva em consideração como o narrador constrói a narrativa a partir de elementos visuais, sonoros, verbais e gestuais, por exemplo. Para o jornalismo, essa primeira fase é uma das mais ricas e importantes, graças à quantidade de elementos que possui. Nesta etapa é possível identificar as estratégias de convencimento usadas pelo narrador.
Na segunda instância – plano da estória –, o autor abordará o conteúdo e a intriga presentes na narrativa. Essa etapa analisa o universo de significados e representações da realidade a partir de personagens e sequências de ações cronológicas, que analisa a narrativa em si. Por fim, o plano da metanarrativa – terceira instância – busca analisar a fábula, modelos de mundo e temas de fundo. É nessa etapa, considerada mais abstrata e evasiva, que são considerados elementos morais e éticos (MOTTA, 2013).
Motta (2004) aplica a análise da narrativa ao jornalismo, propondo categorias ou funções, de modo a organizar as ações em ordem temporal. A ideia é buscar, a partir da redundância e da repetição, todo o enredo que está subentendido nos discursos, mas que em outros momentos estava dissolvido em produtos isolados e não em discursos repetidos
constantemente. O autor compara as narrativas jornalísticas a quaisquer narrativas ficcionais, pois do mesmo modo possuem trama, personagens e clímax (MOTTA, 2004).
Para o autor, o jornalismo pode ser observado não apenas pelo que mostra, mas principalmente pelo que sugere, insinua e oculta em suas narrativas. Essa afirmação se mostra preciosa para esta pesquisa, pois os veículos de comunicação selecionados estão diretamente ligados a um partido político, sendo que nem sempre o Grupo RBA, a quem estão ligados, é explícito nas intenções de suas narrativas; logo, as entrelinhas e o contexto das notícias precisam ser levados em consideração.
Para Motta (2004), o jornalismo não deve ser visto apenas como uma forma eficaz de relatar fatos pontuais e historicamente espalhados, mas sim como uma maneira eficiente de construir realidades sociais, ressignificando seus aspectos a partir de elementos socioculturais. Relatar e traduzir o cotidiano não são tarefas fáceis, principalmente porque os imaginários coletivo e simbólico estão sempre presentes nas interpretações, de modo que por vezes não permitem aos sujeitos leituras racionais e realistas da sociedade.
O jornalismo narra vitórias, descobertas e mazelas da vida cotidiana. Porém, é necessário estar sempre em busca de novos personagens, pois as histórias e formatos podem se repetir, mas o jornalismo precisa se mostrar atual e com ares de novo para conservar seu perfil factual.
Motta (2004) acredita que não é apenas a partir de uma única notícia que encontraremos os elementos necessários para fazer a análise de uma narrativa jornalística. Para isso, é necessário um conjunto delas, dentro de um mesmo perfil, sendo acompanhado por um tempo significativo (semanas ou meses dependendo do objeto), para que as ações confirmem as histórias e hipóteses. Aqui, especificamente se justifica nossa escolha pelos três veículos de comunicação, jornal, televisão e rádio, do grupo RBA, com a finalidade de compreender a lógica criada pelo grupo nas suas construções narrativas sobre o acontecimento violência, que nunca são destituídas de intencionalidade ideológica ou política, considerando o seu contexto histórico e social.