4. ANDELSPANTSETTELSE AV UTVINNINGSTILLATELSEN
4.4 Panthavers rettsstilling etter samarbeidsavtalen mv
4.4.2 Panthavers rettsstilling ved pantsetters mislighold av
isolados produtores de biossurfactantes.
Tensão Superficial (mN/m) / Concentração de NaCl (g L-1)
Isolados 0 25 50 100 150 175 TR 13 28,80 0,03 27,55 0,03 27,01 0,03 26,34 0,05 26,10 0,05 27,25 0,05 TR 14 29,85 0,04 28,56 0,04 28,10 0,04 27,09 0,05 26,69 0,05 27,16 0,05 TR 12 29,45 0,04 28,86 0,05 28,45 0,05 27,92 0,05 28,86 0,05 - TR 27 29,17 0,04 28,48 0,05 28,11 0,04 27,96 0,05 28,84 0,05 - TR 59 II 28,85 0,05 28,32 0,05 28,21 0,05 27,87 0,05 29,29 0,05 - TR 22 29,39 0,04 28,66 0,04 28,38 0,05 27,31 0,05 28,17 0,05 - TR 35 II 28,84 0,03 28,10 0,04 27,63 0,05 27,13 0,05 28,14 0,05 - TR 17 28,87 0,04 28,27 0,05 28,26 0,05 27,74 0,05 28,38 0,05 - TR 47 II 28,45 0,04 27,71 0,05 27,32 0,04 26,83 0,05 27,69 0,05 - TR 7 29,12 0,05 28,24 0,04 27,80 0,04 27,18 0,05 27,49 0,05 - TR 8 30,17 0,05 29,33 0,05 28,96 0,04 28,49 0,05 28,51 0,05 - TR 19 35,57 0,05 35,50 0,05 36,92 0,05 38,08 0,05 38,35 0,05 - TR 10 29,65 0,04 28,80 0,04 28,36 0,05 27,49 0,05 27,99 0,05 - TR 27 II 28,73 0,04 28,22 004 27,91 0,05 27,63 0,05 28,22 0,05 -
4.4. Identificação dos isolados
A análise dos perfis de ésteres metílicos de ácidos graxos (FAME), utilizando o sistema Sherlock® (MIDI), permitiu determinar a identidade de 12 dentre os 14 isolados obtidos, com base na biblioteca de referência ITSA 1.0 e IR2A 1.0 (Tabela 5). Todos os 12 isolados identificados nessa fase pertencem a espécies do Filo Firmicutes, gênero Bacillus, a saber: B. subtilis subsp. spizizenii, B. subtilis subsp. subtilis e B. atropheaeus (Tabela 5).
Tabela 5. Identificação dos isolados pelo perfil
de ésteres metílicos de
ácidos graxos.
Isolado
Identificação de isolados pelo perfil de ésteres metílicos de
ácidos graxos (FAME)
Índice de Similaridade (IS)
TR 7 Bacillus subtilis subsp.
subtilisGC subgrupo A. 0,412**
TR 8 Bacillus subtilis subsp.
subtilis subgrupo D 0,728*
TR 10 Bacillus subtilis subsp.
spizizenii 0,421**
TR 12 Bacillus subtilis subsp.
subtilis subgrupo D 0,698*
TR 13 Bacillus atropheaeus 0,313** TR 14 Bacillus atropheaeus 0,312** TR 17 Bacillus subtilis subsp.
spizizenii 0,380*
TR 19 Bacillus subtilis subsp.
spizizenii 0,379*
TR 22 Bacillus subtilis subsp.
subtilis subgrupo D 0,523*
TR 27 Bacillus subtilis subsp.
spizizenii 0,365*
TR 27 II Bacillus subtilis subsp.
spizizenii 0,528*
TR 35 II Bacillus subtilis subsp.
* Isolados obtidos a partir da análise da composição de ácidos graxos com base na biblioteca do método IR2A 1 1.00. ** Isolados obtidos a partir da análise da composição de ácidos graxos com base na biblioteca do método ITS2A 1 1.00.
Os perfis de ácidos graxos obtidos dos 14 isolados estudados foram submetidos à análise de agrupamento baseada na distância Euclidiana, empregando-se o próprio software de identificação (Sherlock®, MIDI). Essa análise foi feita para se detectar a presença de diferentes isolados possivelmente
TR 47 II Bacillus subtilis subsp.
subtilis subgrupo A 0,550*
TR 59 II Bacillus subtilis subsp.
pertencentes a uma mesma cepa, e tem como princípio que amostras com Distância Euclidiana acima de 2,5 pertencem a cepas distintas. Durante a etapa de identificação, os extratos de FAME foram analisados com dois métodos distintos e com suas respectivas bibliotecas de referência (ITSA 1.0 e IR2A 1.0). Devido à incapacidade do software de unir os resultados das bibliotecas ITSA 1.0 e IR2A 1.0, foram elaborados dois Dendrogramas. Em função disso, nas análises de agrupamento foram empregados os perfis obtidos com o método que forneceu o maior valor de IS (Índice de Similaridade) para cada isolado.
Os isolados cujo maior valor de IS foram obtidos com o método ITSA 1.0 foram o TR 13 e TR 14 (identificados como Bacillus atropheaeus), os isolados TR 10 e TR 59 II (B. subtilis subsp. spizizenii) e o isolado TR 7, identificado como Bacilus subitilis (Figura 5).
Figura 5. Dendrograma construído com base na Distância Euclidiana dos perfis de ácidos graxos
dos isolados da Ilha da Trindade, analisados pelo método ITSA 1.00 (MIDI).
Com base na análise de agrupamento (Figura 5), os isolados TR 10 e TR 59II, ambos identificados como B. subtilis subsp. spizizenii, podem em princípio ser considerados como pertencentes à mesma cepa. Isso não é necessariamente verdadeiro, uma vez que o método apenas assegura que amostras com Distância Euclidiana acima de 2,5 pertencem a cepas distintas. Deve-se considerar que os micro-organismos acima referidos foram isolados de diferentes amostras de solo (Tabela 6). Além disso, os dados de Tensão Interfacial em resposta ao aumento da concentração salina da solução (Figuras 3) permitem concluir que, a despeito da grande similaridade entre os perfis de ácidos graxos desses isolados, eles pertencem a cepas distintas. A atividade interfacial dos biossurfactantes produzidos por TR 59II é mais fortemente e positivamente afetada pelo aumento da salinidade, o que se traduz em queda mais abrupta da tensão interfacial com o aumento da
concentração salina na solução (ver Figura 3 – isolado TR 59II, em comparação com a Figura 3 – isolado TR 10).
Os demais isolados apresentaram maiores IS quando os seus extratos de FAME foram analisados com o método IR2A 1 (Tabela 5). Os isolados TR 35II, TR 22, TR 12 e TR 8 foram identificados como Bacillus subtilis GC subgrupo D e o isolado TR 47 II foi identificado como Bacillus subtilis GC subgrupo A. Os isolados TR 27, TR 19, TR 17 e TR 27II foram identificados como B. subtilis subsp. spizizenii.
Os resultados de identificação são coerentes com a separação de dois ramos a uma Distância Euclidiana de 8,75, correspondentes aos grupo de B. subtilis e B. subtilis
subsp. spizizenii (Figura 6). Assim como discutido anteriormente em relação aos isolados TR 10 e TR 59II, as Distâncias Euclidianas dos extratos de FAME dos isolados TR 22/ TR35II, TR 8/ TR12 e TR19/ TR27 apresentaram valores inferiores ao definido como critério de separação das amostras em cepas distintas. Não houve grandes diferenças nos dados de tensão interfacial X salinidade entre os isolados TR22 (Figura 3A) e TR 35II (Figura 3D), exceto nas menores concentrações de NaCl (0 e 25 g.L-1), o que pode indicar que eles pertencem a cepas distintas. Diferenças mais amplas nas variações de tensão interfacial X salinidade foram encontradas entre os isolados TR 8/ TR12 (Figuras 3F e 3B) e, especialmente, entre os isolados TR19/ TR27 (Figuras 3H e 3J), que foram assim definidos como sendo pertencentes a cepas distintas, ainda que com perfis de ácidos graxos muito similares entre si (Figura 6).
Figura 6. Dendrograma construído com base na distância euclidiana dos isolados a partir da análise
da composição de ácidos graxos. Biblioteca do método IR2A 1 1.00.
5.5. Extração de DNA, amplificação, sequenciamento e análise de sequencias do rDNA 16S
Complementar à análise pelo sistema MIDI, os 14 isolados foram identificados com base na sequência parcial do gene rDNA 16S. As sequências obtidas foram comparadas às pertencentes ao banco de dados no NCBI, com o auxílio da ferramenta BLAST. Os valores de identidades variaram entre 89 e 98 % (Tabela 6).
Com outro parâmetro utilizado nas análises (E-value), pode-se inferir que os valores de identidade das sequências foram confiáveis (Tabela 6).
Tabela 6. Comparações entre as sequências de rDNA 16S dos isolados de bactérias produtoras
de biossurfactantes depositadas no National Center for Biotechnology Information (NCBI).
Isolado Descrição (NCBI) Número do
acesso E-value
Identidade %
Amostra de origem
TR 7 Bacillus subtilis subsp.
subtilis strain DSM 10 NR_027552.1 0.0 95 % P11
TR 8 Bacillus subtilis subsp.
subtilis strain DSM 10 NR_027552.1 0.0 95 % P07
TR 10
Bacillus subtilis subsp.
spizizenii strain NRRL
B-23049
NR_024931.1 0.0 97 % P07
TR 12 Bacillus subtilis subsp.
subtilis strain DSM NR_027552.1 0.0 97 % P06 TR 13 [Brevibacterium] halotolerans strain DSM 8802 NR_042638.1 0.0 97 % P06 TR 14 [Brevibacterium] halotolerans strain DSM 8802 NR_042638.1 3e-180 97 % P06 TR 17
Bacillus subtilis subsp.
spizizenii strain NRRL
B-23049
NR_024931.1 1e-128 89 % P03
TR 19
Bacillus subtilis subsp.
spizizenii strain NRRL
B-23049
NR_024931.1 0.0 95 % P04
TR 22 Bacillus subtilis subsp.
subtilis strain DSM 10 NR_027552.1 0.0 98 % P04
TR 27
Bacillus subtilis subsp.
spizizenii strain NRRL
B-
TR 27 II
Bacillus subtilis subsp.
spizizenii strain NRRL
B-23049
NR_024931.1 9e-145 96 % P08
TR 35 II Bacillus subtilis subsp.
subtilis strain DSM 10 NR_027552.1 0.0 95 % P05
TR 47 II Bacillus subtilis subsp.
subtilis strain DSM 10 NR_027552.1 0.0 95 % P02
TR 59 II
Bacillus subtilis subsp.
spizizenii strain NRRL
B-23049
NR_024931.1 2e-160 89 % P01
O resultados do sequenciamento do rDNA 16S dos isolados foram compatíveis com aqueles obtidos pelos perfis de ácidos graxos, com exceção de TR 13 e TR 14, que apresentaram identidade de 97 % com Brevibacterium halotolerans
strain DSM 8802. Porém, de acordo com a análise pelo sistema MIDI, esses foram identificados como Bacillus atrophaeus, gerando ambiguidade sobre a real classificação desses isolados. No entanto, de acordo com os padrões observados nas atividades tensoativas com alta concentração salina (175 g.L-1 de NaCl) dos compostos produzidos por TR 13 e TR 14 (Figuras 3 e 4) e pela característica de crescimento em meio de cultura com 50 a 150 g.L-1 de NaCl, pode-se presumir que a identificação como Brevibacteriumhalotolerans seja a mais provável.
Os demais isolados foram identificados como Bacillus subtilis tanto pelo perfil de ácidos graxos como pela análise da sequência do rDNA 16S. Nesse contexto, diante dos resultados obtidos, moléculas surfactantes com alta eficiência em condições salinas foram produzidas por micro-organismos isolados de ambiente não antropizado, abrindo com isto um novo leque de possibilidades de bioprospecções com esse intuito.
6. DISCUSSÃO
Devido ao isolamento geográfico, as ilhas oceânicas são ambientes únicos, onde se insere a Ilha da Trindade no conceito de ambiente prístinico. A formação geológica e evolução biológica particular destes ambientes ímpares conferem alto grau de endemismo, não somente referente à flora e fauna, mas também a solos com características diferenciadas em relação àqueles encontrados nos continentes (Clemente et al. 2009). Este trabalho mostra que a extensão endêmica também pode ser atribuída a microbiota, como os isolados prospectados cuja capacidade de produzir biossurfactantes evidenciou grande potencial de aplicação tecnológica. Apesar desta importância, só há na literatura trabalhos referentes a procariotos de ilhas oceânicas em regiões de alta latitude, como ambientes da península antártica.
Dentre estes, destaca-se o trabalho realizado com solos em condições semelhantes de formação geológica e também mesma gênese de origem vulcânica, localizados na região do Mar de Ross, Antártica. Apesar das diferentes condições climáticas em relação à Ilha da Trindade, o autor reportou contagem de colônias microbianas com valores máximos de 1,1 108 UFC g -1, em amostras com conteúdo dematéria orgânica de 11,7 %, e valores mínimos de 5,3 103 UFC g -1, em solo com baixo teor de matéria orgânica (0,03 %) (Aislabie et al., 2008).
Na amostra de solo P01 da Ilha da Trindade (Figura 1), a contagem de UFC g-
1
foi duas ordens de magnitude maior que os demais pontos. Este valor foi atribuído ao maior conteúdo de matéria orgânica (Tabela 2) devido ao fato de que este era o único ponto amostrado com presença de vegetação abundante. Nos demais pontos amostrais o solo encontrava-se desnudo, com vegetação esparsa ou ausente, não ocorrendo assim efeito rizosférico influente na contagem de bactérias cultivadas.
Condições de pH neutro são mais adequados para a maioria das espécies bacterianas, porém um grande aporte de matéria orgânica pode ser compensatório, favorecendo o desenvolvimento desses micro-organismos mesmo sob condições sub-ótimas de pH. Esse padrão pode ser observado em perfis de comunidades bacterianas em solos ornitogênicos, caracterizados pelo elevado conteúdo de matéria orgânica em decorrência do guano de aves em áreas de nidificação, em contraste com solos minerais, geralmente pobres em nutrientes (Aislabie et al., 2008).
Os valores de pH encontrados nas 12 amostras não sugerem elevadas concentrações de sódio no solo. Porém um subsídio pertinente a bioprospecção de bactérias produtoras de biossurfactante ativos em alta concentração salina provém da característica da matriz rochosa da Ilha da Trindade. A série vulcânica oceânica da cadeia geológica ao qual pertence à ilha é altamente subsaturada em sílica e a mais sódico-alcalina do Oceano Atlântico, sendo possivelmente a mais sódica do mundo (Almeida, 2002). Todos os 12 pontos amostrais foram coletados de solos com perfis delgados (10 cm de profundidade), com algumas repetições possuindo profundidades inferiores, devido ao afloramento da rocha matriz. Possivelmente os isolados halófilos selecionados tenham esta adaptação metabólica em razão da dispersão sódica da matriz rochosa saturada em sais.
Os isolados foram selecionados com sucesso a partir de meios de cultura ágar sangue salino, com a finalidade de selecionar os metabólitos de interesse ativos nestas condições. Bactérias produtoras de biossurfactantes, de modo geral, apresentam atividade hemolítica, sendo essa atividade o princípio do método rápido de triagem empregado, com o que se reduz o número de bactérias selecionadas para os testes confirmativos subsequentes (Youssef et al., 2004). Além de qualitativo, alguns autores utilizam o teste de hemólise como um método semi- quantitativo da produção de biossurfactantes (Yonebayashi et al. 2000). O teste de hemólise em ágar-sangue foi utilizado para quantificar a surfactina produzida por B. subtilis (Moran et al., 2002). Similarmente, ramnolipídios produzidos por
Pseudomonas aeruginosa já foram quantificados com esse método (Johnson e Boese-Marrazzo 1980). No entanto, em alguns casos, o efeito da hemólise pode reproduzir resultados falsos-positivos (Youssef et al., 2004). Por isso, é essencial a confirmação da produção de biossurfactantes por ensaios como o teste de Colapso de Gota ou o Método do Espalhamento de Óleo (Bharali et al. 2011).
Destaca-se que as concentrações reportadas são estimadas com base nos diâmetros dos halos de espalhamento de óleo das amostras, em comparação com o espalhamento resultante da adição de surfactina comercial (Sigma). Portanto, os valores apresentados correspondem a uma atividade de espalhamento de óleo pelos biossurfactantes presentes nas amostras. Essa atividade, em condições-padrão de ensaio, depende fundamentalmente de dois fatores: concentração de moléculas surfactantes e atividade interfacial das moléculas. Isso equivale a dizer que duas
amostras contendo uma mesma concentração de biossurfactantes podem apresentar atividade (diâmetro) de espalhamento de óleo diferente, em razão das diferenças na forma como agem na interface entre o óleo e água.
Como observado (Tabela 2), houve grande variação entre o número total de colônias em relação ao número colônias com atividade hemolítica nas placas de Agar-sangue. Porém são desconhecidas as razões para essas diferenças na proporção encontrada nas amostras de solo da Ilha da Trindade. Em ambientes com histórico de contaminação por substratos hidrofóbicos, a proporção de micro- organismos produtores de biossurfactantes tende a aumentar, em razão da vantagem competitiva conferida pelo aumento da biodisponibilidade desses substratos (Bodour et al. 2003). Já em ambientes prístinos, essas variações devem ser decorrentes de diferenças tanto na quantidade quanto na qualidade da matéria orgânica.
As moléculas com propriedades surfactantes identificadas nos extratos purificados dos 14 isolados selecionados tiveram redução significativa da tensão interfacial. Também em condições similares de salinidade, Fernandes (2011) demonstrou que a adição de NaCl ao sobrenadante da cultura de Bacillus subtilis
LBBMA RI4914 promoveu redução exponencial da tensão interfacial hexadecano- água, que passou de 1,5 mN.m-1, na ausência de NaCl, para 0,099 mN.m-1, quando o sal foi adicionado em uma concentração de 120 g.L-1 de NaCl. A redução da TI em resposta ao aumento da salinidade da fase aquosa se deve ao fato de que a alteração da salinidade da fase aquosa altera também a solubilidade relativa do surfactante, levando a uma mudança do coeficiente de partição da molécula entre as duas fases. O aumento da concentração salina da fase aquosa promove a migração das moléculas surfactantes para a fase oleosa, reduzindo a concentração do surfactante na fase aquosa. Portanto, a concentração de sal que propicia o menor valor de tensão interfacial é aquela capaz de promover o equilíbrio da distribuição do surfactante entre as fases aquosa e oleosa. O aumento da concentração salina para valores acima da concentração ótima levam novamente ao aumento da tensão interfacial (Sharma e Shah, 1989).
As tensões interfaciais obtidas podem ser consideradas baixas o suficiente para reduzir significativamente as forças capilares que previnem a movimentação do petróleo em sistemas porosos, atestando o potencial dos biossurfactantes
produzidos pelos isolados obtidos para utilização em processos de recuperação melhorada de petróleo (Fernandes, 2011), assim como em outras aplicações biotecnológicas.
Assim como nos ensaios de tensão interfacial, os 14 isolados foram efetivos nas análises de tensão superficial. A redução dos valores aferidos nos extratos purificados por estes isolados (valores inferiores a 40 mN.m-1), os caracterizaram como produtores de biossurfactante com forte atividade superficial em concentrações muito elevadas de sal (Tabela 4), com exceção dos isolados TR 19 e TR 07. Porém não se pode, com base nesses resultados, afirmar que o(s) biossurfactante(s) produzido(s) por ambos os micro-organismos seja(m) menos ativo(s) do que os biossurfactantes produzidos pelos outros isolados, porque a tensão superficial é inversamente proporcional à concentração de biossurfactante em solução, até que se atinja o valor de concentração micelar crítica (CMC) (Li et al., 2009).
Trabalhos relacionados testaram a atividade de redução da tensão superficial de bactérias produtoras de biossurfactantes de solos contaminados com metais pesados e hidrocarbonetos, e solos sem perturbações antrópicas. O sobrenadante da cultura do isolado HAZ2 reduziu a tensão de 72 mN.m-1 (água) para 39,2 0.4 mN.m-1, sendo o biossurfactante considerado pelos autores como “moderadamente ativo” (Bodour et al., 2003). O sobrenadante da cultura de outro isolado (GA1-5) descrito pelos autores reduziu a tensão superficial para somente 49,4 0.5 mN.m-1, sendo o biossurfactante produzido por esse isolado classificado como “minimamente ativo”.
Rhodococcus sp. cepa TA6, isolada de solo contaminado com petróleo, produz moléculas surfactantes capazes de reduzir a tensão superficial do meio de cultura de 68 para 30 mN.m-1, após 48 h de incubação. O biossurfactante TA6 manteve estabilidade em solução com concentração de até 100 g.L-1 de cloreto de sódio (Shavandi et al., 2011).
A bactéria Alcaligenes faecalis, isolada de solo contaminado com petróleo bruto, produz biossurfactantes capazes de reduzir a tensão superficial do meio de cultivo de 71.6mN.m-1 para 32,5 0,2 mN.m-1 a 10 g.L-1 de NaCl. Na presença de 60 g.L-1 de NaCl, a TS aumentou para 39.8 0.93 mN.m-1 (Bharali et al. 2011),
demonstrando a baixa estabilidade das moléculas de biossurfactantes na presença de sal.
A bactéria Pseudomonas aeruginosa designada WH-2, isolada de amostras de solo contaminado com gasolina, produziu compostos surfactantes capazes de reduzir a tensão superficial de valores próximos a da tensão da água (72 mN.m-1) para 35 mN.m-1, em concentração salina de 50 g.L-1 (Sharma et al. 2009).
Comparativamente aos resultados dos trabalhos citados acima, os biossurfactantes produzidos pelos 14 isolados dos solos da Ilha da Trindade demonstraram maior atividade (menores valores de tensão superficial) e maior tolerância ao NaCl (manutenção da atividade em concentrações de NaCl de até 175 g.L-1). Destaca-se que não se fizeram, neste trabalho, mensurações de TS ou de TI em soluções com concentração salina acima de 175 g.L-1. É possível, portanto, que os biossurfactantes produzidos pelos isolados da Ilha da Trindade sejam capazes de manter atividade superficial e interfacial em soluções contendo concentrações mais elevadas de sal. Essa característica coloca esses isolados como candidatos com alto potencial para aplicações que exijam tolerância à salinidade, como a recuperação avançada de petróleo, biorremediação, limpeza de tanques de armazenamento de óleo, transporte de óleo, dentre outras.
Os isolados selecionados são pertencentes ao filo Firmicutes. Como característica, Firmicutes são comumente isolados de ambientes com estresse osmótico (Aislabie et al., 2008), condição similar à dos ambientes amostrados neste trabalho. A produção de esporos e cistos, alterações na membrana celular, acúmulo de solutos compatíveis e mecanismos diferenciados para reparação de material genético também têm sido relacionados à adaptação a condições de dessecação, altas osmolaridade e temperatura e pH’s ácidos ou alcalinos-extremos (Potts, 1994; Mattimore e Battista 1996).
Na identificação dos isolados com base em análises dos perfis de ésteres metílicos de ácidos graxos, foram realizadas análises de agrupamento que serviram para avaliar se dentre os isolados analisados havia clones idênticos. Durante o isolamento são purificadas colônias com aparência similar. Estas colônias podem ou não serem clones de uma mesma cepa; questão esta que pode ser respondida com o dendrograma construído com base na Distância Euclidiana dos perfis de ácidos graxos.
Na identificação complementar à análise pelo sistema MIDI, os 14 isolados foram identificados com base na sequência parcial do gene rDNA 16S. Além dos valores de identidade dos isolados comparados às pertencentes ao banco de dados do NCBI, outro parâmetro utilizado nas análises foi o E-value (Expected Value), que confere maior confiabilidade às consultas à medida que o resultado se aproxima de zero. Esse valor corresponde à probabilidade de se obter alinhamento com sequência do banco de dados de forma aleatória (kerfeld e Scott, 2011). Valores de
E-value que expressam baixa identidade (valores diferentes de zero) podem ser interpretados como: a espécie bacteriana não foi descrita ou seus dados ainda não constam no banco de dados (Velázquez et al. 2008).
Como observado nos resultados de identificação, houve uma discrepância na identificação entre os dois métodos utilizados, para os isolados TR 14 e TR 13. A identificação díspar entre os dois métodos pôde ser devida à ausência de B. halotolerans no banco de dados do sistema MIDI. O gênero Brevibacterium foi descrito por Breed em 1953, sendo Brevibacterium linens qualificada como espécie- tipo. São classificados como bastonetes gram-positivos e pertencentes à ordem dos Actinomycetales. Assim como Gammaproteobacteria, Deinococcus-Thermus, Actinobacterias e Bacteroidetes, são mais prevalentes em solos secos, sendo comum a bactérias desse grupo a presença de mecanismos de sobrevivência em
condições severas (Saul et al., 2005). Bactérias do gênero Brevibacterium podem
ser encontradas em uma ampla variedade de habitas, especialmente em ambientes com grande concentração de sal, sendo a maioria dos seus membros adaptados a
se desenvolver bem na presença de 80 a 150 g L-1 de NaCl (Sgroy et al. 2009). De
acordo com a literatura, o gênero Brevibacterium já foi descrito como bactéria produtora de biossurfactante, porém ainda não há relatos sobre a espécie B. halotolerans produzindo tais compostos. Isoladas de solos contaminados com petróleo no sudeste da Argélia, bactérias pertencentes ao mesmo gênero produziram biossurfactantes ativos a 100 g.L-1 de NaCl e com valores de tensão superficial nessa condição de 31,5 mN.m-1. As moléculas tensoativas foram identificadas como glicolipídios e apresentaram eficácia antimicrobiana (Ferhat et al.
2011). De modo similar, Brevibacterium aureum foi isolada a partir de espojas do mar no sudeste da costa da Índia e demonstrou capacidade de produzir biossurfactantes ativos em soluções contendo 50 g.L-1 de NaCl, sendo considerada