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Nesse encontro, havia um silêncio enorme. Alguns diziam que não queriam nada, pareciam viver apenas por aquele momento, pareciam não ter esperanças. Alguns não quiseram escrever ou desenhar. Entretanto, aos poucos, com alguns estímulos, foram falando.

Tentei dialogando com eles, suscitando pensamentos vinculados a projetos de vida e de futuro, estratégias para a realização dos seus sonhos. Com o estímulo, disseram-me algo:

Meu sonho é entrar para a faculdade de Direito, para ser advogada e poder ajudar muita gente que não tem condições para contratar uma advogada bem-sucedida. Meu sonho é fazer hospedagem e ter meu próprio sustento.

Meu sonho é fazer maquiagem de cinema em geral.

Terminar os estudos e trabalhar construindo peças mecânicas. Meu sonho é ajudar minha mãe.

Os sonhos relacionados a projetos individuais são semelhantes aos constatados pelas pesquisas de Damasceno (2001) e Matos (2003) junto aos jovens. Inicialmente não registrei sonhos coletivos ou relacionados à humanidade. Entre os projetos de vida, começaram a pensar nas relações pessoais, na reconciliação com a família quando havia alguma adversidade, nos amigos, no casamento.

Nem todos queriam cursar faculdade, alguns queriam apenas um emprego na área de que gostavam, fazendo algo que lhes desse prazer, em vez de somente visar ao dinheiro. Depois pedi que expressassem sonhos ligados a suas emoções. Fizeram alguns desenhos.

Percebi muita dificuldade por parte dos jovens em sonhar, em fazer projetos para o futuro. Havia neles outras esperanças? Das experiências vividas pelos jovens, a negação da voz e do eu, as limitações reconhecidas por eles da escola, que não tinha boa qualidade, da pobreza dos pais, das limitações do contexto em que viviam, enfim, havia uma necessidade de filtrar os seus sonhos como fazia o jovem artesão.

Transformar as expectativas ruins em desejos positivos e reais. Penso que a experiência os marcou. Em 2015, houve um encontro com os jovens das Casas apoiadas por Fabiano de Cristo. Por sugestão dos jovens, o evento se chamou “Pescadores de Sonhos”, do qual pude participar junto aos jovens da Casa de Fernando Melo. Nesse encontro, percebi o quanto a arte, o teatro e o grupo de música haviam auxiliado os jovens no sentido da expressão dos sentimentos.

Imagem 24 – Registrando sonhos (1)

Fonte: Acervo próprio (2015) Imagem 25 – Registrando sonhos (2)

Imagem 26 – O sonho de um dos jovens de ter uma loja de filtro dos sonhos

Fonte: Acervo próprio (2015).

Imagem 27 – Filtro dos sonhos feito pelo jovem artesão

Fonte: Acervo próprio (2015).

Depois do encontro de jovens, decidi retomar o tema. Através de uma nova oficina com o grupo da tarde, formei três grupos e pedi que registrassem quais sonhos tinham para si e para a comunidade.

Liberar saúde e educação de qualidade; lugares de lazer; salão para o cabelo crespo; Meninos bonitos; espaços culturais; museu histórico; campos de futebol feminino

sem lixo; melhoras nas escolas; tranquilidade na comunidade; posto de saúde. (Grupo 1).

Creche para bebês; clínicas de reabilitação pública; atendimento para gestante; clínicas com psicólogo e dentistas para as crianças; que onde moro tenha mudanças; aprender mais e mais; ter mais escolas, hospitais e praças; ter mais tranquilidade; mais segurança; ter educação. (Grupo 2).

Acabar a criminalidade; paz na Jurema; mais segurança, motivação, paciência, mansidão; Ubuntu, amor, acabar com as inimizades, mais respeito, mais Jesus. (Grupo 3).

Os sonhos dessa vez se relacionavam a: estrutura física do bairro, equipamentos de lazer, acesso a bens fundamentais como saúde e educação. As questões da segurança, da paz relacionada à tranquilidade, à convivência harmônica e às amizades, foram pontuadas. Nesse caso, consideramos que essas reflexões adviriam das intervenções propostas junto ao educador do grupo.

A noção de coletividade havia se ampliado na ótica dos jovens, que passavam a ler seu mundo, sua realidade, traçando necessidades e estratégias para reinventá-lo. Dos sonhos para a comunidade, um dos jovens pontuou o conceito de Ubuntu. Segundo Diskin (2008, p. 21), “Ubuntu é conceito que nas línguas africanas zulu e xhosa significa ‘Sou quem sou por aquilo que todos somos’. Ela exprime o reconhecimento de um vínculo universal de compartilhamento que conecta toda a humanidade, no sentido de sermos pessoas através de outras pessoas”.

Esse desejo expressado pelo jovem transcendia em muito a individualidade, relacionando-se ao desejo de que o bairro pudesse ter uma cultura do cuidado, da escuta e, por que não dizer, de uma cultura da paz. Apesar de os jovens estarem inseridos num contexto de violências físicas, verbais e estruturais, observei, ao longo da pesquisa, que os seus sonhos puderam ir além. Criaram cor, vida, significado.

Os registros de suas esperanças configuram estímulo para a constituição de forma reflexiva de uma nova realidade, à medida que realizam a leitura do mundo no qual se inserem, anunciam, denunciam, projetam uma nova realidade. Trata-se, como diz Freire (2011), de uma esperança crítica, que sozinha não muda o mundo, mas sem ela não há luta. “Prescindir da esperança que se funda também na verdade como na qualidade ética da luta é negar a ela um dos suportes fundamentais” (FREIRE, 2011, p. 16). De todos os aspectos com os quais me deparei na pesquisa, a possibilidade de vê-los criar novos sonhos foi muito gratificante. Dos aspectos importantes no Lar, pontuo a relação que os jovens estabeleciam com os educadores desde a infância. Destinei um capítulo específico para refletir sobre os educadores e as intervenções que realizei com a questão da paz.