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3. RESULTS AND DISCUSSION

3.4 PAPER IV

A questão que se coloca aqui versa sobre o ponto onde deveria passar a linha separando a semântica da pragmática, ou seja, o que pode ser considerado como sendo o âmbito da pragmática e o que se encontra no âmbito da semântica. Estas reflexões são importantes ao se tratar de explicaturas e implicaturas, discussão essencial no desenvolvimento do presente trabalho. Para Grice e a maioria dos filósofos da linguagem, a resposta a tal questão é clara: a semântica diz respeito à proposição semanticamente/literalmente expressa, diz respeito ao que é dito, enquanto a pragmática está vinculada às implicaturas do enunciado (cf. CARSTON & POWELL, 2005:281), ou seja, ao que é implicado. No entanto, reconhece-se também que o contexto contribui para o conteúdo proposicional do enunciado. Grice, por exemplo, aceita que o que é dito pelo enunciado, é determinado também através de desambiguação e resolução de referências (cf. GRICE, 1989:25), ou seja, através de informações contextuais.

Contudo, trabalhos recentes dentro do arcabouço teórico da TR vêm argumentando que as contribuições dadas pela pragmática para o conteúdo proposicional de um enunciado ultrapassam os limites da desambiguação e resolução de referências (cf., p.ex., CARSTON, 1991). Nesse sentido, há duas linhas principais de pensamento. A primeira defende a idéia de que todo item lexical dependeria do

contexto, e não somente aqueles tradicionalmente considerados essenciais para a resolução de referências no enunciado. Assim, por exemplo, não apenas pronomes pessoais, mas também itens lexicais portadores de conteúdo, como um substantivo ou um adjetivo, são sensíveis ao contexto. A segunda linha de pensamento argui que alguns aspectos pragmáticos do conteúdo proposicional podem não corresponder a itens presentes em qualquer nível da representação semântica (cf. CARSTON & POWELL, 2005:281). A título de exemplo, pode-se pensar numa formulação tal como: “está chovendo”, onde o enriquecimento proposicional do enunciado dependerá do local geográfico onde se encontra o comunicador (cf. id., p. 287).

Do ponto de vista da TR, ambas as abordagens são perfeitamente aceitas. Não só todas as expressões do enunciado são sensíveis ao contexto, como também o contexto pode suprir o conteúdo proposicional com informações não inteiramente representadas na semântica. A proposição assim enriquecida seria a explicatura do enunciado. Por outro lado, as implicaturas são de natureza puramente pragmática, ou seja, “elas são geradas com base em cada caso de acordo com o contexto e os princípios pragmáticos”77 (id., p. 294).

Carston (2000) argumenta que a forma proposicional do enunciado é híbrida, composta de material codificado linguisticamente e de material fornecido contextualmente. Embora a explicatura esteja relacionada ao conceito griceano de “o que é dito”, um construto semântico, a explicatura não se restringe a ele, pois ela envolve muitos componentes inferidos pragmaticamente, além do significado codificado linguisticamente (cf. CARSTON, 2000:4). Este “híbrido” entre semântica e pragmática é a explicatura do enunciado (id.). E, uma vez que o conteúdo das explicaturas é derivado de dois processos distintos, decodificação e inferência pragmática, o mesmo conteúdo proposicional pode variar de acordo com as contribuições relativas dadas por cada um desses processos, ou seja, as explicaturas podem variar em seu grau de explicitude (id., p. 12), podem ser mais ou menos explícitas. O desenvolvimento lógico do enunciado, além dos processos de desambiguação e resolução de referências, pode não satisfazer à presunção de relevância ótima. Existem casos em que há a necessidade de enriquecimento do enunciado, requerido mais através da pragmática do que dos constituintes linguísticos presentes na forma lógica.

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Minha tradução de: “they are generated on a case-by-case basis according to context and pragmatic principles”.

Carston (1999) reforça esta idéia do enriquecimento pragmático de explicaturas. Segundo a autora, uma representação decodificada semanticamente é, raras vezes, totalmente proposicional, funcionando apenas como uma espécie de esquema para suposições. Neste caso, a representação requer necessariamente a inferência pragmática a fim de que seja desenvolvida na proposição que o comunicador quis expressar:

A derivação da proposição comunicada explicitamente depende de inferência pragmática; não se restringe simplesmente a determinar referentes e sentidos pretendidos de expressões ambíguas, mas fornece constituintes não articulados e ajusta o conteúdo conceitual codificado78 (CARSTON, 1999:1).

Assim, a diferença existente entre informação codificada linguisticamente e proposição expressa explicitamente não é reduzida unicamente fazendo-se uso de processos de resolução de referências e desambiguação. “A explicatura é derivada, desenvolvendo-se inferencialmente a forma lógica dos enunciados. Todas as outras suposições comunicadas são implicaturas”79 (id., p. 27). As implicaturas são derivadas unicamente a partir de inferência, na qual a explicatura constitui apenas uma das premissas.

Neste ponto, é interessante mencionar a tese da subdeterminação (underdeterminacy thesis), defendida por Carston (2002). Porém, há que se primeiro diferenciar entre “indeterminação” e “subdeterminação”. A indeterminação refere-se a fenômenos diversos, necessitando de considerações contextuais a fim de determinar uma referência presente no enunciado. Pode ainda ser usado para designar uma informação conceitual, cujo sentido pode ser caracterizado como “vago” ou “geral”. Dentro do arcabouço teórico da TR, podemos dizer que a indeterminação leva a implicaturas fracas (id., p. 20).

Já a subdeterminação é de outra natureza. Um sentido codificado linguisticamente pode subdeterminar a proposição expressa pelo comunicador. Em outras palavras vale dizer que o conteúdo é sensível ao contexto. Carston (id.) aponta uma lista de casos, ilustrando situações onde esta subdeterminação ocorre, entre eles: ambiguidades, ausência de constituintes e conteúdo conceitual fracamente codificado (p. 28). O enunciado adquire sua forma proposicional através da decodificação

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Minha tradução de: “The derivation of the proposition explicitly communicated is dependent on pragmatic inference, not merely in determining intended referents and intended senses of ambiguous expressions, but in supplying unarticulated constituents and adjusting encoded conceptual content”.

79

Minha tradução de: “An explicature is derived by inferentially developing the logical form of the utterance. All other communicated assumptions are implicatures”.

linguística associada à inferência pragmática: o sentido linguístico subdetermina o que está dito e este, por sua vez, subdetermina o que está implicado. Carston afirma ainda que a “subdeterminação linguística é uma característica importante das línguas naturais, pois não existem sentenças eternas em línguas naturais”80 (p. 83). Em outras palavras, pode-se afirmar que uma sentença, enquanto tal, não pode ser verdadeira ou falsa. Tal questão de verdade ou falsidade de uma sentença em uma determinada língua não depende do que a sentença é ou do que ela significa, mas das circunstâncias em que ela foi expressa (AUSTIN apud CARSTON, 2002:48), havendo a necessidade do enriquecimento inferencial do enunciado pelo ouvinte.

Neste processo inferencial é de suma importância o princípio de relevância ótima:

a. Siga um caminho de menor esforço no cômputo de efeitos cognitivos: teste hipóteses interpretativas (desambiguações, resolução de referências, implicaturas, etc.) em ordem de acessibilidade.

b. Pare quando suas expectativas de relevância forem satisfeitas (WILSON & SPERBER, 2005:232).

O ouvinte desenvolverá a forma lógica do enunciado até chegar a uma interpretação plausível, tanto no nível das explicaturas quanto no nível das implicaturas, ou seja, até alcançar efeitos cognitivos condizentes com o esforço cognitivo despendido. Nesse sentido, “a pragmática não é uma mera conveniência, mas uma necessidade absoluta na comunicação e, provavelmente, mais fundamental do que a linguagem”81 (CARSTON, 2006:4). O conteúdo comunicado explicitamente não se encontra codificado em algum lugar do sistema linguístico. O que ocorre é que outros conceitos que estão codificados podem ser usados como ponto de partida para o processo pragmático (cf. id., p. 5). Carston (2002, p. 109) fala da “intromissão pragmática” na proposição expressa, reforçando a ideia de que a forma proposicional resultante de decodificação linguística e inferência pragmática é um caso de explicatura, não de implicatura. O enriquecimento pragmático do enunciado não deve ser visto como implicatura (id., p. 183). Carston (id.) afirma:

Ademais, de acordo com o ponto de vista da subdeterminação linguística (semântica) (...), a forma lógica de uma expressão linguística raramente, ou

80

Minha tradução de: “Linguistic underdeterminacy is an essencial feature of natural languages because there are no eternal sentences in natural languages”.

81

Minha tradução de: “pragmatics is not merely a convenience but an absolute necessity in communication and probably more fundamental than language”.

nunca, determina uma condição de verdade, de modo que, inevitavelmente, faz- se necessária a pragmática para recuperar uma representação proposicional plena82 (p. 184).

E essa representação recuperada pragmaticamente não deve ser relegada ao âmbito da implicatura. O simples fato da presença da recuperação, pela via pragmática, do sentido pretendido pelo comunicador não é capaz de situá-lo fora do âmbito da explicatura. Seria uma visão altamente minimalista (cf. p. 188-189).

Carston (1991) sugere um critério de “independência funcional” das explicaturas. A ideia por detrás deste conceito é a de que a proposição expressada (explicatura) e a implicatura desempenham papéis independentes no ambiente cognitivo do ouvinte. Se uma suposta implicatura era de tal modo que sua função nas inferências subsequentes, como, p.ex., a derivação de efeitos contextuais, incluíam a função da suposta proposição expressada, “então a suposta implicatura era, muito provavelmente, realmente um aspecto pragmático da proposição expressada”83 (CARSTON, 2002:189). A noção de independência “funcional” aponta para o fato de que a explicatura, ou seja, a proposição expressa tem uma função diferente da função de sua implicatura.

Pode-se afirmar, ainda, que as explicaturas são independentes no sentido de que não ficam restritas ao sentido linguístico e a processos de desambiguação e resolução de referências (cf. CARSTON, 1991:34). Por um lado, fica evidente que o enunciado carece de enriquecimento inferencial a fim de obter sua forma proposicional e que esta forma enriquecida é vista, dentro do critério de independência funcional, como uma explicatura. Por outro lado, porém, há a necessidade de se criarem limitações ao processo de enriquecimento inferencial do sentido linguístico, ou seja, há de se assegurar que a explicatura não seja estendida em demasiado, correndo o risco de se confundir com a implicatura do enunciado (id.) e criar redundância.

Isto exposto, pode-se chegar à conclusão de que a pragmática desempenha um papel essencial para se obter a forma proposicional plena do enunciado, ainda no nível das explicaturas. Assim, adota-se, aqui, tal critério de independência funcional das explicaturas no sentido de expandi-las a ponto de abrangerem informações recuperáveis pela via inferencial. A implicatura, por sua vez, é recuperada unicamente pela via

82

Minha tradução de: “Furthermore, according to the linguistic (semantic) underdeterminacy view (…), the logical form of a linguistic expression seldom, if ever, determines a truth condition, so that pragmatics is inevitably required in the recovering of a fully propositional representation”.

83

Minha tradução de: “then the alleged implicature was most likely really a pragmatic aspect of the proposition expressed”.

pragmática, tomando como ponto de partida a explicatura do enunciado, porém, sem que haja superposições de funções.

Em processos de tradução, o tradutor é capaz de lidar com essa recuperação inferencial de explicaturas e implicaturas de diferentes modos. Retomando o conceito de Gutt de tradução direta e indireta, vimos que o tradutor pode tomar um destes caminhos durante o fazer tradutório. Porém, em ambos os casos, ele pode fazer uso de um recurso, muito recorrente em tradução, que é o de explicitar informações contidas implicitamente numa explicatura ou numa implicatura.

Sobre a explicitação em tradução, parte integrante da presente pesquisa de doutorado, é importante repetir que não se investiga aqui a explicitação enquanto um “universal de tradução”. Esta tese coloca em foco, antes, a tensão existente entre processos de explicitação e explicitude, entre implicaturas e explicaturas e, como decorrência, de aspectos estratégicos ou normativos observados ao longo do processo tradutório. Apoiando-se na hipótese levantada por Alves (2008), parte-se dos trabalhos de Steiner (2005) e chega-se a Englund-Dimitrova (2005), a qual coloca à luz da discussão teórica a sensível linha limítrofe entre a semântica e a pragmática.