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7. Objectives and purpose

7.2 Paper II and Paper III

Muitos foram os obstáculos encontrados ao longo da jornada. Obstáculos esses vistos como aspectos decisivos para a reflexão acerca da minha pessoa como pesquisadora, a todo o momento sendo questionada sobre minhas crenças, minha forma de entender o mundo e o lugar que eu gostaria de chegar. Obstáculos que se mostraram quanto à coleta de dados, o local de pesquisa, os participantes, a condução da entrevistas e a busca por respostas aos questionamentos que surgiam.

Como parte do processo metodológico, necessitava da cooperação da equipe de saúde da UAPSF para levantamento dos possíveis participantes. Esse ponto surgiu como um dos primeiros empecilhos que enfrentei. O fato de depender do interesse e da colaboração dos profissionais limitava minhas possibilidades de encontrar as famílias. Primeiro, que eu não tinha conhecimento do número e dos nomes de jovens residentes no bairro de abrangência da unidade que viveram um segunda ou terceira gestação. Depois, acreditava na necessidade de ser acompanhada por uma agente de saúde, por respeito e numa tentativa de tornar a primeira abordagem mais íntima (pela presença de uma pessoa conhecida e de confiança que auxiliaria na comunicação). Infelizmente, não obtive a colaboração desejada, o que acabou levando a modificação do local para levantamento das possíveis famílias participantes.

Na nova unidade de saúde, tive uma recepção bem mais calorosa e cooperativa com a minha pesquisa, onde pude contar com a ajuda de toda a equipe. Assim, depois de superada essa primeira barreira, agora me deparava com uma nova constatação. Um dos aspectos usados como justificativa da relevância da pesquisa, não se mostrava tão claro assim nas realidades sociais que tive acesso: a quantidade de jovens que viveram a repetição da “gravidez na adolescência”. Encontrou-se um pequeno número de mulheres que se encaixavam nesse perfil, e ai ganha

destaque a reflexão sobre as bases iniciais e inspiradoras do estudo: minha visão e os sentidos que foram sendo produzidos por mim.

Mais uma vez, me encontrei em dificuldades, agora durante o processo de realização das entrevistas, principalmente em relação ao meu papel de pesquisadora e entrevistadora. Ao optarmos por um estudo que tem como metodologia o uso de entrevistas, dependemos da participação de um entrevistado, o que por sua vez, não garante que todas as pessoas selecionadas desejarão fazer parte da pesquisa. Foi o nosso caso.

Infelizmente, quanto ao recrutamento do jovem pai, contamos com a participação de apenas um, o que permitiu uma análise a partir de uma visão mais feminina (pela participação das jovens e de duas avós) acerca do processo da maternidade/paternidade juvenil. Assim, como proposto pelo trabalho ouvir aqueles que vivem de maneira íntima o evento em questão, como os familiares, quando alguns optam pela não participação, há um empobrecimento do trabalho, no qual tivemos então que contar e confiar no que foi expresso por aqueles que fizeram parte.

Quanto aos jovens pais participantes, vale chamar a atenção também para o fato de que já faz algum tempo que os entrevistados vivenciaram a repetição da “gravidez na adolescência” (Paulina e Daniel há dois anos, Helena há cinco anos e Maria há três anos) e isto nos leva a refletir sobre a possibilidade de que os sentidos produzidos acerca do evento pudessem ser diferentes caso essas entrevistas tivessem ocorrido em momentos mais próximos da chegada da segunda criança.

Bem como a época das entrevistas pode influenciar nos resultados, cabe lembrar que as respostas são dadas a uma profissional da saúde, pesquisadora, que explica que os dados colhidos serão utilizados em uma pesquisa científica, e que realizou a abordagem aos participantes a partir da Unidade de Saúde, com o acompanhamento de uma pessoa da equipe. Tais especificações fazem-se importantes como pressupostos para entender como os sentidos podem ser produzidos ou expressos de acordo com a contextualização das situações. Desta forma, é meu dever sempre

problematizar, duvidar daquilo que é entendido como verdade instituída, seja os sentidos acerca da repetição da gravidez, sejam as opiniões sobre a Unidade de Saúde e seu papel como instituição de apoio.

Outro ponto refere-se ao fato de que a realização de entrevistas tendo como pressuposto o construcionismo social implica em uma postura de convite ao diálogo e a construção do conhecimento na relação entre entrevistador e entrevistado. Conseguir assumir e por em prática essa idéia não é uma tarefa simples, em especial, por não sabermos a que lugares a conversa nos levará e que sentidos podem ser (re)produzidos. Assim, precisava dar conta de utilizar de uma abordagem que permitisse sempre a abertura para novos diálogos, e obviamente, dependia também de como o entrevistado se colocava naquele momento, de forma que me auxiliava ou não a conseguir cumprir essa tarefa.

E, por fim, reflito sobre como minha formação acadêmica conta como fui me posicionando durante a pesquisa. Como profissional da enfermagem, tinha a ciência biomédica como fonte de informação e norteadora de minha prática. A crítica, a qual em alguns momentos de minha graduação se estimulava, permanecia em um plano muito superficial, na qual reconhecíamos o cuidado como nossa ferramenta de trabalho e assim, a reflexão seria em relação a qual a melhor forma de garantir a qualidade da assistência e de vida de quem nos dedicamos.

Tal formação colaborou para que eu enxergasse a discussão da “gravidez na adolescência” e sua repetição sob a ótica do “problema”, na qual a pouca crítica que eu tinha inspirou o atual estudo buscando entender, então, quais os sentidos produzidos por jovens e familiares. Apesar de se frisar a importância da humanização do cuidado, e, por conseguinte, o entendimento das pessoas como uma integração do biológico, social, histórico, psicológico e todas as outras formas de contextualização, não tinha consciência do quanto abrangente e profunda essa idéia se faz.

O objetivo da pesquisa sempre se manteve fiel. Por meio da ação da escuta, pretendia-se compreender quais os sentidos que se produziam acerca da repetição da “gravidez na adolescência”, pensando-se em especial como as relações familiares se mostravam nesse curso. Porém, foi somente durante o processo, principalmente por incorporar à trajetória de pesquisa a perspectiva construcionista social (apresentada durante a formação acadêmica na Psicologia), que produzi novas formas de entendimento e a possibilidade de um olhar diferenciado para a questão.

Quando expresso ao longo desse trabalho que tudo se trata de um processo de construção, passível de transformações e reformulações refiro-me também a minha própria construção como pesquisadora, bem como o que ora foi reconhecido como um dos pilares inspiradores e guia do estudo, em outros momentos tornam-se os principais questionamentos a serem embatidos.