3.4 Halsa Bridge
3.4.3 Parametric study of the aerodynamic derivatives
No texto Sobre a Leitura: O que diz a Análise do Discurso? (2001), Sírio Possenti reflete sobre a relação entre leitura e AD, expondo problemas e indicando possíveis respostas que a AD formulou para as questões de leitura. O autor sugere que a AD situa a sua questão de leitura em duas grandes vertentes – a do dispositivo social de circulação dos textos e aquela que privilegia o sentido –, articulando-as com o espaço, o tempo e as suas razões. Compreendendo o caráter geral da AD como “um conjunto de teorias sobre as restrições que o discurso sofre”, Possenti ratifica que, para a AD, o que interessa é especificar “em que medida cada fator funciona como uma restrição sobre o discurso, seja sobre sua circulação, seja sobre sua interpretação” (2001, p. 22).
Ainda em relação às sugestões de Possenti (2001), a primeira das vertentes mencionadas procura solucionar um dos aspectos do controle exercido pela sociedade sobre o discurso, que diz respeito à circulação dos textos; enquanto a segunda, versa sobre o modo de significação do discurso. Ainda que o estudioso faça uma distinção entre as duas vertentes, ele explica que cada uma delas “constitui-se em teorias e metodologias que se interessam por dissecar as diversas formas de restrições a que um discurso é submetido” (2001, p. 22). Podemos dizer que a primeira vertente está intrinsecamente ligada às restrições relativas à circulação de textos, ou seja, referem-se ao espaço, ao tempo e às razões de sua produção. E a segunda, referente ao sentido de interpretação dos textos, de atribuição de sentido dado a eles. Justamente sobre esta última vertente que o estudioso se concentra, já que ela suscita uma questão vital: a concepção de sujeito e a leitura que este faz do texto; ou ainda a concepção do elemento crucial para a determinação de como se lê um texto.
De acordo com Possenti (2001), é nesse ponto que reside o dispositivo não subjetivo de leitura de Pêcheux, pois o estudioso francês entendia ser possível alcançarmos uma leitura objetiva do texto, fazendo com que a AD propusesse uma explicitação dos movimentos que alguém faz para ler como lê. Daí a proposição pecheutiana de afastar-se de teorias como a psicanálise e a pragmática, em que o sujeito é considerado em alta conta. A questão de fundo é epistemológica, uma vez que a AD “considera que o sujeito é um efeito (da história, da linguagem etc.), enquanto a pragmática concebe um sujeito como origem (do discurso, do sentido etc.)” (POSSENTI, 2001, p. 28). É nesse contexto que surge a necessidade de esboçar algumas razões para as múltiplas leituras: a) aquela que faz uma associação de determinado texto a determinado discurso; b) aquela em que há uma leitura ‘fechada’, pois tende a constatar uma ideologia e, consequentemente, o texto torna-se seu exemplo; e c) aquela em que a leitura se configura a partir de certas palavras ou expressões no texto que permitem o leitor associá-las de maneira mais ou menos livre entre o que lê e outros temas, almejando, pretensamente, uma visão ímpar do texto, de acordo com Possenti (2001). Dito de outra forma, temos duas posições da AD: uma histórica e outra, psicanalítica – ou ainda, uma que procura fazer comparações, marcadamente a primeira, e outra, que busca explicitar a estratégia da leitura que alcançou.
É nesse dualismo que surge a necessidade de se discutir sobre os ingredientes fundamentais da leitura. Possenti comenta que do século XIX até os dias de hoje, “houve três estágios marcados pela mudança do elemento crucial para a determinação de como se lê: 1) a leitura filológica, em que o autor é o centro das atenções; 2) a leitura pautada no Estruturalismo, em que o autor é preterido, e o texto é o centro das informações por si só; e 3) a leitura que depende exclusivamente do leitor, ou seja, o ‘problema’ desloca-se para o sujeito, que, efetivamente, lê, voltando-se, assim, ao impasse da subjetividade em relação à leitura. Mas é por meio do legado de seu predecessor (em que autor, obra e leitor são concebidos dentro de uma perspectiva que considera o espaço, o tempo e as razões das coisas, que adquirem feições diversas em virtude das perenes transformações sociais, já que o mundo à luz da História está sempre por se constituir), que a AD alicerça a coerência da leitura, reclamada pelo leitor. Isto é, a AD não aceita as leituras individuais do tipo de dizeres como “é a minha leitura” ou que haja sujeitos individuais que leiam ‘como querem’, ela aceita “grupos de sujeitos (situados em determinada posição) que leem como leem porque têm a história
que têm” (POSSENTI, 2001, p. 28). Em última instância, o leitor deve estar submetido às restrições que sofre o discurso, uma vez que autor, obra e leitor estão, impreterivelmente, inseridos na mesma construção da teia de enunciados que constitui esse discurso. Em suma, Sírio Possenti salienta que é possível defender a ideia de que
o árbitro definitivo da leitura é o texto, desde que o texto seja concebido discursivamente, isto é, seja tomado como submetido a todas as restrições históricas que normalmente o afetam, e que afetam, portanto, seu autor e seu(s) leitor(es), submetendo-os tanto às regras de circulação quanto às de interpretação (2001, p. 30).
É nessa perspectiva que pensamos o LD de Língua Portuguesa para o ensino médio não apenas na relação entre autor, obra e leitor ancorados no tempo e espaço particularizados, mas, sobretudo, nas suas razões de ser, suscitando uma aproximação com o mundo de seu público, sem efetivamente considerar a riqueza dele como elemento constitutivo de abordagem no ensino e aprendizagem da disciplina. Nessa relação interdita, promotora de um arranjo indefinido entre o texto verbal e imagético, que surge o paradoxo do LD, seara profícua para os desígnios da AD.