At´e os anos de 1950, o Brasil era reconhecido como um pa´ıs receptor de mi- grantes internacionais. Em 1920, a imigra¸c˜ao respondia por 5,11% da po-
pula¸c˜ao residente no pa´ıs, enquanto que em 1980 essa participa¸c˜ao reduziu-se
8 Termo retirado do livro Imigra¸c˜ao italiana no Esp´ırito Santo: uma aventura colo-
expressivamente para 0,77% (Patarra e Baeninger, 1995, p. 80). A partir
dos anos de 1960, o cen´ario de pa´ıs receptor de imigrantes torna-se exporta- dor de m˜ao-de-obra para o exterior, principalmente para os Estados Unidos da Am´erica.
A mobilidade, atualmente, ´e diversificada e ocorre a partir dos pa´ıses peri- f´ericos em dire¸c˜ao aos pa´ıses centrais. Esse novo panorama da mobilidade est´a ligado `a nova dinˆamica do capitalismo, marcado, principalmente, pela globali- za¸c˜ao da produ¸c˜ao. Contudo, ´e importante ressaltar que s˜ao v´arios os fatores que possibilitaram o crescimento do atual fluxo de migrantes internacionais, tais como reestrutura¸c˜ao econˆomica que internacionalizou a produ¸c˜ao e possibilitou o surgimento de um espa¸co transnacional que facilitou a mobilidade do trabalho; a existˆencia de um mercado secund´ario pouco atrativo para os trabalhadores nativos, mas extremamente interessante economicamente para os emigrantes; a forma¸c˜ao de redes sociais nas quais trafegam as informa¸c˜oes e os mecanismos facilitadores do projeto migrat´orio (Siqueira,2009).
A Microrregi˜ao de Governador Valadares – MG foi o ponto inicial da mi- gra¸c˜ao de brasileiros para o exterior. Os primeiros valadarenses que emigram na d´ecada de 1960 eram jovens das camadas mais ricas da popula¸c˜ao e empreen- deram o projeto migrat´orio muito mais em fun¸c˜ao da aventura do que de ganhos econˆomicos. Atrav´es desses primeiros jovens a rede migrat´oria foi se formando e consolidando ao longo da d´ecada de 1960 e 1970. Nos meados dos anos de 1980 ocorre o boom da emigra¸c˜ao de brasileiros para o exterior, principalmente para os Estados Unidos. Este fluxo que tem in´ıcio na cidade de Governador Valadares se espraia por toda a regi˜ao e atinge nos dias atuais v´arios Estados brasileiros (Siqueira,2008).
Ao longo dos anos, com o fracionamento das terras devido `a heran¸ca dividida entre os muitos filhos dos primeiros imigrantes, a sobrevivˆencia dos descendentes italianos, no caso, das gera¸c˜oes mais novas, na Microrregi˜ao de Aimor´es fica comprometida, pois n˜ao h´a mais perspectiva de continuar tirando o sustento somente da terra. Al´em disso, a busca pela independˆencia financeira e pela melhoria da qualidade de vida, dentro dos novos padr˜oes de consumo da atual sociedade, fez com que muitos dos descendentes, a partir do in´ıcio da d´ecada de 1990, come¸cassem a buscar o reconhecimento da cidadania italiana com o objetivo de emigrar.
Desde a segunda metade dos anos de 1980, o fluxo migrat´orio internacional da Regi˜ao do Rio Doce ´e marcadamente direcionado para os Estados Unidos. Mesmo que no decorrer do tempo ocorra uma mudan¸ca nos planos iniciais, a maioria desses emigrantes tem como projeto retornar e investir na sua cidade de origem objetivando melhorar sua condi¸c˜ao socioeconˆomica (Siqueira,2009). Inicialmente os descendentes da Microrregi˜ao de Aimor´es seguiram o mesmo fluxo, por´em o documento de dupla cidadania possibilita a entrada no territ´orio norte-americano sem o visto, mas n˜ao a inser¸c˜ao no mercado de trabalho. As- sim ao exercer atividades laborais remuneradas estariam indocumentados.9 A
partir do final da d´ecada de 1990 o destino dos descendentes italianos muda de dire¸c˜ao, v˜ao para o norte da It´alia – regi˜ao de origem dos seus antepassados.
As principais raz˜oes da mudan¸ca do fluxo s˜ao devido ao acirramento da fiscaliza¸c˜ao da Imigra¸c˜ao norte-americana e a valoriza¸c˜ao da moeda no velho continente com a organiza¸c˜ao da Uni˜ao Europ´eia.
Segundo os dados do Minist´erio das Rela¸c˜oes Exteriores - atrav´es do site Brasileiros no Mundo – as estimativas ´e de 85.000 brasileiros na It´alia e em toda a Europa ´e de aproximadamente 911.889 brasileiros.10 O Censo 2010 apresenta
n´umeros bem mais modestos. O n´umero considerado de brasileiros moradores no exterior, segundo os dados do Censo Demogr´afico de 2010 ´e de 491.645, distribu´ıdos por 193 pa´ıses. Os principais destinos dos brasileiros foram: Es- tados Unidos da Am´erica (23,8%), Portugal (13,4%), Espanha (9,4%), Jap˜ao (7,4%), It´alia (7,0%) e Inglaterra – Reino Unido (6,2%). Quase a metade desses migrantes tem como origem a regi˜ao Sudeste brasileira, principalmente dos es- tados de S˜ao Paulo (21,6%) e Minas Gerais (16,8%).
Os italianos que imigraram para o Brasil, carregavam consigo o desejo de recriar em solo brasileiro uma nova It´alia, vieram para ficar e aqui criar suas fam´ılias em melhores condi¸c˜oes do que na sua terra natal. Diferentemente, os descendentes desses imigrantes que s˜ao, em sua maioria, jovens na faixa et´aria de 18 a 35 anos, com oito anos de escolaridade, origin´arios principalmente da regi˜ao rural, emigram com o objetivo de trabalhar, fazer poupan¸ca, investir e retornar para o local de origem.11
Chegam `a It´alia com a dupla cidadania acreditando estar nas mesmas con- di¸c˜oes do italiano nativo. Por´em, em seus relatos,12 demonstra a desilus˜ao em
rela¸c˜ao ao tratamento como cidad˜ao italiano. O documento ajuda na inser¸c˜ao legal ao trabalho, mas n˜ao na sociedade italiana, contudo se inserem no mercado de trabalho secund´ario.
A cultura vivenciada, na origem, a partir da l´ıngua, dos cantos, culin´aria, fes- tas t´ıpicas italianas e mem´oria dos antepassados, n˜ao lhes deram nenhuma iden- tidade italiana que facilitasse a inser¸c˜ao na sociedade de destino, ao contr´ario, l´a se percebem mais brasileiros. Toda identidade italiana que os define no local de origem, ´e desmontada ao se perceberem como qualquer outro estrangeiro no pa´ıs que acreditavam ser parte de sua identidade.
Ana, descendente de imigrante italiano, residia na Microrregi˜ao de Aimor´es e emigrou para a It´alia em 2003. Seu relato possibilita compreender que no contato com o pa´ıs de origem dos antepassados, os descendentes emigrantes s˜ao
entrada e trabalho no pa´ıs de destino.
10 As estimativas s˜ao com base em consultas feitas no final do ano de 2010 `as Embaixadas
e aos Consulados do Brasil sobre a presen¸ca brasileira em suas jurisdi¸c˜oes. Acesso em junho de 2012.
11 Dados coletados em estudo explorat´orio realizado na Microrregi˜ao de Aimor´es/MG no
ano de 2011.
12 Relatos orais realizados com os descendentes que emigraram e retornaram para a regi˜ao
tratados como estrangeiros. Pois segundo ela:
Na verdade quando eu cheguei l´a eu levei um susto, era tudo novo
era uma experiˆencia nova. (. . . ) ent˜ao quando eu fui para It´alia eu achei assim por eu ser descendente de italiano eu achei que eu fosse chegar l´a que seria outra coisa eu iria chegar e ser um povo mais acolhedor mais assim, s´o que na verdade n˜ao. (. . . ) mas na verdade n˜ao, eles s˜ao muito acolhedores quando s˜ao turistas, ent˜ao quando vocˆe vai realmente trabalhar muda um pouquinho o neg´ocio, mas s´o que eu fui me adaptando tinha que me adaptar depois eu fui aprendendo a l´ıngua porque no in´ıcio eu fiquei assustada n˜ao sabia a l´ıngua, n˜ao estava trabalhando eu queria trabalhar e tudo. Depois eu fui me acostumando eu aprendi a l´ıngua (. . . ) mas tem o diale- to de cada regi˜ao, vocˆe acaba at´e brincando com a pr´opria l´ıngua a regi˜ao mesmo que eu estou puxa muito o R fala muito o dialeto Fiorentino, j´a o norte da It´alia hoje tem a maioria da emigra¸c˜ao dos descendentes dessa regi˜ao aqui s˜ao do norte da It´alia eles falam muito engra¸cado ´e como se eles falassem cantando ent˜ao vocˆe acaba brincando e acostumando.
Sobre a diferen¸ca que sentiu ao chegar `a terra de origem dos antepassados, descreveu que:
No sentido de ser tratada, eu achei assim, eu sou descendente. A
fam´ılia daqui ´e eles s˜ao brincalh˜oes e tudo eu vou encontrar o que eu encontrava aqui e por eu ser descendente e ter a cidadania eu achei que isso fosse diferente de um outro que n˜ao tivesse. Que eu n˜ao ia ser vamos dizer chamada estrangeira, s´o que isso n˜ao faz diferen¸ca independente se vocˆe tem eu tenho total direito como qualquer um italiano ´e como dizer assim, l´a eu sou italiana hoje eu posso falar eu sou italiana ou naquele mesmo momento eu sou italiana, indepen- dente de onde eu nasci, eu vim, eu tenho direito igual eles, porque agente tem carteira de identidade agente tem CPF tem passaporte iguais pr´oprio, s´o que, quando agente chega, ou at´e hoje agente nunca fala perfeito porque agente n˜ao perde o sotaque brasileiro isso continua. Quando eu abro a boca eles vˆeem eu sou brasileira, ent˜ao quando eu abri a boca eles viram todos os meus documentos s˜ao italianos, s´o que quando eu abri a boca ´e estrangeira ent˜ao isso que me fazer diferen¸ca, quando eu abro a boca sou uma estrangeira.
Os dados perante alguns relatos permitem considerar que a rede de ajuda e informa¸c˜oes que se formou durante a chegada dos imigrantes italianos na Mi- crorregi˜ao, no in´ıcio do s´eculo XX, ainda continua sendo observada entre os descendentes que emigram para a It´alia. Neste pa´ıs, j´a ´e poss´ıvel perceber a forma¸c˜ao de uma rede de rela¸c˜oes entre os descendentes, com formas e carac- ter´ısticas diferentes dos primeiros imigrantes, por´em com a mesma inten¸c˜ao de minimizar os riscos e sofrimentos.
Tenho. Tenho um irm˜ao que mora comigo e o meu cunhado e sua
esposa e tenho o meu primo. S˜ao, que s˜ao tamb´em descendentes. Vamos dizer, todos passavam na minha casa, o ponto de apoio foi a nossa casa depois agente ia dividindo ai cada um ia dividindo. (...) inclusive agente se re´une, n˜ao sempre, agente se re´une em datas comemorativas como anivers´ario ou datas festivas como natal, ano novo agente se re´une faz churrasco `as vezes at´e dan¸ca `as vezes vai em um parque a passeio. Tem bares tem restaurante brasileiro ´e onde tem um maior fluxo de brasileiros e se re´une assim, s´o quando vem o frio que vai todo mundo para a toquinha e ´e mais dif´ıcil.
Sobre as redes sociais no processo migrat´orioSiqueirareal¸ca que:
as redes fornecem informa¸c˜oes, indicam meios que auxiliam o pro-
cesso de migra¸c˜ao e atenuam as dificuldades no pa´ıs de destino. A migra¸c˜ao internacional pressup˜oe ir ao encontro de uma sociedade, geralmente com l´ıngua, costumes e valores diferentes. Significa um empreendimento de muitos riscos. Riscos estes que s˜ao ameniza- dos por interm´edio das redes sociais. Al´em de facilitadoras na con- cretiza¸c˜ao do projeto de migrar, as redes d˜ao novas configura¸c˜oes ao meio no qual se estabelecem. (Siqueira,2009, p. 46)
Estas conex˜oes s˜ao estabelecidas, tanto nos pa´ıses de origem como de destino do migrante, tornando acess´ıvel o projeto de migrar.
Considera¸c˜oes finais
O Brasil, na segunda metade do s´eculo XIX recebeu grande leva de imigrantes europeus em seu territ´orio geogr´afico. A regi˜ao sudeste foi a que recebeu a maioria dos imigrantes em seus portos mar´ıtimos. A Microrregi˜ao de Aimor´es situada na Mesorregi˜ao mineira do Vale do Rio Doce foi ponto de chegada de muitas fam´ılias italianas provenientes do Norte da It´alia que desembarcaram no porto da capital do estado do Esp´ırito Santo. A chegada `a regi˜ao dessas fam´ılias proporcionou uma nova configura¸c˜ao a este territ´orio, inserindo novas t´ecnicas de manejo da terra, novos costumes e valores.
Com o fracionamento das terras, ao longo dos anos, devido `a heran¸ca divi- dida entre os muitos filhos dos primeiros imigrantes, a sobrevivˆencia dos descen- dentes italianos, no caso, das gera¸c˜oes mais novas, na Microrregi˜ao de Aimor´es fica comprometida, pois n˜ao h´a mais perspectiva de continuar tirando o sustento somente da terra. Al´em da busca pela independˆencia financeira e pela melhoria da qualidade de vida, dentro dos novos padr˜oes de consumo da atual sociedade, muitos dos descendentes, a partir do in´ıcio da d´ecada de 1990, come¸caram a buscar o reconhecimento da cidadania italiana com o objetivo de emigrar, fazer poupan¸ca, investir e retornar a regi˜ao de origem.
O objetivo deste artigo foi descrever o processo imigrat´orio dos italianos e seus descendentes na Microrregi˜ao de Aimor´es, mais especificamente os mu- nic´ıpios de Aimor´es, Itueta, Resplendor e Santa Rita do Itueto. E teve como proposta discutir as condi¸c˜oes de emigra¸c˜ao dos descendentes mais jovens para a It´alia. Tratou-se de um estudo descritivo que utilizou uma abordagem quali- tativa. Para a produ¸c˜ao deste artigo foram realizadas seis (6) entrevistas com descendentes mais velhos e uma (1) com descendentes emigrantes da Micror- regi˜ao de Aimor´es.
Pode-se conclui atrav´es deste estudo que esses dois fluxos, dos italianos vindo para o Brasil em busca de sobrevivˆencia e, atualmente, dos seus descendentes em dire¸c˜ao inversa se distanciam n˜ao apenas no tempo, mas tamb´em na natureza, perfil do emigrante e projeto de emigra¸c˜ao. Enquanto os imigrantes italianos chegaram `a regi˜ao com objetivo de nela permanecerem, os descendentes emi- gram para It´alia com o projeto de retornar e investirem nas mesmas atividades rurais dos seus antepassados e em outras atividades. Estas pr´aticas tˆem recon- figurado a economia local, pois a maioria dos investimentos desses descendentes de imigrantes italianos s˜ao na pr´opria Microrregi˜ao de Aimor´es/MG.
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