O presente estudo tinha como objectivo averiguar os preditores da motivação para transferir o conteúdo da formação para o local de trabalho, analisando o efeito directo do desenvolvimento de competências, das crenças de auto-eficácia e da implicação afectiva na motivação para transferir. Pretendíamos ainda estudar o papel mediador da percepção de utilidade da formação para o desempenho profissional na relação entre aqueles preditores e a motivação para transferir.
Os resultados obtidos mostraram, como previsto, que o desenvolvimento de competências, a implicação afectiva e a percepção de utilidade da formação estão positiva e
significativamente relacionados com a motivação para transferir. No entanto, neste estudo, e ao contrário do que estava previsto, não se verificou a existência de uma relação significativa entre as crenças de auto-eficácia e a motivação para transferir, pelo que também não foi possível testar o efeito de mediação da percepção de utilidade da formação na relação entre as crenças de auto-eficácia e a motivação para transferir. O desenvolvimento de competências e a implicação afectiva mostraram estar positiva e significativamente relacionados com a percepção de utilidade da formação. Os resultados mostraram ainda o papel de mediação parcial da percepção de utilidade da formação na relação entre o desenvolvimento de competências e a motivação para transferir e na relação entre a implicação afectiva e a motivação para transferir.
3.6.1. Implicações Teóricas e Práticas
Têm sido realizados poucos estudos que analisem a problemática da motivação para transferir e, sobretudo, que procurem averiguar os seus principais preditores. Não conhecemos estudos que analisem a relação entre o desenvolvimento de competências e a motivação para transferir. Todavia, este estudo salienta a importância dos formandos entenderem a formação como um meio para desenvolver as suas competências pessoais e profissionais tendo em vista a melhoria do seu desempenho no local de trabalho.
No estudo aqui apresentado problematizou-se não só a relação directa entre o desenvolvimento de competências e a motivação para transferir, mas também uma relação indirecta entre as duas variáveis, através da percepção de utilidade da formação para o desempenho profissional. Embora nos últimos anos se tenha generalizado a ideia de que o desenvolvimento das competências profissionais é fundamental para o desempenho nas organizações e para a manutenção de níveis adequados de empregabilidade, a relação entre o desenvolvimento de competências e a percepção de utilidade da formação não tem sido objecto de investigação. Os resultados deste estudo mostraram que estas duas variáveis estão positiva e significativamente associadas. Assim, pode dizer-se que os formandos tendem tanto mais a perceber a utilidade da formação em que participam quanto mais a entenderem como importante para o desenvolvimento das suas competências.
Os resultados encontrados neste estudo mostraram ainda que a relação entre o desenvolvimento de competências e a motivação para transferir é parcialmente mediada pela percepção de utilidade da formação, sugerindo que a influência exercida pelo desenvolvimento de competências na motivação para transferir tanto pode ser directa como indirecta, através da percepção de utilidade da formação.
A implicação afectiva com a organização revelou-se também um preditor importante da motivação para transferir. De facto, os resultados deste estudo são consistentes com os resultados obtidos no estudo de Tannenbaum e colaboradores (1991), no qual se verifica a existência de uma relação positiva e significativa entre essas duas variáveis. Ambos os resultados sugerem que uma das condições essenciais para que os formandos se sintam motivados a transferir o conteúdo formativo para o local de trabalho reside na existência de um forte sentimento de pertença e vinculação por parte dos mesmos em relação às organizações em que trabalham.
No presente estudo também foi analisada a relação indirecta da implicação afectiva sobre a motivação para transferir, através da percepção de utilidade da formação para o desempenho profissional. Encontrou-se uma relação positiva e significativa entre a implicação afectiva e a percepção de utilidade da formação, o que permite concluir que os formandos mais implicados afectivamente com a sua empresa tendem a perceber uma maior utilidade da formação para o seu desempenho profissional, comparativamente aos formandos que revelem índices de implicação afectiva mais baixos. À semelhança dos resultados encontrados para a variável desenvolvimento de competências, também a relação entre a implicação afectiva e a motivação para transferir é parcialmente mediada pela percepção de utilidade da formação, sugerindo que a relação entre a implicação afectiva e a motivação para transferir tanto pode manifestar-se directa como indirectamente através da percepção de utilidade da formação.
Assim, os resultados suportam parcialmente o modelo de análise proposto, na medida em que a percepção de utilidade da formação mostrou mediar, embora apenas parcialmente, a relação entre o desenvolvimento de competências e a motivação para transferir e a relação entre a implicação afectiva e a motivação para transferir.
A percepção de utilidade da formação para o desempenho profissional revelou ser, neste estudo, o principal determinante da motivação dos formandos para transferirem a formação para o local de trabalho, seguida do desenvolvimento de competências e da implicação afectiva. De facto, é fundamental que os formandos percepcionem a formação como útil para o seu desempenho profissional para que se sintam motivados a transferi-la para o local de trabalho (Clark et al., 1993).
Ao contrário do previsto, os resultados deste estudo mostram que as crenças de auto- eficácia não estão associadas à motivação para transferir a formação. Provavelmente, estes resultados ficam a dever-se ao facto de a variável crenças de auto-eficácia não ter sido
operacionalizada especificamente para a transferência da formação mas sim para a mudança no trabalho.
Em suma, o presente estudo evidenciou o papel do desenvolvimento de competências, da implicação afectiva e a relevância da percepção de utilidade da formação para a motivação dos formandos em transferirem a formação para o local de trabalho. O estudo complementa ainda a literatura empírica sobre os preditores da motivação para transferir, tendo mostrado que a percepção de utilidade da formação surge como variável que medeia parcialmente a relação entre o desenvolvimento de competências, a implicação afectiva e a motivação para transferir.
Todavia, este estudo apresenta algumas limitações metodológicas. A utilização de um único instrumento de medida que inclui todas as variáveis para a recolha dos dados, ou seja, a variância do método comum, pode ter constituído um factor de ameaça à validade interna do estudo. No que diz respeito à validade externa, os resultados obtidos poderão não ser generalizáveis a outros contextos, uma vez que a amostra recolhida foi de conveniência, apresentando características sócio-demográficas e organizacionais muito específicas.
Capítulo 4 – Transferência da Formação: O Papel Mediador da Percepção de