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A paisagem na opinião de Santos é a combinação de objetos naturais e sociais “um conjunto de formas que, num dado momento, exprime as heranças que representam sucessivas relações localizadas entre homem e natureza” (SANTOS, 2006, p. 103).

A análise dos sítios arqueológicos não pode ser feita em separado do meio ambiente e os sítios não podem ser percebidos como unidades isoladas. O contexto arqueológico na concepção de Schiffer “[...] inclui todos os materiais encontrados em um sítio, independentemente de estarem ou não em locais especializados de descarte e de terem sido descartados deliberadamente pelos antigos ocupantes do sítio” (SCHIFFER, 1972, p. 160). Além do contexto arqueológico, dos vestígios in situ e ex situ, Morais (2006) descreve a importância dos geoindicadores, que são desde cascalheiras de litologia definida, barreiros, corredeiras, compartimentos topomorfológicos adequados para determinado tipo de assentamento, entre outros; apresentando a seguinte definição:

[...] geoindicadores são elementos do meio físico-biótico dotados de alguma expressão locacional para os sistemas regionais de povoamento, indicando locais de assentamentos antigos [...]. Assim, os geoindicadores arqueológicos sustentam um eficiente modelo locacional de caráter preditivo55, muito útil no reconhecimento e levantamento arqueológico

(MORAIS, 2006, p. 198).

55 O modelo locacional de caráter preditivo, baseia-se no mapeamento dos suportes assumidos como

geoindicadores arqueológicos, convergindo para a previsão dos compartimentos da paisagem potencialmente aptos a apresentarem assinaturas dos povos indígenas pré-coloniais (MORAIS, 2006, p. 202).

Fagundes (2007) observa que, ao realizar análises inter-sítios de grupos ceramistas, é possível pensar na mobilidade, captação de recursos, organização tecnológica, pensando nos sítios de forma interligada, aventando respostas sobre questões econômicas, sociais, culturais dos grupos em questão. Já as análises intra-sítios, segundo o autor, contribuem no entendimento de mobilidade, captação de recursos etc., possibilitando criar um modelo locacional para compreender o sistema regional de assentamento.

Morais (1999-2000, 2006) propõe como sistema regional de povoamento “a coordenação entre sítios ou conjuntos de sítios pautada por relações sociais, econômicas e culturais (considerando sua contemporaneidade, similaridade ou complementaridade) define um sistema regional de povoamento”. Segundo o autor, esse conceito tem sua sustentação na Geografia, pois refere-se à dispersão das populações pelo ecúmeno terrestre e a consequente produção de paisagens, com a construção de cenários que se sucedem. Nesse modelo são admitidos dois macro-sistemas indígenas pré-coloniais: caçadores-coletores e agricultores. Os macro-sistemas admitem sistemas individualizados. O autor utiliza como exemplo de sistema individual a maior parte dos sítios colinares pré-coloniais do Vale do rio Paranapanema, com datação em torno de mil anos antes do presente, compondo o sistema regional Guarani (MORAIS, 1999-2000, p. 202-206, 2006, p. 9).

A noção de sistema de assentamento é abordada pela Nova Arqueologia e estruturada a partir da visão sistêmica de cultura, segundo a qual pessoas, coisas e lugares são componentes de um campo que consiste dos sub-sistemas ambiental e sócio-cultural. Para Binford (1965), cada sítio representa uma visão parcial e limitada do comportamento regional. Em cada sítio o uso do espaço e a tecnologia desenvolvida são uma resposta específica a situações concretas. Em outras palavras, vislumbram um sistema cultural no qual tiveram lugar diferentes atividades em espaços distintos (BINFORD, 1965). Para o autor, a noção de sistema de assentamento pressupõe que os sítios distribuem-se intencionalmente no espaço, em função tanto do contexto social quanto do contexto ambiental, não podendo ser explicados como entidades isoladas, por isso a importância de se compreender a distribuição espacial dos assentamentos onde cada sítio tem uma função específica e complementar dentro de um sistema mais amplo. Para o Sul do Brasil, posso citar como exemplo as pesquisas de Dias (2003) e Dias e Hoeltz (2010), desenvolvidas a partir dessa abordagem teórica, a primeira aborda o sistema de assentamento de caçadores-coletores do alto vale do rio dos Sinos/RS, e a segunda analisa a distribuição de sítios líticos relacionados aos sistemas de assentamento de grupos agricultores.

Contudo, a pesquisa arqueológica muitas vezes se depara com limitações, já que os sítios inseridos num contexto dinâmico sofrem uma série de processos pós-deposicionais, que afetam tanto o modo como foram quanto o que aconteceu após serem enterrados os vestígios arqueológicos. Schiffer (1972) fez a distinção entre processos pós-deposicionais culturais que englobam as atividades dos homens na medida em que fabricam, usam e abandonam artefatos, construções etc.; e processos pós-deposicionais naturais ou não culturais, que determinam desde o enterro até a sobrevivência do registro arqueológico. O que isso introduz é o ciclo de vida ou história de qualquer elemento – os estágios da sua “vida” em um sistema cultural – e como esses se relacionam com uma transição eventual de elementos para o registro arqueológico. Assim, no dizer de Schiffer, “Contexto sistêmico denota a condição de um elemento que participa de um sistema comportamental. Contexto arqueológico descreve materiais, que passaram por um sistema cultural e que agora são objetos de investigação de arqueólogos” (SCHIFFER, 1972, p. 157).

Nesse sentido, Rubin e Carbonera (2011) realizaram análise sobre o contexto ambiental de 167 sítios registrados na área do reservatório da UHE Itá, buscando refletir sobre a dinâmica da área, desde o abandono do local pelas populações pré-coloniais até o momento do registro do sítio e observaram que os dados sobre o meio ambiente que são utilizados para relacionar com áreas de assentamento ou outras atividades são obtidos por arqueólogos do presente e precisam ser relativizados, uma vez que a área sofre tanto com alterações antrópicas como também por modificações naturais (principalmente em relação ao escoamento superficial, processos erosivos e perdas de solos, além da dinâmica fluvial e paleoambiente), que nem sempre são levados em consideração. Os autores comentam, com base nos dados levantados para os sítios, que no caso deste projeto

[...] havia uma sistematização para a obtenção das informações básicas sobre a implantação dos sítios (compartimentação geomorfológica) e de captação de recursos, principalmente água, argilominerais e minerais/rochas. Envolvia, basicamente, a identificação da área de dispersão dos vestígios culturais ou delimitação da mancha de terra preta, e a partir do ponto central destas eram realizados caminhamentos no sentido dos quatro quadrantes ou, caso necessário, em sentidos intermediários, utilizando-se ortofotocartas na escala 1:10.000. O campo de visão também era descrito a partir do ponto central. Porém, as questões relacionadas com a dinâmica da área, principalmente em relação ao escoamento superficial, processos erosivos e perdas de solos, além de dinâmica fluvial e paleoambiente, ficaram em segundo plano ou não foram abordados, fato que gerou uma lacuna no conhecimento relacionado ao contexto ambiental dos sítios. Deve-se mencionar também que os trabalhos de caracterização do campo de visão, a partir do centro dos sítios, refletem bem a condução da pesquisa,

sempre alicerçada no ambiente atual (RUBIN; CARBONERA, 2011, p. 163-164).

A ausência de determinadas estruturas quando do registro dos sítios não significa que eles não foram produzidos. Rubin e Carbonera (2011) comentam que, no caso dos sítios do reservatório da UHE Itá, entre os primeiros levantamentos realizados na década de 1980 e novas avaliações feitas nos anos 1990, constatou-se que a ação antrópica e dinâmica da área destruíram completamente algumas manchas pretas (correspondentes a estruturas habitacionais), situadas na meia encosta que haviam sido identificadas nas primeiras etapas. Os vestígios culturais foram distribuídos na encosta inferior, fato que ilustra muito bem a necessidade de relativizar os dados ambientais atuais, mas que são indispensáveis para a compreensão dos processos modeladores da paisagem e suas relações com os sítios (RUBIN; CARBONERA, 2011, p. 164).

No caso do alto Uruguai, como acontece para boa parte do contexto arqueológico brasileiro formado em ambiente tropical, os remanescentes orgânicos são normalmente muito pobres, assim o registro arqueológico é formado geralmente por vestígios inorgânicos de suporte mineral, neste caso, os artefatos de pedra e os utensílios de cerâmica.

CAPÍTULO 3

PROJETO SALVAMENTO ARQUEOLÓGICO URUGUAI E OS