Tanto o pensamento de Silva (2005) como o de Buber (2004) conduziram a procura por uma base teórica coerente para a pesquisa de campo e seu desenvolvimento. A teoria das representações sociais de Serge Moscovici (2005) pareceu estar afinada com as idéias desses autores, no sentido de propiciar um melhor entendimento da amplitude e da profundidade, que envolvem os relacionamentos e o pensamento social, reconhecendo os limites de sua ciência, e no contexto de uma proposta de desenvolvimento sustentável situado (SILVA, 2005). As representações sociais compreendem uma forma de expressar o pensamento construído coletivamente, utilizando linguagem, imagem e comunicação, atrelada à realidade, de acordo com o que ela é construída e pode ser pensada. Apresenta-se de forma dinâmica, em que novas idéias são elaboradas a partir da memória vivida e podem ser modificadas, conforme se atraem ou se repelem no convívio social. Têm como finalidade, principalmente “tornar familiar, algo não-familiar” de maneira que faça sentido no contexto em que é pensada. (MOSCOVICI, 2005).
Segundo Moscovici (2005) “[...] as pessoas e grupos produzem e comunicam incessantemente suas próprias e específicas representações e soluções às questões que eles mesmos colocam. [...]”. Assim como, “analisam, comentam, formulam ‘filosofias’ espontâneas, não oficiais, que têm um impacto decisivo em suas relações, em suas escolhas [...]. Os acontecimentos, as ciências e as ideologias apenas lhes fornecem o ‘alimento para o pensamento’” (MOSCOVICI, 2005, p. 45).
Para Moscovici (2005), o senso comum é o ponto de chegada a partir de novas teorias e descobertas científicas, é quando conceitos adquirem um significado ou não, na sociedade. Porém, mesmo com as possibilidades de ampliação das informações, de nosso tempo virtual, muitas teorias ou conceitos sequer atingem certos grupos, seja pela sua localização ou condição de pouco acesso à informação, ou ainda pelo tema, que pode parecer fora do contexto de interesses de determinado grupo. Dessa forma, idéias sobre conservação, palavras, como reserva da biosfera ou sustentabilidade muitas vezes podem não ser cogitadas em algumas comunidades. Há, portanto, casos em que o primeiro desafio dos projetos é
divulgar essas informações, torná-las acessíveis. Contudo, esses conceitos encontram diversas outras barreiras até se tornarem idéias que representem algo para os grupos, com imagens familiares e coerentes com seu contexto socioeconômico, não um vocabulário abstrato. Assim, para familiarizar grupos com essas informações precisam ser abordadas questões reais, que lhe dizem algo, além de ser necessário identificar e reconhecer importantes representações vinculadas a estes conceitos, considerando uma abordagem consciente das diferentes representações envolvidas e suas possibilidades de diálogo.
Vislumbrou-se este autor como um importante referencial teórico, sobretudo no que se refere à abordagem sobre o impacto das representações nas atividades, nas escolhas e nas mudanças que se operam na sociedade, e em como ocorrem. Pareceu evidente a ligação entre representações sociais e a proposta de adoção de práticas sustentáveis, no caso, voltadas para o Cerrado, condizentes com as comunidades envolvidas. Assim, seria também uma possibilidade de imprimir objetividade no conjunto da subjetividade, ou seja, de verificar a utilidade desse estudo para a aplicação no Projeto Mulheres das Águas, como uma forma de colaborar para o desenvolvimento do Projeto, por meio da identificação das várias representações em ação, tanto nas comunidades como no grupo diretamente envolvido.
As representações sociais constituem a forma com que compreendemos, comunicamos e dotamos de sentido o meio no qual participamos, “[...] têm como objetivo abstrair sentido do mundo e introduzir nele ordem e percepções, que reproduzam o mundo de uma forma significativa. [...]” (MOSCOVICI, 2005, p. 46). São consideradas estruturas dinâmicas “[...] operando em um conjunto de relações e de comportamentos que surgem e desaparecem, junto com as representações” (MOSCOVICI, 2005, p. 47).
A psicologia social, disciplina onde o conceito se desenvolve, tem como objetivo estudar as origens, as características e os impactos das representações sociais e para tal, considera “as circunstâncias em que os grupos se comunicam, tomam decisões e procuram tanto revelar, como esconder algo”, assim como “suas ações e suas crenças”, mais ainda, qualquer tipo de referência, seja ideológica, científica ou espiritualista que se possa ter acesso para entender o sentido da formação de suas representações sociais. (MOSCOVICI, 2005, p. 43).
A linguagem e seus diversos significados indicam a entrada primeira para o intrigante labirinto em que as representações se movimentam. “Nós pensamos através de uma
linguagem; nós organizamos nossos pensamentos, de acordo com um sistema que está condicionado, tanto por nossas representações, como por nossa cultura”. (MOSCOVICI, 2005, p. 35). É utilizando nossa linguagem que expressamos, criamos e modificamos nossas representações sociais.
As representações sociais são impostas, de certa forma, à nossa maneira de pensar. Elas são o resultado de uma construção temporal social, refletindo o meio em seu conteúdo de significados históricos, vinculados à ciência, aos acontecimentos e às necessidades sociais. Essa imposição advém de:
[...] uma seqüência completa de elaborações e mudanças que ocorrem no decurso do tempo e são o resultado de sucessivas gerações. Todos os sistemas de classificação, todas as imagens e todas as descrições que circulam dentro de uma sociedade, mesmo as descrições científicas, implicam um elo de prévios sistemas e imagens, uma estratificação na memória coletiva e uma reprodução na linguagem que, invariavelmente, reflete um conhecimento anterior e que quebra as amarras da informação presente (MOSCOVICI, 2005, p. 37)
As representações são frutos do pensamento social, elas brotam deste pensamento e conduzem a própria elaboração do pensamento, a partir do seu contexto ambiental, sociocultural. Para Moscovici (2005), alguns pontos são importantes para nos darmos conta o quanto do nosso pensamento é composto e é exatamente o resultado de interconexões entre representações. Um desses pontos diz respeito à invisibilidade de algumas coisas, pessoas, ou situações, a invisibilidade originária de representações fragmentadas do meio ambiente em que vivemos, um meio classificado, organizado e construindo inúmeras realidades, tornando alguns seres e objetos visíveis e outros invisíveis.
Um outro aspecto seria a utilização corriqueira de algumas representações, como verdades inquestionáveis, que posteriormente são modificadas. As modificações drásticas ocorrem, em geral, com muitas manifestações de resistência, mas que são viáveis com a subseqüente conexão de uma nova imagem. “Distinguimos, pois, as aparências das coisas, mas nós distinguimos precisamente porque nós podemos passar da aparência à realidade através de alguma noção ou imagem” (MOSCOVICI, 2005, p. 31).
E por último, Moscovici (2005) destaca o comportamento e o pensamento como um advento de convenções, definições, representações correntes aos membros de nossa comunidade, tornando alguns fatos “naturais”, determinando previamente as possíveis ações que teremos em situações previstas em nossa sociedade. De fato, estando num mundo social, precisamos compreender que,
Quando contemplamos esses indivíduos e objetos, nossa predisposição genética herdada, as imagens e hábitos que nós já aprendemos, as suas recordações que nós preservamos e nossas categorias culturais, tudo isso se junta para faze-las tais como as vemos. Assim, elas são apenas um elemento de uma cadeia de reação de percepções, opiniões, noções e mesmo vidas, organizadas em uma determinada seqüência. É essencial relembrar tais lugares comuns quando nos aproximamos do domínio da vida mental na psicologia social (MOSCOVICI, 2005, p. 33).
Moscovici (2005) propõe uma reflexão sobre até que ponto nossas atividades cognitivas podem ser independentes das representações, ou ao contrário, até que ponto elas determinam o nosso agir cognitivo. As representações, ao agirem no universo social convencionalizam objetos, pessoas e acontecimentos, até para que possam ser entendidos e codificados. O problema se dá quando determinado “algo novo”, não se encaixa exatamente onde foi determinado socialmente, e então é forçado a “assumir determinada forma, entrar em determinada categoria”. As representações são também prescritivas, ou seja, elas “se impõem sobre nós”, elas estão nos livros, nos filmes, nos eventos sociais que freqüentamos, são uma tradição. Dessa forma, nós podemos considerar, a força das representações na sociedade, produzindo re-pensamentos, re-apresentações de idéias e imagens anteriores e correntes.
E quanto menos consciente estamos de nossas representações, maior influência, maior força, ela adquire, em nosso pensamento, em nossas ações, em nossas escolhas. (MOSCOVICI, 2005). Segundo Moscovici, o meio ambiente não é algo externo, mas o pano de fundo onde as relações se estabelecem e o constituem, sendo então “um instrumento para essas relações”:
Esse meio ambiente não é inerentemente ambíguo ou estruturado, nem é ele puramente físico ou social; ele é determinado por nosso conhecimento e pelos métodos de investigação. O ambiente não explica nada; pelo contrário, ele se apresenta como necessitando de explicação, pois é tanto construído, como limitado por nossas técnicas, nossas ciências, nossos mitos, nossos sistemas de classificação e nossas categorias (MOSCOVICI, 2005, p. 159).
Ao mesmo tempo, essas representações acabam formando o arcabouço do mundo real, tornando-se autônomas e, muitas vezes inquestionáveis enquanto expressão desse mundo real. Imperceptíveis enquanto idéias, vão sendo forjadas em forma de um objeto social:
Através de sua autonomia e das pressões que elas exercem (mesmo que nós estejamos perfeitamente conscientes que elas não são ‘nada mais que idéias’), elas são, contudo, como se fossem realidades inquestionáveis que nós temos de confronta-las. O peso de sua história, costumes e conteúdo cumulativo nos confronta com toda a resistência de um objeto material. Talvez seja uma resistência ainda maior, pois o que é invisível é inevitavelmente mais difícil de superar do que o que é visível (MOSCOVICI, 2005, p. 40).
Porém, elas também se modificam, sua rigidez está associada a sua necessidade de coerência, mas a sua flexibilidade provém da compreensão humana, que brota da comunicação social, por meio da complexidade de suas inter-relações. Segundo Moscovici:
À luz da história e da antropologia, podemos afirmar que essas representações são entidades sociais, com uma vida própria, comunicando-se entre elas, opondo-se mutuamente e mudando em harmonia com o curso da vida; esvaindo-se, apenas para emergir novamente sob novas aparências. Geralmente, em civilizações tão divididas e mutáveis como a nossa, elas co-existem e circulam em várias esferas de atividade, onde uma delas terá precedência, como resposta à nossa necessidade de certa coerência, quando nos referimos a pessoas ou coisas. [...] (MOSCOVICI, 2005, p. 38).
No âmbito da comunicação social, é necessário considerar também os “aspectos simbólicos” envolvidos em nossos relacionamentos e “universos consensuais”:
Porque toda ‘cognição’, toda ‘motivação’ e todo ‘comportamento’ somente existem e têm repercussões uma vez que eles signifiquem algo e significar implica, por definição, que pelo menos duas pessoas compartilhem uma linguagem comum, valores comuns e memórias comuns. É isto que distingue o social do individual, o cultural do físico e o histórico do estático. Ao dizer que as representações são sociais nós estamos dizendo principalmente que elas são simbólicas e possuem tantos elementos perceptuais quanto os assim chamados cognitivos. [...] (MOSCOVICI, 2005, p. 105).
Os aspectos simbólicos estão presentes em nossa linguagem “verbal” e “não verbal”, eles se tornam perceptíveis somente quando são compreendidos nas relações, quando os que recebem e os que emitem as mensagens compreendem esse significado comum. Eles estão compreendidos e fundamentados nos círculos sociais, determinando e decifrando comportamentos, eles podem ser lidos socialmente, interpretados, pois fazem parte de uma linguagem: “Comportamento simbólico é fundamentado e torna-se possível pelas normas sociais e regras e por uma história comum que reflete o sistema de conotações implícitas e pontos de referência que, invariavelmente, se desenvolvem em todo ambiente social” (MOSCOVICI, 2005, p. 161).
O objetivo nuclear das representações sociais é tornar familiar algo que não é familiar, ou de outra forma, estabelecer uma conexão com o novo a partir da forma como ele pode ser pensado. Assim “é que os universos consensuais são locais onde todos querem sentir-se em casa, a salvo de qualquer risco, atrito ou conflito” (MOSCOVICI, 2005, p. 54). Nessa dinâmica de familiarização, “a memória prevalece sobre a dedução, o passado sobre o presente, a resposta sobre o estímulo e as imagens sobre a ‘realidade’”, fazendo com que o novo seja avaliado a partir de um critério anterior da memória. E quando o familiar não encontra, no não-familiar, referências próprias, devido à sua atipicidade, ou “anormalidade”, o
sentimento é de “incompletude e aleatoriedade”, daí a necessidade de se estabelecer uma ponte entre a nova (desconhecida) e a antiga concepção. (MOSCOVICI, 2005, p. 54).
Moscovici (2005) cita como exemplo a situação de contato com diferentes culturas ou etnias, que chegam a incomodar alguns sujeitos, são pessoas que ao mesmo tempo “são como nós e, contudo não são como nós”. “O não-familiar atrai e intriga as pessoas e comunidades enquanto, ao mesmo tempo, as alarma, as obriga a tornar explícitos os pressupostos implícitos que são básicos ao consenso. [...]”. Uma forma de tornar o incompreensível familiar é reorganizar conceitos, criando um sentido por meio de imagens dentro de uma categoria pré- existente, o que permite que se caia novamente no senso comum. Neste processo, longe de ser “uma simples analogia”, estão envolvidos os valores e sentimentos sociais. (MOSCOVICI, 2005, p. 57).
Outra questão a ser destacada é que, como uma das conseqüências “no pensamento social, a conclusão tem prioridade sobre a premissa [...]”, assim uma imagem anterior de um determinado grupo compromete expectativas e comportamentos posteriores em relação a outros grupos, a partir da forma como o primeiro grupo foi pensado, ou de acordo com as imagens e idéias que foram ancoradas a ele (MOSCOVICI, 2005, p. 58). Existe, então, uma tendência a “confirmar” conclusões anteriores e não uma predisposição de refutá-las.
A ancoragem e a objetivação são os dois processos pelos quais as representações sociais são formadas. A ancoragem é a forma, pela qual novas idéias são associadas “a categorias e imagens comuns”. “Assim, por exemplo, uma pessoa religiosa tenta relacionar uma nova teoria, ou o comportamento de um estranho, a uma escala religiosa de valores” (MOSCOVICI, 2005, p. 61). Levando-se em conta que: “(...) qualquer construção ou tratamento de informação exige pontos de referência: quando um sujeito pensa um objeto, o seu universo mental não é, por definição, tábua rasa. Pelo contrário, é por referência a experiências e esquemas de pensamentos já estabelecidos que um objeto novo pode ser pensado”.(MOSCOVICI; apud MONTEIRO e VALA, 2002).
A objetivação ocorre quando o que está sendo pensado é associado a algo do mundo real, a transformação de uma abstração em “algo quase concreto”, relacionado a algo que pode ser “visto e tocado”, e neste processo o novo carrega consigo os elementos que constituíram a sua objetivação:
No momento em que determinado objeto ou idéia é comparado ao paradigma de uma categoria, adquire características dessa categoria e é re-ajustado para que se enquadre nela. Se a classificação, assim obtida, é geralmente aceita, então qualquer opinião que se relacione com a categoria irá se relacionar também com o objeto ou com a idéia [...]. Mesmo quando estamos conscientes de alguma discrepância, da relatividade de nossa avaliação, nós nos fixamos nessa transferência, mesmo que seja apenas para podermos garantir um mínimo de coerência entre o desconhecido e o conhecido (MOSCOVICI, 2005, p. 61).
Logo, ao encaixar o novo em determinada categoria, ele passa a corresponder a todas as características encontradas nesta categoria, ou seja, um conjunto de
[...] limites lingüísticos, espaciais e comportamentais e a certos hábitos. E se nós, então, chegamos a ponto de deixa-lo saber o que nós fizemos, nós levaremos nossa interferência a ponto de influenciá-lo, pelo fato de formularmos exigências específicas relacionadas a nossas expectativas (MOSCOVICI, 2005, p. 63).
Porém mesmo que, o sujeito categorizado não saiba quais os componentes de nossas expectativas, elas continuarão a interferir e influenciar em nossas relações. As categorias podem ser classes de objetos, acontecimentos, grupos ou “tipos” de pessoas, temas, dentre outros, utilizadas para organizar e entender o mundo que nos cerca. Uma categoria compreende diversos exemplares, as categorias vão se modificando, restringindo ou ampliando o número e as características de seus exemplares em função de nossas interações e experiências. Assim, as categorias e os processos de ancoragem apresentam um caráter interacional e dinâmico, focalizando a construção do conhecimento a partir das relações sociais.
Então, por meio da objetivação, formulamos um conceito utilizando uma imagem, o que pode ser conseguido instantaneamente através de uma comparação. “Temos apenas de comparar Deus com um pai e o que era invisível, instantaneamente se torna visível em nossas mentes, como uma pessoa a quem nós podemos responder como tal” (MOSCOVICI, 2005, p. 72).
Da mesma forma, novas palavras, novos temas passam a circular na sociedade, e nos vemos em uma situação delicada quando precisamos constantemente encontrar sentido para novos termos, sobretudo aqueles que rapidamente ocupam as conversas e nos afetam no dia-a- dia. “[...]. Desde que suponhamos que as palavras não falam sobre ‘nada’, somos obrigados a ligá-las a algo, a encontrar equivalentes não-verbais para elas” (MOSCOVICI, 2005, p. 72). Contudo, algumas palavras não encontram correspondentes imagens, facilmente, seja por seu difícil acesso, seja por que as imagens que são associadas podem inclusive ser consideradas tabus, assim são evitadas ou transformadas em algo aceitável. (MOSCOVICI, 2005).
Há uma seleção de palavras, as quais encontram imagens correspondentes, sobretudo de acordo com crenças e aspectos culturais, que determinam um “estoque de imagens” mais coerentes e facilmente acessíveis. O que não quer dizer que não possam ocorrer mudanças nas representações, mas, em geral, as mudanças tendem para a transmissão de referenciais familiares ou mais próximos de algo recentemente aceito, “[...] do mesmo modo que o leito do rio é gradualmente modificado pelas águas que correm entre as margens”. A partir da identificação dessas imagens há uma correlação com a realidade, quer sejam fenômenos, conceitos ou pessoas. Pode-se afirmar que por meio da cultura há uma construção da realidade significante socialmente, contudo “cada cultura possui seus próprios instrumentais para transformar suas representações em realidade”, ou sua realidade em representações. (MOSCOVICI, 2005, p. 76). Essas realidades, essas representações compõem e são compostas por extensa diversidade “[...] de indivíduos, atitudes e fenômenos, em toda a sua estranheza e imprevisibilidade. O objetivo é descobrir como os indivíduos e grupos podem construir um mundo estável, previsível, a partir de tal diversidade” (MOSCOVICI, 2005, p. 79).
A memória é considerada, no conceito de representações sociais, o componente ativo do pensamento social, ela reivindica preponderantemente o sentido, a coerência do mundo representado, no universo social:
É dessa soma de experiências e memórias comuns que nós extraímos as imagens, linguagem e gestos necessários para superar o não-familiar, com suas conseqüentes ansiedades. As experiências e memórias não são nem inertes, nem mortas. Elas são dinâmicas e imortais. A ancoragem e objetivação são, pois, maneiras de lidar com a memória. A primeira mantém a memória em movimento e a memória é dirigida para dentro, está sempre colocando e tirando objetos, pessoas e acontecimentos, que ela classifica de acordo com um tipo e os rotula com um nome. A segunda, sendo mais ou menos direcionada para fora (para outros), tira daí conceitos e imagens para juntá-lo e reproduzi-los no mundo exterior, para fazer as coisas conhecidas a partir do que já é conhecido (MOSCOVICI, 2005, p. 78).
Em uma revisão sobre as últimas pesquisas utilizando o conceito de representação social, Moscovici (2005) identificou algumas características comuns. Os estudos são feitos a partir de construções coletivas em conversações, que podem estar associados a temas importantes ao grupo, ou a temas estranhos, que estimulam os seguintes questionamentos: “Do que se trata afinal?,” Por que aconteceu isso?”, “Qual o propósito de tal ação?”. As representações mudam ao longo do tempo, e “são determinadas pelas dimensões físicas e psicológicas desses encontros entre indivíduos” (MOSCOVICI, 2005, p. 89). Os boatos fazem
parte dessas conversações e são responsáveis pela divulgação dessas representações, e pela transição da vida privada para a vida pública.
As representações são consideradas meios de re-criar a realidade. Nesse contexto, a maioria dos problemas que nos desafiam tanto intelectualmente, quanto socialmente, não estão relacionados com dificuldade em criar representações, mas com o fato de que pessoas, coisas e acontecimentos são representações, substitutos criados a partir de nossos referenciais e experiências. “O que nós criamos, na verdade, é um referencial, uma entidade à qual nós nos referimos, que é distinta de qualquer outra e corresponde a nossa representação dela” (MOSCOVICI, 2005, p. 90).
O que é surpreendente e que deve ser explicado não é tanto o fato de que tais reconstruções sociais influenciam a todos, mas antes que a sociabilidade as exige, expressa nelas sua tendência de posar como não-sociabilidade e como parte do mundo natural (MOSCOVICI, 2005, p. 91).
Uma característica das representações sociais é que momentos de crise e insurreição, quando as imagens do grupo estão mudando, colaboram para revelar o caráter das representações sociais. Nesses momentos:
As pessoas estão, então, mais dispostas a falar, as imagens e expressões são mais vivas, as memórias coletivas são excitadas e o comportamento se torna mais espontâneo. Os indivíduos são motivados por seu desejo de entender um mundo