Para iniciar estudos relativos à formação do caráter produtivo, é mister apresentar os fundamentos que propiciaram a criação de ideais para a vida em sociedade, amparada por ditames éticos e valores morais que possibilitaram aos indivíduos tecer e colocar em prática
um modelo educacional. O conteúdo deste item baseia-se na célebre obra Paideia: A Formação do Homem Grego, de Werner Jaeger.
A educação tem sido objeto de investigação desde o século V a.C., quando os pensadores gregos começaram a formatá-la como estratégia fundamental para a cidadania. Além de formar o homem esta educação deveria ainda formar o cidadão24. A antiga educação, baseada na ginástica, na música e na gramática deixou de ser suficiente, surgindo aí a paideia, clara quanto à finalidade de se formar um elevado tipo de homem, um ideal grego de formação humana. Segundo Jaeger (1936:22), a palavra paideia tinha o simples significado de “criação dos meninos”, em nada semelhante ao elevado sentido que mais tarde adquiriu e que é o único que nos interessa aqui.
O conceito de paideia não designa unicamente a técnica própria para, desde cedo, preparar a criança para a vida adulta. A ampliação do conceito fez com que ele passasse também a designar o resultado do processo educativo que se prolonga para além dos anos escolares, ou seja, para a vida toda. No plano social, o objetivo da paideia era desenvolver os talentos e potenciais do educando a serviço da criação na natureza e junto aos seus semelhantes, aprendendo a ser, a conviver e a respeitar o mundo ao redor. Segundo o princípio da paideia, formar é domar os instintos cegos e selvagens do homem e transformá-lo em uma obra de arte, estética e ética.
Os gregos afirmavam que a educação não seria propriedade de um só indivíduo, mas pertenceria, por essência, à comunidade. O conteúdo dessa educação, como função natural e universal da comunidade humana, leva à definição do conceito de techne (JAEGER, 1936:21):
O seu conteúdo, aproximadamente o mesmo em todos os povos, é simultaneamente moral e prático. Também entre os Gregos assim foi. Reveste, em parte, a forma de mandamentos, como: honra os deuses, honra teu pai e tua mãe, respeita os estrangeiros; consiste por outro lado numa série de preceitos sobre a moralidade externa e em regras de prudência para a vida, transmitidas oralmente pelos séculos fora; e
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Segundo verbete do dicionário Houaiss da Língua Portuguesa o termo cidadão, em sua acepção, refere-se a “habitante da cidade; indivíduo que, como membro de um Estado, usufrui direitos civis e políticos garantidos pelo mesmo Estado e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos; aquele que goza de direitos constitucionais e respeita as liberdades democráticas”. Em relação ao seu diacronismo, o termo era utilizado na Grécia antiga indicando o indivíduo que desfrutava do direito de participar da vida política da cidade, o que era vedado à mulher, ao estrangeiro e ao escravo; para os romanos, era utilizado para o indivíduo nascido em seu território e que gozava da condição de cidadania.
apresenta-se ainda como comunicação de conhecimentos e aptidões profissionais a cujo conjunto, na medida em que é transmissível, os Gregos deram o nome de techne.
A educação grega tinha um conceito que ilustrava a sua essência: a arete, cujo sentido principal podia ser definido como (JAEGER,1936:23):
O tema essencial da educação grega é antes o conceito de arete, que remonta aos tempos mais antigos. Não temos na língua portuguesa um equivalente exato para este termo, mas a palavra virtude na sua acepção não atenuada pelo uso puramente moral, e como expressão do mais alto ideal cavalheiresco unido a uma conduta cortês e distinta e ao heroísmo guerreiro, talvez pudesse exprimir o sentido da palavra grega... Tanto em Homero como nos séculos posteriores, o conceito de arete é frequentemente usado no seu sentido mais amplo, isto é, não só para designar a excelência humana, como também a superioridade de seres não humanos; a força dos deuses ou a coragem e rapidez dos cavalos de raça.
Homero associava arete às qualidades morais e espirituais do ser humano, derivando daí um conjunto de normas de conduta, alheias ao homem comum, ou seja, a arete era considerada a beleza de caráter que orientava a práxis (a ação cotidiana) humana para o Bem, e tal perfeição só poderia ser atingida por almas de escol.
Platão dizia que a arete estava inserida no ideal do homem justo, destacando suas quatro virtudes platônicas (ou cardeais): fortaleza, temperança, justiça e prudência. Distinguia a arete do saber especializado como a seguir (JAEGER,1936:136):
Ali define ele como oposta ao saber especializado dos homens de ofícios, negociantes, merceeiros, armadores, a essência de toda a verdadeira educação ou paideia, a qual é educação na arete que enche o homem do desejo e da ânsia de se tornar um cidadão perfeito, e o ensina a mandar e obedecer, sobre o fundamento da justiça.
A tese socrática era constituída de paradoxos, onde a virtude é ciência (conhecimento) e o vício é ignorância. Tal tese também afirma que ninguém peca voluntariamente: quem faz o mal, fá-lo por ignorância do bem.
O desejo de justiça exercido na polis25, era considerada como modeladora do homem grego, eis que a polis delineava as exigências do perfeito cidadão, além do que imprimia nos indivíduos seu caráter de modo vigoroso e implacável.
Hesíodo propôs que um novo conceito de educação popular substituísse a formação geral da personalidade, avaliando cada homem pela eficácia do trabalho realizado. A arete poderia ser assim compreendida (JAEGER,1936:92):
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O trabalho é celebrado como o único, ainda que difícil, caminho para alcançar a arete. O conceito abarca simultaneamente a habilidade pessoal e o que dela deriva – bem-estar, êxito, consideração. Não se trata da arete guerreira da antiga nobreza nem da classe proprietária, baseada na riqueza, mas sim da do homem trabalhador, que tem a sua expressão numa posse de bens moderada.
A partir da série de diálogos socráticos de investigação perpetrados por Platão, os indivíduos são levados a acreditar que a virtude é necessariamente um saber, se revelando como conhecimento do bem. Platão chega a derivar a palavra “caráter” de “hábito”, quando faz referências ao trato infantil, objetivando educar a criança na alegria, lançando harmonia e equilíbrio do caráter em sua alma.
Aristóteles considerava como cidadãos somente aqueles que participavam da administração pública. Assim, o cidadão justo, ajuizado e sábio, derivava do Estado moral, onde as boas ações criavam resultados a partir da virtude e do bom senso que floresciam na alma dos cidadãos da cidade virtuosa.
Como se vê, a essência da paideia, adaptando o conceito para a situação atual, e tendo em vista o escopo desta dissertação, é a formação do homem de senso, o cidadão produtivo. A
paideia serviu como cenário para a construção de estudos sobre educação, produtividade,
busca da excelência e formação do homem integral.